
Por Jessé de Andrade Alexandria*
Quando o tempo é de paz e há fartura no mundo, partilhado o pão, as divindades quedam-se, e ocupam-se de comezinhos afazeres divinos, conquanto, aqui e ali, aprestem-se para seus rituais.
Conta-se que, na África, os orixás, sem atribulações maiores, serenamente promoviam suas cerimônias e chamavam seus filhos para celebrá-las com eles. E assim foi durante longo tempo.
Mas houve uma vez em que Orunmilá, divindade que reinava quando o Céu e a Terra viviam em harmonia, retirou-se para o Orum (o Céu). A peste, a desgraça e a fome se abateram sobre a Aiê (a Terra). Olouó, rei da cidade de Ouó, um dos oito filhos e Orunmilá, não se resignou em prostrar-se aos pés do pai, recusou-se a prestar-lhe as devidas homenagens. Disse Olouó que, tanto quanto o pai, possuía preciosas sandálias, roupas de finos tecidos, cetro e coroa, atributos que os igualavam em honra e fortuna: “Meu Pai, aquele que possui uma coroa não deve prostrar-se diante de outro” – disse Olouó, cabeça altiva, olhar firme para o horizonte.
Orunmilá, encolerizado pela indignidade do filho, arrancou o cetro da mão de Olouó e atirou o bastão longe (crê-se que o jogou no abismo, quando os continentes ainda não haviam sido separados). E retirou-se. Foi viver definitivamente no Orum. Desde então, o infortúnio e a peste reinam sobre a Aiê.
Céu e Terra divorciados, Orunmilá permaneceu mudo e de ouvidos moucos para a Aiê e para os homens. Homenagens lhe foram prestadas – cantos, sacrifícios, oferendas tantas -, até que, um dia, sensibilizado pela resignação e tristeza dos habitantes da Aiê, Orunmilá se compadeceu.
Não se diz qual foi a atitude de Olouó, mas se imagina que também se tenha arrependido de sua própria insolência e do que significara o sacrifício de o pai ter-se ido para o Orum.
Orunmilá não foi dissuadido quanto a reatar seus laços com a Aiê, mas, com ânimo serenado, aceitou as oferendas e prendas e entregou aos seus oito filhos dezesseis nozes de dendê, para que os homens, quando tivessem atribulações e problemas, consultassem o Ifá (o oráculo).
Orunmilá jamais retornou à Aiê, mas deixou o oráculo para os homens, para que, através deste, pudessem a ele recorrer. Os filhos de Orunmilá, ora chamados Odus (assim como são odus seus vaticínios), profetizam e adivinham o futuro: os nascimentos e as mortes, a saúde e a doença, a fortuna e a miséria, a escassez e a opulência, a guerra e a paz, os ganhos e as perdas, a amizade e a traição, o destino e a sorte, a ascensão e a queda.
Talvez se tenham passado milênios (não se compreende bem o tempo dos deuses), desde que Orunmilá foi viver no Orum.
O fato é que, presentemente, no país em que os habitantes escolheram o bufão do Parlamento para governá-los, o Ifá reapareceu como um Odu (ou melhor, o Odu apareceu como um Ifá), todavia, anunciaram-no como um sereno jacobino negro. O povo diz que se chama Toussaint L’Ouverture (os jornais e a internet o noticiam) e que tem origem, peregrino e imigrante, refugiado (como também o chamam), no Haiti dos revolucionários anticolonialistas de São Domingos.
O bufão presidente, rodeado de asseclas que mugem e o amparam nas palavras, vacila em frente ao Palácio da Alvorada. Seu passo é janiescamente errático. Uma cerca baixa, um alambrado, separa-os de uma claque, que sempre os acompanha toda vez que saem do Palácio.
Mas, dentre todos eles, sobressai o jacobino negro. Toussaint L’Ouverture, talvez seja esse mesmo seu nome. Negro, altivo, sua voz modulada e abaritonada é suave, quase não se altera, quando chama o bufão presidente, enquanto a claque saca de suas bolsas e bolsos smartphones com que tiram selfies e fotos do pretenso déspota:
– Senhor. Senhor.
Na Terra, a Peste se abateu sobre os homens, decretaram a quarentena em muitos países. Há fartura para poucos, escassez para muitos, e os seres humanos necessitam uns dos outros de um modo que não se via há muito tempo. Enquanto o Capitalismo principia sua lenta agonia, os médicos dão nome à Peste: covid-19, causada por coronavírus, agente infeccioso que supostamente se originou na China, muito embora alguns afirmem que possa ter surgido em laboratórios de armas biológicas nos EUA. A letalidade é considerável, por vezes alta, e a potencialidade do contágio é enorme: pelas mãos, saliva, pelo ar quando se tosse ou se espirra, a partir das superfícies das coisas infectadas etc.
