Nilson Florentino Júnior
Os protestos da Geração Z não representam o fim da política. Revelam, antes, a crise das formas tradicionais de mediação democrática em um contexto no qual plataformas digitais reconfiguram as oportunidades de mobilização, aceleram a disputa por hegemonia e ampliam os desafios da representação política. Com base nas contribuições de Ernesto Laclau e Doug McAdam, este artigo analisa como Brasil, Índia, Nepal e Marrocos evidenciam que a questão central do nosso tempo não é a existência dos protestos, mas a capacidade das democracias de transformar indignação em participação efetiva e conflito em construção democrática, evitando que o esvaziamento dos canais institucionais de representação seja ocupado por projetos extremistas.
Quando milhares de pessoas ocuparam as ruas brasileiras em junho de 2013, muitos analistas disseram que tudo havia começado por causa de vinte centavos. Pouco tempo depois, ficou evidente que a tarifa de ônibus era apenas o gatilho de uma insatisfação muito mais profunda. A reivindicação pelo transporte público rapidamente incorporou críticas à corrupção, à qualidade dos serviços públicos, ao funcionamento das instituições e à própria representação política.
Embora junho de 2013 não tenha sido propriamente um movimento da Geração Z, tendo boa parte de seus participantes pertencentes às gerações anteriores, aquelas manifestações anteciparam uma característica que marcaria a política dos anos seguintes: mobilizações descentralizadas, organizadas pelas redes sociais, sem lideranças claramente reconhecidas e com enorme capacidade de agregar diferentes insatisfações.
Na linguagem do cientista político Ernesto Laclau, diferentes demandas passaram a formar uma cadeia de equivalências. O aumento da tarifa deixou de representar apenas um problema de mobilidade urbana e passou a condensar frustrações relacionadas ao custo de vida, aos serviços públicos, à corrupção e à percepção de que as instituições políticas já não respondiam às expectativas da sociedade. O sucesso das manifestações não decorreu apenas da força de uma reivindicação específica, mas da capacidade de articular diversas insatisfações sob uma narrativa comum.
Treze anos depois, cenas semelhantes continuam acontecendo em diferentes partes do mundo. Na Índia, jovens ocuparam as ruas após denúncias de fraudes em exames públicos e diante da crescente dificuldade de inserção no mercado de trabalho. No Nepal, manifestações expressam o desgaste da classe política e a frustração com governos incapazes de responder às demandas sociais. No Marrocos, onde o espaço institucional para contestação é mais restrito, jovens também recorreram às plataformas digitais para organizar mobilizações e ampliar o alcance de suas reivindicações.
À primeira vista, esses casos parecem pouco comparáveis. Brasil, Índia e Nepal são democracias eleitorais, ainda que apresentem diferentes níveis de estabilidade institucional e qualidade democrática. O Marrocos, por sua vez, é uma monarquia constitucional na qual o rei mantém poderes políticos significativos e os canais de contestação são mais limitados. Compará-los não significa ignorar essas diferenças, mas reconhecer que um fenômeno semelhante atravessa contextos institucionais distintos: a transformação da maneira como as mobilizações políticas surgem, se expandem e disputam legitimidade.
Durante décadas, movimentos sociais dependeram da construção paciente de organizações, sindicatos, partidos, associações estudantis e lideranças capazes de formular reivindicações, coordenar ações e negociar com o Estado. Hoje, uma publicação nas redes sociais pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas. Um vídeo, uma hashtag ou um influenciador podem transformar um episódio localizado em uma crise nacional antes mesmo que governos consigam formular uma resposta.
Essa transformação ajuda a compreender por que tantas instituições parecem permanentemente atrasadas em relação aos acontecimentos. Enquanto governos operam segundo os tempos da burocracia, da negociação e do processo legislativo, as plataformas digitais funcionam em ritmo contínuo, orientadas por algoritmos capazes de acelerar a circulação de informações, emoções e interpretações.
Isso não significa que os algoritmos criem artificialmente os protestos. As causas das mobilizações continuam profundamente enraizadas na realidade: desemprego, precarização do trabalho, desigualdade, dificuldades econômicas, corrupção, bloqueio das expectativas de futuro e crise de representação. Ignorar essas condições seria reduzir fenômenos complexos a uma explicação tecnológica simplista.
Mas também seria um equívoco tratar as plataformas apenas como ferramentas neutras de comunicação. Elas passaram a integrar o próprio ambiente em que a política acontece.
O sociólogo Doug McAdam, ao desenvolver a teoria das estruturas de oportunidades políticas, mostrou que movimentos sociais não dependem apenas da existência de insatisfação. Eles precisam encontrar condições favoráveis para transformar descontentamento em ação coletiva. Abertura institucional, divisões entre as elites, aliados políticos e capacidade organizativa sempre foram elementos decisivos para explicar por que determinados protestos crescem enquanto outros desaparecem rapidamente.
No século XXI, porém, essas oportunidades passaram a incluir uma nova dimensão: a mediação algorítmica das plataformas digitais.
Não se trata de substituir a teoria clássica das oportunidades políticas, mas de reconhecer que ela opera em um ambiente profundamente transformado. Hoje, a velocidade com que uma reivindicação se espalha, o alcance de determinadas narrativas e a capacidade de conectar grupos distintos dependem, em grande medida, da arquitetura digital das plataformas.
