O Potiguar
A movimentação frenética na Assembleia em busca de votos para uma possível eleição indireta cria a ilusão de controle, mas esconde um dado central que até agora publicamente na imprensa especializada ninguém notou, mas toda a classe política já incorporou ao cálculo: hoje, esses acordos valem pouco ou nada. A disputa real só começa quando o Judiciário abrir formalmente o processo e as candidaturas estiverem na mesa. Nesse momento, a governadora já terá deixado o cargo, a máquina estará desligada e governo e oposição disputarão em condições muito mais simétricas do que se imagina agora. Promessas feitas no calor das conversas de bastidor tendem a evaporar quando a correlação de forças muda.
Sem o controle do Executivo, a capacidade de garantir compromissos cai drasticamente. Qualquer acerto firmado agora pode ser facilmente superado por uma oferta melhor da oposição amanhã. Deputados passam a negociar sem amarras, e a chance de traição cresce exponencialmente. A governadora, que hoje ainda centraliza decisões, corre o risco de ficar refém de um jogo em que não terá como cobrar fidelidade nem impor custos políticos a quem descumprir acordos. A história recente mostra que esse é um terreno escorregadio: o precedente da Bahia, quando Rui Costa evitou deixar o cargo em 2022 para não abrir um flanco de incerteza, é um alerta claro.
O problema, portanto, não é apenas aritmético — “quantos votos existem” e todos os analistas estão errando neste ponto —, mas estratégico. Insistir numa operação sem máquina, dependendo de deputados da oposição para vencer uma eleição indireta e sustentar um governo tampão, pode comprometer não só as nominatas e o projeto de 2026, como também o próprio legado político de Fátima Bezerra. O risco maior é abrir espaço para que adversários desconstruam, a partir de dentro, o que foi construído ao longo dos governos. Ou há uma solução institucional clara, com o vice assumindo, ou a insistência nesse caminho pode transformar a jogada em um erro histórico.