Ortodoxos de mau humor, um sintoma de que as coisas não vão bem

Por Alon Feuerwerker*

Um indicador importante do andamento da política econômica é o humor dos economistas que defendem a política econômica. E eles estão de mau humor, com razão. O Poder360 listou os números mais recentes 2ª feira, bem no meio do feriado prolongado, e são desanimadores.

Na imprensa e nas redes sociais, os chamados ortodoxos têm escorregado para a desqualificação dos adversários. É sempre um sintoma.

A escolha dos adversários do PT em 2015/2016 não era simples. A economia do 2º mandato de Dilma Rousseff estava em frangalhos, produzia-se uma recessão de tempos de guerra.

O PT chegaria à eleição de 2018 com a missão duríssima e monotemática: responder por que tinha conduzido o país ao desastre. Mas deixar o PT no poder era arriscado. O partido já tinha mostrado 3 vezes que no governo tem o know-how para ganhar eleição.

O que aconteceu todo mundo sabe, e o governo Michel Temer assumiu com um objetivo: melhorar a economia e chegar a 2018 com o mérito de ter salvo o país do desastre produzido pelo PT.

O argumento eleitoral seria automático. “Você quer que o Brasil continue se recuperando ou prefere a volta de quem quebrou o Brasil e produziu a recessão e o desemprego?” Para alcançar o alvo, a receita era mais disciplina fiscal e forte estímulo ao investimento privado.

Só que parece não estar funcionando. Nesta véspera de eleição a economia vai mal, o governo e o Congresso patinam e a oposição tem a oportunidade de fazer do debate um julgamento da política econômica de viés liberal.

Uma única bala para atingir 3 adversários: o do governo, Geraldo Alckmin e o próprio Jair Bolsonaro, que terceirizou o assunto para Paulo Guedes. Sem contar outros hoje menos votados, como João Amoêdo e Flávio Rocha.

É tentador demais. “Por que a economia afundou no governo Dilma? Porque ela abriu mão de impostos, acreditou que os empresários investiriam e gerariam emprego, mas os empresários preferiram colocar o dinheiro a juros. Aí a situação das contas públicas se deteriorou, o desemprego explodiu, o consumo despencou e a economia foi para o abismo. Se a gente ganhar em outubro, a política econômica vai ser a do Lula, e não a da Dilma.”

Note, leitor ou leitora, as aspas. Não discuto aqui se esses argumentos estão “certos” ou “errados”. Ou quanto de honestidade intelectual há nas teses lado a lado. Vou deixar isso para o interminável debate entre liberais e keynesiano-marxistas, polêmica que promete se prolongar até o fim dos tempos.

A discussão aqui é sobre percepção, o elemento decisivo nas campanhas eleitorais. Já que, para desgosto dos especialistas, a eleição é decidida pelos leigos.

O liberalismo entra em desvantagem na porfia. Terá de explicar que o resultado não é bom porque a dose do remédio foi insuficiente. Ou que a política atrapalhou a economia. Vão soar como desculpinhas.

A saída? Tentar deslocar o debate eleitoral da economia para a corrupção, sempre um tema popular. O problema? Uma disputa eleitoral centrada na denúncia da corrupção política não seria o melhor ambiente para um candidato “de centro”. #FicaaDica.

*É jornalista e analista político/FSB Comunicação

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