O fetiche do centro

Por Raul Jungmann*

Brada a oposição: “precisamos construir, agora, um centro para se contrapor eleitoralmente ao atual governo, sob pena de as chances da reeleição do presidente serem crescentes”. Mas é preciso lembrar que nas sete eleições presidenciais, de 89 para cá, isso nunca ocorreu, mesmo quando o incubente do turno disputava a reeleição.

O menor número de concorrentes foi em 2002, num total de seis, que foram 22 em 1989. Ao longo desses mais de trinta anos, todos os players que se acreditavam capazes estiveram na disputa, mesmo que remota fosse a chance, ou para se cacifarem a pleitos futuros. E assim, julgo, se repetirá em 2022.

Em um regime democrático de livre competição e com eleições em dois turnos, a aglutinação de partidos e candidatos em um “centro” não tem incentivos suficientes para se concretizar num primeiro turno.

Reunião de todos, de um e de outro lado, governo versus oposição, só aconteceu durante o regime militar, fruto do bipartidarismo. Que, afinal, teve que ser implodido pelo próprio regime em 1979.

A preocupação das forças ditas de centro, tanto de esquerda, quanto de direita, se justificaria pela chance concreta de um segundo turno ser disputado pelo Partido dos Trabalhadores e o bolsonarismo – o que é uma possibilidade real – e ter pela frente uma escolha de Sofia.

Acresce às angústias dos “centristas” o fato de até aqui nenhum dos pretensos candidatos de centro ter despontado como alternativa eleitoralmente viável e com capacidade de unir os diversos partidos e tribos distribuídas pelo seu vasto espectro.

Essa ansiedade por uma candidatura desde já com potencial de polarização tem sua razão de ser, mas ela é precoce e sinônimo de insegurança, face o tempo que resta para a disputa presidencial, além das eleições municipais no meio do caminho.

É cedo para tal e, por ora, melhor seria investir na formação de uma frente democrática que firmasse o compromisso de uma aliança em torno do candidato que chegar ao segundo turno. Tal frente poderia se propor um programa mínimo, comum a todos os competidores tidos como de centro.

Os principais pontos desse compromisso devem ser a defesa e o fortalecimento da democracia, a redução das desigualdades e a manutenção da saúde fiscal do Estado. E, desde já, procurando associar as críticas ao atual governo a propostas e soluções factíveis para os problemas vividos pelos brasileiros e brasileiras, sobretudo os mais vulneráveis.

*É ex-deputado federal, foi Ministro do Desenvolvimento Agrário e Ministro Extraordinário de Política Fundiária do governo FHC, Ministro da Defesa e Ministro Extraordinário da Segurança Pública do governo Michel Temer.

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