Por Marcelo Alves Dias de Souza*
O ano era 1984. Moleque de 11 anos, com os meus pais e outros familiares queridos, fui a Roma pela primeira vez. Fomos à Urbe para a canonização de Santa Paula Frassinetti (1809-1882), tão cara para nós ex-alunos do Colégio Imaculada Conceição – CIC. Nossa paragem era no Hotel Palatino, sito na Via Cavour, 213, nunca esqueci. E quero mesmo nunca esquecer desse tempo, de amor e aprendizado, há mais de quarenta anos, em que eu ainda perambulava segurando as mãos dos meus pais.
Voltei a Roma outras vezes. Com os meus pais. Com familiares. Acompanhado. Sozinho. Estudei por lá. Desfrutei, cada qual a seu tempo, as lições, as belezas e os prazeres da Cidade Eterna. Viva!
Desta feita, volto a Roma com João, meu filho, que está com um pouco mais de 7 anos. Ele agora é coroinha. E decidimos nos presentear, a família, com esta viagem de peregrinação e cultura. A viagem, entretanto, para mim, inicialmente, foi quase tomada por uma sensação que só posso definir como de “saudade de um tempo que já não volta mais”. Um quase “déjà vu”, de 1984, mas marcadamente angustiante. Faltavam meus pais. Meu pai porque simplesmente não quis vir (nunca foi um Marco Polo). Minha mãe porque infelizmente não está mais entre nós (se estivesse e pudesse, seria a primeira a fazer a penosa travessia do Atlântico). Desta feita, criatura virando criador, eu que seguro a mão do pequeno João.
No entanto, passado um tempo, a “poesia das ruínas” me tirou da melancolia de querer, sem poder, simplesmente repetir um tempo que já passou. Aquela poesia do Coliseu disforme, do templo em ruínas, da muralha arrasada, do palácio irreconhecível e da estátua mutilada que ainda “vive”, e lado a lado, com um mundo recriado por Papas e novos Césares.
A “poesia das ruínas” que, como poetava Afonso Arinos de Melo Franco em “Amor a Roma” (Nova Fronteira, 1982), é menos “contemplação das coisas que do tempo, no seu processo incessante de evasão e permanência. Não é só a visão decepada dessas presenças que faz a emoção romana, mas também as ausências, reconstruídas não pela memória impossível, mas pela sensibilidade. O tempo romano não é reencontrado, mas recriado na sua onicontemporânea variedade. O conjunto cenográfico de Roma, com ruínas, igrejas, palácios, fontes e estátuas, exibe tudo o que existe e tudo o que falta – sem deixar de existir – no roteiro da continuidade do homem histórico. Para os latinos e cristãos, Roma é a fonte primeira do nosso ser mental e espiritual, desta nossa caminhada que, há dois mil anos, conflui da baixada do Fórum para a colina do Vaticano. Ninguém, no mundo não-latino e não-cristão, pode ter a sua outra Roma. A nossa se situa além e acima de Meca ou de Moscou, de Paris, de Londres ou de Nova Iorque. Além e acima das formas setoriais da vida religiosa, política, econômica e cultural. Acima dos Impérios antigos e recentes, das revoluções alcançadas ou malogradas, das conquistas da força, da arte e da ciência. Sobre esse universo descontínuo e fragmentário, feito de êxitos e fracassos, de rumores e silêncios, de tumulto e imobilidade, de raro esplendor e frequente decepção, Roma reina na mudez das vozes que agitaram o mundo, sob o manto dourado da sua grandeza extinta”.
Mais uma lição recebida da Urbe de meus pais e da de hoje. Uma lição de fé. No eterno Criador. Mas também na humanidade em geral. Nos seus homens, mulheres e crianças. Nos nossos pais e mães. E, o mais importante talvez, num reencontro na recriação.
*É Procurador Regional da República,Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL.*
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