Ezequiel sai fortalecido das urnas, mas errará ao se iludir com crescimento do PSDB

Ezequiel será fundamental em 2022 no RN (Foto: Eduardo Maia/ALRN)

Considerado por muitos o grande vitorioso das eleições de domingo, o presidente da Assembleia Legislativa Ezequiel Ferreira de Souza (PSDB) tem muito a comemorar e números para sustentar o sentimento de que saiu maior das urnas.

O PSDB elegeu 31 prefeitos (21 a mais que 2016), foi o partido mais votado do Estado nas eleições majoritárias com 399.658 votos, vai governar 37,23 da população do Rio Grande do Norte (mais que o triplo do segundo colocado MDB) e elegeu 252 vereadores (147 a mais que 2016).

O partido cresceu e fortalece a figura de Ezequiel como articulador político. Quem quiser ser competitivo em 2022 para Governo do Estado e Senado vai precisar sentar com ele para conversar.

Mas é preciso, por outro lado, ter os pés no chão. Não são votos dados diretamente a ele ou por causa de alguma bandeira específica do PSDB. É fruto do ajuntamento de lideranças nos municípios. O mérito de Ezequiel neste caso está em ter conseguido reunir em torno de si gente competitiva em várias cidades.

Guardada as devidas proporções o que aconteceu com o PSD de Robinson Faria em 2016 não pode ser excluído do radar. A legenda elegeu o maior número de prefeitos e o segundo de vereador. Dois anos depois o então governador sequer foi ao segundo turno.

Ainda é incerto se Ezequiel vai tentar o Senado, Governo ou se manter no comando da Assembleia Legislativa. Ele está fortalecido, mas não pode se iludir com os resultados de domingo.

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Não há vacina contra a insensatez

Bolsonaro coloca interesses políticos a frente das vidas (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

Por Bernardo Mello Franco

Durou pouco a ilusão de que o governo deixaria a saúde passar à frente da politicagem. Na terça-feira, o ministro Eduardo Pazuello anunciou a compra de 46 milhões de doses da vacina desenvolvida pela Sinovac e pelo Instituto Butantan. Menos de 24 horas depois, o capitão desautorizou o general.

Eduardo Pazuello havia sido taxativo. “A vacina do Butantan será a vacina do Brasil”, afirmou. Ao ler a declaração nos jornais, Jair Bolsonaro metralhou o próprio ministro. “Alerto que não compraremos vacina da China”, escreveu, em mensagem a aliados.

Nas redes sociais, o presidente chamou a Coronavac de “vacina chinesa de João Doria”. O ataque uniu duas obsessões bolsonaristas: a paranoia com a China e a ideia fixa com o governador de São Paulo.

Para agradar seus radicais, Bolsonaro imita Donald Trump, que chama o coronavírus de “praga chinesa”. A macaquice ignora uma diferença sensível. Washington trava uma disputa por hegemonia com Pequim, enquanto Brasília só tem a perder ao provocar seu maior parceiro comercial.

Com Doria, o problema é a disputa de 2022. Em campanha antecipada à reeleição, o presidente vê o ex-aliado como um adversário em potencial. Por isso aproveita qualquer chance de alvejá-lo, mesmo que isso signifique atentar contra a saúde pública.

Ao tratorar a Coronavac, Bolsonaro também atropelou Pazuello. O paraquedista nem pode reclamar da sorte. Ele foi escolhido para isso mesmo: bater continência e cumprir as ordens do chefe.

Ao assumir a pasta, o general se sujeitou a receitar cloroquina aos doentes. Em seguida, comandou uma operação para maquiar dados oficiais. Numa coincidência infeliz, ele foi humilhado pelo chefe no momento em que está fora de combate. Depois de cumprir muitas agendas sem máscara, o ministro foi diagnosticado com a Covid.

Enquanto Bolsonaro insiste em politizar a pandemia, o vírus continua a matar brasileiros. Ontem o país ultrapassou a marca de 155 mil vidas perdidas. Para nosso azar, não há vacina contra a insensatez.

Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.

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O fetiche do centro

Por Raul Jungmann*

Brada a oposição: “precisamos construir, agora, um centro para se contrapor eleitoralmente ao atual governo, sob pena de as chances da reeleição do presidente serem crescentes”. Mas é preciso lembrar que nas sete eleições presidenciais, de 89 para cá, isso nunca ocorreu, mesmo quando o incubente do turno disputava a reeleição.

O menor número de concorrentes foi em 2002, num total de seis, que foram 22 em 1989. Ao longo desses mais de trinta anos, todos os players que se acreditavam capazes estiveram na disputa, mesmo que remota fosse a chance, ou para se cacifarem a pleitos futuros. E assim, julgo, se repetirá em 2022.

Em um regime democrático de livre competição e com eleições em dois turnos, a aglutinação de partidos e candidatos em um “centro” não tem incentivos suficientes para se concretizar num primeiro turno.

Reunião de todos, de um e de outro lado, governo versus oposição, só aconteceu durante o regime militar, fruto do bipartidarismo. Que, afinal, teve que ser implodido pelo próprio regime em 1979.

A preocupação das forças ditas de centro, tanto de esquerda, quanto de direita, se justificaria pela chance concreta de um segundo turno ser disputado pelo Partido dos Trabalhadores e o bolsonarismo – o que é uma possibilidade real – e ter pela frente uma escolha de Sofia.

Acresce às angústias dos “centristas” o fato de até aqui nenhum dos pretensos candidatos de centro ter despontado como alternativa eleitoralmente viável e com capacidade de unir os diversos partidos e tribos distribuídas pelo seu vasto espectro.

Essa ansiedade por uma candidatura desde já com potencial de polarização tem sua razão de ser, mas ela é precoce e sinônimo de insegurança, face o tempo que resta para a disputa presidencial, além das eleições municipais no meio do caminho.

É cedo para tal e, por ora, melhor seria investir na formação de uma frente democrática que firmasse o compromisso de uma aliança em torno do candidato que chegar ao segundo turno. Tal frente poderia se propor um programa mínimo, comum a todos os competidores tidos como de centro.

Os principais pontos desse compromisso devem ser a defesa e o fortalecimento da democracia, a redução das desigualdades e a manutenção da saúde fiscal do Estado. E, desde já, procurando associar as críticas ao atual governo a propostas e soluções factíveis para os problemas vividos pelos brasileiros e brasileiras, sobretudo os mais vulneráveis.

*É ex-deputado federal, foi Ministro do Desenvolvimento Agrário e Ministro Extraordinário de Política Fundiária do governo FHC, Ministro da Defesa e Ministro Extraordinário da Segurança Pública do governo Michel Temer.

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Vice-prefeita “cai para cima”

Nayara circula com Beto nas convenções (Foto: redes sociais/Nayara Gadelha)

Retirada da reeleição para e vetada na chapa proporcional pelos atuais vereadores do PP, a vice-prefeita Nayara Gadelha (PP) está ciente que a resiliência que lida com essas duas situações será compensada no futuro.

O sintoma disso é que ela já circula pelas convenções do PP pelo interior do Rio Grande do Norte ao lado do deputado federal Beto Rosado (PP). Ela já esteve em Baraúna, Serrinha dos Pintos e Messias Targino onde o PP terá candidaturas próprias.

Pode estar sendo desenhada a dobradinha Nayara estadual e Beto federal para 2022. O rosalbismo não emplaca um nome próprio para a Assembleia Legislativa desde 2002 quando Ruth Ciarlini se elegeu pela última vez.

Digamos que Nayra “caiu para cima”.

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Se a operação para normalizar Bolsonaro funcionar no RN, não será Rogério Marinho, mas Styvenson o candidato competitivo para 2022

Por Daniel Menezes*

Caso funcione a normalização feita do presidente Jair Bolsonaro no RN, não sairá daí a condição de candidatura competitiva para o governo em 2022 do hoje ministro Rogério Marinho. É o desejo que as elites potiguares tentam realizar, mas não é assim que acontece. A força do exemplo será maior do que a do discurso seletivo.

