Por Túlio Muniz*
Os EUA encontram-se numa cilada. De um lado, torpor interno pelas intervenções (armadas) da Força Nacional de Segurança em Los Angeles, Chicago, Washington DC, sob pretexto de combater a violência urbana, tendo outras cidades em meta, sobretudo Nova Iorque. Não por acaso, todas são importantes nichos Democratas.
Num turbilhão que não se via desde os tempos do Macarthismo, nos anos de 1950 (ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Macarthismo#:~:text=O%20termo%20tem%20suas%20origens,e%20%C3%A0%20espionagem%20por%20agentes), Trump impõe censura à imprensa (o mais recente caso é a submissão prévia de textos na cobertura diária ao Pentágono), persegue juízes e promotores, altera funcionamento de órgãos federais importantes, que abrange desde a negativa em imunizar crianças contra o sarampo à extinção do equivalente ao Ministério da Educação dos EUA.
Tais atos de intervenção interna se fazem acompanhar de uma ofensiva bélica no Caribe, tendo por alvo declarado a Venezuela, e a nova denominação do Departamento de Defesa para Departamento de Guerra, neste Setembro de 2025. Na prática, trata-se apenas de assumir o que o termo “Defesa” sempre foi, um eufemismo para Guerra, das tantas que os EUA promoveram e travaram (direta ou indiretamente) nos últimos 100 anos.
Ambos os acontecimentos – recrudescimento da repressão interna e ameaça de guerra no exterior – não são mera coincidência, e podem ser uma estratégia de Trump para coagir o Congresso norte-americano a endossar uma eventual decretação de Estado de Guerra, o que só não foi feito pela Casa Branca devido a Constituição dos EUA exigir aprovação pelo parlamento. Se o pedir, e obtiver, a decretação de Estado de Guerra ampliaria os poderes da Presidência e legitimaria tanto a vigilância interna quanto a invasão de Estado estrangeiro, a começar pela Venezuela.
Resta saber se os EUA teriam potencial para tal, pois a Venezuela em termos bélicos não é uma republiqueta qualquer: em se tratando de caças de combate, por exemplo, possui ao menos 40 em operação, proporcionalmente superior ao Brasil, que tem território nove vezes maior mas cuja Força Área mal chega a 80 caças operacionais. Em desfavor à Venezuela há o fato de que seu principal aliado e fornecedor bélico (a Rússia) estar focada em sua própria guerra, na Ucrânia.
Também panorama político na América do Sul encontra-se um tanto fragilizado, em termos de união regional.
A Venezuela, por mais equipada que esteja nas próprias Forças Armadas com cerca de 340 mil pessoas na ativa e na reserva (além dos cerca de 4,5 milhões de cidadãos armados e treinados em milícias para-militares), encontra-se isolada politicamente no cenário regional. A última eleição presidencial (2024), repleta de questionamentos não obteve, até hoje, reconhecimento sequer do Brasil sob governo do PT, até então aliado tradicional e quase incondicional do chavismo, regime do qual Nicolás Maduro é tributário.
E afora Chile, Colômbia, Brasil e Uruguai, todos os demais governos da América do Sul estão sob controle de Direita e Extrema-Direita (a Argentina), que, senão submissos aos interesses de Washington, ao menos alinhados a ele.
Entretanto, resta saber se Trump ousaria mesmo invadir a Venezuela, cujo território terrestre é composto por cerca de 10% de montanhas (a Cordilheira dos Andes) e cerca de 50% de área amazônica, arriscando-se numa reedição da Guerra do Vietnã (1955-1975). Por mais tecnológicas que têm sido as guerras contemporâneas, o relevo e a topografia são elementos consideráveis e mesmo determinantes, seja para êxito da defesa ou do ataque.
Uma eventual invasão pode, ainda, reascender um ora frágil pan-latino-americanismo, que em seu momento de hegemonia de governos de esquerda (anos 2000-2010) avançou em discussões que resultou na criação de uma hoje quase esquecida UNASUL (União de Nações Sul-Americanas), só não menos esquecida que seu Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS). A conferir.
Portanto, para Trump, de positivo mas também incerto, uma declaração de guerra contra a Venezuela só lhe traria, de ganho imediato, a legitimação de sua truculência na guerra que trava dentro do seu próprio país, cujos desdobramentos são imprevisíveis, como se dá em qualquer guerra, as quais sabemos como principiam, mas nunca como e quando terminam.
*É professor na Universidade Federal Rural do Semi Árido (UFERSA), Historiador (Graduação e Mestrado pela UFC), Doutor na Área de Sociologia (Universidade de Coimbra) e Jornalista Profissional.
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