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A guerra entre nós

Por Jean Paul Prates*

A invasão da Ucrânia pela Rússia já completa 10 dias e domina completamente o noticiário, as conversas e as intervenções nas redes sociais.

É como se já não houvesse mais pandemia, como se todos os atormentados pelas chuvas de Petrópolis, Minas e Bahia já estivessem abrigados em novas casas e como se o governo Bolsonaro não prosseguisse célere na dilapidação do patrimônio público, com a Eletrobras como bola da vez.

Em meio à avalanche de opiniões, análises e palpites — não raro escorados em distorções e notícias falsas — que emanam dos recém diplomados em geopolítica pelo whatsapp, seria interessante tentarmos olhar as consequências que esta guerra tem sobre o Brasil.

Sim, porque a agressão absolutamente injustificada da Federação Russa à Ucrânia, ainda que se desenrole a 12 mil quilômetros de nosso território, já tem e terá consequências sérias demais para os brasileiros para que nos limitemos ao diletantismo de assisti-la como a um Fla-Flu — ou a um Shakthar Donetsk x Dínamo de Moscou.

E não estou falando apenas do impacto diplomático, do resultado do mico planetário protagonizado pelo obscuro Jair — aquele com quem ninguém sequer cumprimentava nos coffee breaks do G-20 — que tenta posar de “conselheiro” de Putin enquanto dribla a imperiosa necessidade de se posicionar sobre a agressão ao povo e à terra ucraniana.

Esse é um constrangimento que vai passar, junto com o passageiro Jair, que logo mais já vai tarde.

Mais graves são os impactos econômicos e o efeito dominó que as desditas econômicas costumam impor à vida do nosso povo.

Sobre alguns desses efeitos, até teríamos governabilidade, caso tivéssemos governo. É o caso da absurda política de paridade de preço internacional, a PPI, que cota o petróleo produzido no Brasil nos valores praticados no mercado global. Só para termos uma ideia: o preço do barril de petróleo fechou em US$ 110 no mercado britânico, na última quinta-feira (3) — depois de bater nos US$ 120 durante o pregão.

Desde que a famigerada PPI foi adotada, no governo Temer, faço parte daqueles que alertam para os gravíssimos prejuízos decorrentes de se submeter um país autossuficiente em petróleo a essa gangorra que não podemos controlar.

Atualmente, sou relator no Senado de um projeto que pretende minimizar e oferecer o mínimo de controle sobre essa volubilidade.

Mas não se trata só de petróleo. Com a exclusão da Rússia do comércio global, os preços do pãozinho do café da manhã e dos produtos agrícolas também vão subir. E o trágico desse aspecto é que vendemos a governabilidade que tínhamos sobre a produção de fertilizantes em nome de uma modernidade — nome que os ultraliberais dão à torra da soberania para favorecer meia dúzia.

E foi assim que, nos últimos anos, nos tornamos muito dependentes de produtos russos utilizados como fertilizantes, produzidos a partir do petróleo. No processo de desmonte da Petrobrás, iniciado no governo Temer e intensificado por Bolsonaro, a empresa fechou uma unidade fabricante de fertilizante e vendeu a preço de banana outras três fábricas que o país possuía.

Em 2019, as unidades produtoras de Nitrogênio de Sergipe e da Bahia foram arrendadas por 10 anos para Unigel por valor igual a 3 meses de lucro.

Decisões como essa são resultado da falta de visão estratégica do governo e de uma política que entrega ao capital privado internacional a riqueza e a segurança de todos os brasileiros.

Nitrogênio, Fósforo e Potássio são elementos básicos dos fertilizantes. O Brasil não tem reservas de Fósforo e Potássio e importa esses produtos. Mas podemos produzir Nitrogênio a partir do petróleo e gás natural e sermos menos dependentes.

A Petrobras abriu mão de produzir Nitrogênio, fundamental para a agricultura, na medida em que ajuda na produção de aminoácidos e estimula fotossíntese. O governo optou por abrir mão desse instrumento, entregando um elemento fundamental à segurança alimentar a outros países.

A tragédia do conflito na Ucrânia assusta a todos os que querem a paz. Não deveria existir mais lugar em nosso planeta para guerras em que os únicos perdedores são os civis. Mas não há lado certo nessa história — geopolítica não é filme de super-heróis nem conto de fadas, onde há vilões e mocinhos.

O mundo é um grande sistema estruturado e interconectado, com relações —principalmente econômicas — intrincadas e diversas. A guerra eclode quando esse sistema falha e os fortes se impõem na marra. A Rússia entrou à força na Ucrânia, o que caracteriza uma guerra de agressão. Esse é um ato tão condenável quanto inúmeros outros atos imperialistas que sempre resultam em mortes e destruição.

A nós, brasileiros, cabe condenar a guerra que fustiga um povo, participar da solidariedade internacional aos flagelados pelo conflito — inclusive aos imigrantes de pele escura que também tentam escapar da Ucrânia — e pressionar por uma solução negociada que restabeleça a paz.

Mas também cabe refletir sobre o que significa soberania, prezar e defende-la. Afinal, não controlamos o mundo, mas podemos adotar as salvaguardas necessárias para que as decisões tomadas em países distantes — e sobre as quais não temos controle — não atormentem a vida do nosso povo.

*É senador da República pelo Rio Grande do Norte e líder da Minoria no Senado.

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