Se a população aceitar que o bom é agredir jornalista, gritar com os outros e arrebentar com o sistema político, ação que Bolsonaro faz mais nos holofotes do que na vida real da relação com o congresso, o potiguar não olhará para Rogério, mas para o capitão Styvenson.

Rogério Marinho é preparado, porém tem o perfil da “velha política” e um histórico de alianças com os principais grupos políticos do RN. Quem age do jeito que se tenta normalizar é o senador Styvenson.

O povo, além disso, perceberá a contradição entre valorizar Bolsonaro e sua forma de agir e tentar fritar Styvenson, que atua de maneira semelhante. Nesse processo, será o bolsonarista local que terminará na panela entregue de bandeja.

E um aviso que deveria ser motivo de preocupação. Bolsonaro faz composição e vive pacificamente com quem tem o poder, apesar da truculência e da retórica. Já Styvenson, não. Muita gente está cavando o próprio buraco para se enterrrar. Basta olhar as pesquisas.

*É sociólogo e professor da UFRN

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O voto quântico

Resultado de imagem para física quantica

Por João Feres Júnior*

Dando sequência ao artigo “Em busca do centro perdido” (Em busca do centro perdido), vou analisar agora as reais possibilidades de recomposição do centro por meio da ação das forças políticas atuais. Para chegar ao cerne da questão precisamos primeiro tentar compreender o que está acontecendo no plano fenomenológico mais capilar da opinião pública.

Meu objetivo é ilustrar o que eu chamei de transformação do campo ideológico do eleitorado de um formato de corcova de dromedário para um de corcova de camelo – que me perdoem o preciosismo zoológico: __/\__ em _/\___/\_. Não vou reproduzir gráficos aqui para não tornar a leitura descontinua.

Na verdade, a metáfora zoológica reflete puramente a forma da curva. Quando olhamos pela perspectiva da dinâmica política, é melhor substituí-la por uma metáfora que vem da física de partículas: o estado quântico. Ela provê vantagens heurísticas em relação á anterior.

A figura da dupla corcova é de fato um exagero. Ela pode dar a impressão que temos dois campos radicalizados em oposição, argumento trombeteado pelos editoriais dos jornais grandes brasileiros durante todo o segundo turno. Segundo eles, a eleição de Bolsonaro ou de Haddad (com a volta do PT ao poder) representava riscos equivalentes à democracia. Essa mistificação de grandes proporções não resiste a duas linhas de análise sóbria, mas ainda assim foi repetida ad nauseam por esses “grandes defensores da liberdade de imprensa”.

Fato é que, no contexto eleitoral, tirando os votos brancos e nulos, os eleitores de Haddad se distribuíram da extrema esquerda ao centro, ou seja, o candidato capturou grande parte dos votos daqueles que consideravam o “projeto” cripto-fascista de Bolsonaro intolerável. Já os eleitores de Bolsonaro, a despeito de não poderem ser considerados geneticamente reacionários, preferiram eleger tal projeto a ver o PT voltar à presidência, isto é, fizeram uma opção bastante extremada à direita. Em suma, há de fato um fosso ao centro, mas ele existe em grande medida porque a opção à direita se deslocou do PSDB-DEM para o bolsonarismo. O PT ficou praticamente no mesmo lugar.

Daí a metáfora do voto quântico, pois ao invés de um espaço contínuo ao longo do qual se distribuem as preferências dos eleitores, temos dois estados bastante distintos – como as camadas de energia dos elétrons em uma eletrosfera – e um eleitor que sai de um só ingressa no outro dando um salto ideológico.

Usei o termo voto aqui, mas a metáfora se aplica também a períodos em que não há campanha eleitoral, pois, como percebemos cotidianamente, a estratégia que anima o campo bolsonarista – provavelmente à exemplo do que faz Donald Trump nos EUA – é dar continuidade, mesmo depois de sua vitória nas urnas, ao embate ideológico do modo mais sórdido, ao invés de substituí-lo pela lógica da conciliação – o que era praxe nos tempos em que vigorava o saudoso presidencialismo de coalizão em nosso país.

