Areia Branca é a cidade do RN que mais elevou gastos com festas em comparação ao crescimento das receitas

"Festa de Agosto" é um dos destaques de Areia Branca (Foto: divulgação)

O levantamento exclusivo do Blog Barreto, baseado nos dados do Painel Festejos do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte (TCE-RN), revela que um grupo de municípios potiguares elevou seus gastos com shows e eventos em um ritmo até dez vezes mais veloz do que o crescimento de suas próprias receitas.

Enquanto a média de crescimento da Receita Corrente Líquida (RCL) no estado ficou na casa dos 5%, o investimento em cachês artísticos disparou, gerando um “gap” fiscal que coloca gestores sob a mira dos órgãos de controle.

O quadro abaixo detalha os municípios onde a expansão da “indústria da folia” não encontrou lastro no aumento da arrecadação real:

MunicípioCrescimento Gastos (Festas)Crescimento Receita (RCL)O Descompasso (Gap)
Areia Branca+ 42%+ 4%38%
Grossos+ 38%+ 3%35%
Assú+ 28%+ 6%22%
Mossoró+ 22%+ 5%17%
São Gonçalo+ 18%+ 4%14%

O cenário mais crítico de 2025 concentra-se no litoral. Em Areia Branca, a prefeitura elevou o investimento em grandes atrações para o Carnaval e Festas de Agosto em 42%, enquanto a receita total — altamente dependente de FPM e royalties — oscilou apenas 4%.

Situação semelhante ocorre em Grossos, onde o gasto com shows cresceu 35% acima da arrecadação. Para os auditores do Tribunal de Contas, esse modelo cria uma “bolha de consumo” temporária que, embora agrade ao comércio, pode comprometer a solvência da máquina pública no segundo semestre.

No Vale do Açu, Assú consolidou um dos maiores calendários juninos do Estado, mas a um custo fiscal elevado. O investimento em cachês nacionais cresceu 28%, impulsionado pela inflação do mercado artístico. Como a receita municipal não acompanhou o salto, a gestão precisou operar no limite para evitar atrasos em outras áreas essenciais.

Já em Mossoró, o descompasso de 17% acendeu o alerta prudencial. Embora a cidade tenha arrecadação própria robusta, o volume absoluto investido (R$ 25,7 milhões) é tão expressivo que qualquer estagnação na receita global obriga o município a remanejar verbas para fechar a conta da Cidade Junina.

Por que o gasto subiu tanto?

São três fatores para este fenômeno em 2025:

  1. Inflação dos Cachês: Artistas de “primeira linha” elevaram seus preços acima da inflação oficial, mas prefeituras mantiveram a estratégia de contratação por visibilidade.
  2. Custo Estrutural: O preço de montagem de palcos, som e segurança privada subiu consideravelmente em relação a 2024.
  3. Dependência de Repasses: Muitos municípios planejaram festas baseados em previsões otimistas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) que não se concretizaram integralmente.

Cidades como Caicó, que mantiveram o crescimento de gastos com festas equilibrado com o das receitas (+12%), encerram o ano com maior folga financeira.