Quando a realidade desmente o discurso fácil

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Por Thiago Medeiros*

 

Há uma narrativa conveniente tentando reduzir as dificuldades financeiras do Rio Grande do Norte a uma explicação simplista: incompetência. Funciona no debate superficial, mas não resiste a uma análise minimamente séria.

O estado não está isolado. Municípios potiguares enfrentam o mesmo cenário: frustração de receitas, aumento de despesas obrigatórias e pressão crescente sobre serviços essenciais. E a pergunta é inevitável: se fosse apenas falha de gestão, por que o problema se repete em tantas administrações diferentes?

A resposta está no contexto.

Governar não acontece no vazio. Estados e municípios dependem da dinâmica econômica, da arrecadação, das transferências constitucionais e da estabilidade nacional e internacional.

E os dados mostram que o Rio Grande do Norte não é um estado inerte. Em 2023, o estado cresceu 4,2%, desempenho acima da média nacional e entre os destaques do país. Mais do que isso: esse resultado colocou o RN entre os estados que mais avançaram no Nordeste.

E aqui está um ponto que muda o eixo do debate.

A região Nordeste, como um todo, cresceu mais que o Brasil em 2024, cerca de 3,8%, contra 3,5% da média nacional. Ou seja, não se trata de um estado isolado em dificuldade, mas de uma região que, mesmo sob pressão, manteve dinamismo econômico relevante.

E dentro desse cenário regional positivo, o Rio Grande do Norte conseguiu se destacar.

Isso desmonta, por si só, a tese simplista da incompetência.

Há movimento. Há crescimento. Há resposta.

Mas é preciso dizer com clareza: crescimento não significa imunidade.

O ambiente econômico recente é de desaceleração, juros elevados e instabilidade externa. Tensões geopolíticas e decisões econômicas internacionais, inclusive durante a condução de Donald Trump, impactaram países emergentes, comprimindo receitas e ampliando incertezas.

Esse cenário atinge diretamente estados e municípios. Quando a economia desacelera, a arrecadação cai. E quando a arrecadação cai, o gestor passa a administrar limites, não abundância.

É nesse ponto que a análise precisa ser justa.

O governo liderado pela professora Fátima Bezerra não iniciou sua trajetória em terreno neutro. Herdou um quadro fiscal delicado, que exigiu reorganização e disciplina desde o início.

Ainda assim, manteve investimentos em infraestrutura essenciais ao ambiente produtivo e, sobretudo, adotou uma decisão estratégica que muitas vezes passa despercebida: a prioridade ao pagamento regular da folha de pagamento.

Em um estado como o RN, isso não é apenas gestão administrativa. É política econômica concreta. O salário pago em dia circula no comércio, sustenta pequenos negócios e mantém ativa a economia dos municípios. Em muitos casos, é o que impede uma retração mais profunda.

Nesse processo, a atuação técnica da equipe econômica, com destaque para Cadu Xavier, foi determinante para preparar o Estado para enfrentar um cenário adverso sem colapsar. O que se vê hoje não é ausência de gestão. É gestão sob total estresse.

As dificuldades existem, mas não nasceram agora, nem são exclusivas daqui. Elas refletem um ambiente mais amplo, que exige menos simplificação e mais responsabilidade na análise.

A crítica é legítima. Sempre será.

Mas precisa vir acompanhada de honestidade intelectual. Porque reduzir tudo à incompetência pode servir ao discurso, mas não serve à verdade.

Antes de apontar o dedo, é preciso olhar o cenário completo. Governar, em tempos difíceis, é administrar limites sem deixar o Estado parar.

*É Sociólogo.

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