Ao falar de eleição, cometo aqui a enorme imprudência de arriscar análises de evento que ainda está tão distante no calendário. Mas, tal análise pode ser aplicada ao momento atual, dado que nunca saímos da lógica eleitoral.

Como, então, um contingente tão grande de pessoas fez tal opção pelo projeto de extrema direita? Certamente as décadas de criminalização da política representativa contribuíram para essa virada à direita. Essa campanha de difamação terminou por atingir mais o PSDB e outros partidos “tradicionais” do que o PT. De qualquer maneira, as forças políticas que ora se engajam em reconstruir o centro têm que pragmaticamente aceitar que esse estrago já está feito.

A pergunta então deve ser reformulada para aqueles que almejam reconstruir o centro: como tirar os eleitores dessa configuração quântica? Vou tentar responder isso da perspectiva da centro-direita e da centro-esquerda.

Candidaturas como a de Luciano Huck, João Dória, Armínio Fraga, ou qualquer outro que represente a centro-direita, terão o desafio obter sucesso onde Alckmin fracassou: a tarefa de reduzir a extrema direita a sua margem mais radical, roubando-lhe os adeptos conservadores moderados, ao passo que catalisaria uma larga fatia do centro antipetista. Mas isso não é só. Para sair-se vitoriosa, tal candidatura de centro-direita teria que contar com uma boa fatia de votos da centro esquerda.

Sua única chance de isso acontecer seria conseguir ir para o segundo turno contra Bolsonaro, pois aí os eleitores da centro-esquerda seriam forçados em massa a evitar o “mal maior”. Se Bolsonaro mantiver a sua base de apoio, tal tarefa será dificílima, pois certamente haverá candidatos viáveis de centro-esquerda na disputa do primeiro turno. A centro-direita está espremida, incapaz de galgar as escarpas do fosso quântico no qual meteu a si e a todo o país, seja para um lado, seja para outro.

Já a centro-esquerda tem um desafio bastante diverso pela frente: atrair eleitores do outro lado do fosso. Como ela abarca praticamente todas as forças a sua esquerda, sua tarefa é conquistar adeptos do outro campo. Há um elemento positivo aqui, pois o antipetismo, que foi muito eficaz em roubar votos do PT no pleito passado, é uma chaga moral-cognitiva que não se encaixa perfeitamente na metáfora física da polarização. Durante a eleição ele foi explorado por praticamente todos os candidatos, menos Haddad, é claro. E mesmo dentro do PT há quem namore com tal “ideologia”.

A despeito da continuidade do clima eleitoral, o passar do tempo, as seguidas gafes e confusões engendradas por Bolsonaro et caterva, e a confusão com que a mídia grande cobre o governo – ora apoiando, ora execrando suas ações – podem ter um efeito deletério sobre o alto nível de ideologização em que se meteram vários de nossos concidadãos, contribuindo assim para desinflar o antipetismo.

Para além dessa especulação com um tanto de wishfulthinking de minha parte, voltemos ao grande desafio da centro-esquerda que é a da conquista ou reconquista dos adeptos do outro campo. Esse desafio é propriamente de natureza comunicacional.

Como já discuti em maior detalhe em outra oportunidade, a eleição de Bolsonaro marcou uma virada no paradigma comunicacional da campanha eleitoral. Os canais usuais de comunicação com o eleitorado (estrutura partidária para fazer campanha direta, tempo no Horário Gratuito da Propaganda Eleitoral e apoio da mídia grande) soçobraram frente à estratégia de construção de longo prazo da candidatura de Bolsonaro no Facebook, à usina de fakenews que se instalou no WhatsApp – aparentemente por intermédio do financiamento ilegal da prática do firehosing –, e ao poder comunicacional das igrejas evengélicas.

