Se a política brasileira fosse um livro, os capítulos mais audaciosos sobre a conquista de espaços pelas mulheres teriam sido escritos sob o sol do Rio Grande do Norte. Enquanto o debate sobre representatividade de gênero ganha força globalmente no século XXI, o estado já quebrava barreiras quase cem anos atrás, consolidando-se hoje como a unidade da federação que mais elegeu governadoras e que mantém uma das maiores constâncias de lideranças femininas no país.
A história não começou em gabinetes modernos de hoje, mas no sertão. Em 1927, cinco anos antes de o Código Eleitoral brasileiro garantir o voto feminino em todo o país, a mossoroense Celina Guimarães Viana tornou-se a primeira eleitora do Brasil e da América Latina. No ano seguinte, em 1928, a cidade de Lajes elegia Alzira Soriano como a primeira prefeita do continente.
Esse DNA pioneiro pavimentou o caminho para o que vemos hoje. O estado detém o recorde nacional de mulheres eleitas governadoras.
- Wilma de Faria: A “Guerreira”, primeira governadora eleita (2002) e reeleita.
- Rosalba Ciarlini: Eleita em 2010, após uma carreira vitoriosa na Prefeitura de Mossoró e no Senado.
- Fátima Bezerra: Atual governadora, eleita em 2018 e reeleita em 2022, sendo a única mulher a governar um estado no Brasil durante seu primeiro mandato.
Mossoró: A Capital das Prefeitas
Se o estado é o líder, a cidade de Mossoró é o seu maior expoente. O município potiguar vive um fenômeno raro: a normalização do comando feminino. Em um intervalo de 32 anos (1988 a 2020), as mulheres venceram oito das dez eleições disputadas.
Nomes como Rosalba Ciarlini (quatro vezes prefeita) e Fafá Rosado (duas vezes) transformaram a prefeitura local em um reduto de gestão feminina, provando que, em solo potiguar, o teto de vidro foi estilhaçado há décadas.
Legislativo
O protagonismo não se limita a governar estados ou cidades. No Legislativo, o Rio Grande do Norte honra a potiguar Maria do Céu Fernandes, primeira deputada estadual do Brasil, e mantém uma das maiores taxas de representatividade parlamentar.
O estado é um dos poucos a ter enviado três mulheres diferentes para o Senado, como Rosalba Ciarlini, Fátima Bezerra e Zenaide Maia. Só o Mato Grosso do Sul elegeu mais mulheres para a Alta Câmara.
Nas eleições de 2024, o RN figurou no Top 3 nacional de proporcionalidade de vereadoras, com mais de 25% das cadeiras ocupadas por mulheres — um índice bem superior à média nacional, que patina em torno dos 15%.
O pioneirismo gerou um efeito de “exemplo em cascata”. A presença de mulheres em cargos de decisão desde o início do século XX criou um ambiente onde a candidatura feminina não é vista como uma exceção, mas como uma viabilidade natural.
O Rio Grande do Norte permanece como o guardião histórico e prático da participação feminina no Brasil.