Zero boi

Xilogravura de José Francisco Borges

Por Domício Arruda*

Foi só o comitê de assessoramento científico liberar festas e competições, para animar a vaqueirama.

Os cavalos estão nas pontas dos cascos, depois de tanto tempo presos nas baias.

A boiada, sobrevivente da longa estiagem, no começo de invernada, com a rama e a malva brotando em campos abrejados, já recuperou o peso perdido.

Experiente, a amazona, soberana no pátio, ainda espera  adversários  para  a  corrida principal,  como sempre ocorreu no disputadíssimo Parque Rio Grande.

Do curral da esquerda, já se  sabia que não sairia peão ousado o bastante para o desafio. É muito melhor continuar bem tratado, perto da cocheira e da ração que dá sustança.

Era de se esperar que dos camarotes, onde sempre os maiorais  ficam reunidos, juntos e misturados,  no conversê e na comilança, pudesse aparecer alguém, mesmo calçando botas da mesma forma 40,

Não adiantaram incentivos, pesquisas, torcida e corda dos locutores que são pagos pra isso mesmo: animar o espetáculo.  Ninguém acredita que apenas  34% da plateia está aplaudindo a vaqueira paraibana.

Quem foi aparecendo, também  logo queimou o cal, bem antes de pegar o rabo do bicho brabo, de difícil  lida.

Até general bateu fofo.

Aquele que poderia mudar de raia, ficou acuado  no oitão da prefeitura, como um vaqueiro-jacu qualquer, vendo o cavalo selado passar.

O vice-campeão do último torneio, mais experimentado e com todo o  tempo do confinamento para rever o videotape, corrigir erros, afinar o palavratório e disputar com chances reais, nenhum cronista, por mais poeira já tenha engolido, iria imaginá-lo, em outra parada, e no mesmo time do cordão encarnado.

É tanto medo e cautela, que não aparece vermelhinho algum  para lembrar dos oligarcas papa-jerimuns, e reclamar  do primo do  companheiro, escalado pelo técnico nacional,  para fechar a trinca..

Até o cow-boy francês, apeado do mais desejado animal,  amansou.  Com a promessa de lá na frente, ser acomodado num bom cercado, para renovar as energias.

Dois cavaleiros mais amostrado, da equipe do capitão, o mais poderoso de todos os fazendeiros, arrenegaram. Estribucharam pelos blogs amigos, mas acabaram  na beira do rio das águas novas, e só  na porrinha, decidiram quem ficaria no haras mais confortável da estância  do governo, nas lonjuras do chapadão.

O presidente da associação dos profissionais fez pantim, mas quem conhece a tropa, sabe que não é de  arriscar uma temporada na seca, sem milho farto e certo.

O mais experiente dos lembrados, bi-campeão das antigas, bem instalado com fartura de pasto, cortou a conversa pelo talo, e foi logo avisando que a corrida, nem ao filhote interessava.

Quando as luzes parecem  que nem serão acesas, que o campeonato se resolve antes da boquinha da noite, na primeira bateria, lembraram que montado num bom quarto-de-milha, um boiadeiro que conheça bem a pista e o resto da caravana, pode surpreender e levar o grande prêmio.

E se arranjarem defeitos, associando o destemido  ginete aos seus tempos de bate-esteira, e ao calote que  o premiado deu na peãozada, pra aliviar a bronca, o jeito é  trocar o nome na senha.

Fábio Berckmans tem pinta  de vaqueiro-campeão.

*É médico e um dos editores do Blog Território Livre da Tribuna do Norte (texto extraído desta página).

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