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Raça e religião: um apelo aos partidos de esquerda

Culto no Templo de Salomão, da Igreja Universal, em São Paulo (Foto: Reprodução/Facebook Templo de Salomão)

Por Ronilson Pacheco

Esta eleição será crucial para as esquerdas do país. Crucial para cada partido que assuma um lugar de esquerda, progressista e comprometido com uma virada histórica nos rumos para onde o país vai hoje em alta velocidade. Pensar as eleições municipais hoje é lutar pelo país que teremos daqui dois anos, nas eleições presidenciais.

É verdade que uma cidade não é um país — muito embora algumas capitais arrogam ser esta síntese do que o país é —, no entanto, não há tempo à perder. Democracia, direitos, liberdade, diversidade, igualdade, estão em jogo agora tanto quanto já estiveram antes. E embora esteja fora da alçada de um prefeito mudar isto no macro, ver uma mudança no micro vai nos permitir sobreviver.

Para os partidos de esquerda hoje, em especial que estão nas disputas das capitais, dois debates influenciam tanto que reverberam de múltiplas formas em temas como educação, saúde e segurança: o debate racial e o religioso.

No racial, a Coalizão Negra por Direitos, entidade que reúne diversas organizações do país, já fez a convocação no tempo oportuno: “enquanto houver racismo não haverá democracia”. Negar este chamado é um erro que custará muito caro aos partidos de esquerda no país.

O recrudescimento da extrema direita no país e a perda de freio das políticas conservadoras do governo escancararam seu desprezo pelas políticas de ações afirmativas e qualquer política pública que esboce reconhecimento da perda histórica da população negra no país com a escravidão e o racismo como seu legado.

Entender que “enquanto houver racismo não haverá democracia” não é pensar apenas um partido com mais pessoas negras. É buscar as razões pelas quais pessoas negras ficam de fora dos partidos, porque elas não são seus protagonistas, seus líderes, seus formuladores políticos.

Falta “mais favela” nos partidos

A presença de mais pessoas negras e de favela nos partidos de esquerda tem levado ainda pouco da favela para as agremiações. O núcleo idealizador e formador das propostas progressistas continua em grande parte no asfalto, nas áreas nobres e brancas.

Clovis Moura nos ensinou como o progresso do Brasil em cima de uma estrutura social escravista criou “condicionamentos no comportamento das classes dominantes brasileiras”, assim como de “inúmeros de seus segmentos sociais”. Só os partidos de esquerda não perceberam o quão “condicionados” eles também estavam, ou, quiçá, ainda estejam.

Na religião, o debate em torno dos evangélicos pode ser importante, mas não pode ser determinante. Ele é importante, porque os evangélicos conservadores, em qualquer cidade, vão fazer o jogo de sempre. Eles vão provocar e atacar, implorando para serem atacados, na esperança de que o ataque a eles contribua para o discurso de que seria um ataque aos evangélicos em geral.

Portanto, não duvidem do custo alto que a farsa da “cristofobia” pode efetivamente ter. Este é um truque desonesto e gasto, mas é o que tem funcionado.

Evangélico progressista representa pouco

Frequentemente, a esquerda mira nos barões da fé, nos negociadores do evangelho, manipuladores de voto, e acertam em todo o segmento, empurrando para o campo mais retrógrado quem poderia acolher suas propostas.

Mas o debate em torno dos evangélicos não pode ser determinante, porque é hora da cidade ver as outras religiões que a formam. Atacar o fundamentalismo evangélico sem deixar claro porque a diversidade religiosa é importante para a cidade, ou em que as várias religiões cooperam em uma cidade laica, é outra forma de manter a hegemonia do fundamentalismo evangélico.

Sucessivamente, a esquerda tem dormido satisfeita de ter ouvido evangélicos progressistas que lutam ao seu lado, integram seus partidos e defendem suas propostas, e se frustrado ao acordar e perceber que só os evangélicos progressistas estavam ao seu lado e defendiam suas propostas. Evangélicos progressistas são fundamentais, mas além de não poderem tudo, efetivamente representam pouco.

Em nenhuma cidade do Brasil a igreja evangélica ali é progressista. Provavelmente haverá ali igrejas evangélicas que se assumem como tal. Mas serão mínimas. Décadas de preconceito, arrogância e hostilidade de setores da esquerda com a religiosidade evangélica, principalmente pentecostal, ainda gritam e causam afastamento dos evangélicos mais simples. E não há pastor progressista que desfaça essa desconfiança da noite pro dia.

Diálogo não pode se limitar a direita-esquerda

A questão é que isto não significa que a maioria portanto será necessariamente retrógrada e fundamentalista. Há um árduo trabalho de aproximação de um imenso contingente de pessoas que podem estar dispostas ao diálogo, mas não funcionam na chave “direita-esquerda”, “progressista-conservador”. Esse contingente exige paciência, abertura e humildade.

Repito, mais do que em qualquer outra ocasião, as eleições municipais deste ano serão uma luta pelo que ainda poderemos lutar em 2022. Em qualquer cidade onde uma esquerda coerente se manter de pé em novembro, um sopro de esperança pode vir. Mas, efetivamente, o debate racial e religioso tem nos mostrado uma esquerda partidária que precisa melhorar muito, porque o Brasil já piorou, e piora a cada dia mais.

Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.

 

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Padre pode falar em política? Pode e deve

padre flavio ricardo
Padre Flávio deu aula de cidadania na última semana

O título pergunta e na mesma hora responde. Na curta semana pós-carnaval o assunto no Rio Grande do Norte foi a cobrança pública do padre Flávio Augusto cobrando do senador Garibaldi Filho (PMDB) e do deputado federal Beto Rosado (PP) que votem contra a reforma da previdência.

O assunto foi mais comentado que a leitura da mensagem anual da prefeita Rosalba Ciarlini (PP) que disse ter encontrado uma dívida de mais de R$ 150 milhões na Prefeitura de Mossoró.

Muita gente mostrou-se incomodada com o fato de o sacerdote ter “roubado a cena”. “Padre não deve ser meter em política”, diziam os críticos.

Onde está escrito que padre não pode falar sobre política? Que coisa mais quadrada essa de um líder religioso ter que ficar apenas rezando missa ou orando em cultos!

Atitudes como a de Padre Flávio são salutares. Como foram as críticas feitas pelo Padre Talvacy aos políticos num passado recente.

Eu, particularmente, acho válida essa postura cidadão dos padres. É positivo até porque raramente um padre entra para a política e quando isso ocorre a Igreja Católica os afasta temporariamente.

Bem diferente de quem usa a posição de líder para conquistar mandatos eletivos, muitas vezes usando um discurso de ódio contra homossexuais e esbanjando outros tipos de preconceitos.

Política e religião se misturam sim, ao contrário da velha e despolitizada máxima. A censura a essa simbiose depende apenas da forma como isso acontece. Quando padres usam o discurso em defesa de uma causa justa é muito válido.

O que eu acho covardia é explorar a fé alheia para tirar dinheiro de pessoas, conquistar mandatos eletivos e pregar o ódio, repito.

Política e religião sempre se misturaram. Durante milênios o poder político emanou da fé. Um faraó egípcio não era nada sem o apoio dos sacerdotes. Um rei absolutista se legitimava afirmando que o seu poder emanava de Deus. Na Idade Média o mando político dos senhores feudais passava pelo aval da Igreja Católica.

Na modernidade do século XXI a fala dos líderes religiosos deve ser no sentido da defesa dos interesses da coletividade.

Falem mais sobre política, padres e pastores!