Ausente, Lula virou escada multiuso em debate

Por Josias de Souza

Lula desprezou várias oportunidades para colocar Fernando Haddad no pedestal de candidato oficial do PT ao Planalto. Acabou virando uma oportunidade que os outros candidatos aproveitam nos debates presidenciais. Na Rede TV!, a ausência de Lula tornou-se uma espécie de escada multiuso.

Bolsonaro chegou a produzir uma “cola”, para não esquecer de escalar seu cabo eleitoral invisível. Escreveu na mão: “pesquisas”, “armas” e “Lula”. Sobre Lula, disse que havia um púlpito reservado para ele no estúdio. Que teria sido retirado a seu pedido, pois lugar de bandido é na cadeia. Em verdade, a peça saiu de cena por vontade da maioria dos candidatos.

Alvaro Dias (Podemos), cuja plataforma é a refundação da República, com a  “institucionalização da Lava Jato”, tachou a candidatura de Lula de “encenação” e “vergonha nacional”. Apenas Guilherme Boulos, do PSOL, votou contra a retirada do púlpito de Lula do estúdio.

Sem a concorrência do PT, Boulos monopolizou o discurso de contestação. A exemplo do que ocorrera no primeiro debate, entoou uma pregação que fez lembrar o velho Lula da fase sindical, na década de 80. Seus ataques à “esculhambação” e aos “privilégios” do sistema político não levarão o PSOL ao Planalto. Mas o partido, nascido de uma costela do PT mensaleiro, abocanhará um pedaço do eleitorado que se sente órfão de Lula.

Um telespectador que se deixasse trair pelo sono imaginaria que o candidato de Lula na sucessão de 2018 é Henrique Meirelles, do MDB. O ex-ministro da Fazenda de Michel Temer repetiu à exaustão que não é político. Trocou a iniciativa privada pela presidência do Banco Central porque “o Lula chamou”.

Apropriando-se de uma obra coletiva, Meirelles jactou-se: “Criei 10 milhões de empregos” sob Lula. Sem mencionar o nome radioativo de Temer, o ex-ministro disse ter assumido a pasta da Fazenda para “consertar a bagunça da Dilma”. E produziu “mais dois milhões de empregos”.

Um brasileiro que integre a estatística em que o IBGE aponta a existência de 27 milhões de desempregados, desalentados e sub-remunerados no país, deve ter imaginado que Meirelles é candidato a presidente do Mundo da Lua. Com o hipotético apoio de Lula.

Boulos voltou a realçar os “50 tons de Temer” que coloriam a bancada de candidatos. Lembrou a entrevista em que Temer insinuou que o apoio dos partidos governistas do centrão fez de Alckmin o candidato do seu governo.

Meirelles sorriu amarelo. E Alckmin devolveu a provocação. Declarou que “os tons de Temer” são, na verdade, “avermelhados”. Lembrou que foram os companheiros petistas de Boulos que acomodaram Michel Temer na vice-presidência da República –“Duas vezes”, realçou.

Lula também compôs o pano de fundo de uma troca de amabilidades entre seus ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). Ex-ministra do Meio Ambiente, Marina perguntou a Ciro o que faria para resolver os conflitos em terras indígenas. Ex-titular da pasta da Integração Nacional, Ciro recordou que atuara junto com Marina para atenuar o problema no governo de Lula.

Para o bem ou para o mal, Lula foi utilizado como escada por quem quis. Só não foi aproveitado pelo petismo, que arrasta a candidatura-fantasma do seu líder como uma bola de ferro, longe das sabatinas e dos debates.

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Agenda Potiguar 2019-2022

Por Amaro Sales de Araújo*

Em 2005, o Rio Grande do Norte era o estado melhor posicionado, em condições gerais de vida, entre todos os estados do Norte e Nordeste do país, ocupando o 12º lugar entre os estados brasileiros. Era também o 3º mais seguro. Hoje, tornou-se o campeão nacional na violência e apresenta um dos menores índices de dinamismo econômico do Brasil (www.desafiosdosestados.com.br).

Esta perda de dinamismo foi diagnosticada desde 2014 pelo Plano “Mais RN”, que propôs um pacto político e social de todos para melhorar o estado. Infelizmente este Pacto não aconteceu e a trajetória de declínio se acentuou. E o pior ainda pode acontecer: se nada de novo for feito, até 2022 corremos o risco de cair para a 23ª posição entre os estados brasileiros, sendo ultrapassados por Rondônia, Paraíba, Roraima, Bahia, Tocantins, Piauí, Amazonas, Alagoas e Sergipe. À frente apenas do Acre, Amapá, Pará e Maranhão.

