Motta segue candidato ao Senado (Foto: Sérgio Francês/PSB na Câmara)

Do risco à coragem, o ativo que pode virar o jogo para Rafael Motta

Por João Paulo Jales dos Santos*

A avalanche de pesquisas eleitorais que inundam o Rio Grande do Norte é um fenômeno, nem mesmo nos grandes colégios eleitorais, onde as disputas despertam mais atenção político-midiática se vê tantos índices de intenções de voto como os que jorram no noticiário potiguar. Pelo histórico abundante de pesquisas manipuladas em outras pré-campanhas, a dúvida sobre a credibilidade das referentes a este pleito é o critério mínimo a se adotar quanto a relevância eleitoral. A pré-campanha é uma fase importante no jogo político, principalmente no que tange a capitanear viabilidade duma candidatura, mas não é crucial, como querem fazer parecer agitadores e divulgadores políticos, no resultado da campanha. Inclusive alguns cientistas e analistas políticos afirmam que pesquisas em plena pré-campanha não querem dizer absolutamente nada, fazendo com que a movimentação nos números sirva apenas para mobilizar grupos de interesses, vide que o eleitor começa a ter interesse na eleição do meio para o fim do pleito, fase crucial nas estratégias dos candidatos. Exemplo disso foi a eleição de 2014 para o Governo da Bahia, o favorito, o ex-governador Paulo Souto (União Brasil, ex-Dem), foi atropelado na reta final pelo candidato petista, Rui Costa, que venceu em 1º turno.

 Pelos números de inúmeros institutos, há um dado que tem passado batido, o desempenho de Carlos Eduardo (PDT) deveria estar melhor, no mínimo deveria estar pontuando na casa dos 30%. Mesmo tendo sido derrotado há 4 anos, o pré-candidato teve dois quintos da preferência do eleitorado, além de ter consigo a memória afetiva de seus 4 mandatos na prefeitura do Natal, memória mais sensível na Grande Natal, que corresponde a quase metade do eleitorado potiguar. Quando não tecnicamente empatado com Rogério Marinho (PL), acumulador de derrotas nos últimos 12 anos, a diferença de Carlos para ele é pequena, mostrando que a pré-campanha de Eduardo sofre de uma apatia, já que seu histórico político é mais potente que o de Marinho.

Numa contenda senatorial, que segundo repetidas pesquisas, tem a animosidade (brancos, nulos, não sabe, ninguém) entre 40% e 50%, e com os dois principais candidatos, Carlos Eduardo e Rogério Marinho, com preferências relativamente baixas, o Senado está, como se diz no jargão político americano, ‘toss up’ (em aberto). Não há nenhum ‘senador de férias’, e mesmo Garibaldi Alves (MDB) que era tida como o ‘governador de férias’ na corrida governamental de 2006, foi suplantado pela enérgica estratégia da governadora incumbente Wilma de Faria (na época no PSB), que já havia surpreendido em 2002, quando com pouca estrutura, e com o descrédito da classe política, arriscou sua carreira numa difícil empreitada ao Governo, findando sendo eleita sob os dois favoritos à época, o governador em exercício Fernando Freire (na época no PPB) e o senador Fernando Bezerra (na ocasião no PTB).

E é justamente risco a palavra que melhor define a postulação ao Senado do deputado Rafael Motta (PSB), e a desconfiança que paira sob sua candidatura encontra um paralelo com a de uma outra deputada federal, Fátima Bezerra (PT). Em 2014 a reeleição da petista era dada como certa, as análises apontavam que viria a repetir o mesmo desempenho que obteve em 2010, quando fora campeã de votos, mas a na época deputada arriscou e se lançou a senatorial contra o forte palanque que alicerçava a candidatura da ex-governadora Wilma de Faria. No fim, Wilma, que surpreendeu em 2002 e 2006, dessa feita foi obrigada a assistir a surpresa daquela vitória de Fátima. Contra duas principais postulações emaranhadas em acordos de difícil compreensão para as massas, risco pode se transformar para Rafael na palavra coragem.

Se o eleitorado enxergar Motta como um homem de coragem, por se lançar de modo independente e contra dois candidatos com articulações que podem soar para as massas como dois ‘acordões’, Rafael pode virar o jogo. O acordo entre Carlos Eduardo e Fátima Bezerra pode ser mal digerido pelo povão, Carlos tem uma postura dúbia quanto o presidenciável Ciro Gomes (PDT), tentando esconder seu voto no pedetista cearense, enquanto que sua aliada de chapa atrela sua governamental a campanha presidencial de Lula (PT). O acordo de Rogério Marinho, que a exemplo de Carlos tenta esconder seu presidenciável, o presidente Bolsonaro (PL), com dezenas de prefeitos que apoiam a adversária de Marinho, Fátima, e para o Senado votam em seu nome, é uma típica dobradinha de fazer com que o eleitorado vire a cara para o propalado voto casado ‘Famarinho’.

