Advogado explica porque Sandra reverteu condenação

Um dos advogados que esteve a frente da defesa da vereadora Sandra Rosado (PSDB), Fabiano Falcão, esclarece como se deu o processo e como não havia condições jurídicas de condenar a tucana no Tribunal Regional da 5ª Região.

Confira a entrevista:

 

Blog do Barreto:  Como o Senhor recebeu o resultado do julgamento da vereadora Sandra Rosado no TRF5?

Fabiano Falcão: Recebi a proclamação do resultado do julgamento com a satisfação de quem estava assistindo a correta aplicação da legislação processual penal. O MPF não poderia ter afirmado que Sandra Rosado teria realizado emendas ao orçamento geral da União com o intuito de beneficiar a APAMIM, através da celebração de um convênio com o Ministério da Saúde no ano de 2003, porquanto no ano de 2002, no qual deveria ter sido realizada referida emenda, ela não era Deputada Federal. O orçamento da União tem que observar o princípio da anualidade, ou seja, as emendas orçamentárias são realizadas para aplicação no exercício financeiro do ano subsequente.

Blog do Barreto: O processo acabou sendo anulado por um erro do MPF. O que acontece agora?

Fabiano Falcão: Conforme determinado pelo Relator, o Desembargado Federal Lázaro Guimarães, uma vez anulada a sentença condenatória, deverá ser devolvido ao primeiro grau de jurisdição para que o Ministério Público Federal, dessa vez com base nas premissas corretas, decida por aditar ou não a denúncia.

Blog do Barreto: É comum que erros deste tipo aconteçam por parte do MPF?

Fabiano Falcão: Não é comum. O Ministério Público Federal é uma instituição das mais prepardas e respeitadas nacionalmente, tendo em seus quadros excelentes profissionais.

 

Blog do Barreto: É possível um outro nome ser incluído já que foi comprovado que a emenda não era de Sandra Rosado?

Fabiano Falcão: Em tese é possível. Conforme dito anteriormente, o Ministério Público Federal terá que optar por uma denúncia substitutiva ou um aditamento à denúncia original, portanto, será ele quem vai decidir sobre eventuais inclusões de nomes.

 

Blog do Barreto: Há possibilidade de prescrição com o processo recomeçando em primeira instância?

Fabiano Falcão: Possibilidade existe. Considere-se que entre a realização dos fatos que estão sob apuração e os dias de hoje, temos quase 15 anos.

Veja a notícia sobre anulação da sentença contra Sandra Rosado (AQUI).

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Mossoró x Aracati: especialista explica que diferença de preços de passagens não é fixa

Especialista faculta diferença de preços a questões como carnaval (Foto: divulgação)

Após registrar que está saindo mais barato sair de Aracati para Recife do que de Mossoró para a capital pernambucana (ver AQUI), algumas pessoas alertaram para a volatilidade dos preços das passagens.

Para esclarecer o assunto o Blog do Barreto conversou com o proprietário da CG Turismo e membro da diretoria da Associação Brasileira das Agências de Viagens (ABAV) Carlos Gregório que explicou que uma série de fatores influenciam para que as passagens estejam mais caras neste momento em Mossoró.

Confira a conversa esclarecedora.

Blog do Barreto: Porque no dia de hoje está saindo mais barato voar de Aracati para Recife?

Carlos Gregório: São vários fatores que influenciam o valor de uma passagem aérea. Se considerarmos a distância via rodovias, é maios perto ir de Mossoró para Recife do que Aracati para Recife, por exemplo. No entanto, a distância em linha reta Mossoró – Recife é de 541 km’s, já a distância Aracati – Recife em linha reta é de 503 km’s. Os aviões costumam seguir em linha reta, gerando economia. É necessário levar em consideração o período de carnaval, onde os voos estão com altas taxas de ocupação e acabam encarecendo os valores das passagens.

