Por Celso Rocha de Barros*
Folha de S. Paulo
Flávio Bolsonaro é aliado de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A Polícia Federal considera Bacellar “o chefe do núcleo político do Comando Vermelho”.
Ou seja: se o Departamento de Estado americano estiver certo, Flávio é aliado de um importante líder terrorista.
Flávio Bolsonaro também já se declarou “irmão” de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O Master tinha relações tão próximas com a Reag Investimentos, acusada de lavar dinheiro do PCC, que, segundo matéria desta Folha de 28 de agosto de 2025, administrava o fundo que era dono da casa de Daniel Vorcaro.
Ou seja, se o Departamento de Estado americano estiver certo, Flávio Bolsonaro ganhou R$ 60 milhões inexplicáveis de um sócio da turma que lavava dinheiro do grupo terrorista PCC.
Discordo do Departamento de Estado americano: embora o CV e o PCC de fato mantenham um reinado de terror nos territórios que ocupam, isso é diferente do que faz a Al Qaeda, ou do que fazia o IRA irlandês: CV e PCC não têm objetivos políticos ou ideológicos.
O único argumento realmente bom a favor da nova definição proposta pelo Departamento de Estado americano é justamente o conjunto de vínculos suspeitos entre o CV, o PCC e o bolsonarismo.
Afinal, o bolsonarismo realizou o único atentado terrorista incontestável de nossa história recente: a tentativa de explodir o aeroporto de Brasília na véspera de Natal de 2022, conduzida por um ex-assessor do ministério de Damares Alves e um comparsa. Um dos terroristas, inclusive, estava no Congresso no dia 30 de novembro de 2022, quando a bancada bolsonarista se reuniu para pedir golpe de Estado.
O atentado da véspera de Natal se encaixa muito melhor na definição tradicional de terrorismo do que as barbaridades perpetradas por CV e PCC. Os terroristas de Brasília buscavam, por métodos violentos dirigidos à população civil, criar um clima de caos que levasse a uma adesão dos militares à tentativa de golpe de Estado conduzida por Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro é o herdeiro da liderança do movimento que fez o atentado da véspera de Natal em 2022. Mesmo assim, sou generoso o suficiente para hesitar antes de chamar Flávio Bolsonaro de terrorista.
O que nos resta investigar é se Flávio e outros líderes bolsonaristas são criminosos comuns, como os do CV ou os do PCC.
As novas descobertas da Polícia Federal mostram que o dinheiro dos aposentados roubado pelo governo bolsonarista do Rio de Janeiro e transferido à quadrilha Banco Master chegava a quase R$ 4 bilhões. Ainda na semana passada, foi feito um acordo para fechar um rombo de R$ 6,5 bilhões do BRB que o governo bolsonarista do Distrito Federal deu para o Master.
Discordo de quem acha que Flávio Bolsonaro, o CV e o PCC são terroristas, mas respeito os argumentos de quem acha que são.
O que é indiscutível é que não podemos deixar Flávio usar essa polêmica para abafar um escândalo que tirou de cofres públicos administrados por bolsonaristas um mínimo de R$ 10 bilhões que poderiam ter sido usados para treinar e pagar o salário de um policial para patrulhar a rua em que você mora.
Ao invés disso, foram gastos com surubas de políticos de direita, uísque em evento de US$ 1 milhão e o filme do Bolsonaro.
*É Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e autor de “PT, uma História”.
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