Mas essa não foi uma mudança somente da forma de se fazer campanha. O maior problema para a centro-esquerda é a mudança de natureza da comunicação em si. Até a penúltima eleição as forças políticas davam enorme importância para o aspecto deliberativo da discussão política, isto é, à ideia de que a decisão pelo voto, ou mesmo a adesão ideológica, se dava por do meio do convencimento racional do indivíduo.

É claro que qualquer marqueteiro sabe que o aspecto emocional sempre foi muito importante na conquista do eleitor. Mas ele sempre foi acessório aos bons argumentos. Mesmo as enormes fakenews produzidas pela grande mídia ao longo dos anos – sequestro de Abílio Diniz, escândalos falsos, bolinha de papel, etc. – também tiveram papel acessório aos esforços de campanha da centro-direita. O papel central do bom argumento se refletia na importância dos debates, solenemente desprezados por Bolsonaro em 2018. Em certo sentido, a existência do centro político era baseada nessa natureza deliberativa do processo comunicacional da eleição.

É claro que a adesão da centro-direita a esse modelo deliberativo era em parte histórico – muitos de seus membros migraram de posições mais à esquerda – e em parte instrumental. Já a esquerda é impregnada, ainda que por vezes inconscientemente, por uma concepção deliberativista de democracia, segundo a qual as pessoas são tomadas como dotadas de autonomia para tomarem decisões racionais a partir das informações que recebem. É claro que a propaganda sempre exagera ou embeleza, mas a mentira deslavada e a pura manipulação não me parece fazerem parte do repertório da comunicação política da centro-esquerda.

A maior parte da propaganda eleitoral do PT em 2018 foi baseada na ideia de que bastava mostrar quem é Haddad, o que ele fez no Ministério da Educação e na Prefeitura de São Paulo, para convencer o eleitor de sua superioridade quando comparado aos adversários.

Se a análise acima está correta, então há pouca esperança na recomposição de um centro político, pois as condições comunicacionais para sua existência já não mais existem. Precisaríamos reverter a transformação tecnológica dos meios de comunicação ou que alguma mudança ainda inimaginada pusesse a comunicação política em outras bases.

Se a batalha pelo centro é fútil, qual seria a chance das forças que não aderiram ao bolsonarismo? Enquanto houver extrema-direita, a centro-direita estará comprimida entre ela e a centro-esquerda. Uma saída possível seria a radicalização à esquerda da centro-esquerda, algo que tanto a mídia como setores da própria esquerda desejam. Isso abriria mais espaço para a centro-direita, mas tem poucas chances de acontecer.

Incapaz de recompor o centro, a centro-esquerda vê-se perante o desafio de fazer eleitores/cidadãos cruzarem o fosso quântico para seu lado. O problema é que lhe faltam meios para fazê-lo. O bom argumento não vai funcionar e sua disposição ou mesmo condição para entrar com a cara e a coragem no mundo da pós-verdade me parecem pífias, não sem razão.

Sim, vivemos em um mundo bem estranho!

*É professor de ciência política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da UERJ. É coordenador do GEMAA – Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (http://gemaa.iesp.uerj.br/) e do LEMEP – Laboratório de Estudos de Mídia e Espaço Público.

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Que anti vai dar as cartas em 2022? E a falta que faz uma rua para a turma do terceiro turno

Ciro Gomes continua encarnando uma das opções eleitorais para se contrapor ao bolsonarismo. Frentes de esquerda e opções à direita e ao centro ainda não têm contorno programático definido (Foto: Sérgio Lima/Poder360)

Por Alon Feuerwerker*

Poder 360

A máxima “é a economia, estúpido”, universalizada a partir da vitória de Bill Clinton em 1992 contra George Bush Primeiro, deve enfrentar um bom teste ano que vem. Se as previsões de recessão americana não se confirmarem, Donald Trump vai às urnas surfando crescimento sólido e pleno emprego. Restará aos democratas navegar no antitrumpismo, uma convergência de rejeições variadas, com foco comportamental e ambiental. Que bicho vai dar?