Blog do Barreto: Há alguma influência relacionada ao local onde os aviões são abastecidos no preço das passagens?

Carlos Gregório: Sim! A política de desconto no querosene de aviação, por exemplo, pode facilitar a atração de novos voos, reduzindo os custos operacionais e reduzindo, consequentemente, o valor das passagens aéreas.

Blog do Barreto: Os voos da Azul partindo de Aracati prejudicam o aeroporto de Mossoró?

Carlos Gregório: Ainda é muito cedo para considerar essa questão. Sem dúvidas, o Aeroporto de Aracati é mais estruturado que o de Mossoró, onde pode receber, inclusive, aeronaves maiores. Reforço a importância de iniciar a luta pela construção de um novo Aeroporto para Mossoró. Em 8 meses de operação, a atuação da Azul na nossa cidade mostra a viabilidade comercial. Infelizmente, por questões estruturais, não temos condições de receber outras companhias e nem aeronaves maiores. O desenvolvimento econômico de Mossoró passa pela construção de um novo aeroporto.

Nota: Carlos Gregório ainda fez contato para reforçar que os voos no Aeroporto Dix-sept Rosado estão com taxa de ocupação altíssima e que há demanda para atrair outras empresas. Ele reforça a necessidade de um novo aeroporto em Mossoró.

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ENTREVISTA: ‘O Bolsonaro pegou um eleitor pobre do PT’, avalia cientista político

Luís Eduardo Gomes

Sul 21

O primeiro turno das eleições gerais brasileiras apresentaram o surgimento de uma grande onda pró-Jair Bolsonaro, que levaram o seu partido, o PSL, à segundo maior bancada na Câmara dos Deputados, sair de zero para quatro senadores e quase levar a disputa presidencial em primeiro turno. No final das contas, ele ficou em 46% e enfrentará no segundo turno o petista Fernando Haddad, que fez pouco mais de 29%. Para avaliar o cenário que emerge do pleito e se a disputa presidencial já está decidida ou pode ser revertida, o Sul21 conversou com o cientista político Alberto Almeida.

Almeida é o autor dos livros “A Cabeça do Brasileiro” e o “Voto do Brasileiro”, lançado em maio deste ano e que busca explicar, a partir de dados numéricos, porque o brasileiro vota como vota. Ele também é diretor da Brasilis, empresa especializada em análises e dados sobre a sociedade brasileira, informações sociais, políticas, econômicas e culturais.

Para o cientista político, o resultado das urnas é um reflexo da “rejeição a medalhões”, o que levou, por exemplo, à perda de mandato de 24 dos 32 atuais senadores que buscavam a reeleição. A respeito do segundo turno, ele destaca que a tendência é sim de favoritismo de Bolsonaro, mas ressalta que esta nova etapa elimina “ruídos”, como a presença de candidatos sem chances na disputa, a imporá um debate mais direto de ideias. Para ele, a questão chave para uma possível reversão do quadro por Haddad seria recuperar votos perdidos pelo PT no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, estados onde Dilma Rousseff (PT) venceu Aécio Neves (PSDB) no segundo turno de 2014 e agora deram ampla vantagem para Bolsonaro. Em 2014, Dilma fez 51% dos votos válidos nestes estados. Agora, no primeiro turno Bolsonaro alcançou 48% em Minas e 59% no Rio.

A seguir, confira a entrevista com Alberto Almeida.

Sul21 – Como o senhor recebeu o resultado do primeiro turno da eleição presidencial?

