Uma eleição histórica existe regras a altura da UFRN: mais transparência

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Por Thiago Medeiros*

A alma de uma universidade viva e pulsante está na juventude que ocupa suas salas de aula, na dedicação diária dos servidores técnico-administrativos e no compromisso de seus docentes. Por isso, a eleição para a Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Norte não pode ser compreendida apenas como mais uma disputa interna. Trata-se de um momento institucional que merece atenção, transparência e, sobretudo, confiança.

A nova legislação federal que ampliou a participação da comunidade acadêmica abre uma etapa importante na história das universidades federais. Na UFRN, esse novo momento coloca estudantes, técnicos-administrativos e docentes diante de uma responsabilidade inédita: participar de um processo que definirá os rumos da instituição.

É justamente por ser um processo pioneiro que as regras precisam estar permanentemente abertas ao aperfeiçoamento.

A Resolução nº 024/2026, aprovada pelo Conselho Universitário, estabeleceu as normas do pleito. Mas algumas questões merecem ser debatidas pela comunidade acadêmica não como tentativa de deslegitimar a eleição, e sim como contribuição para fortalecê-la.

Uma delas é a ausência de previsão de afastamento temporário de ocupantes de cargos de direção e chefia que estejam concorrendo. Não se trata de presumir má-fé de quem exerce uma função administrativa. Trata-se de reconhecer que, em qualquer processo eleitoral, a percepção de equilíbrio também importa. Quando um candidato permanece simultaneamente exercendo uma posição de comando, administrando recursos, autorizando demandas e convivendo diariamente com potenciais eleitores subordinados ou dependentes da estrutura administrativa, pode surgir uma assimetria que precisa ser cuidadosamente considerada.

Outro ponto é a transparência financeira. Estabelecer limites de gastos, exigir prestação periódica de contas e tornar públicas as receitas e despesas das campanhas poderia contribuir para reduzir dúvidas e impedir que diferenças de capacidade financeira contaminem a percepção de igualdade entre os concorrentes.

Também merece reflexão a estrutura de julgamento dos recursos. Separar, sempre que possível, as funções de organização, fiscalização e julgamento contribui para ampliar a confiança e reduzir questionamentos sobre eventuais conflitos de interesse.

E há ainda o ambiente digital. Redes sociais, impulsionamento, inteligência artificial, conteúdos manipulados e pesquisas eleitorais exigem regras claras. Uma universidade que produz conhecimento e debate os efeitos dessas novas tecnologias não pode deixar de refletir sobre como elas podem interferir em seu próprio processo eleitoral.

Nada disso significa colocar em dúvida a legitimidade da eleição. Ao contrário. Quanto mais importante é a conquista democrática, maior deve ser o compromisso com seu aperfeiçoamento.

A pergunta que a UFRN precisa fazer não é apenas quem vencerá a eleição, mas que tipo de processo a instituição deseja construir. Uma eleição histórica não será lembrada somente pelo resultado. Será lembrada também pela qualidade das regras, pela transparência, pela liberdade de manifestação e pela confiança que conseguiu produzir na comunidade.

A universidade pública tem uma responsabilidade que ultrapassa seus muros. Ela ensina, pesquisa, forma cidadãos e também oferece exemplos de democracia institucional.

Por isso, discutir as regras não é enfraquecer a eleição. É fortalecê-la.

A primeira eleição direta para a Reitoria da UFRN merece ser mais do que inédita. Merece ser um marco de maturidade democrática. E maturidade democrática pressupõe reconhecer que nenhuma regra é perfeita, que todo processo pode ser aprimorado e que transparência nunca é excesso.

Quanto maior a participação, maior deve ser a responsabilidade. Quanto mais histórica a eleição, maior deve ser o cuidado com suas regras.

A UFRN tem agora a oportunidade de transformar uma mudança na legislação em algo ainda maior: uma nova cultura de participação, transparência e confiança institucional.

*É sociólogo.

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