Distância entre entrevistas e eleição ajuda a explicar diferenças entre pesquisas e urnas no RN

A comparação entre as pesquisas para o Governo do Rio Grande do Norte e o resultado das urnas precisa levar em consideração um elemento que muitas vezes passa despercebido: quando os eleitores foram efetivamente entrevistados.

No conjunto de 17 pesquisas analisadas pelo Blog do Barreto, o intervalo entre o encerramento do trabalho de campo e a eleição de 4 de outubro variou de nove dias a apenas um dia. A Qualittá, por exemplo, realizou suas entrevistas entre 20 e 25 de setembro. Já a Quaest ouviu os eleitores nos dias 2 e 3 de outubro.

Isso significa que, embora todas tenham sido divulgadas relativamente perto da eleição, elas não necessariamente fotografaram o mesmo momento da disputa.

Data da divulgação não é data da pesquisa

Essa distinção é fundamental. Uma pesquisa divulgada na sexta-feira anterior à eleição pode ter entrevistado seus participantes vários dias antes. Portanto, para analisar o desempenho de um levantamento diante das urnas, o período de campo é uma referência temporal mais adequada do que apenas a data em que seus números chegaram ao público.

A própria regulamentação eleitoral trata o período de realização como informação essencial. A Resolução 23.600 do Tribunal Superior Eleitoral determina que o registro contenha metodologia e período de realização e estabelece que, na divulgação, deve ser informado o período da coleta de dados.

Em setembro, o TSE ampliou ainda a transparência do PesqEle para detalhar a execução do trabalho de campo, incluindo a janela exata de início e término da aplicação das entrevistas.

Pesquisas fotografam momentos diferentes

A consequência é relativamente simples: uma pesquisa não mede como o eleitor votará no futuro; mede as respostas obtidas durante sua janela de coleta, dentro de determinada metodologia e amostra.

No nosso levantamento, a diferença temporal é considerável. A distribuição ficou assim:

PesquisaPeríodo de campoFim do campo antes da eleição
Qualittá20 a 25/99 dias
DataCapital22 a 26/98 dias
IP Sensus23 a 27/97 dias
Consult/TN24 a 28/96 dias
Pitágoras/Via Certa25 a 28/96 dias
Affare/BG26 a 28/96 dias
Perfil/BG26 a 29/95 dias
TCM/TS226 a 30/94 dias
Seta27 a 30/94 dias
Metadata/Grupo Dial28 a 30/94 dias
Exatus/Agora RN28 a 30/94 dias
Media/O Potengi27/9 a 1/103 dias
ITEM/Difusora28/9 a 1/103 dias
AtlasIntel27/9 a 2/102 dias
Veritá28/9 a 2/102 dias
DataVero/Diário do RN30/9 a 2/102 dias
Quaest/Inter TV2 a 3/101 dia

A legislação eleitoral reforça justamente a importância dessa informação ao exigir que metodologia, período de realização, plano amostral, margem de erro e nível de confiança estejam associados à pesquisa registrada.

Quanto maior o intervalo, maior a possibilidade de o cenário ter mudado

Isso não significa que uma pesquisa realizada nove dias antes seja metodologicamente inferior a outra feita na véspera. Distância temporal e qualidade metodológica são coisas diferentes.

O que muda é o objeto temporal da medição.

Entre o último questionário de uma pesquisa e a abertura das urnas podem ocorrer debates, entrevistas, fatos políticos, movimentações de campanha, propaganda, decisões de eleitores anteriormente indecisos e mudanças de preferência. Se isso acontecer, uma pesquisa anterior não poderia capturar posteriormente essa movimentação.

Por isso, seria inadequado atribuir automaticamente à metodologia de um instituto toda diferença entre pesquisa e urna sem observar primeiro quando aquela pesquisa foi realizada.

O inverso também merece atenção: proximidade temporal não garante, por si só, maior proximidade estatística com as urnas. Amostragem, ponderação, modo de entrevista, margem de erro, não resposta e outras decisões metodológicas continuam relevantes.

A urna não transforma retroativamente a pesquisa em “certa” ou “errada”

Há ainda uma diferença conceitual importante. Pesquisa eleitoral e resultado eleitoral não medem exatamente a mesma coisa.

A pesquisa registra respostas de uma amostra em determinado período. A urna contabiliza o voto efetivamente depositado por quem compareceu à eleição.

Assim, quando se compara pesquisa e urna, a diferença encontrada reúne potencialmente diversos componentes: erro amostral, fatores metodológicos, mudanças reais ocorridas depois da coleta e diferenças entre intenção declarada e comportamento efetivo no dia da eleição.

É justamente por isso que o TSE exige a divulgação de informações como período de coleta, margem de erro e nível de confiança.

O fator tempo deve entrar no nosso comparativo

No caso das 17 pesquisas que estamos confrontando com as urnas do RN, portanto, a análise do erro médio ganha uma segunda dimensão.

Não basta perguntar “qual pesquisa ficou mais perto das urnas?”. É preciso acrescentar uma questão objetiva: “quantos dias antes da eleição aquela fotografia foi feita?”

Uma diferença registrada por um levantamento cujo campo terminou em 25 de setembro possui contexto temporal distinto de uma diferença encontrada em pesquisa encerrada em 3 de outubro.

Isso não elimina nem substitui a comparação estatística que fizemos. Mas acrescenta uma informação essencial para interpretá-la corretamente.

A partir daí, o próximo cruzamento possível é bastante esclarecedor: colocar lado a lado, para cada uma das 17 pesquisas, dias entre o fim do campo e a eleição e diferença absoluta em relação às urnas. Esse cruzamento permite verificar descritivamente se, neste conjunto específico do RN, as pesquisas realizadas mais perto de 4 de outubro também terminaram mais próximas do resultado efetivamente apurado, sem presumir que a distância temporal seja a única causa das diferenças.