Por Olavo Hamilton*
A primeira vez que vi o “Príncipe das Trevas”, não o compreendi. Eu era uma pessoa espiritualizada, julguei. Foi em um domingo imediatamente após o meu aniversário de quinze anos – a Rede Globo exibiu o clip da música “No more tears” no Fantástico, em celebração ao álbum de mesmo nome que acabara de ser lançado. Não entendi, logo não gostei. Mas hoje eu sei que arte não é sobre entender, é sobre sentir.
Ozzy nunca quis ser entendido. Como em “Paranoid” (1970), clássico do rock que nos presenteou o Black Sabbath, Ozzy Osbourne surgiu na forma de um grito dissonante em meio à calmaria artificial do mundo. Sua voz carregava a angústia de quem via demais, sentia demais, mas não conseguia explicar. Foi chamado de louco, herege, profeta do fim. E talvez fosse. Não tinha a pretensão de ser herói – “I’m not trying to be anyone’s hero”. E certamente não era.
A vida de Ozzy foi um solo distorcido que nunca se calou. Viveu no limite entre o abismo e a redenção, entre os excessos e os palcos iluminados. Não buscava perfeição — buscava ser verdadeiro, com todos os dramas e defeitos. E por isso nos tocou tanto. Sua existência foi uma tempestade elétrica que atravessou gerações, incendiando corações e libertando aqueles que, como ele, se sentiam deslocados. Ozzy era a nossa própria paranoia girando a 33,3 RPM.
Mas os ventos mudaram. E o tempo, sempre implacável, um dia sussurrou aquilo que Ozzy mesmo previu em sua balada mais terna: “Mama, I’m coming home”. Nos últimos anos, o mundo presenciou o homem se recolher do mito. Os palcos silenciaram aos poucos e o “Príncipe das Trevas” foi se despedindo da luz da ribalta com a dignidade serena de quem sabia que seu lugar na eternidade já estava escrito. Não foi fuga. Foi reencontro. Com a paz. Com a família. Consigo mesmo.
Agora, ele se foi. Mas que ninguém chore. Como ele nos ensinou em outra de suas canções imortais, “No more tears”, chega um momento em que é preciso deixar que as lágrimas sequem, que a dor se transforme em memória, e a ausência vire gratidão.
Não sou mais uma pessoa espiritualizada. Não tenho a ilusão que em algum lugar há uma guitarra esperando por Ozzy. Mas sei que algumas pessoas tocam a eternidade porque iluminam corações e mentes, geração após geração. É nesse aspecto que Ozzy volta para casa. Boa viagem, Madman.
E obrigado por ensinar ao mundo que há beleza até mesmo na escuridão.
*É Advogado e Professor.
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