E por aqui? Se a economia continuar mal, o bolsonarismo chega a 2022 capenga. E sua melhor aposta seria o antipetismo. Mas é ingênuo imaginar que o bolsonarismo vai assistir passivamente à perenização da mediocridade econômica, e caminhar mugindo para o matadouro eleitoral. Se é verdade que Paulo Guedes resta como o último dos ministros ainda com crachá de super, a esta altura o mundo já percebeu: quem acreditou em carta branca caiu no conto do vigário.

O seguro morreu de velho e, na dúvida, o bolsonarismo e o lavajatismo continuam batendo no PT. Mas o presidente parece ter um olho no peixe e outro no gato, também abre fogo regular contra um nascente antibolsonarismo antipetista que lança raízes na direita, no autodeclarado centrismo, e até numa fatia da esquerda, esta em busca da plástica que remova as rugas de quase duas décadas de governos PT, e lhe permita aparecer como novidade.

Não será fácil vertebrar esse antitudo. Em 2018 naufragou, apesar da torcida. Talvez porque sua melhor aposta fosse o PSDB, ele próprio atingido pela marcha do lavajatismo. Mas convém não subestimar. Agora são vários candidatos “contra os extremismos”, desde o ainda tucano João Doria até a franjinha do PT ansiosa por livrar-se da liderança de Lula. Passando por Luciano Huck e por um Ciro Gomes cada vez mais disposto a bater nos outrora aliados.

Diz a sabedoria política: mais que para eleger alguém, a pessoa sai de casa no dia da eleição principalmente para derrotar alguém. Principalmente num segundo turno. Daí a importância de monitorar em tempo real a temperatura dos vários anti. Dois parâmetros são úteis aqui: a taxa de rejeição de cada nome/partido e as simulações de segundo turno. É um erro achar que a distância das eleições diminui a importância dessa medição. É o contrário.

Que anti será hegemônico daqui a três anos? O vacilo na medição dessa variável costuma ser fatal. Ano passado, a campanha de Fernando Haddad parece ter acreditado por um momento que a ida de Bolsonaro ao segundo turno desencadearia a aglutinação de um amplo movimento democrático antibolsonarista. Não rolou. O antipetismo mostrou-se bem mais forte. Pelo menos, Haddad teve um final digno. Não foi o caso do massacrado centrismo antiextremista.

Registre-se que na história do Brasil frentes da esquerda com os liberais só existiram com sucesso quando os primeiros aceitaram a liderança dos segundos. #ficaadica

É corajoso, e curioso, que as mais animadas articulações políticas opositoras apostem exatamente no que deu errado na eleição. Na esquerda, a frente ampla não programática. Na direita e no autonomeado centro, a advertência contra o risco de supostos extremismos. Talvez essa coragem se pague, mas por enquanto é visível a dificuldade de os atores concordarem em qualquer coisa que não seja a vontade de chegar ao poder só surfando na rejeição alheia.

Mas, se isso deu certo para o presidente por que não daria certo contra ele? Aliás, o fato mais vistoso da conjuntura é a agitação dos que apoiaram Bolsonaro contra o PT e agora conspiram a céu aberto para tentar se livrar dele. Exibem músculos na opinião pública, mas falta-lhes rua. Quem poderia fornecer? A esquerda. Mas esta não parece especialmente motivada, ainda, a injetar o combustível político indispensável aos algozes de tão pouco tempo atrás.

Pode ser também a Lava Jato. Daí as piscadelas cada vez mais explícitas, a pretexto de não deixar morrer a luta contra a corrupção. A dificuldade? A relação íntima do bolsonarismo com o lavajatismo. E como Bolsonaro não nasceu ontem, vetou sem medo de ser feliz um monte de coisas na Lei de Abuso de Autoridade. E seu indicado à Procuradoria Geral da República já estendeu o tapete vermelho à turma de Curitiba, lato sensu.

*É jornalista e analista político e de comunicação na FSB Comunicação.

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