Alberto Almeida: É um resultado de rejeição a todos os medalhões da política, digamos assim. Dos 32 senadores que disputaram a reeleição, apenas oito foram reeleitos. Pega os nomes que não conseguiram, são nomes muito medalhões. Jorge Viana (PT-AC), Eunício Oliveira (MDB-CE), o presidente do Senado, Cristovam Buarque (PPS-DF), Ricardo Ferraço (PSDB-ES), considerado um bom senador, Magno Malta (PR-ES), Lúcia Vânia (PSB-GO), Edison Lobão (MDB-MA), Flexa Ribeiro (PSDB-PA), Roberto Requião (MDB-PR), Lindbergh Farias (PT-RJ), Romero Jucá (MDB-RR). E medalhões que não eram senadores tentaram ao Sanado e também não conseguiram. No Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, Sarney Filho (PV-PA), Marconi Perillo (PSDB-GO), Dilma (PT-MG), César Maia (DEM-RJ), Garibaldi Alves Filho (MDB-RN), Eduardo Suplicy (PT-SP). Todos eles são medalhões, eram nomes conhecidos, e não conseguiram a vaga no Senado. É claro que alguém que vai conseguir ser reeleito, justamente para confirmar a regra, mas a grande maioria não conseguiu. E essa grande maioria são de políticos medalhões. Isso mostra o desejo de dar uma lição grande no ‘establishment’ da política brasileira.

Sul21 – E o senhor avalia que essa é uma lição pelo lado conservador ou considera que o Congresso já era conservador e não mudou tanto o perfil?

AA: A gente vai ter que ver. Conservador em quê? Tem muitos policiais eleitos, esse pessoal acaba sendo, do ponto de vista econômico, gastador. E conservador nos hábitos, na coisa da repressão. Então, tem aí uma salada, uma determinada coisa que ainda precisa clarear. Mas, a princípio, por conta de recursos próprios para a campanha, a gente pode dizer que tem um conservadorismo maior sim.

Sul21 – Qual a projeção que o senhor faz para o segundo turno?

AA: É um segundo turno que vai dar mais clareza para o eleitor sobre as candidaturas. O primeiro turno tinha muito ruído. Só para pegar um exemplo importante, o do Meirelles (MDB). Um candidato que teve menos votos do que o Cabo Daciolo (Patriota) e que tinha o terceiro maior tempo de televisão. Então, para o eleitor, isso é uma confusão tremenda. ‘Como é que esse cara tem tanto tempo de televisão e ele é tão desimportante e defende um governo que eu rejeito e odeio?’ Então, confusões como essa vão deixar de existir no segundo turno. E aí, pro eleitor, a campanha é mais compreensível. Você vai confrontar duas pessoas, duas figuras, dois símbolos, muito claramente. Cada um se auto-elogiando, o que é normal, política é venda, e criticando o outro. Isso é uma coisa. A outra coisa que é importante olhar no resultado eleitoral é que, de fato, o Bolsonaro ficou próximo de ganhar no primeiro turno. Porém, a gente pode fazer uma conta e colocar a maior parte dos votos do Ciro Gomes (PDT), com o Haddad. Pensando em ontem, eu não estou pensando na primeira pesquisa pós-primeiro turno, que tem efeito de mídia e várias coisas, mas pensando em ontem. Se você pegar 12% do Ciro, diminui um pouco, 10%, o Haddad sai de 29% para 39%. Então, vamos dizer que, sem o Ciro, talvez o Haddad tivesse chegado a 40%. Seria 46% a 40%. Nesse aspecto, uma eleição não muito distante, apesar da proximidade do Bolsonaro em relação ao sarrafo dos 50%.

Sul21 – O senhor considera que esse primeiro turno já foi quase o segundo turno, no sentido de que tinha um lado do Bolsonaro e outro que era Haddad/Ciro, visto que os demais candidatos fizeram poucos votos?

AA: Sim. A votação do PSDB é impressionante do ponto de vista negativo. Menos de 5% para presidente. O PSDB, é algo impressionante. Aí depois você tem o Amoêdo e depois todo mundo com 1%. Então, grande parte do voto decidido, com exceção do voto em Ciro Gomes, evidentemente muito maior que os demais. Nesse aspecto, você tem uma quantidade de votos que tende a caminhar para o Haddad, mas creio que, de fato, você tem o favoritismo do Bolsonaro.