Essa trajetória preocupante não se deve à falta de potencialidades: além de ter um povo trabalhador e hospitaleiro, o Rio Grande do Norte tem potenciais muito valiosos, como energia, turismo, fruticultura, pesca/camarões, mineração, confecções, comércio, construção civil e serviços avançados. Além do bioma caatinga que as novas tecnologias produtivas estão viabilizando. Mas, essas potencialidades só serão plenamente aproveitadas, se superarmos a profunda crise fiscal e financeira do Governo do Estado e melhorarmos os serviços públicos e o ambiente para os negócios do setor privado.

É neste cenário que lideranças empresariais e especialistas, mobilizados pela FIERN, atualizaram o Mais RN e, com o apoio da Macroplan, montaram a Agenda Potiguar 2019-2022, uma proposta concreta, objetiva e realista para resgatar o Rio Grande do Norte nos próximos quatro anos, mantida a original visão de futuro do Projeto para 2035.

É uma agenda que vê os problemas e soluções de frente, mas com os pés no chão e para os próximos quatro anos, tem foco em quatro grandes desafios.

Primeiro, melhorar os serviços públicos e a infraestrutura com ênfase na continuidade e melhoria da segurança, saúde, educação, assistência e inclusão social, transportes e conectividade e recursos hídricos e saneamento.

Em paralelo, melhorar o ambiente de negócios e atrair mais investimentos. Sem isso, não teremos investimentos privados nem tampouco crescimento econômico que é quem gera empregos.

Para realizar os dois primeiros desafios, o terceiro que se impõe é fazer um forte ajuste fiscal e melhorar a qualidade do gasto público. Por último, mas não menos importante, será preciso por em prática uma governança cooperativa e solidária, sob a condução comprometida e exemplar do Governador eleito em 2018.

O Rio Grande do Norte tem jeito. A Agenda Potiguar mostra o caminho, com 44 metas ousadas e 180 ações prioritárias. Mas não há mais tempo a perder. É hora de união, coragem para tomar as medidas duras que são inadiáveis e assim fazer o Rio Grande do Norte voltar a ser um lugar seguro para crescer, dinâmico para prosperar e bom para viver.

* É industrial, Presidente da FIERN e do COMPEM/CNI

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Da série “CandidatX, o que você pensa sobre isso?”

Por Carolina Rosado*

Quando se perde o trato pessoal, toda sua capacidade técnica vai pra o lixo. Um bom profissional em qualquer área, nunca pode esquecer que antes de tudo ele é um ser humano. Trabalhar com o “crime” como se diz, pelo fato de eu ser advogada criminalista, faz você perceber coisas que apenas muitos anos de reflexão e vivência trazem. Consigo compreender quem fala “bandido bom é bandido morto”, porque nossa cidade está entregue ao poder das facções criminosas, a população parece que nem sabe de sua existência, quando já são traficantes que ditam regras em bairros de Mossoró, que está por sinal, mapeada pelo crime, com coisas do tipo “tal bairro é PCC, tal bairro é RN”. Como consigo entender a crueldade e o massacre do sistema carcerário brasileiro. Tanto para o interno como para os agentes. Como para as família. Ambiente inóspito. Desumano para quem está na cela e fora dela. São cerca de 15 internos para 1 agente (não tenho certeza desse dado, mas alguém da Mário Negócio pode me ajudar). Nossa cadeia faz pena. O estado não dá a mínima para pessoas que arriscam suas vidas 24 horas. E essa vai ser a maior verdade jogada na sua cara hoje: colocar gente na cadeia é recrutar pessoas para as facções criminosas, porque ou você escolhe um lado ou você morre. É a lei do cão. A gente perdeu a guerra contra às drogas. Nosso modelo hoje é corrupto, sujo, desumano, despreparado, negligente, esquecido. Dos candidatos no meu Facebook convido-os a um debate. O que você pensa sobre a nossa polícia sobre drogas?

Vamos marcar e eles estão livres para manifestar sua posição.

Você que acha que querem matar nossa polícia, você está certo!

Você que acha que o estado falha com o apenado, você está certo também!

