Urso de pelúcia não põe democracia em risco

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Por Conrado Hübner Mendes*

Em 2018, um dos candidatos, depois de 30 anos de carreira parlamentar, era conhecido pela defesa da ditadura e de torturadores, por homenagens a milicianos. Também por seu ódio à dissidência e obsessão com a homossexualidade.

Jair Bolsonaro presidente foi possível graças à tolerância à delinquência política do Congresso e do STF. Enxergaram só liberdade de expressão e imunidade parlamentar. Tudo não passava de mau gosto, má educação, falta de etiqueta.

Em 2018, o debate foi influenciado por profetas da democracia risco-zero. Professor de política antecipou: “A democracia brasileira corre risco zero. As instituições democráticas no Brasil são muito sólidas. A democracia está mais firme do que nunca”.

Outro comentarista dizia: “Alerta de risco à democracia é exagerado e ainda ajuda Bozo. A retórica virulenta de Bozo tende a ser apenas isto: retórica”. “Gradativamente ele vai sendo ‘domesticado’, e não representa risco nenhum à democracia. A democracia é uma grande máquina moderadora de posições.”

Em 2020, o professor se deu o direito ao chiste: “Ih… a democracia brasileira não ruiu… As chances de erosão da democracia brasileira são quase nulas”. Em agosto de 2022, repaginou a ironia: “Bozo não

conseguiu dar um golpe enquanto é presidente. As preocupações agora se voltam sobre se ele seria capaz de fazê-lo quando deixar a Presidência”.

E usou o então ex-presidente estadunidense para profetizar: “Donald Trump se negou a reconhecer sua derrota sob a alegação de fraude. A despeito dessa grave agressão, a democracia americana não quebrou. Quem está governando é Joe Biden. Esses são os fatos que vão ficar para a história, tanto nos EUA como no Brasil”.

A história continuou. Aquelas declarações envelheceram com o cheiro de erro crasso, de puro chute feito com o crachá da ciência política.

Um contrabando epistêmico daquela ciência que costuma ter mais modéstia na futurologia eleitoral.

Nas eleições de 2022, percepção de risco ganhou mais credibilidade e levou bastante gente, mesmo frustradas com as opções no pleito, a abraçar a liberdade democrática como valor primário da escolha. Havia algo inegociável que transcendia preferências pessoais.

Nas eleições de 2026, pela terceira vez, sabemos que a pergunta voltará a permear o debate público.

Perto de Jair Bolsonaro, Flávio parece de pelúcia. Nunca prometeu mandar adversários “para a ponta da praia” ou “fuzilar a petralhada”; nunca sacou um “quem procura osso é cachorro”, “não te estupro porque você é feia”, “pintou um clima”. Nunca dormiu com militares. Nunca ameaçou bomba, nunca tentou golpe, nunca foi preso. Seu curriculum vitae reverbera mais as palavras rachadinha e chocolate, milícia e mansão. Casos engavetados pelo STF.

Seria bom que o debate, desta vez, fosse travado com um pouquinho mais de cautela e rigor. Com mais transparência sobre a incerteza. Com mais método para definir “democracia” e “risco”. Com o benefício da história recente, brasileira e global.

O vento da autocratização segue forte no mundo. Marca não só um momento, mas uma época histórica. Seria bom investigar quais candidaturas se alimentam dele, se reúnem com ele, ameaçam interesse nacional em nome dele.

*É jurista e professor de direito da USP.

Texto extraído da Folha de S. Paulo.

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