Venezuela: A vitrine do imperialismo de Trump

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Por Jamil Chade*

ICL Notícias

Numa operação militar cinematográfica, Donald Trump mostrou ao mundo suas ambições, sua visão das relações internacionais e do que ele entende por diplomacia. Em muitos aspectos, a Venezuela se transformou na vitrine do poder dos EUA sob Trump e de seus planos para a América Latina.

É a partir de Caracas que o mundo – em choque e em grande parte em silêncio – descobriu como o republicano pretende construir uma nova ordem internacional a partir de seus interesses.

Trump atacou a Venezuela ignorando a Constituição dos EUA, o Congresso americano, a Carta das Nações Unidas, a OEA e o direito internacional. E, numa coletiva de imprensa no sábado, desfez suas promessas de campanha de que não colocaria mais os EUA em guerras eternas.

De sua coletiva, o mundo aprendeu alguns de seus princípios:

A América Latina é seu território: ao descrever a ação, o presidente americano deixou claro que tal gesto fazia parte de uma operação para fortalecer sua influência na região. E ainda alertou que, em seu governo, a Doutrina Monroe seria atualizada. Nenhuma autonomia na região será tolerada e muito menos a influência de atores estrangeiros.

A humilhação como arma: O americano, ao explicar suas últimas conversas com o venezuelano, explicou que só existia a via da renunciar. Ou então pagaria caro. Muitos não acreditaram, inclusive uma ala do governo brasileiro. Agora, ao humilhar Maduro em fotos e imagens que percorreram o mundo, Trump manda uma mensagem a todos os demais líderes latino-americanos. Quem não estiver ao seu lado, corre o risco de terminar seus dias com algemas nos pés e olhos vendados. A chantagem é real.

A cobiça por riquezas naturais: também foi dito sem qualquer constrangimento que, para o crescimento dos EUA ocorrer, o acesso aos recursos naturais era crítico. Trump citou o petróleo venezuelano como uma posse sua e exigiu ainda reembolso pelos anos perdidos na exploração do país. Não se mencionou a luta pela democracia e muito menos os direitos humanos. O teatro que por anos foi usado para justificar intervenções hoje está dispensado. Em sua estratégia, a área vital dos EUA vai do Alaska até a Patagônia, seja por conta da infraestrutura de portos, recursos naturais e posições estratégicas.

Aliados existem para ser usados: Maria Corina Machado descobriu que, por mais que tenha tentado se apresentar como a alternativa ao regime de Maduro, foi usada e depois descartada por Trump. Jair Bolsonaro também entendeu como funciona a Casa Branca. “America First” significa, realmente, “eu primeiro”.

A Venezuela pode ser apenas a primeira etapa de uma retomada militar e política na América Latina. No Paraguai, um acordo permitirá que os EUA tenham uma base militar, a Argentina se transformou em um protetorado econômico, enquanto Trump alugou El Salvador como uma prisão para os indesejados em seu país.

O corolário é simples: se Trump considera que pode invadir um país, abre-se a possibilidade para que ações como a da Rússia na Ucrânia ou da China no Tibet e em Taiwan sejam normalizadas. Os impérios parecem voltar a dominar a agenda internacional.

Vivemos uma nova era. As estruturas de poder do século 20 foram abolidas, o direito internacional foi suspenso. Para dezenas de países que não contam com bombas atômicas e nem exércitos de peso, o momento é de ameaça.

Trump, na Venezuela, mostra como irá desenhar o seu imperialismo.

*É jornalista com vasta experiência como correspondente internacional.

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