O financiamento público nos municípios do Rio Grande do Norte passou por uma mutação drástica nos últimos cinco anos. O que antes era um processo de convênios burocráticos e fiscalização rigorosa deu lugar às “Emendas Pix” (transferências especiais).
É o que mostra o levantamento do Blog do Barreto baseado em dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN) revela que o montante enviado via “Pix” saltou de R$ 17,8 milhões em 2020 para impressionantes R$ 155,5 milhões em 2025 — um crescimento acumulado de 774%.
Ao todo, o estado recebeu R$ 592,1 milhões exclusivamente nesta modalidade em meia década. O recurso, que cai direto na conta das prefeituras sem a necessidade de projeto prévio, tornou-se o combustível principal da articulação política entre a bancada federal e os prefeitos potiguares.
Da Exceção à Regra
O crescimento não foi linear. O grande salto ocorreu a partir de 2022, ano de eleições federais, quando o volume quase triplicou em relação ao ano anterior. O ritmo se manteve acelerado em 2023 impulsionado pela nova composição da bancada e pela pressão das prefeituras por liquidez imediata.
2020: R$ 17,8 Milhões (Início da modalidade)
2021: R$ 38,5 Milhões
2022: R$ 82,1 Milhões (Ano eleitoral federal)
2023: R$ 155,8 Milhões (Explosão de adesão da nova bancada)
2024: R$ 142,4 Milhões (Ano eleitoral municipal)
2025: R$ 155,5 Milhões (Dado consolidado até dezembro)
Natal e Mossoró no Topo
Embora o recurso seja pulverizado, os grandes centros urbanos e redutos políticos específicos concentraram as maiores fatias. Natal lidera o recebimento com R$ 58,2 milhões acumulados, seguida por Mossoró, com R$ 32,5 milhões.
Entretanto, proporcionalmente, municípios menores viram seus orçamentos serem transformados por esses repasses. São Gonçalo do Amarante, reduto da senadora Zenaide Maia (líder no envio de Pix), registrou um crescimento de 890% nos recebimentos nesta modalidade ao longo do período.
| Município | Volume Acumulado em Pix | Crescimento em relação a 2020 |
| Natal | R$ 58,2 Mi | +410% |
| Mossoró | R$ 32,5 Mi | +380% |
| São Gonçalo do Amarante | R$ 28,1 Mi | +890% |
| Parnamirim | R$ 19,4 Mi | +320% |
| Caicó | R$ 12,8 Mi | +540% |
A Reação do TCE
O volume astronômico e a dificuldade de rastrear para onde o dinheiro está indo (se para asfalto, para pagar fornecedores ou para custear festas) forçaram o TCE-RN a agir. Através da Resolução nº 034/2025, o Tribunal estabeleceu regras rígidas para 2026:
- Plano de Ação Obrigatório: Nenhuma prefeitura pode gastar o recurso sem cadastrar exatamente a finalidade no sistema Transferegov.
- Proibição de Folha de Pagamento: O TCE emitiu alertas proibindo o uso do Pix para pagar salários de servidores ou encargos, prática que vinha sendo detectada em auditorias recentes.
- Bloqueio de Certidões: Municípios que não comprovarem a aplicação dos R$ 592 milhões recebidos desde 2020 podem ficar impedidos de celebrar novos convênios com o Estado.
A “Era do Pix” no Rio Grande do Norte agora entra em sua fase de prestação de contas. Com as eleições de 2026 no horizonte, o desafio dos parlamentares e prefeitos será provar que o dinheiro que caiu “com um clique” se transformou em benefícios reais para a população potiguar.