O Rio Grande do Norte completa em 2026 um ciclo de 15 anos que serve como uma lição de economia pública. O estado que flertou com a insolvência total na década passada chega ao fim do atual governo como o protagonista da transição energética no Brasil. Se as gestões de Rosalba Ciarlini (2011-2014) e Robinson Faria (2015-2018) foram marcadas pelo esgotamento do modelo de royalties e pelo colapso das contas, o governo de Fátima Bezerra (2019-2026) entrega um estado com crédito recuperado e infraestrutura interiorizada.
O marco zero da era Fátima foi enfrentar o que parecia impagável. Robinson Faria encerrou 2018 deixando quatro folhas salariais em atraso — um rombo de R$ 1 bilhão que paralisou o consumo.
A gestão atual não apenas quitou essa dívida histórica, como saneou as contas para atingir a Nota CAPAG C junto ao Tesouro Nacional. Isso permitiu que, em 2024 e 2025, o RN voltasse a ficar apto contratar empréstimos estruturantes (via Banco do Brasil e Caixa), algo que estava bloqueado desde meados do governo Rosalba.
| Indicador Fiscal | Rosalba (2011-14) | Robinson (2015-18) | Fátima (2019-26) |
| Situação Salarial | Início do parcelamento | 4 folhas em atraso | Em dia e antecipado |
| Crédito (Tesouro) | Nota C | Nota D (Insolvente) | Nota C (Recuperada) |
| Dívida de Folhas | Resíduos pontuais | R$ 1 bilhão | Totalmente quitada |
O “Efeito PROEDI”
A indústria potiguar viveu uma metamorfose. O antigo PROADI (era Rosalba/Robinson) era um modelo de financiamento que gerava dívida para as empresas. Fátima o substituiu pelo PROEDI, que oferece desconto direto no ICMS e é progressivo: quanto mais longe de Natal, maior o incentivo.
O resultado foi o “boom” das energias renováveis. O RN rompeu a barreira dos R$ 100 bilhões de PIB, consolidando-se como o maior produtor de energia eólica da América Latina e atraindo as primeiras plantas de Hidrogênio Verde. Em 2024, o estado liderou o crescimento industrial do país com alta de 24,4%.
Segurança Pública
A segurança foi o ponto mais dramático da década passada. O governo Robinson atingiu o ápice do caos em 2017, com o massacre de Alcaçuz e recordes de homicídios. A gestão Fátima respondeu com concursos históricos para todas as forças (PM, Civil, ITEP) e investimentos em inteligência. O resultado em 2025 foi a consolidação de uma queda de mais de 50% nos índices de mortes violentas em relação ao auge da crise.
| Indicador de Segurança | Rosalba (2011-14) | Robinson (2015-18) | Fátima (2019-26) |
| Pico de Mortes (CVLI) | 1.770 (2014) | 2.408 (2017) | ~1.000 (Média 2025) |
| Concursos | Escassos | Perda de efetivo | PM, Civil e ITEP |
| Sistema Prisional | Superlotação | Massacre de Alcaçuz | Controle e novas vagas |
Saúde e Educação
Saindo da centralização em Natal que marcou as gestões anteriores, o foco virou a interiorização:
- Saúde: A marca é a regionalização. A abertura definitiva do Hospital da Mulher em Mossoró e a interiorização de leitos de UTI desafogaram a capital.
- Educação: Enquanto as gestões anteriores focavam em reformas paliativas, Fátima entregou os IERNs (Institutos Estaduais), focados em ensino profissionalizante conectado à nova economia verde do estado.
Infraestrutura
Enquanto Rosalba focou na Arena das Dunas e Robinson em acessos urbanos, Fátima priorizou a logística do interior. O programa de reconstrução de rodovias ultrapassou os 800 km de asfalto novo, essencial para o agronegócio e para o turismo, que agora explora novos polos como o Geoparque Seridó.
| Foco do Investimento | Rosalba (2011-14) | Robinson (2015-18) | Fátima (2019-26) |
| Geografia | Natal (Copa 2014) | Manutenção de crise | Interiorização |
| Emprego (Caged) | Estável | Saldo Negativo | +80 mil vagas (Acumulado) |
| Obras de Marca | Arena das Dunas | Acessos Aeroporto | IERNs, Estradas e Oiticica |
A “Grande Travessia” do RN mostra que o estado parou de “apagar incêndios” para planejar o futuro. O Rio Grande do Norte de 2026 é mais seguro, possui crédito recuperado e uma matriz industrial verde e diversificada. O desafio para o sucessor será manter esse rigor fiscal sem permitir que a máquina retorne ao quadro que quebrou o estado em 2018.
Esta é a primeira de uma série de reportagens que o Blog do Barreto vai produzir ao longo dos próximos dias sobre o Governo Fátima num comparativo com as gestões de Robinson e Rosalba.