Criado em setembro do ano passado pelos pesquisadores Bruno Ernesto Clemente, Geraldo Maia do Nascimento (Gemaia) e Lemuel Rodrigues, três dos nossos maiores historiadores, o Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró (IHGM) está sendo solenemente ignorado pela Prefeitura de Mossoró nas celebrações que estão previstas para o centenário do ataque de Lampião à cidade no ano de 1927.
Uma comissão publicada no Diário Oficial de Mossoró (DOM) da última quinta-feira (13), traz nomes de instituições de relevância para Mossoró, mas que só estarão discutindo a temática do ataque de Lempião a Mossoró por conta, principalmente de três obras basilares deste evento histórico, publicadas pela Coleção Mossoroense, hoje, justamente sob a guarda do IHGM.
Não se pode estudar o episódio do ataque do rei do cangaço a Mossoró sem ler “Lampião em Mossoró”, de Raimundo Nonato; “A Marcha de Lampião”, de Raul Fernandes, filho do então prefeito Rodolfo Fernandes e “Nas Garras de Lampião”, Diário de Antônio Gurgel. Obras que o Instituto agora abriga em seu acervo, visto que é, agora, o fiel responsável pelo acervo da Coleção. Mas isto parece não ter qualquer relevância para a Prefeitura de Mossoró.
Ironicamente o acervo da Coleção Mossoroense e o Instituto, são abrigados, no momento, nas instalações da Biblioteca Pública Ney Pontes Duarte. O presidente da instituição, o advogado Bruno Ernesto, publicou uma nota em nome do Instituto onde externa a sua incompreensão diante da ausência de tão importante mecanismos em data tão significativa para o município, confira abaixo.
“Mossoró/RN, 14 de agosto de 2026.
Carta aberta à população de Mossoró
O Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró, fundado em 10 de setembro de 2025 e com sede no Prédio da Biblioteca Municipal Ney Pontes, tem como finalidade ser um espaço para pesquisadores, mestres da cultura e demais profissionais das artes e letras discutirem sobre as narrativas memoráveis, produções geográficas e historiográficas que tratam sobre a cidade de Mossoró.
Tributário do acervo pessoal do intelectual mossoroense Jerônimo Vingt-Un Rosado Maia e da Coleção Mossoroense, selo editorial criado em 1949, o IHGM possui biblioteca e acervo documental referente à História e a Memória da cidade de Mossoró. Essa documentação referência o trabalho de intelectuais e memorialistas que ao longo de décadas se debruçaram ao delicado trabalho de escrita da história mossoroense, bem como ao acesso dessas fontes para a produção acadêmica em nível de graduação e pós-graduação.
Essa produção é tão importante do ponto de vista histórico que, além de expressar as seleções do que deveria ou não ser lembrado como passado da cidade, revela os procedimentos da construção do calendário cívico local e de seus comemoracionismos.
Sua dimensão política se constitui e é constituinte dos mais diversos lugares e pessoas e corresponde ao esforço de dezenas de autores em evidenciar acontecimentos como a fundação da cidade, motim das mulheres, libertação dos escravizados e escravizadas, voto feminino e ataque e resistência aos cangaceiros comandados por Lampião.
Com todo esse lastro, o IHGM é imprescindível a organização e fundamentação histórica para atividades comemoracionistas pensadas sobre e para a cidade de Mossoró. Sua
importância reside na capacidade documental para fundamentar contextualmente qualquer produção artística ou acadêmica que trate da memória ou da História mossoroense.
Diante de sua capacidade em colaborar com instituições públicas e privadas para a reflexão sobre Mossoró, como fica evidenciado no Termo de Colaboração n. 01/2026 assinado entre a Fundação Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM e a Prefeitura Municipal de Mossoró, causa estranheza saber que o IHGM não foi relacionado a contribuir para as comemorações organizadas pela Prefeitura Municipal de Mossoró sobre o Centenário da Resistência Mossoroense ao bando de Lampião, conforme Portaria nº 78, de 13 de agosto de 2026, e publicada no Diário Oficial do Município (DOM) nº 884, de 13 de agosto de 2026, assinada pelo Secretário-Adjunto do Governo do Município de Mossoró e Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Centenário da Resistência de Mossoró, Sr. ETEVALDO ALMEIDA DA SILVA.
Essa atitude do Poder Público Municipal revela uma leitura singular sobre o uso do passado da cidade e uma falta de consideração à memória daqueles que se dedicaram à seleção de documentos e organização de arquivos para a efetivação dos trabalhos da memória e a escrita da história de uma cidade que tem em seu passado a força da narrativa sobre o pioneirismo e a resistência.
Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM
Sócios subscritores
Bruno Ernesto Clemente
Geraldo Maia do Nascimento
Lemuel Rodrigues da Silva
Antônio Kydelmir Dantas de Oliveira
Marcílio Lima Falcão
Francisco Honório de Medeiros Filho
André Felipe Pignataro Furtado de Mendonça e Menezes
Benedito Vasconcelos Mendes.”
