Por Cleber Lourenço
ICL Notícias
O pedido de vistas que travou temporariamente a tramitação da PEC do fim da escala 6×1 partiu justamente de um dos deputados que apoiam a proposta mais criticada da comissão especial: a emenda que abria brecha para jornadas semanais de até 52 horas.
O autor do pedido, deputado Mauricio Marcon (Pode-RS), integra o grupo de parlamentares que assinou a emenda articulada por setores empresariais e por alas da oposição resistentes à redução da carga horária semanal.
A movimentação ocorreu logo após a apresentação do parecer do relator da PEC, deputado Léo Prates (PDT-BA), que prevê uma transição gradual para a redução da jornada semanal para 40 horas. Oficialmente, Marcon alegou precisar de mais tempo para analisar o texto.
O pedido foi visto como uma tentativa de atrasar a tramitação após a derrota política da emenda das 52 horas.
A proposta rejeitada previa uma regra de transição considerada excessivamente longa pelos defensores da PEC e mantinha a possibilidade de jornadas semanais superiores às defendidas pelos movimentos favoráveis ao fim da escala 6×1. O texto também previa mecanismos de compensação ao empresariado.
A repercussão negativa nas redes sociais transformou a emenda em um problema político para parlamentares da oposição e do Centrão que haviam aderido ao texto. Integrantes da comissão passaram a sofrer pressão pública após a divulgação da lista de assinaturas da proposta.
Marcon aparece entre os parlamentares que subscreveram a emenda. O deputado integra a ala mais ideológica do bolsonarismo na Câmara e atua como um apoiador ferrenho do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), reproduzindo frequentemente pautas e discursos alinhados ao núcleo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O episódio ganhou ainda mais repercussão porque Marcon já apresentou anteriormente uma proposta de flexibilização das relações de trabalho no Congresso. Em uma PEC própria, o parlamentar defende maior liberdade para acordos individuais sobre jornada e regime de trabalho.
A sequência de movimentos acabou reforçando críticas de parlamentares ligados à pauta trabalhista, que passaram a apontar coerência política entre a assinatura da emenda das 52 horas, a defesa da flexibilização trabalhista e o pedido de vistas que atrasou a votação da PEC.
Mesmo com o pedido, expectativa é de que a PEC seja votada na comissão nesta quarta-feira (27) antes de seguir para análise do plenário da Câmara na quinta-feira (28), em meio à pressão de trabalhadores, sindicatos, entidades empresariais e grupos políticos que disputam os rumos do texto.
