Em 35 anos, RN explora pouco a Lei Rouanet e ainda “exporta” investimentos para outros estados

Skateverso é um dos eventos que conseguiram captar recursos (Foto: divulgação)

Enquanto estados como São Paulo movimentam bilhões de reais anualmente através de incentivos fiscais à cultura, o Rio Grande do Norte (RN) vive um cenário de contrastes profundos.

Uma análise detalhada de 35 anos de execução da Lei Rouanet (1992-2025) feita pelo Blog do Barreto revela um estado que, embora só tenha começado a sua trajetória timidamente em 1997, ainda luta contra a concentração de recursos na capital e um desconhecimento crônico por parte do seu setor empresarial.

O dado mais alarmante da pesquisa reside na segunda maior cidade do estado. Durante 31 anos, Mossoró foi um “deserto” de captações. No entanto, o dinheiro para a cultura estava lá.

Entre 1992 e 2023, treze empresas mossoroenses destinaram mais de R$ 6,1 milhões para projetos culturais via Lei Rouanet. O paradoxo? Quase a totalidade desse valor foi “exportada” para financiar projetos na Bahia, Ceará e na região Sudeste. Até 2022, nenhum projeto estruturante dentro de Mossoró havia recebido um centavo sequer destas empresas locais através deste mecanismo.

É um cenário onde a riqueza local financia a cultura alheia, enquanto os artistas da terra desconhecem o caminho para aceder a estes recursos.

O jejum só foi quebrado em 2022, e para 2025, o cenário começa a mudar com 14 projetos autorizados a captar recursos na cidade, incluindo o Festival Gastronômico de Martins, Danças a Dois e Música, Polo Cultural da Caatinga, Femea e Skateverso.

A Hegemonia de Natal

A concentração territorial é outra marca indelével. Natal concentra mais de 80% dos recursos captados no estado. Dos 167 municípios potiguares, menos de 20 alguma vez acessaram à lei, o que significa que 85% das cidades do RN estão tecnicamente excluídas do principal mecanismo de fomento cultural do país.

Quem Mantém a Cultura Viva?

Se a cultura potiguar respira, é em grande parte graças às grandes empresas. A Petrobras, a Transpetro e a Cosern lideram o ranking histórico de patrocinadores, seguidas pelo Banco do Nordeste e a Vale S.A. No setor privado, ainda se destacam nomes como Guararapes Confecções e o grupo gaúcho Companhia Zaffari surgem como investidores recorrentes.

Empresa / Patrocinador Valor Total Investido (Estimado) Perfil
Petrobras / Transpetro $> R\$ 3.000.000,00$ Estatal
Cosern (Neoenergia) $> R\$ 3.000.000,00$ Privada (Energia)
Banco do Nordeste (BNB) $> R\$ 1.000.000,00$ Estatal
Companhia Zaffari Relevante (Sede no RS) Privada (Varejo)
Tramontina Relevante (Sede no RS) Privada (Indústria)
Guararapes Confecções Relevante (Local) Privada (Têxtil)
Votorantim Relevante Privada (Conglomerado)
M. Dias Branco Relevante Privada (Alimentos)

Apesar dos desafios, os números recentes trazem otimismo. O RN atingiu recordes de captação em 2024 (R$ 4,85 milhões) e a previsão para 2025 já ultrapassa os R$ 5,1 milhões.

Gargalo

A análise identifica que o principal entrave não é a falta de dinheiro, mas a falta de informação.

  1. Para os Artistas: O medo da burocracia e a dificuldade em elaborar projetos que atraiam empresas.
  2. Para as Empresas: O desconhecimento de que o incentivo é feito através da renúncia fiscal (Lucro Real), ou seja, um investimento sem custo direto para o caixa da empresa.

Atualmente, apenas 4,34% dos projetos aprovados no RN conseguem efetivamente captar recursos.