O caso Mariele e os “cidadãos de bem” à brasileira

Meme fascista expõe segunda morte de Mariele Franco via linchamento moral
Meme fascista expõe segunda morte de Mariele Franco via linchamento moral

Mariele Franco era uma vereadora do Rio de Janeiro, a quinta mais votada no último pleito na capital fluminense. Negra, mãe aos 17 anos, feminista, homossexual, militante dos direitos humanos e filiada ao PSOL. Simbolizava tudo que rejeita a crescente onda fascistóide, que corrói nossa sociedade.

A morte dela precisa ser investigada e esclarecida. Por mais que existam algumas suspeitas óbvias qualquer julgamento de valor nesse momento é precipitado.

Mas nada, absolutamente, nada justifica uma segunda morte de Mariele Franco. Antes mesmo de seu corpo ser sepultado imbecis sob o manto da moral e dos bons costumes estão fazendo um verdadeiro linchamento que massacra a imagem da jovem vereadora.

Nas redes sociais vi o absurdo de gente compartilhando memes e postagens que “celebram” a morte de Mariele numa morbidez que não combina com quem diz professar a fé cristã e/ou se coloca como um “cidadão de bem”. É uma constrangedora falta de empatia com o sofrimento de uma família.

A morte de nenhum ser humano pode ser comemorada. Mas o caso de Mariele carrega consigo uma carga simbólica que resume muito bem setores mais idiotizados de nossa sociedade que se deixam iludir por “salvadores da pátria” e embarcam nos chiliques estridentes de apresentadores de programas policiais.

Não é hora para misturar ideologia, politicagem de quinta categoria e sentimentos rancorosos. É um momento para se pensar o tipo de sociedade que temos e o quanto a liberdade que temos não pode servir de pretexto para expressar sentimentos odientos.

A morte de Mariele não é como a de tantos negros, mulheres, homossexuais e militantes de causas justas. A tragédia mistura num caixão toda a carga de preconceito que cada dia tem saído mais e mais dos porões do inconsciente de setores autoritários e violentos de nossa sociedade nada cordial como apregoou Sérgio Buarque de Holanda. Não somos cordiais. Somos violentos e celebramos a desgraça alheia com a indiferença de que é incapaz de se colocar no lugar do outro.

Essa tragédia provoca comoção de quem possui empatia com o próximo porque a jovem reunia em si toda a carga dos oprimidos desse país, mas também expões a hipocrisia nossa de cada dia do racismo velado, machismo “cavalheiro”, homofobia de pé de ouvido e do preconceito de quem diz não ter preconceito, “mas…”.

Poucos dias antes de ser vítima de uma emboscada ela tinha denunciado abusos da Polícia Militar. Dizer que ela estava defendendo bandidos é um reducionismo pobre e desonesto. É colocar no mesmo caldeirão bandidos e pessoas pobres/honestas que são maioria nas comunidades carentes.

Do mesmo jeito que ninguém pode dizer que foram membros da Polícia Militar que mataram Mariele Franco não se pode espalhar memes fascistas tornando a vítima culpada pela própria morte trágica.

Precisamos refletir sobre que “cidadãos de bem” são esses. São de “Bem” por serem honrados ou a moral deles é mera hipocrisia?

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Quando uma escola dá aula de preconceito

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A semana tem sido marcada em Mossoró pelo impedimento de um aluno entrar com um vestido na Escola Estadual Ainda Ramalho. O caso logo ganhou repercussão como gesto de homofobia.

A escola até deu uma justificativa razoável. A de que a saia era curta demais. Mas será que realmente foi isso? Não seria uma homofobia enrustida. Afinal de contas vivemos numa sociedade onde é comum as pessoas abrirem a boca para vomitar a seguinte pérola: “Não sou preconceituoso, mas não acho normal um homem dormir com outro”. Quem nunca ouviu isso?

No fundo houve sim um ato de homofobia no gesto. Nunca ouvimos falar de uma garota impedida de entrar na escola por usar saia curta. Simples assim.

Detalhe: o fardamento na Escola Aida Ramalho não é obrigatório.

Fato é que vivemos em uma sociedade que não aprendeu a respeitar os LGTB (Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais).

Uma escola tem que ser um templo do conhecimento, um lugar onde se aprende o respeito à diversidade… Não é educativo impor o preconceito.

Cá desse espaço torço que o jovem em vez de ficar traumatizado com o acontecido ganhe força para se tornar um símbolo da luta contra o preconceito na sociedade mossoroense.

Rever os conceitos é um bom caminho para quem acha que um homossexual é um “anormal”. Anormal é o seu preconceito.

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