Em alguns países, como a Itália, a situação é calamitosa, mas, ainda assim, na Península, as pessoas cantam à janela a imprescindível Bella Ciao: Una mattina mi son’ svegliato/ O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao/ Una mattina mi son’ svegliato/ E ho trovato l’invasor... A pestilência se transformou em pandemia e, tal qual o fascismo, quer alastrar-se.
Pairam dúvidas sobre se o bufão presidente foi ou não infectado pela Peste. Uma semana atrás, suspeitou-se de que ele a contraíra. Dias atrás, ele não usou máscara em público numa manifestação contra o Parlamento e a Suprema Corte (ele próprio a convocara, pois quer o golpe dentro do golpe, intenta proclamar-se autocrata), apertou as mãos das pessoas, tirou fotos e selfies com elas, como se nada houvesse acontecido, a despeito das recomendações de seu ministro da Saúde e de um suposto exame positivo, que logo foi contradito por um de seus filhos. O bufão presidente teima em não apresentar o resultado de seus exames à imprensa e ao povo. Há muitos infectados em seu entorno, ministros, secretários, aduladores. Ele é um incorrigível mitômano. Não seria diferente com relação à Peste.

Voltemos à cena. Ainda está ele, o bufão presidente, defronte ao Palácio, boca e olhos de tubarão faminto (não usa maquiagem), ladeado por asseclas que o amparam nas palavras, próximo a pessoas que mugem em sua homenagem, sua claque inarredável. Semanas atrás, terceirizou outro bufão para que, ao fazer-lhe as vezes, animasse seu auditório, que recebeu bananas do fâmulo de palhaço, um pretendido escárnio à imprensa, que sempre lhe fora cordata. Os carros oficiais haviam parado para que descessem o bufão presidente e seus sequazes; as sirenes não ganem, apenas cintilam suas luzes desbotadas.
Uma mulher diz: – Deus te abençoe, Presidente!
Outra fala: – Deus te proteja, Presidente!
Outros gritam: – Mito, mito, mito!
Ele para, acena aos que mugem, pede que cessem com os elogios (o bufão presidente é humilde) e pergunta se há questionamentos. Sim, há-os, muitos.
O Ifá se apresenta, diz que tem uma pergunta e fala algo compreensível na língua dos homens:
– O Senhor não recebe as mensagens que lhe envio?
O bufão presidente lhe pergunta qual é a sua nacionalidade, não indaga de onde a divindade vem. O Oráculo diz que vem do Haiti e que sabe falar a língua dos viventes de cá, mas enuncia algo incompreensível aos ouvidos humanos, que parece fazer parte do rito, o odu. E continua em sua profecia:
– Você sabe muito bem o que escolher para dirigir o país.
O bufão presidente diz que não o entende, mas é contestado pela divindade:
– Você está entendendo bem, eu estou falando sua língua.
O bufão presidente, os dedos das mãos entrelaçados, se põe em posição de respeito diante da divindade, embora não se curve. A claque, atônita, não consegue entender o que diz o Ifá, que dirige sua profecia apenas ao pretenso autocrata, como se uma divindade personificada numa gazela passeasse entre hienas, às margens de um lago, na savana do cerrado, sem que estas, estáticas, pusessem em marcha seu instinto natural. E o oráculo prossegue:
– Bufão presidente, acabou. Você está recebendo mensagem no celular, todo brasileiro está recebendo mensagem no celular. Você não é Presidente mais. Você não é Presidente mais. Precisa desistir – enfatiza.
As hienas saem do transe, mas ainda não conseguem compreender o alcance do que significa a profecia. O rebanho tumultua, e o bufão caminha indeciso. Um pastor evangélico reza para anular a profecia, salmo 91, versos 9 e 10: “…praga nenhuma chegará à tua tenda…”.
Em vão.
Olouó desceu ao abismo. Viu o abismo e a fauna humana que nele habita. Depois de milênios, quer recuperar seu cetro, necessita conciliar-se definitivamente com o Pai Orunmilá. Como Ifá, pela primeira vez, não esperou que o consultassem. Acabou de realizar um pequeno milagre: ele mesmo veio ao abismo, no corpo de Toussaint L’Ouverture, entre os homens e em meio à Peste, para profetizar a queda de um palhaço que pensa governar uma nação.
*Inspirado no livro “Mitologia dos Orixás”, de Reginaldo Prandi.
