Por ICL Notícias
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou sua fala na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (22) para mandar um recado contra qualquer intervenção estrangeira na eleição brasileira. Ele ainda alertou que não irá tolerar um abalo na soberania nacional e insistiu que o processo eleitoral é “robusto”.
Em tom duro, Lula mandou diversos recados para Donald Trump e indicou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
Na platéia, a delegação dos EUA não aplaudiu o brasileiro e o secretário de Estado, Marco Rubio, sequer estava na sala. Sob recomendação de bolsonaristas, os americanos fizeram questão de não fazer qualquer gesto positivo para Lula, o que poderia ser usado na campanha eleitoral contra a extrema direita.
De fato, ao contrário do que havia ocorrido em 2025, quando uma “química” foi declarada entre os dois líderes, Lula e Trump não se encontraram nos bastidores ONU. Há uma sala que permite que os presidentes possam se saudar, enquanto um entra e outro sai do palco das Nações Unidas.
Houve um intervalo de quase quatro minutos entre os dois discursos e o Brasil estava disposto a promover o aperto de mão. Mas houve uma decisão deliberada para que os dois não se encontrassem.
Lula, de fato, usou o púlpito para adotar um tom enfático contra o chefe da Casa Branca. “No dia 4, milhões de brasileiros vão à urnas. Vão decidir entre democracia e negacionismo”, disse Lula. “Se o Brasil vai a um futuro de mais oportunidade ou a um passado de exclusão”, alertou.
Segundo ele, o Brasil terá uma eleição “transparente e competitiva”. “Um pleito no qual os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão”, disse. Mas fez uma referência indireta ao movimento bolsonarista. “Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”, disse.
“Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, alertou o presidente. Ele ainda concluiu: “A democracia brasileira pertence aos brasileiros”.
Segundo ele, a América Latina vive “tentações hegemônicas”. E alertou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
Lula defendeu que a região precisa de uma agenda positiva e que diferenças ideologias não podem ser obstáculos para a integração.
“A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zona de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constitui gestos anacrônicos”, disse.
Apesar de dizer que defende a luta contra o crime organizado, indicou que não irá aceitar “terceirizar a responsabilidade” de segurança das fronteiras. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas”, declarou.
O brasileiro ainda criticou a “chantagem” feita por Trump com as barreiras comerciais. “Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas”, afirmou.
Ao defender a agenda ambiental do Brasil, Lula reiterpu que a exploração de terras raras vai ter de gerar benefícios aos brasileiros: “O Brasil é referência mundial em energia verde. Temos os minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a transição energética. Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é em benefício dele que serão exploradas”.
O presdidente brasileiro também mencionou a regulamentação das big techs e da inteligência artificial e afirmou que o Brasil aprovou uma das legislações “mais avançadas do mundo” para proteger crianças, adolescente e mulheres no ambiente digital.
“Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da inteligência artificial. Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência”.
Em outro recado a Trump, Lula defendeu o PIX: “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”.
O discurso de Lula abriu a Assembleia Geral da ONU, evento que irá reunir 71 chefes de estado, 45 chefes de governo, 50 ministros e onze vice-presidentes ao longo dos próximos dias. Mas, desta vez, ele acontece ainda numa encruzilhada histórica da política brasileira. Às vésperas da eleição e sob ataques dos EUA, a decisão do governo foi a de usar a tribuna mais importante da diplomacia mundial para sair em defesa da democracia brasileira, do processo eleitoral e do princípios de que países não podem se meter nos assuntos domésticos de outros.
O ICL Notícias antecipou, na semana passada, os principais pontos do discurso do presidente: soberania, democracia, a luta contra o crime organizado e a defesa do multilateralismo. Nesta terça-feira, ele seguiu o roteiro que havia sido construído nas últimas semanas no Palácio do Planalto e no Itamaraty.
Na bancada do Brasil na Assembleia estavam a primeira-dama, Janja, o chanceler Mauro Vieira, o assessor especial Celso Amorim, o embaixador do Brasil na ONU, Sérgio Danese, o ministro do Desenvolvimento, Wellington Dias, além do embaixadorCrédito: Agência Efe/Folhapress. O brasileiro retorna ainda hoje ao Brasil para retomar a campanha eleitoral.
