por Thiago Medeiros, sociólogo.
A leitura mais interessante está na tipologia construída pela Nexus sobre o eleitorado. Apenas 48% dos brasileiros pertencem aos dois polos tradicionais: 25% são bolsonaristas convictos e 23% lulistas convictos. Os demais estão distribuídos entre não polarizados (22%), eleitores que enxergam Lula apenas como alternativa (5%), Bolsonaro apenas como alternativa (9%) e um grupo de 9% que rejeita simultaneamente Lula e Bolsonaro.
Em outras palavras, mais da metade do eleitorado não está completamente inserida na lógica clássica da polarização.
Esse talvez seja o dado mais relevante para estados como o Rio Grande do Norte.
Nos últimos meses consolidou-se a narrativa de que a eleição potiguar será apenas uma reprodução do cenário nacional. A pesquisa mostra que isso pode ser um erro de interpretação. Se mais da metade dos brasileiros apresenta algum grau de distanciamento dos polos tradicionais, existe espaço para lideranças locais construírem agendas próprias, centradas em desenvolvimento regional, gestão pública, infraestrutura e economia.
Outro dado pouco explorado reforça essa conclusão. Entre aqueles que já escolheram candidato, 52% afirmam que votam naquele que consideram o candidato ideal. Outros 36% dizem que ele não é o ideal, mas é o melhor disponível. Apenas 10% admitem votar exclusivamente para impedir a vitória de outro candidato.
Isso desmonta parcialmente a ideia de que o Brasil vive apenas do “voto contra”. A maioria continua votando “a favor” de alguém.
A pesquisa também mostra um eleitor surpreendentemente consolidado. Entre os que já escolheram um candidato, 73% afirmam que dificilmente mudarão de voto até outubro. Apenas 25% admitem que ainda podem alterar sua decisão.
Isso significa que a campanha tende a ser muito mais uma disputa por mobilização do que propriamente por convencimento.
Outro indicador importante é o nível de participação democrática. Nada menos que 76% afirmam ter interesse nas eleições e 95% dizem que pretendem comparecer às urnas.
Para o Rio Grande do Norte, esse comportamento sugere uma campanha intensa até o último momento. Um eleitor altamente interessado acompanha debates, presta atenção aos movimentos políticos e tende a cobrar propostas concretas.
A pesquisa ainda revela um aspecto importante da sociedade brasileira: mesmo acontecimentos internacionais são rapidamente absorvidos pela lógica política doméstica. O chamado “tarifaço” dos Estados Unidos era conhecido por 80% dos entrevistados. Destes, 53% entendem que a medida teve motivação política, mas, quando perguntados sobre quem seria o responsável, o eleitorado se divide exatamente ao meio: 41% culpam Lula e outros 41% culpam Flávio Bolsonaro.
Ou seja, até fatos externos acabam sendo interpretados pela lente das identidades políticas já existentes.
Talvez o maior ensinamento da pesquisa seja justamente este: a polarização continua estruturando a eleição presidencial, mas ela já não explica sozinha o comportamento da sociedade.
Para o Rio Grande do Norte, esse diagnóstico merece atenção. Se parte significativa do eleitorado não está rigidamente presa aos dois polos nacionais, a disputa estadual poderá premiar quem conseguir falar menos para as bolhas ideológicas e mais para as preocupações concretas da população. Desenvolvimento econômico, geração de empregos, infraestrutura, saúde, segurança e qualidade da gestão tendem a ocupar um espaço cada vez maior ao lado da disputa ideológica.
Mais do que medir quem está na frente, a pesquisa BTG/Nexus revela que a sociedade brasileira está menos homogênea do que parece. A eleição continua polarizada, mas o eleitor se tornou mais complexo. E compreender essa complexidade talvez seja a principal vantagem competitiva para qualquer projeto político em 2026.
