Vindo de onde ninguém esperava, um estardalhaço político chamado Cabo Deyvison

Foto: reprodução

Por João Paulo Jales dos Santos*

Como pode um oposicionista ganhar projeção num ambiente com um governo municipal gozando de altíssima aprovação? O vereador de Mossoró, Deyvison Thalles Martins do Nascimento, Cabo Deyvison (PL), conseguiu tal façanha. O edil é um caso à parte: eleito em 2024 pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), cresceu na campanha, e garantiu a única vaga que o partido fez no pleito, assento que só veio a entrar no radar eleitoral nos últimos dias da eleição.

Começou o mandato acanhado, havia chance de ser governista, mas não se concretizou como tal. Com postura de independente na Câmara Municipal de Mossoró (CMM), a virada política feroz veio ano passado, os meses seguintes o firmaram como ferrenho adversário do então prefeito Allyson Bezerra (UB), que pelos números das pesquisas, pode vencer, ainda em 1º turno, a corrida para o Governo do Estado. Segundo os dados eleitorais que se tem conhecimento, datados a partir de 1960, o recorde de votação à Prefeitura da série histórica local pertence a reeleição de Bezerra.

A pergunta que abre este texto volta à baila: como Cabo Deyvison conseguiu se sobressair? Alguns fatores servem como hipóteses: a oposição do Partido dos Trabalhadores (PT), principal legenda contrária ao governismo municipal, tem uma atuação demasiadamente institucional e restrita; uma figura carismática, com apelo popular, provavelmente seria a única alternativa para arregimentar a monótona oposição; o espaço para atuação de um oposicionismo diferenciado havia. O Cabo ocupou o vácuo político de uma oposição em frangalhos.

Há um elemento de análise do faro político do “elemento” Cabo Deyvison que merece atenção: a repercussão para além da limitada zona oposicionista. Ele não só se cacifou no vazio da oposição, como alcançou um resultado extrapolar. Com uma mídia mossoroense quase toda simpática ao governismo, furar a bolha da oposição foi um feito e tanto.

Outro elemento de análise vem do cruzamento político: o Cabo tem como uma de suas principais bandeiras a segurança pública, causa logo reconhecível com o eleitorado de direita, porém, ele obteve um casamento improvável à primeira vista: Deyvison foi forjado eleitoralmente na região dos bairros Barrocas/Paredões, uma das regiões mais lulistas de Mossoró, conforme dados divulgados, em outubro de 2022, por este Blog do Barreto, acessível no link, https://blogdobarreto.com.br/lula-venceu-bolsonaro-em-todos-os-bairros-de-mossoro/. A perspicácia do vereador veio em aliar o discurso da segurança, uma pauta universal, com uma forte identidade social, a da periferia, ensejando um discurso social, tão caro ao eleitorado lulista. O vereador acabou mostrando ao tímido PT, o porquê de a agremiação vencer desde 2002 nas disputas presidenciais em Mossoró, mas ser uma força local secundária.

O elemento de análise final vem do desdobramento que ultrapassou as barreiras de Mossoró: Deyvison, antes visto como mera esteira para a nominata da Câmara Federal do Partido Liberal (PL), agora é cotado para estar entre os eleitos da sigla. O desdobramento veio de um fato fatal, o atentado sofrido em meados de junho, que resultou na morte de um assessor, entretanto, há saltos eleitorais que advêm de momentos de comoção.

De Mossoró, uma votação na casa do terço eleitoral está no horizonte, que se conquistada o aproxima da casa dos 50 mil votos na cidade, números substanciais no cômputo da votação no estado. A iminente perda de mandato na CMM, após julgamento pelo Tribunal Regional Eleitoral do RN (TRE-RN), veio para dar mais uma combustão nesta reta final de campanha.

2026 pode estar desenhando o pleito majoritário mossoroense de 2028. Há uma disputa indireta e, aparentemente silenciosa, sendo travada entre Deyvison e a candidata a deputada estadual, ex-primeira-dama Cinthia Pinheiro, Cinthia de Allyson (UB). Mesmo postulantes em faixas diferentes, ambos digladiam uma luta em mudez que pode desembocar em animosidade política direta daqui a 2 anos.

Para Cabo Deyvison, 2026 é vencer ou vencer. Se os sufrágios obtidos no domingo 4 de outubro confirmarem seu êxito, estamos diante de um fenômeno eleitoral. Um triunfo nas urnas levará o governismo mossoroense a vê-lo como principal expoente da oposição.

Se quando optou por concorrer a deputado federal pareceu dar uma passada maior do que tinha condições, haja vista que uma candidatura à Assembleia Legislativa parecia mais segura, Cabo Deyvison veio de onde ninguém esperava e causou um estardalhaço. Chamado por alguns de “amostrado” e “exibido”, parece que a desenvoltura a ser desempenhada era essa mesma. Afinal, para peitar o suntuoso aparato do sistema governista de Mossoró, alguém precisava de um desempenho diferenciado para tanto.

*É Cientista Social.