Em parceria com o Blog do Dina, o Blog do Barreto teve acesso a decisão judicial que resultou na da Operação Mederi, conduzida pela Polícia Federal hoje. O documento traz detalhes de conversas interceptadas.
A Polícia Federal suspeita de um sofisticado esquema de corrupção e desvio de verbas federais destinadas à saúde de prefeituras no Rio Grande do Norte, tendo a de Mossoró como epicentro.
Um dos diálogos interceptados nas investigações está o que os envolvidos apelidaram de “Matemática de Mossoró”, uma fórmula de divisão de propina que, segundo as autoridades, irrigava o sistema político local com recursos públicos.
O diálogo da “Matemática”
O ponto central da acusação baseia-se em interceptações ambientais realizadas na sede da empresa DISMED. Em conversas gravadas, os empresários Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares discutem abertamente a partilha de valores oriundos de contratos com o município.
De acordo com o relatório da Polícia Federal, a “Matemática de Mossoró” consistia em percentuais fixos de retorno sobre o faturamento:
- 15% para “o homem”: A autoridade policial identifica este beneficiário como o atual prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra. Nos diálogos, os empresários referem-se a ele como “o homem”, termo utilizado de forma inequívoca no contexto da gestão municipal.
- 10% para “Fátima”: Outro percentual seria destinado a uma figura identificada apenas pelo nome de “Fátima”, também ligada à estrutura administrativa ou política do município.

“Não pode errar na conta”
Em um dos trechos mais comprometedores, os investigados demonstram preocupação com a precisão dos pagamentos. José Moabe chega a orientar que os cálculos sejam feitos com cautela para que não haja divergências no repasse aos agentes políticos.
A investigação aponta que esses valores eram viabilizados através de superfaturamento e da emissão de notas fiscais por produtos (como medicamentos e insumos médicos) que nunca chegaram integralmente aos postos de saúde de Mossoró, apesar de terem sido pagos pela prefeitura.

Logística
Para evitar o rastro bancário, o grupo utilizava uma logística de saques vultosos. A decisão cita que Oseas Monthalggan foi flagrado realizando saques de cerca de R$ 49.000,00 em agências de Mossoró para realizar os pagamentos em “cash” (dinheiro vivo).
Além disso, a Polícia Federal identificou o uso de empresas de fachada e até um posto de combustíveis da família Soares para lavar o dinheiro e gerar o caixa necessário para o pagamento das vantagens indevidas.
A “Matemática de Mossoró” não funcionaria sem o apoio de gestores internos. A decisão judicial lista nomes de secretários e fiscais de contrato que facilitariam o atesto de recebimento das mercadorias. Entre as medidas determinadas pela Justiça, está a proibição de que os principais investigados acessem as dependências da Prefeitura de Mossoró e a suspensão imediata de contratos ativos com as empresas envolvidas.
