Eleição sem Lula fortalece Bolsonaro

Bolsonaro

O título pode soar confuso para quem está acostumado com as abstrações da política que se divide em espectros como direita, esquerda e centro. A mídia nacional também não tem enxergado por esse caminho que ouso trilhar neste artigo.

Por que? A maior parte da mídia brasileira tem alinhamento com o PSDB. Isso é um fato indiscutível. Agora o trabalho é reposicionar o partido ao centro para ocupar o vácuo deixado pelo PMDB. Daí surgem interpretações de que sem Lula o “centro político” se fortalece.

Essa é uma avaliação, inclusive, advogada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que é quase uma confissão de que toda mobilização de grupos “emebeélicos” contra Lula tem a chancela tucana.

Mas o foco desse artigo é a questão: quem ganha mais na corrida presidencial sem Lula? Na minha opinião é Jair Bolsonaro.

Está claro que a mídia nacional não deseja ver o capitão reformado do exército na crista da onda. Logo surgiram análises de que ele não estará polarizando com Lula e perde com isso. Outros afirmam que os votos dele vão para o “centro”. Que centro? Se for desses partidos que estão aí o discurso moralista (de goela) continuará existindo e polarizando com o que sobrar na disputa.

É preciso separar análise e opinião da mera manifestação de vontade. Também é preciso levar em conta o perfil do eleitorado que decide a eleição: o “povão”. E é nas camadas desprivilegiadas que Bolsonaro tem chances de herdar o espólio eleitoral lulista.

Todos são ladrões, na ótica do eleitor menos escolarizado e desligado da política. Por isso, Lula com todo contexto contrário resiste e lidera pesquisas presidenciais. Ele tem carisma, serviços prestados e fala o que os mais humildes gostam de ouvir.

Quem dos nomes repete esse perfil populista? A resposta é Jair Bolsonaro. Você pode não gostar dele, mas ele é carismático. Comparo ele a aquele dono de bodega grosso que por algum motivo inexplicável todo mundo gosta. É duro admitir isso, mas é um fato por mais que muito do que ele diz provoque repulsa.

Lembre-se: Hitler também era carismático!

Outro ponto: Bolsonaro num outro viés diz o que o “povão” gosta de ouvir apresentando soluções simples para problemas complexos na base do “bandido bom é bandido morto”. Você pode achar que não é assim, mas foi com essa estratégia discursiva que Bolsonaro tornou-se o “mito” na Internet.

Esse discurso propagado por Bolsonaro é o mesmo que converte apresentadores de programas policiais em fenômenos de audiência na TV aberta. O “povão” gosta desse discurso e é nas camadas populares onde não existem critérios ideológicos na decisão do voto que o eleitor de Lula pode migrar para Bolsonaro.

Claro que existem eleitores fieis a Lula que vão votar em quem ele orientar mesmo que seja de dentro de uma prisão. Isso tem chances de acontecer, inclusive minando Bolsonaro. Dependerá de quem se apresentar e do contexto do pleito.

É óbvio que existem pessoas que jamais votarão em Bolsonaro por considera-lo desprezível. Pelo menos esse aspecto não está em questão nas camadas populares.

O antropólogo Juliano Spyer tem se dedicado a estudar o comportamento político das classes populares. Ele constatou que a classe C, por exemplo, não usa o Facebook para ativismo político. Também percebeu que o “eu fiz” pesa muito na escolha do voto. Nesse sentido, o único presidenciável de 2018 com esse discurso é Lula. Bolsonaro pode atrair esse eleitor por passar a impressão de que vai moralizar a política, atuando como “salvador da pátria”.

Por isso, existe o paradoxo do eleitor que pode migrar de Lula para Bolsonaro sem o menor constrangimento. O grosso do eleitorado não se importa com ideologia. Esse é um assunto restrito aos setores mais ilustrados da classe média e olhe lá!

Por mais contraditório que seja o antilula-mor pode herdar os votos do inimigo político nas camadas populares. Será um erro da elite política do país subestimar essa possibilidade.

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