Os algoritmos decidem quais conteúdos receberão maior visibilidade, quais temas permanecerão em circulação e quais interpretações alcançarão milhões de pessoas. Não são neutros. Foram desenhados para maximizar atenção, engajamento e permanência dos usuários. Em um modelo de negócios baseado na economia da atenção, conteúdos capazes de provocar indignação, conflito ou forte identificação emocional tendem a circular mais intensamente.
Isso não significa afirmar que empresas de tecnologia organizem protestos ou manipulem integralmente o comportamento das pessoas. Uma mobilização nasce de problemas concretos vividos por indivíduos e grupos sociais. Entretanto, a forma como essa mobilização ganha escala, conecta diferentes demandas e disputa o imaginário coletivo passa, inevitavelmente, pelas plataformas digitais.
É justamente nesse ponto que a contribuição de Laclau permanece atual. As plataformas não apenas ampliam o alcance das mensagens; elas também favorecem novas articulações entre reivindicações originalmente independentes. O desemprego pode conectar-se à inflação; a inflação à corrupção; a corrupção à desconfiança nas instituições; e tudo isso pode ser sintetizado em uma narrativa única contra “o sistema”, “a elite” ou “a velha política”. A disputa política deixa de ocorrer apenas nas ruas ou no Parlamento e passa a acontecer, simultaneamente, na arquitetura invisível dos algoritmos.
Isso ajuda a explicar por que mobilizações contemporâneas frequentemente começam com uma pauta específica e, em poucos dias, tornam-se muito maiores do que sua reivindicação inicial. O acontecimento concreto funciona como gatilho. A expansão depende da capacidade de diferentes grupos reconhecerem suas próprias frustrações naquela mesma narrativa. As plataformas aceleram esse processo ao conectar pessoas, discursos e emoções em uma velocidade inédita.
Ao mesmo tempo, essa dinâmica cria um desafio para as democracias. A crítica legítima a governos ou políticas públicas pode rapidamente transformar-se em desconfiança generalizada das instituições. A insatisfação com partidos pode evoluir para a ideia de que toda forma de representação política é ilegítima. O problema deixa de ser um governo específico e passa a ser a própria política.
É importante fazer uma distinção. Os protestos não produzem automaticamente autoritarismo. Pelo contrário, a mobilização social constitui uma das expressões mais importantes da democracia. O problema surge quando indignações legítimas deixam de encontrar canais institucionais capazes de dialogar com elas e passam a ser apropriadas por atores que oferecem respostas simples para problemas extremamente complexos.
Talvez a principal lição dos protestos protagonizados por jovens ao redor do mundo seja que eles não rejeitam a política. O que parecem rejeitar são formas tradicionais de representação que já não conseguem responder à velocidade, à horizontalidade e às expectativas produzidas por uma sociedade permanentemente conectada.
No fim, a pergunta mais importante talvez não seja se os algoritmos substituíram os partidos. A questão decisiva é saber quem ocupará o espaço deixado por instituições incapazes de dialogar com uma sociedade cada vez mais conectada. Quando a política democrática perde capacidade de representar demandas sociais, esse vazio dificilmente permanece vazio. Ele tende a ser ocupado por projetos que oferecem respostas simples para problemas complexos, convertendo frustrações legítimas em discursos contra a própria democracia.
É justamente nesse ponto que a leitura combinada de Ernesto Laclau e Doug McAdam se mostra particularmente fecunda. Se, para Laclau, a política é uma disputa permanente pela construção de hegemonias, McAdam demonstra que nenhuma mobilização prospera sem oportunidades políticas capazes de transformar descontentamento em ação coletiva. Na era das plataformas digitais, essas oportunidades continuam sendo condicionadas pelas instituições, mas passam também pela arquitetura algorítmica que organiza a circulação das demandas, define sua visibilidade e acelera a disputa pelos sentidos da realidade.
O fortalecimento de diferentes extremismos ao redor do mundo não pode ser compreendido apenas como resultado da polarização ideológica ou do avanço tecnológico. Ele também revela uma crise mais profunda: o enfraquecimento dos mecanismos democráticos de mediação entre Estado e sociedade. Enquanto as plataformas ampliam exponencialmente a capacidade de expressão e mobilização, estreitam-se, em muitos contextos, os espaços efetivos de participação, deliberação e incidência política. O paradoxo do nosso tempo é que nunca foi tão fácil participar do debate público e, ao mesmo tempo, tão difícil transformar essa participação em decisões coletivas capazes de produzir mudanças concretas.
A resposta para esse desafio não está na contenção das mobilizações juvenis nem na criminalização dos conflitos sociais. Tampouco consiste em imaginar que a tecnologia, por si só, resolverá a crise da representação. O desafio democrático do século XXI passa por reconstruir instituições capazes de dialogar com uma cidadania conectada, ampliar os canais de participação e renovar as formas de representação política. Se a democracia não conseguir oferecer caminhos legítimos para processar os conflitos e incorporar novas demandas sociais, outros projetos disputarão esse espaço. E a história mostra que, quando o pluralismo democrático deixa de oferecer respostas convincentes, alternativas extremistas encontram terreno fértil para se apresentar como a única voz legítima do povo, justamente ao reduzir a diversidade, o dissenso e a participação que constituem a essência da própria democracia.
*É filiado ao Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Norte e membro do Núcleo de Relações Internacionais e Soberania “Marco Aurélio Garcia” (Núcleo MAG), Mestrando em Sociologia na Universidade de Brasília e Diretor de Políticas Públicas Transversais de Juventude na Secretaria Nacional de Juventude da Secretaria-Geral da Presidência da República – SGPR.
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