Perceba, o problema não são nossas pautas. São os políticos que não trabalham por elas. Nós que pensamos diferente não somos inimigos. Afinal, votando em quem for, o que a gente quer é uma economia forte, saúde, segurança, educação, emprego, artigo 5 cumprido bebê. Sem mais. É hora de dar a cara a tapa. Estamos cansados de políticos, lhes falta credibilidade. Direita e esquerda agora só tem vontade de colocar uma bomba no congresso e vê-lo explodir literalmente. Mas, você precisa do meu voto, esse assunto é importante pra mim e aí?

Segurança pública, combate às drogas, polícia, internos, presídio, traficante, usuários, legalização, aumento de pena. O que você candidato vai fazer?

Que comecem os jogos.

*É advogada com atuação na área criminal.

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A escada se lava de cima para baixo

Celso Tracco*

 

Celso TraccoUma das máximas na atividade empresarial é que “a escada se lava de cima para baixo”. Ela faz analogia ao trabalho de uma assessoria contratada por determinada empresa que precisa de uma real transformação para sobreviver, pois o seu modelo de negócio está se deteriorando e ela não consegue, sozinha, se reerguer. Ou seja a “limpeza” tem de começar pela diretoria e ir descendo até chegar à base, degrau por degrau. Muitas vezes, o gestor da empresa, que teve sucesso no passado, não quer perceber que o seu tempo passou, que seus métodos são ultrapassados. Continua se agarrado ao seu posto de maneira monolítica. O gesto pode até ser nobre, poético, heroico, mas é inócuo e principalmente egocêntrico. Pensa em si mas não no bem comum.

Nas próximas eleições de outubro, o Brasil precisa começar a lavar a escada de cima para baixo. Uma verdadeira limpeza, com produtos bem fortes, daqueles que removem toda a sujeira. Certamente dará muito trabalho, será extenuante e precisaremos de muitas mãos. A escada do poder, cujo degrau mais alto é simbolizado pelo Palácio do Planalto, deveria ser de limpeza imaculada, porém, está imundo de tantos detritos, de tantos dejetos, de tantos restos de material velho e abandonado. Olhando bem de perto seu aspecto causa nojo e repulsa. Não adianta fazer uma limpeza assim por cima, leve, apenas para constar. Temos realmente de nos empenhar para eliminar toda a sujeira.

O melhor detergente para essa limpeza? O voto, o seu voto, o nosso voto! Quem deve limpar a escada? Sem dúvida, nós os eleitores. Apenas pela força do voto podemos começar a limpar a “principal escada” de nosso país. Esse deve ser um trabalho contínuo e com a participação de toda a sociedade, não pode ser reduzido a algumas pessoas ou grupos que se julgam “iluminados”.

A empresa Brasil até que começou com ares de limpeza mas, com o passar do tempo, passou a ter uma propina aqui, um mensalão ali, pedaços de malas e roupas usadas para guardar dinheiro, porcentagens e nomeações espúrias em quase todos os departamentos. Privilégios, pensões, obras faraônicas paradas, indicações políticas (cabides de emprego). Foram tantas as ingerências, que a empresa ficou sem caixa para cumprir com os compromissos assumidos. Mas, o gestor não demite ninguém, ao contrário, aumenta ainda mais os gastos.

O gestor, sua diretoria e seus gerentes, querem manter os mesmos hábitos de sempre, não querem perder seus privilégios e, principalmente, não querem salvar a empresa. Que a nossa participação nas eleições saiba expulsar todos esses políticos que insistem em destruir a empresa Brasil.

*Celso Luiz Tracco é economista e autor do livro Às Margens do Ipiranga – a esperança em sobreviver numa sociedade desigual.

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Dois mundos: a mídia negativa de Lula e Alckmin

Por ALBERTO CARLOS ALMEIDA

Um dos temas mais debatidos no Brasil tem sido o efeito da mídia na política. Refiro-me não às mídias sociais, mas sim à mídia impressa e televisiva dominante. Uma das informações mais chocantes dos últimos 3 anos, diz respeito à incapacidade da cobertura de mídia negativa acerca de Lula e do PT piorarem a rejeição do líder maior do partido.

Os dados abaixo mostram na escala vertical direita a rejeição a Lula (linha vermelha) e Alckmin (linha azul escura): são aqueles que não votariam neles de jeito nenhum. Na escala vertical da esquerda há o total de matérias negativas mensuradas pelo Manchetômetro na Folha de S. Paulo, Estadão, jornal O Globo e Jornal Nacional.