Sul21 – O que o Bolsonaro precisa fazer ou evitar para confirmar essa vantagem no segundo turno?

AA: As duas campanhas não têm muita alternativa. O marketing está mais ou menos encaminhado, definido. O Bolsonaro batendo no PT, mais ainda do que ele sempre bateu, colocando a culpa de todos os males do sistema no PT. O PT haveria uma novidade, porque não atacou ainda o Bolsonaro, colocando ele como o candidato da elite, que apoiou o governo Temer, caminhando por aí.

 

Sul21 – A estratégia que o Haddad tem para reverter o quadro passa por tentar vincular o Bolsonaro ao governo Temer?

AA: É difícil dizer, pode ser que sim. A gente vai ver em função dos pronunciamentos do Haddad antes de começar o programa de TV e depois que começar. Vamos ter que aguardar.

Sul21 – O que restou ao auto-intitulado “centro democrático” depois das votações de ontem? Seria bom para partidos como PSDB e MDB aderir ao Bolsonaro ou isso pode significar um encolhimento maior nas próximas eleições?

AA: Olha, o eleitor já vai definido, esses apoios não importam, essa coisa de fazer campanha para outro. Eu acho que isso aí já está definido. O eleitor desses partidos, se fizer uma pesquisa, já sabe em quem votar. Esse pessoal, no fundo, na prática, vão ser observadores do segundo turno, na minha visão. Porque um deputado não vai fazer campanha para um candidato a presidente, não vejo dessa forma. Você pode ter as máquinas estaduais, os governadores mobilizando as suas máquinas locais, aí sim.

Sul21 – Mas o senhor avalia que o Alckmin declarar apoio para alguém não interferiria?

AA: Eu acho que não muda nada, isso daí é um mito. Ah, o ‘Ciro declara apoio’, acho que não muda nem pouco. O eleitor do Ciro tem menos identidade com o Bolsonaro, obviamente.

Sul21 – Haveria um eleitor que votou em um lado e poderia fazer a migração para o outro no segundo turno? Há espaço nos votos do Bolsonaro para migrar para o PT, e vice-versa?

AA: Sim. O Bolsonaro pegou um eleitor pobre do PT, em particular no Rio de Janeiro e Minas Gerais, que foram estados bem desfavoráveis para o PT. O que aconteceu nessa eleição? MG e RJ não entregaram ao PT os votos que costumavam entregar. Aí o PT tem que ir lá tentar recuperar. Talvez não dê para recuperar, mas uma parte desses votos é possível.

Sul21 – Estes serão os principais palcos eleitorais que o PT tem para prestar atenção?

AA: Sim, não tenho a menor dúvida.

Sul21 – Falamos de apoio de candidatos nos estados a Bolsonaro ou Haddad. Por outro lado, o apoio deles a algum candidato a governador pode influenciar? A gente viu candidatos surgirem do nada no RJ e em MG.

AA: Isso aí é um mito. Ninguém vai apoiar um candidato porque ele apoiou o Bolsonaro. Se você pegar em Minas, tinha aquele Márcio Lacerda, que saiu no acordo do PT com o PSB. Todo mundo previa que o Lacerda ia ganhar, porque em Minas não iriam querer nem PT, nem PSDB. O Lacerda saiu e vai ganhar o outro, que não é nem PT, nem PSDB, mas não tem nada a ver com ele ter declarado voto no Bolsonaro, isso aí é um mito.

Sul21 – O senhor já consegue projetar como devem vir as primeiras pesquisas?

AA: Elas devem vir mais favoráveis ao Bolsonaro em função da mídia positiva que ele teve. Da surpresa relativa ao desempenho dele.

