Paulo Freire (Foto: divulgação/vídeo/TV Senado)

Há 100 Anos, nascia o notório educador Paulo Freire

Alexandre Carvalho

Aventuras na História

No início dos anos 1960, o achocolatado em pó mais famoso da Nestlé no Brasil já marcava presença em comerciais de televisão, que exibiam sua embalagem ao som de um jingle que repetia o nome do produto: “Nescau, Nescau…” Um fã dessa propaganda era um menininho de apenas 2 anos na época, Lutgardes Costa Freire.

Tanto que, um belo dia, num passeio de jipe com seu pai, a criança reconheceu a lata do produto numa placa em cima de um ponto de ônibus. Apesar de ainda estar na fase de ensaiar as primeiras frases, imediatamente começou a repetir “Nescau, Nescau…” e a mimetizar a letra da canção publicitária.

Esse evento singelo de família, aparentemente sem nada de incomum, entrou para a História: a associação da figura com a palavra foi a lâmpada acesa que inspirou o pai do garoto, o educador Paulo Freire, a elaborar uma metodologia inovadora de alfabetização.

Experimentando a partir daquela ideia, esse intelectual pernambucano, nascido em 1921, no Recife, concluiu que o bê-á-bá precisava partir das experiências de vida das pessoas. Seu filho havia “lido” o Nescau da placa porque o termo era presença constante do seu cotidiano.

Diferente das cartilhas à base de “vovó viu a uva”, Freire descobriu que poderia acelerar a alfabetização trabalhando a partir de “palavras geradoras”, que fizessem parte da realidade do aluno. Algo que podia fazer sentido tanto para crianças quanto adultos.

Aproximar a aprendizagem dos fatos da rotina significava mais do que agilizar o processo de ler e escrever. Era um estímulo pedagógico para quem antes queria distância da sala de aula, simplesmente por não se encaixar nas formalidades do ensino tradicional – ainda mais naquele início conservador da década de 1960.

“O que mais me chamava a atenção era o respeito pelo analfabeto”, diz Marcos Guerra, que foi coordenador de um projeto educacional de Freire, no documentário Alfabetização em Angicos – A Pedagogia de Paulo Freire, do Canal Futura. “O respeito à cultura do analfabeto. O respeito à linguagem do analfabeto. Na época, predominavam as cartilhas, só com a linguagem do alfabetizador.”

Para Freire, essa aprendizagem pela prática dialética com a realidade era o contraponto perfeito ao que ele chamava de “educação bancária”, tecnicista e alienante que predominava nos ambientes escolares. Pelo seu método, o estudante criaria os próprios caminhos de aprendizagem em vez de seguir um padrão universal oferecido a todos.

Afinal, em suas individualidades, as pessoas podem, e devem, aprender de modos distintos. “Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”, ele disse. A teoria é bonita. Mas será que funciona na prática? Um experimento pioneiro no Rio Grande do Norte provou que sim.

Os 300 de Angicos

“Belota.” A palavra não faz sentido nenhum para um executivo andando de patinete motorizado na Avenida Faria Lima, em São Paulo, ou para um boêmio do Leblon, no Rio de Janeiro. Mas os sertanejos de Angicos, município pobre, a cerca de 170 quilômetros de Natal, sabiam bem em 1963 o que o termo significa: é como se chamam os enfeites das redes e dos utensílios dos vaqueiros.

Esse adorno foi o primeiro termo trabalhado no experimento que ficou conhecido como “As 40 Horas de Angicos”. O título vem de um resultado da experiência que parece mentira – ou milagre: nesse curto período de tempo, adultos analfabetos da cidade potiguar já conseguiam decodificar uma série de palavras que faziam parte do seu cotidiano.

E não se tratava de um grupo pequeno: foram 300 pessoas, entre homens e mulheres – a maioria, cortadores de cana da região. Estavam lendo e escrevendo numa velocidade impensável pelos métodos convencionais – com tudo o que essa conquista tem de transformadora.

Tudo começou em novembro do ano anterior, quando uma equipe de estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) chegou ao povoado com duas missões: levantar o vocabulário utilizado pelo povo local e divulgar a proposta de alfabetização que viria a se consolidar nos meses seguintes. E aquelas pessoas não haviam sido selecionadas por acaso.

“Angicos foi escolhida porque naquele contexto era o lugar em que havia o maior índice de analfabetismo do Rio Grande do Norte”, explica a pesquisadora Divoene Pereira. Cerca de 75% dos habitantes não sabiam ler e escrever até então.

