Sejamos sensatos: negociação não é negociata

Por Tábata Amaral*

Em pouco mais de uma semana, participei de debates sobre renovação política, o engajamento de comunidades globais e a educação pública brasileira. Os contextos foram os mais diversos: as conferências aconteceram em Boston, Belém e São Paulo. Ainda assim, alguns temas foram comuns aos três encontros. O Brasil carrega uma agenda velha —na educação, por exemplo, ainda enfrentamos os desafios da alfabetização e da formação docente— enquanto o tempo urge por uma agenda nova, cada vez mais determinada pelas mudanças tecnológicas advindas de inovações como inteligência artificial e big data. Para além da nossa desigualdade crescente, da estagnação econômica e do descaso com a formação humana, foi consenso que a dificuldade de cooperação é uma das principais barreiras ao necessário arranque brasileiro. Em outras palavras: a crescente polarização ideológica está colocando em risco não apenas a nossa democracia mas também as nossas agendas sociais e econômicas.

Nos três contextos, a pergunta que imperava era: como rompemos o ciclo vicioso da polarização? A armadilha do “nós” contra “eles”, que dividiu a sociedade na última eleição, ao que tudo indica, não será fácil de desmontar. No entanto, só será possível construirmos um projeto de país se abandonarmos essa luta dos bons contra os maus —cada um se colocando sempre no exército dos bons, obviamente. O diálogo não pode se dar apenas entre iguais: é do encontro de diferentes que nascem as melhores soluções. Na prática, aprendi que é mais fácil construir consensos quando controlamos a emoção e racionalizamos o debate, e que a possibilidade de descobrirmos o que nos aproxima aumenta quando as discussões são temáticas e focadas em políticas públicas específicas.

Muitos me alertam que abraçar causas com paixão e dedicação —no meu caso, a busca por uma educação de qualidade para todos— pode me isolar. De acordo com essas pessoas, corro o risco de perseguir um caminho solitário, buscando um objetivo inalcançável, em um Congresso fragmentado. Não acredito. Sei, não apenas por estudo mas também por experiência, que a política pode transformar a realidade das pessoas. Além disso, para mim, o Congresso não é uma trincheira. Não sou a única pessoa comprometida não com a velha ou a nova, mas com a boa política.

Na Câmara dos Deputados, tenho pontes com diferentes grupos, dependendo do tema —não são sempre os mesmos atores nas diversas questões. Me identifico com as bandeiras do meu partido, e diariamente trabalho por uma mudança de práticas na política com parceiros que encontrei em movimentos como o Acredito e nos cursos de formação da Raps e do RenovaBR. Tenho grandes aliados na Frente Parlamentar Mista da Educação —sou coordenadora de ensino técnico e profissional— e aprendo diariamente com as líderes da Secretaria da Mulher, para a qual fui eleita terceira coordenadora adjunta para a coordenação da bancada feminina. Esses são alguns exemplos de grupos nos quais não apenas dialogamos e construímos mas também vamos além da ausência de ideias e abundância de chavões no flá-flu que impera nas discussões do plenário.

​P.S.: Respondendo à pergunta do presidente Bolsonaro sobre o que seria articulação, é a construção de consenso por meio do compartilhamento de poder ou, conforme defendo, o único caminho para a construção de um país mais inclusivo, desenvolvido e ético. Aguardamos ansiosamente que o presidente entenda que a ausência de negociação é tão ruim para a democracia quanto as antigas negociatas. ​

*É cientista política, astrofísica e deputada federal pelo PDT-SP. Formada em Harvard, criou o Mapa educação e é cofundadora do Movimento Acredito.

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