Um dos casos mais assombrosos da investigação da Polícia Federal e Controladoria Geral da União (CGU) que resultou na Operação Mederi, foi a aquisição de 1.000 unidades do medicamento Succinato de Metoprolol 100mg. Os registros mostram que o lote foi entregue à Prefeitura de Serra do Mel com apenas um dia de validade residual.
Na prática, o município pagou por um produto que se tornou impróprio para o consumo humano apenas 24 horas após o recebimento. Para os investigadores, essa prática não foi um erro administrativo, mas uma manobra para justificar o repasse de dinheiro público a empresas ligadas ao esquema, como a DISMED e a Drogaria Mais Saúde.
A auditoria revelou um descompasso absurdo entre a compra e o consumo. Em uma das Unidades Básicas de Saúde (UBS), a prefeitura enviou 600 comprimidos de Prednisona para um local que consumia apenas 25 unidades por mês — um estoque suficiente para dois anos. O resultado foi o descarte de 1.154 unidades do mesmo medicamento em maio de 2024, simplesmente porque o prazo de validade expirou nos depósitos.
Pior do que a validade curta era a não entrega. Em uma única nota fiscal analisada, no valor de R$ 89 mil, a CGU constatou que R$ 52 mil correspondiam a medicamentos que nunca entraram no estoque municipal, configurando um superfaturamento por “não entrega” de quase 60%.
No centro das investigações está o ex-vice-prefeito de Serra do Mel, José Moabe Zacarias Soares. Segundo a Polícia Federal, ele seria o “sócio de fato” da empresa DISMED, embora o nome não constasse formalmente no contrato social. A empresa, junto com a Drogaria Mais Saúde, teria recebido mais de R$ 5,4 milhões do município entre 2016 e 2025.
O suposto esquema contava com a conivência de servidores estratégicos:
- Alisson Bruno de Oliveira, que atuava como fiscal de contrato, atestando o recebimento de mercadorias que não existiam ou estavam vencidas.
- Clistenes Arruda de Azevedo Costa, coordenador da Central de Abastecimento Farmacêutico (CAF), responsável por gerir o fluxo de entrada e saída dos medicamentos.
O Impacto na Ponta
Enquanto o dinheiro fluía para as empresas investigadas, a população sofria com a falta de assistência básica. O desvio de recursos do Fundo Municipal de Saúde comprometeu tratamentos de hipertensão, diabetes e processos inflamatórios, já que o orçamento era consumido por compras superfaturadas ou por produtos que iam direto para o lixo.