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Oligarquia milionária parece querer um Brasil de analfabetos, diz cientista

Vanderlan Bolzani é pesquisadora

Gabriela Fujita

Do UOL

Olhando para os caminhos já percorridos pela professora Vanderlan Bolzani, 68, é possível compreender que ela levou ao pé da letra a orientação dada por seu pai desde a infância. “Meu pai sempre falou: ‘Meus filhos não são filhos não são filhos de coronéis, então têm de ser letrados’. Ele era quase semianalfabeto, mas de uma inteligência brilhante. E isso vale para a nossa sociedade de hoje”, afirma.

Pesquisadora do Instituto de Química da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e vice-presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), ela falou à reportagem do UOL sobre a queda de investimentos públicos na área de ciência e tecnologia, os desafios para o próximo presidente eleito e o que a levou a

“fugir” das bonecas para se aventurar, criança, em outras brincadeiras.

De acordo com a SBPC, o orçamento para Ciência e Tecnologia teve um corte drástico em 2018, em comparação aos anos anteriores: começou o ano 25% menor em relação a 2017 e ainda encolheu mais 10% nos primeiros meses do ano, chegando ao valor de R$ 4 bilhões. Em 2013, os recursos para esta área somavam R$ 8,4 bilhões. Em agosto, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) anunciou que poderá haver corte de 200 mil bolsas de estudo em 2019, caso o governo federal mantenha como está a proposta de orçamento para a entidade

Confira, a seguir, os principais trechos da conversa com a cientista.

UOL – A senhora afirma que está no caminho errado um país que acha que ciência é custo. Pode comentar?

Vanderlan Bolzani – Num mundo onde se trocam músculos por cérebros, temos no conhecimento a ferramenta mais preciosa para o desenvolvimento econômico e a melhoria social. Isso é o que acontece nas nações desenvolvidas. Percebendo que conhecimento gera riqueza, quanto mais se investe, maior a possibilidade de gerar produtos de alto valor agregado, de ser competitivo.

O Brasil começa a ter o seu sistema de educação, pesquisa e tecnologia organizado com a criação da Capes e do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), nos anos 1950. E quando começa a organização das indústrias e daquilo que gera riqueza no país? Na época Getúlio Vargas, quando foram criadas as primeiras metalúrgicas no Sudeste, algumas

[empresas] agrícolas e a Petrobras.

 Em fontes renováveis de energia, nós somos um país respeitado no mundo; em alguns problemas de endemias também, como o caso zika, por exemplo. Nós temos uma ciência que evoluiu com o trabalho de muitos cientistas e de muitos políticos que acreditavam que só se constitui uma nação robusta com ciência e tecnologia.

Em 2012, chegamos a quase R$ 9 bilhões para o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Isso vem caindo e chega a 2018 em torno de R$ 3,2 bilhões. E agora você não tem mais o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Temos um ministério que tem outra pasta no meio, chamada de Comunicação. São dois ministérios, e a verba enxugou de forma drástica. É muito triste ver que o país tem uma vertente forte que manda no destino da nação que acha que educação, ciência e tecnologia é custo, não é investimento.

No começo de agosto, a Capes informou, em nota pública, que 200 mil bolsas de estudo podem ser suspensas a partir de 2019, caso o governo federal mantenha a proposta orçamentária sugerida à entidade para o ano que vem. Como a senhora recebeu este comunicado?

 

Eu fiquei muito assustada. É um momento em que os reitores das estaduais e das federais deveriam se manifestar. A pós-graduação fez um diferencial enorme para as universidades públicas federais e estaduais, que é onde se realiza a pesquisa de qualidade neste país. Quando o presidente da Capes faz um manifesto falando que no próximo ano não haverá bolsas, e o presidente [da República rebate] falando que vai ter bolsas, só que no próximo ano este presidente não está mais aí. E quem define a política econômica, o Ministério da Fazenda, não tem compromisso com aquilo que dá riqueza a um país, que é a sua educação sólida em todos os níveis, ciência e tecnologia.

