Água da transposição chega ao Rio Grande do Norte e muda a história do semiárido

Governadora Fátima Bezerra acompanha chegada das águas do Rio São Francisco pelo Ramal do Apodi; (Foto: Joana Lima)

A água finalmente chegou. Depois de atravessar estados, vencer quilômetros de canais, aquedutos e túneis e superar décadas de promessas, o Rio Grande do Norte recebeu as águas da transposição do Rio São Francisco. O momento, acompanhado nesta sexta-feira (3) pela governadora Fátima Bezerra, marca um dos capítulos mais simbólicos da história da segurança hídrica do estado: pela primeira vez, as águas do “Velho Chico” cruzam o Ramal do Apodi em território potiguar, aproximando uma antiga promessa da realidade de milhares de famílias que cresceram convivendo com a seca.

A chegada da água ocorre em concomitância com a inauguração do Túnel Major Sales pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nessa quinta-feira (2), estrutura considerada estratégica para a integração entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte. Agora, o que antes era concreto e engenharia ganha movimento: a água começa a percorrer o caminho que, quando todas as etapas forem concluídas, beneficiará cerca de 750 mil pessoas em 54 municípios do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará.

Em meio ao calor do sertão, o momento foi acompanhado ao som da sanfona por moradores que transformaram a chegada da água em celebração. Muitos carregam na memória as longas estiagens, os açudes secos, a dependência dos carros-pipa e a expectativa que atravessou gerações. A cena da água correndo pelo canal representa, para essas famílias, mais do que uma obra pública: representa a possibilidade de produzir, permanecer no campo e enfrentar os períodos de seca com mais segurança. Os caminhos áridos trilhados por quem carregava uma lata d’água na cabeça, agora corre um veio de esperança e vida: a água da transposição.

Ao acompanhar a chegada das águas ao Rio Grande do Norte, a governadora Fátima Bezerra afirmou que o momento representa mais do que uma conquista de infraestrutura: trata-se de uma reparação histórica para o povo do semiárido.

“Isso aqui representa desenvolvimento para o nosso povo. Mas eu enfatizaria que é, sobretudo, uma reparação do ponto de vista histórico, pelo que significa o projeto da transposição das águas do São Francisco para o semiárido nordestino. Esse momento deixa para trás um passado de escassez, da seca braba, e traz agora para o sertão esperança e dignidade. Dignidade porque a água é vida. É água para beber e para promover o desenvolvimento.”

Em tom emocionado, a governadora relacionou a chegada da água à própria trajetória de quem viveu os efeitos da seca. “Para uma geração de nordestinos como eu, que conheceu a seca de perto, ver hoje as águas do São Francisco adentrando o nosso estado é uma felicidade imensa. Renova a nossa esperança de seguir construindo um Rio Grande do Norte e um Nordeste cada vez mais fortes, sustentáveis, inclusivos, prósperos e justos.”

Embora o sistema ainda tenha etapas a serem concluídas até entrar plenamente em operação, especialistas consideram que este é um dos momentos mais importantes de toda a implantação do Ramal do Apodi: é quando uma infraestrutura construída ao longo de anos deixa de ser apenas obra e passa a cumprir sua função. Essa é mais uma etapa do Eixo Norte do Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF), e que leva água à região do Alto Oeste potiguar, uma das regiões do Rio Grande do Norte historicamente com maior registro de secas severas.

A expectativa é que a integração das águas fortaleça o abastecimento humano, amplie a segurança hídrica dos municípios, reduza a vulnerabilidade às secas prolongadas e abra novas perspectivas para a agricultura familiar e para o desenvolvimento econômico da região.

As águas do “Velho Chico” já haviam chegado ao Rio Grande do Norte — na região Seridó e Central — em agosto de 2025 através do município de Jardim de Piranhas, porta de entrada das águas do São Francisco em terras potiguares no dia 19 daquele mês.

Quando as obras remanescentes do PISF forem concluídas, no Alto Oeste do Rio Grande do Norte, as duas regiões mais afetadas pelos ciclos de seca no estado terão água chegando de forma permanente a reservatórios. As obras do PISF, de acordo com a governadora Fátima Bezerra, se somam a outros investimentos importantes realizados em parceria com o governo federal e que elevam o estado a outra condição do ponto de vista da segurança hídrica.