A história do Brazil segundo os cidadãos de bem

Goodcitizennovember1926

Por Ricardo Luis Reiter*

Não é segredo o apelo social de uma determinada classe social – que cada vez tem ganhando mais voz – pela volta (ou quem sabe uma nova oportunidade?) a um regime autoritário no Brasil. Defendendo bandeiras ultraconservadoras (desde pena de morte até proibição de pessoas LGBT), um pequeno grupo de brasileiros – que tem se tornado maior a cada dia – proclama-se cidadão de bem e exige que justiça seja feita para que a paz e a prosperidade voltem a reinar em terras tupiniquins (perdoem o lapso, para este grupo, o correto é dizer brazilian lands). Porém, por mais legítimo que sejam as manifestações feitas – afinal de contas, vivemos em uma democracia -, parece-me que as bandeiras defendidas escondem questões mais profundas e enraizadas – como que feridas não cicatrizadas e que voltaram a abrir-se. E é sobre essas feridas que este texto irá tratar.

Mas, para tal abordagem, utilizarei-me de uma ferramenta não muito comum: Contarei uma história, o quão verídica ela é, fica ao critério de você, caro leitor, averiguar…

Capítulo 01: Uma história mal contada…

Nossa história começa errada. Começa com um determinado número de caravelas alcançando as praias paradisíacas de uma terra Tupiniquim. Bem, boa parte dessa história você já conhece. Mas, talvez o que você, caro leitor, tenha deixado despercebido durante todos estes anos é o que de mais crucial existe nela. Veja bem – não devemos perder nosso foco – a primeira ferida não cicatrizada de nosso cidadão de bem encontra-se naquele fatídico 22 de abril de 1500. Principalmente, porque nossos defensores da soberania nacional costumam comparar o Brazil com o exemplo de nação capitalista: os Estados Unidos da América. Acontece que fazer esta comparação é semelhante comparar peixes com pasta de amendoim. Não existe parâmetro para comparação. E nossos cidadãos de bem sabem disso. E isso é uma ferida terrível de suportar.

Ora, veja bem, destas nefastas linhas, onde começa a diferença entre o Brazil e os EUA? No maldito processo de colonização! Enquanto que nas terras do Tio Sam existem os cultuados pais colonizadores, aqui, nas terras tupiniquins temos um bando de mercenários portugueses que vieram fazer negócios com índios. Onde já se viu tamanho absurdo! Mas, graças ao bom Deus, nossos heróis bandeirantes deram um basta nessa suruba colonizante e erradicaram boa parte dos índios do Brazil, semelhante ao que os cowboys fizeram no velho oeste americano.

Ah, honramos tanto nossos bandeirantes que, em São Paulo – sede dos cidadãos de bem – várias das ruas que desembocam na Av. Dos Bandeirantes carregam nomes das tribos dizimadas pelas incursões dos cowboys brazileiros em território indígena. Dessa forma, encontramos a Alameda de Guaiós, a Alameda dos Ubiatans, a Alameda dos Tupinás, a Alameda dos Piratinins, a Alameda dos Guaicañas, a Alameda dos Guainumbis, a Alameda dos Araés, a Alameda Uapixana, a Alameda dos Guaramomis, a Alameda dos Aicás, a Alameda dos Anapurus, a Alameda dos Maracatins, a Alameda dos Jurupis, a Alameda dos Pamaris, a Alameda dos Arapanés, a Alameda dos Nhambiquaras… todas elas marcas de uma ferida que não foi esquecida.

Mas claro que esta é uma história não contada, ou que busca ao máximo ser esquecida. Quantos paulistas atravessam a av. Bandeirantes por dia e têm consciência de que estão cruzando por um marco que representa uma das fases mais bárbaras e cruéis de nossa história? Mas, não se iluda, caro leitor, não é esta a ferida que traz lágrimas de ódio aos olhos do cidadão de bem…. Não, a ferida é outra. Nosso cidadão de bem lamenta-se e chora pelo fracasso dos nossos cowboys brazileiros. Como puderam aqueles destemidos guerreiros, símbolos heroicos de nossa pátria, fracassar com a sua missão de exterminar todo e qualquer vestígio indígena das brazilian lands? Pois, é um absurdo que hoje, em pleno 2018, tenhamos territórios indígenas demarcados. É inconcebível termos um órgão como a FUNAI, mantida com os impostos do cidadão de bem, sustentando um sem número de vagabundos que se dizem índios, mas que vivem como todo cidadão brasileiro, que no entanto não pagam impostos e só atrasam a economia e o desenvolvimento de nossa nação. Afinal de contas, que direito têm os índios sobre essa terra? Foi o sangue dos heróis bandeirantes que permitiu ao Brazil desenvolver-se!

