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Lula e José Mucio: dois conciliadores

Por Ney Lopes*

No atual contexto político e administrativo há um personagem discreto e atuante, que presta inestimáveis serviços ao país.

É o ministro da defesa, José Mucio Monteiro Filho, 74.

Político habilidoso e experiente, se autodefine como um “construtor de pontes”.

Político

Foi deputado federal, quando exerceu vários cargos no Congresso Nacional e ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais de Lula (2007).

Indicado para o Tribunal de Contas da União, presidiu a Corte, antes da aposentadoria, em dezembro de 2020.

Prova de fogo

Com estilo conciliador tem fácil acesso a civis, militares e parlamentares de todas as correntes políticas.

Nos primeiros dias à frente do Ministério da Defesa passou pela sua prova de fogo.

Percebeu certa dificuldade de diálogo, talvez pela contaminação política nas Forças Armadas, estimulada pelo ex-presidente Bolsonaro.

Ataques

A situação agravou-se com ataques de radicais às sedes dos três Poderes em Brasília, no domingo, 8 de janeiro.

O ministro optou por um caminho de diálogo com as instituições militares e foi à época incompreendido pelas facções radicais da esquerda.

O argumento era que seis dias antes dos atos de vandalismo, em Brasília, José Mucio dissera que as manifestações em frente aos quartéis faziam parte da democracia e deveriam se “esvair” aos poucos, sem repressão.

Riscos

A ala extremada entendia que o presidente estava em posição privilegiada de apoio político e que seria a hora de ir para cima dos militares.

O ministro José Mucio discordou e mostrou o seu pulso firme e solidário com o presidente Lula.

Comandou uma das áreas mais complexas do governo.

Resistiu a tais intenções e reafirmou com destemor e coragem que as Forças Armadas não articularam o golpe.

Ao final, recebeu do presidente Lula a declaração de que” fui eu quem o trouxe para cá vai continuar no cargo porque eu confio nele”.

Pacificador

No episódio descrito e outros, o ministro José Mucio se firma a cada dia nas ações políticas e administrativas do atual governo.

Vale lembrar que nos seus dois primeiros governos, Lula teve boa relação com os militares, quando foram lançadas diversas bases para programas estratégicos, ainda em curso.

Coesão

O ministro José Mucio é uma voz de conciliação, que se soma a do presidente Lula, inegavelmente também um conciliador.

A área militar que poderia ser a maior resistência ao governo, está coesa e sem tumultos.

É o resultado da experiência e lealdade do ministro da Defesa.

Por seu lado, Lula percebe, que sempre existirão riscos de antagonismos ao governo.

Nas decisões, ele adota a estratégia de usar a conciliação como meio de sobrevivência política e por isto não ouve àqueles – até integrantes da equipe ministerial –, que desejam desestabilizar o seu ministro da Defesa.

O resultado é que vem sendo construída, com eficiência, uma política pública de fomento da indústria de Defesa no Brasil, através da parceria Governo e Forças Armadas.

Olho aberto

*É jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federal – nl@neylopes.com.br – blogdoneylopes.com.br 

Este texto não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema. Envie para o bruno.269@gmail.com.

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De militares e milicianos

Por Eduardo Bueno*

Texto publicado originalmente no jornal Zero Hora

Sexta-feira passada, nas páginas de ZH, um certo capitão, ops, um certo tenente-coronel Zucco – o mesmo que recentemente apoiou a medida do já defenestrado ministro da Educação propondo que os alunos da rede pública cantassem todos os dias o hino nacional e escreveu que os 20 anos de regime militar foram “marcados pelo respeito aos direitos humanos” –, pois, em artigo publicado em ZH, o dito militar, que também é deputado estadual, teceu loas e boas ao exército nacional.

Dadas as declarações anteriores, jamais imaginei que vislumbraria sumo e suco nas palavras de Zucco. Devo confessar, porém – e sem necessidade de tortura (como aquela imposta durante os anos em que vivemos sob “uma democracia forte”) – que, dessa vez, concordei com quase tudo o que o nobre deputado militar escreveu. Como estudioso da história do Brasil, bem sei o quanto o pais deve às Forças Armadas – em especial quando elas se atem ao seu papel institucional e se mantém em seu lugar: a caserna.

Assim, estava eu feliz com a concórdia – afinal, longe de mim a “cizânia”, como disse ZH em editorial – quando, já no sábado, minha paz pascoal foi rompida por um vídeo postado pelo presidente da República (por meio de um de seus filhos, o 02). No dito filme, o guru-brucutu do presidente diz que as escolas militares não produziram nada “além de cabelo pintado e voz empostada”. E que “nos últimos 35 anos os milicos” só deram “cagada” e entregaram “o país aos comunistas”. Ou seja, o guru do presidente não gosta dos militares. Abalei-me. Estará havendo alguma dissidência interna? Talvez não, pois (embora o tenha postado) o presidente apagou o vídeo. E criticou seu guru – sem deixar, é claro, de elogia-lo.

Mas quero dizer que estou do lado daqueles que defendem o exército e sua “unicidade”. E mais: acho que raras vezes o Brasil precisou tanto das Forças Armadas como agora, e para uma tarefa que urge e se impõe: investigar, combater e erradicar as milícias. De fato, nada pode conspurcar mais a imagem de nosso exército do que a existência desses grupos que, não por acaso, são chamados de “paramilitares”, e cujos integrantes, em boa parte, são egressos do próprio exército ou da PM.

Julgo, no entanto, que tal tarefa deve passar ao largo de gente que, mesmo ligada ao exército, fala (ou deixa falar) mal dele. E mais: longe de quem apoia, elogia, condecora, premia, emprega (e eventualmente habita no mesmo condomínio e tem parentes que namoram) milicianos. Como creio que não é esse o caso do tenente-coronel Zucco, folgaria se ele e outros do seu naipe assumissem tal investigação. E logo.

As milícias precisam ser investigadas e erradicadas. Aqueles que as apoiam, premiam e empregam também. Mais cedo ou mais tarde, serão. Bem como também será o suculento caso dos laranjas do PSL, partido que o supracitado Zucco lidera no Sul. Mas essa outra investigação, creio eu, não deveria ficar a cargo dele.

*É jornalista e escritor.