Caberá a Rafael Motta articular uma estratégia que faça com que as massas enxerguem esses acordos como ‘acordões’, chamando atenção para sua candidatura, usando de sua atuação parlamentar contrária aos governos de Michel Temer (MDB) e de Bolsonaro, e o apoio irrestrito que dá a Lula, para apresentar sua plataforma eleitoral. Em 2018, enquanto o Brasil decidiu por Bolsonaro com cerca de 55% dos votos válidos, Fernando Haddad (PT) vencia no RN com quase dois terços dos votos, lembrança das realizações socioeconômicas promovidas pelos governos do PT. Neste pleito os indicativos dão conta que o denominado voto econômico tende a ser fundamental numa eventual vitória de Lula, Rafael tem a seu favor uma agenda social, que se torna ainda mais sensível num estado com altos índices de pobreza e desigualdade,  que candidatos de esquerda sabem tão bem manusear. Se de início se apresentará como sendo o candidato que apoia Lula sem ter publicamente o apoio do ex-presidente, caso consiga deslanchar seu nome, não terá como não contar com o apoio do petista, que precisará de um congressista aliado no Senado Federal.

Se o nome de Rafael, ainda é visto com desdém nos bastidores governista e oposicionista, as vitórias de Marianna Almeida (PSD) e Allyson Bezerra (Solidariedade), para as Prefeituras de Pau dos Ferros e Mossoró, respectivamente, ilustram como postulações taxadas com zombaria, por elites políticas, e vitórias tratadas como improváveis acabam por se concretizar no andamento de uma campanha. No PT, coube ao senador Jean Paul Prates a tarefa de turbinar Carlos Eduardo na militância petista, 1º suplente de Carlos, o senadorável cola sua imagem na de Prates para ver se consegue atrair a base do partido. Há um paralelo entre essa estratégia de Carlos e a usada por Fernando Bezerra, quando tentou a reeleição em 2006. Naquela ocasião Fernando era líder de Lula no Senado Federal, mas seu nome não era benquisto na militância petista, Fernando e o PT decidiram indicar o nome de Ruy Pereira (PT), que em 2002 foi candidato ao Governo, para aproximar o então senador da base petista, o plano não deu certo, pois a ojeriza a Fernando, como a que hoje enfrenta Carlos, foi maior do que o sentimento de união traçado pela cúpula do governismo federal.

Num momento em que Rogério Marinho vê a Polícia Federal expor um caso de corrupção num órgão do Ministério do Desenvolvimento Regional, arsenal que os adversários vão usar contra o ex-ministro, Rafael Motta terá que calibrar como usará os torpedos políticos contra seus adversários, conduzindo sua militância para não se desgastar somente em torno de um único candidato, vide que Motta terá que superar os dois principais candidatos, além de saber se defender dos ataques que já vem sofrendo, transformando essas investidas numa propulsão de sua candidatura. Como já é visto como uma possível ameaça pelas coordenações de PDT e PL, Rafael parece que não contará com os ataques mútuos entre Carlos e Rogério, fazendo com que sua postulação passe batida e cresça sem sofrer maiores achincalhes.

Reunindo uma frente de apoios plural ao seu projeto, Rafael conta com o crescimento nas intenções de voto para fazer valer a pressão social na virada de mesa de lideranças que apoiam Carlos Eduardo, e de sobremodo, Rogério Marinho. 2018 mostrou como a realidade se impõe aos conchavos, première que já tinha ocorrido em 2014. Há 4 anos, lideranças que apoiavam ou pretendiam dar arrimo a Carlos Eduardo se viram pressionadas a irem de Fátima Bezerra quando sua candidatura, diminuta em apoios de prefeituras, passou a abrir dianteira sobre Eduardo. Se a estratégia eleitoral de Rafael surtir efeito, será visto como o corajoso que sem nenhum medo enfrentou os poderosos, para virar o jogo terá que contar com a adesão das classes trabalhadora e popular, aquelas que galvanizam candidatos e decidem o páreo, é entre elas que sua mensagem social tem forte apelo eleitoral.

*É graduado em Ciências Sociais pela UERN.

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