A impressão que dá é que aqui [no Brasil] tem uma oligarquia pequena de milionários querendo um país de analfabetos absolutos e escravos e que trabalhem como mão de obra barata. Que sejam massas de manobra, porque um povo que não é educado é massa de manobra para político. Você só estuda com bolsa, a não ser que seja filho desses milionários aí, de coronéis.

E quem define a política econômica, o Ministério da Fazenda, não tem compromisso com aquilo que dá riqueza a um país, que é a sua educação sólida em todos os níveis, ciência e tecnologia.

O que a senhora sugeriria para o próximo presidente da República?

O próximo presidente do Brasil deveria ser compromissado e tentar, junto com pessoas dignas e honestas, que não desviam dinheiro público, fazer uma agenda de prioridade de educação, ciência, tecnologia, inovação e segurança para o Estado brasileiro. Precisamos de um programa mínimo do Estado brasileiro. Seja o governo A ou o governo B, não importa. Porque cada governo faz suas agendas, promete mundos e fundos, e o próximo [governo] é capaz de destruir o que o anterior fez para mostrar que pode ser “melhor”. Isso é escoamento de dinheiro público. Governar um país como o Brasil não é uma tarefa simples. É um país continental, regional, com muitas diferenças. Chegamos a um nível de desenvolvimento que nós não merecemos retroceder.

Somos o maior exportador de soja do mundo (https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/05/brasil-assume-lideranca-mundialna-producao-de-soja-segundo-eua.shtml). Para produzir a soja que o Brasil tem hoje, se fez muito investimento em ciência e tecnologia. Fixação de nitrogênio [que interfere na produtividade] é uma coisa fascinante. Houve uma quantidade de trabalhos [científicos] gerados. São produzidas toneladas de soja, mas veja quantos chips de computador são comprados. A balança econômica não fecha. E aí, para fazer superávit primário, começa-se a congelar aquilo que tem de mais precioso no país, que é a sua educação, a sua segurança e a sua ciência e tecnologia. Banco não traz riqueza para o país, banco guarda a riqueza que é produzida. Na hora em que você não tem mais uma indústria robusta de alta tecnologia e você tem uma sociedade com salários baixos –que é isso o que gera uma sociedade que não tem uma industrialização baseada em alta tecnologia, a circulação de renda de pessoal altamente capacitado–, você tem uma estratégia que nós estamos vivendo agora. Há uma minoria que gasta muito, mas isso não é suficiente, somente para essa minoria.

O [atual] presidente da República congelou por 20 anos os investimentos. A justificativa é que o país está descapitalizado e não tem dinheiro. Quando você congela por 20 anos prioridades em uma nação, como saúde, educação, segurança, é uma coisa estapafúrdia e não dá para acreditar. Se isso acontecesse num país onde as pessoas tivessem noção, com certeza toda a sociedade estaria reivindicando. Nós somos ainda muito ignorantes. E uma crítica grande é que a ascensão econômica não levou a uma ascensão de escola, de entendimento. É o que eu chamo de analfabetos funcionais. Isso é grave para o país.

O [atual] presidente da República congelou por 20 anos os investimentos. A justificativa é que o país está descapitalizado e não tem dinheiro. Quando você congela por 20 anos prioridades em uma nação, como saúde, educação, segurança, é uma coisa estapafúrdia e não dá para acreditar.

Como evitar que um governo desfaça o que anterior fez de bom?

Tem muitos fatores envolvidos. Uma sociedade minimamente instruída vota melhor. É extremamente importante que você tenha os representantes do povo com um olhar de não legislar para seus interesses pessoais, mas para uma comunidade maior. Uma política que olhe para o seu desenvolvimento industrial baseado em tecnologia. Não adianta ter investido tanto em ciência para ter uma soja altamente produtiva, se toneladas de soja valem alguns produtos como chips de computadores, quando a gente faz essa balança econômica. Vamos estar sempre devendo. O grão é muito importante, vamos continuar exportando, mas por que não tem alguma indústria para fazer isoflavona* de soja? E aí não é só exportar soja, mas exportar o produto manufaturado, molécula de alto valor agregado. (* Isoflavona é uma substância encontrada em alta quantidade na soja e que ajuda, por exemplo, no controle de colesterol e doenças coronárias. Por ter estrutura semelhante à do hormônio feminino estrogênio, pode ser aplicada em tratamentos para amenizar os efeitos da menopausa.)