As palavras

Desse levantamento do universo vocabular, 410 palavras foram registradas pelos pesquisadores e, dentre essas, umas poucas mais presentes estariam no centro do método de Paulo Freire que estaria sendo testado ali. Em janeiro de 1963, o próprio educador chegou com uma equipe para as aulas.

No dia 24, nada de português. O que se viu foi uma conversa descontraída sobre a realidade e a cultura local. Só quatro dias mais tarde, a palavra “belota” inaugurava as lições propriamente ditas. “A alfabetização era baseada em 12 a 15 palavras apenas”, explica Marcos Guerra, “que continham todos os principais fonemas da língua portuguesa”.

Além da simpática “belota”, os angicanos falavam muito em “Deus”, “esmola”, “triste”, “medo”, “chuva” e “conformação”. “Felicidade” foi uma ausência sentida pelos universitários que fizeram o levantamento. As palavras eram divididas em sílabas que iam sendo repetidas ao longo da aula, facilitando a compreensão; em seguida os alunos aprendiam as famílias silábicas, tornando-se capazes de formar novas palavras.

E novas ideias também: cada palavra merecia um debate, para que os estudantes, além de relacionar melhor forma e conteúdo, refletissem sobre a própria vida.

Quando o termo estudado era “trabalho”, por exemplo, a discussão em aula girava em torno de tudo o que dizia respeito às condições dos trabalhadores: remuneração, garantias, direitos… O método não se restringia à escrita e à leitura: envolvia inserir o indivíduo em seu contexto social e político, para que fosse capacitado ao exercício pleno da cidadania.

Em março, ao final dos trabalhos, dois testes foram aplicados: de alfabetização e de politização. E os resultados foram espantosos: 70% de aproveitamento. O sucesso do trabalho teve tamanha repercussão que a cerimônia de encerramento do projeto contou com a presença não apenas do governador do estado, mas também do presidente da República: João Goulart, na época.

Paulo Freire virava uma estrela da educação brasileira, e Jango, que era um entusiasta das reformas de base, aprovou a multiplicação dessas primeiras experiências num Plano Nacional de Alfabetização. A ideia era promover uma formação em massa de educadores que seguissem o método Paulo Freire e atuassem em 20 mil círculos de cultura Brasil afora.

Era uma revolução, sim, mas não a comunista que tantos temiam naqueles tempos de Guerra Fria, em que o país aliava-se aos Estados Unidos no esforço para conter a expansão da influência soviética na geopolítica mundial.

Era uma verdadeira reforma democrática. Pense que, à época, indivíduos analfabetos eram considerados cidadãos de segunda classe, que eram proibidos de votar. Quando a miserável Angicos foi transformada por aquelas aulas não convencionais, os alunos-cobaias não saíram do experimento apenas com a capacidade de escrita e leitura.

A cidade ganhava ali 300 novos eleitores. E em míseras 40 horas. Imagine a velocidade com que o analfabetismo seria derrotado no Brasil se a experiência fosse multiplicada, como queria João Goulart.

Mas, como a repetição de aventuras autoritárias já deixou claro, o Brasil nunca foi afeito à ideia de um povo politicamente consciente. Isso é coisa de comunista, pensaram os conservadores da época, que derrubaram Jango e suas reformas de base.  E, sendo assim, Paulo Freire também seria comunista – como ainda pensam, de forma anacrônica, muitos políticos de extrema-direita destes tristes trópicos.

Paulo Freire: orgulho nacional ou inimigo público?

Paulo Freire foi eleito inimigo do bolsonarismo (Foto: Divulgação/Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire)

Governantes e governistas do Brasil estão errados quando insistem em associar Paulo Freire ao marxismo (sempre por essa lente de que as teorias de Karl Marx são como xingar a mãe de Deus). Ele não era marxista, embora admitisse Marx como uma das influências possíveis de sua filosofia da educação. Mas chamá-lo de “herói da esquerda” e dizer que ele queria levar a política para a sala de aula são afirmações absolutamente corretas. (A política, não um partido, vale frisar.)

Desde o início de sua atuação como educador, Paulo Freire defendeu que a aprendizagem deveria vir sempre acompanhada da consciência política. Aliás, esta não respira sem aquela. E que esse conhecimento está na essência da própria cidadania.

Quando voltou ao Brasil, após o exílio, Freire filiou-se ao PT e tornou-se secretário de Educação quando Luiza Erundina foi prefeita de São Paulo (1989-1993). Na época, apresentou uma proposta de educação pública, popular e democrática, plantando as sementes do que viriam a ser as parcerias público-privadas, Fies, Prouni, orçamento participativo… Ou seja, a política educacional que seria adotada nos governos petistas.