Capítulo 02: Muitos tons de negro…

Nosso cidadão de bem destaca-se entre os demais. Ele carrega o sangue nobre dos portugueses, alemães, italianos, holandeses que vieram tomar esta terra das mãos dos selvagens – índios ou negros. Depois do fracasso evidente dos utópicos jesuítas de colocarem juízo na cabeça dos índios – que provaram-se inúteis para o trabalho braçal dos canaviais – foi preciso recorrer a Coroa. Não, caro leitor, não me refiro a Coroa Portuguesa. Essa nunca governou economicamente nossas terras. Aliás, ela mais atrapalhou que ajudou. Refiro-me a nossa salvadora, a Coroa Inglesa! Ela forneceu-nos uma solução… a um pequeno custo, claro! Os negros mostraram-se muito mais dóceis – afinal de contas, eles não conheciam o território – e muito mais aptos ao trabalho. Porém, eles causaram uma ferida.

O que comecou com alguns poucos barcos trazendo algumas centenas de negros, logo tornou-se uma epidemia. E, segundo nosso cidadão de bem, uma epidemia que até hoje não conseguimos controlar. Afinal de contas, o negro só trouxe desgraça a esse país. Ele morreu nas plantações de cana-de-açúcar para que o seu senhor pudesse ter açúcar. Morreu nos campos do Rio Grande do Sul, para que seu senhor tivesse o charque. Hoje morre na sarjeta porque está cansado de carregar a parte mais pesada do sistema econômico deste país.

Mas o que nosso querido cidadão de bem vê? Ora, negro é sinônimo de bandido. Você não vê tantos negros chefiando empresas como brancos. E por quê? Porque negro é vagabundo, só quer vida fácil. Não dá para confiar em negro. Contudo, o que nosso cidadão esquece – perdoem-me o lapso, o que o cidadão de bem não perdoa – foi a atitude daquela patricinha da Princesa Isabel ter assinado a lei Áurea. Por mais que a história tenha mostrado duas coisas: primeiro, a Lei Áurea foi uma imposição da Coroa – sim, aquela mesma que comandava o tráfico negreiro – e segundo, a abolição da escravatura em nada melhorou a vida dos negros. Mas, para nosso cidadão de bem, o que importa são fatos. E os fatos são: Princesa Isabel não passava de uma petista, comunista, esquerdista que libertou os negros por dó; e hoje ele, o cidadão de bem, precisa pagar altas taxas de impostos – quando na verdade ele sonega boa parte e é privilegiado pelas leis fiscais do Brazil – para manter essas esmolas que o governo dá para os pobres – que são sinônimos de negros para o cidadão de bem – tais como Bolsa Família e cotas. Melhor nem falar de cotas, porque isso é um capítulo à parte.

Quer saber, vamos falar de cotas, sim! A história é minha e eu a conto do jeito que eu quiser. Afinal de contas, não sou um cidadão de bem, não costumo esconder os fatos. Acontece que nosso cidadão de bem acredita ser um desrespeito com sua pessoa o Brazil ter um sistema de cotas. Afinal de contas, os negros não são mais escravos. E os últimos escravos já morreram há décadas. Ou seja, essa é uma nova história. Os negros – assim como os índios – tiveram todas as possibilidades para superarem sua sina. Se continuam na base da pirâmide social, a culpa não é do cidadão de bem, mas apenas do Estado que o acostumou mal e do próprio negro que jamais tentou prosperar na vida. É um absurdo, para o cidadão de bem, perder sua vaga em uma universidade federal por causa de uma cota fundamentada sobre a comprovada dívida histórica desse país para com os negros e índios.

Afinal de contas, no branco ninguém pensa. Nosso cidadão de bem tem sofrido anos de racismo reverso – sério, não consigo pensar em um exemplo -, o que justificaria cotas para brancos. Mas não, o governo só pensa em pobre, negro e vagabundo. O cidadão de bem carrega – segundo ele mesmo – este país nas costas e ainda vê seu futuro prejudicado. Seu filho não pode cursar medicina na universidade pública. E ele, cidadão de bem, recusa-se a pagar uma universidade privada para seu filho. Afinal de contas, são seus impostos que mantêm a universidade pública!

Mas esse raciocínio serve apenas para as universidades. Porque ele, o cidadão de bem, é contra o SUS, contra o INSS, contra transporte público gratuito, contra escola pública – se bem que ela é útil para os pobres aprenderem a ler. Ou seja, o público, segundo o cidadão de bem, só é útil se ele for o utilizar, caso contrário não presta, tem desvios de recursos e deve ser privatizado. Afinal de contas, o EUA não possui SUS e ninguém morre – ao menos nenhum cidadão de bem morre, até sofrer de câncer.

Por hora, ficamos por aqui. Não é fácil encarar uma versão da história que poucos estão dispostos a propor.

*É Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

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Reportagem especial

Canal Bruno Barreto