A Amazônia é um exemplo fantástico. Nós detemos a maior biodiversidade do planeta. Aquilo é uma fonte de inspiração para produtos de alto valor agregado para a indústria farmacêutica, indústria de cosméticos, agroquímicos, fragrâncias e aí por diante, não para ficar só extraindo. Tem que ter um laboratório para você fazer pesquisa e dali tirar produtos de alto valor agregado, como fazem os países desenvolvidos.

Por que isso não acontece no Brasil?

É uma questão política mesmo.

Fazer ciência é a coisa mais fascinante para uma mulher. Nós temos algumas características que propiciam que sejamos muito boas cientistas: poder de observação, poder de se concentrar e de se organizar.

Qual é uma dica sua para as mulheres que querem ser cientistas?

 

Eu era muito levada [na infância]. Minha mãe, uma portuguesa conservadora, queria que eu brincasse de boneca, que coisa mais sem graça. Eu ia para o portão de casa e via os meninos jogando bolinha de gude, jogando pião, ficava fascinada. Eu escapava, fugia, ia brincar com os meninos. Quando ela via, ela me puxava pela orelha: “Menina não pode brincar com menino!”. Por mais que a gente esteja avançando, as brincadeiras dos meninos são mais de desenvolvimento cerebral, de associação lógica, do que as das meninas. Eu insisti para brincar com os meninos numa inocência, porque eu gostava de ver [as brincadeiras], sempre fui muito curiosa.

Fazer ciência é a coisa mais fascinante para uma mulher. Nós temos algumas características que propiciam que sejamos muito boas cientistas: poder de observação, poder de se concentrar e de se organizar. Se você faz e gosta, tudo o que se faz com paixão se faz bem, só depende de você, do seu intelecto. O que é diferente do que as pessoas associam hoje a “poder” de cargo, para ser reitor, diretor, presidente, governador… Aí já começa um outro tipo de competição, que pode envolver o conhecimento. E aí, devido ao processo histórico, os homens são mais competitivos que as mulheres.

Isso não significa que você não é uma boa mãe, eu adoro meus filhos, sou uma mãe daquelas leoas, meus netinhos são apaixonados pela avó, mas não tem nada a ver uma coisa com a outra. A gente tem que pensar nas crianças também. Penso que é muito importante que se prepare esse futuro, essa geração, para se fixar no país, que tem uma riqueza. O que se projeta para essas crianças com esse ambiente de pessoas que não têm juízo, um país esquizofrênico? As pessoas olham uma para a outra com cara de ódio, em vez de construir.

 

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Agripino garante que desistência de reeleição foi exclusivamente por acomodação partidária

O senador José Agripino (DEM) esteve ontem em Mossoró onde concedeu entrevista ao Blog do Barreto. Na oportunidade ele explicou os motivos que levaram a desistir da reeleição, analisou o quadro eleitoral no Rio Grande do Norte e falou ainda sobre a política nacional.

Confira:

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“As pessoas estão procurando um terceiro campo e não é Bolsonaro e o fascismo”, diz Robério Paulino

Cumprindo agenda em Mossoró, o professor Robério Paulino (PSOL) foi entrevistado pelo Blog do Barreto. Surpresa das eleições de 2014 quando ficou em terceiro lugar, ele agora é candidato a deputado estadual utilizando o discurso de combate ao fascismo e aos grupos tradicionais da política potiguar.

Confira o bate-papo.

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