Enfim, ao longo de toda a sua vida como educador, filósofo e pensador político, Paulo Freire foi sempre, antes de qualquer outra identificação, um humanista, que pretendia mudar o mundo (ou pelo menos o Brasil) democratizando o acesso à escrita

e à leitura, essas janelas para a liberdade individual e coletiva. Era um revolucionário, sem dúvida, mas sem nada de agente soviético de filme do James Bond.

“Nos anos 1960, fui considerado um inimigo de Deus e da Pátria, um bandido terrível. Hoje diriam que eu sou apenas um saudosista das esquerdas.”

Orgulho ou inimigo?

Quando ainda estava na campanha presidencial, em 2018, questionado sobre o que pensava do Ministério da Educação, o então candidato Jair Bolsonaro soltou uma de suas declarações de tom belicista: se eleito, iria “entrar com um lança-chamas no MEC e tirar o Paulo Freire lá de dentro”.

Sua intenção não pretendia ser literal, obviamente. Talvez até pretendesse mesmo botar fogo no ministério, para incendiar os “ensinamentos marxistas” que, na concepção dele, dominam a educação brasileira. Mas não podia querer queimar Paulo Freire vivo. Afinal, o educador já estava morto desde maio de 1997, de um ataque cardíaco em função de complicações ocorridas numa operação de desobstrução de artérias.

A estratégia de confundir políticas democráticas de educação com comunismo não começou com Bolsonaro. Em 1964, os militares que implantaram um regime ditatorial no Brasil imediatamente extinguiram o Plano Nacional de Alfabetização.

E, não satisfeitos, prenderam Paulo Freire por 70 dias, acusado de traidor da pátria. Solto, foi prontamente exilado, passando brevemente pela Bolívia antes de se instalar por cinco anos no Chile, onde atuou para a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, após um trabalho voltado para a reforma agrária.

Foi justamente durante esse exílio chileno que Freire escreveu seu primeiro livro, Educação como Prática da Liberdade. Um título que não deveria ter agradado aos militares brasileiros na época, mas que fez sucesso internacional – a ponto de Paulo Freire ter sido convidado para ser professor visitante na Universidade Harvard em 1969.

À época, o educador já havia concluído também seu terceiro, e mais importante, livro: Pedagogia do Oprimido. Ainda passou um ano em Cambridge, antes de se mudar para Genebra. Só voltaria ao Brasil em 1979, com a Anistia de Geisel, que acabaria culminando com o fim da Ditadura Militar em meados da década seguinte.

De lá para cá, enquanto sua popularidade no Brasil teve altos e baixos, de acordo com a ideologia do governo da vez, seu reconhecimento no exterior só aumentou. Além de ter recebido 35 títulos de Doutor Honoris Causa, de universidades europeias e americanas, ele ganhou o prêmio Unesco de Educação para a Paz em 1986.

Patrono do Brasil

Uma pesquisa feita entre os estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná revelou que Paulo Freire é o segundo nome mais escolhido para escolas públicas – só perde para Monteiro Lobato, e vem logo à frente de Tancredo Neves. Não à toa, uma lei sancionada em 2012 declarou-o Patrono da Educação Brasileira.

Mesmo recentemente, ele retornou às manchetes dos jornais e dos portais de internet. Agora por causa de um desdobramento do movimento antirracista que acontece nos Estados Unidos: na Faculdade de Educação da Universidade Columbia, em Nova York, uma das mais prestigiadas do planeta, seu nome está cogitado para substituir o de Edward Thorndike como o homenageado de um prédio do Teachers College.

Thorndike é um psicólogo que foi conhecido por manifestar ideias racistas, machistas e antissemitas – tudo o que não deveria ser homenageado nunca. A importância de Freire só passou a ser desmerecida quando a extrema-direita assumiu o Palácio do Planalto.

Jair Bolsonaro não perde uma chance de cutucar o fantasma do recifense. Já eleito, em dezembro do ano passado, o presidente voltou a atacar o fantasma do educador. Ao anunciar que não pretendia renovar o contrato com a TV Escola que, segundo ele, promovia “ideologia de gênero”, Jair declarou: “Os caras estão há 30 anos [no Ministério], tem muito formado aqui em cima dessa filosofia do Paulo Freire, esse energúmeno, ídolo da esquerda”. O dicionário explica que os significados do termo energúmeno são os seguintes: “desprovido de inteligência”, “boçal”, “bronco”, “ignorante”.

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