A linha laranja mostra as matérias negativas sobre Lula e o PT e a azul clara sobre Alckmin e o PSDB. As informações sobre as notícias estão sistematizadas por trimestre, ao passo que as pesquisas têm os meses especificados no eixo horizontal.

Nota-se que o ponto mais alto do noticiário negativo foi no período do impeachment, entre o primeiro e o segundo trimestre de 2016. Havia uma onda crescente contra o PT e o governo Dilma. Foi ali que a rejeição de Lula atingiu seu máximo, quando 57% do eleitorado afirmou que não votaria nele de jeito nenhum. Naquele momento somente 19% disseram que não votariam em Alckmin, tratava-se de um patamar bastante abaixo do 1/3 do eleitorado que tradicionalmente vota no candidato a presidente do PT.

Após o impeachment, as matérias negativas sobre Lula e o PT despencaram para 200 e voltaram a subir meteoricamente em julho de 2017, quando o juiz Sérgio Moro o condenou a 9 anos de prisão. Depois disso, houve uma nova diminuição seguida de uma subida forte entre janeiro, quando o TRF-4 condenou Lula, e abril, quando ele foi preso. Contudo, em todo o período, a rejeição a Lula mensurada pelas pesquisas do Datafolha caiu, ela atingiu 36%, mais de 20 pontos percentuais abaixo do que seu máximo.

Merece destaque, portanto, que apesar da intensa cobertura de mídia negativa envolvendo Lula e o PT a rejeição do principal líder do partido tivesse caído tanto no mesmo período. Pode-se especular afirmando que se a mídia não fosse tão intensamente negativa, sua rejeição teria caído ainda mais. Jamais saberemos. O que sabemos, todavia, é que todas as más notícias que envolveram seu nome e de seu partido, e a intensidade das mesmas, não foi suficiente para impedir que a rejeição caísse muito.

Por outro lado, a mídia negativa envolvendo o nome de Alckmin e do PSBD foi bem pequena quando comparada a de seu principal adversário. O máximo foi no final da série de dados, 82 matérias negativas, ao passo que o máximo sobre Lula e o PT foi na época do impeachment, com 618. Ainda assim, a rejeição a Alckmin cresceu nos últimos dois anos, atingindo 29% em abril de 2018. Há aqui o fenômeno oposto ao ocorrido com Lula, houve pouco noticiário negativo, o que não impediu o crescimento da rejeição do líder tucano.

Para muitos, fica a indagação acerca da variação da rejeição dos dois políticos, pois se a cobertura de mídia não explica a queda de um e o aumento de outro, o que então poderia explicar?

A rejeição de Lula começou a cair a partir do momento em que o PT saiu do Palácio do Planalto. Ou seja, de uma maneira ou de outra foi graças à cobertura de mídia, mas não devido a matérias positivas ou negativas, mas sim em função de algo factual.

O eleitorado foi aos poucos sendo informado de que o Brasil não era mais governado pelo PT, e que uma aliança entre vários partidos, que incluía o PSDB, passou a fazê-lo. Como o Governo Temer é mal avaliado, o eleitorado passou a responsabilizar seus aliados, resultando no aumento da rejeição de Alckmin.

Foi graças ao impeachment e consequentemente à mudança dos nomes dos ocupantes do poder (e da oposição) que a diferença entre as rejeições de Lula e Alckmin que já foi de 38% em março de 2016 caiu para 7% em abril de 2018. A cobertura de mídia negativa não deteve essa mudança.

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Apoio de Rosalba não altera estagnação de Carlos Eduardo

Carlos Eduardo segue com 15% de intenções de voto

No dia 19 de julho Carlos Eduardo Alves (PDT) conseguia um de seus principais objetivos na pré-campanha: receber o apoio da prefeita de Mossoró Rosalba Ciarlini (PP) com ela indicando o filho, Kadu, como vice.

Dois dias depois a Tribuna do Norte publicou pesquisa do IBOPE colocando o pedetista com 15% das intenções de voto contra 31% de sua principal concorrente, Fátima Bezerra (PT).

Logicamente, não dava para em 48 horas o quadro ter mudado além de os números terem sido coletados antes do anúncio oficial da aliança.

Mas passados quase 30 dias da parceria política era de se esperar que a prefeita tivesse impactado positivamente na campanha de Carlos Eduardo. Mas o efeito é literalmente nulo até aqui.

Carlos Eduardo tem os mesmos 15% de um mês atrás e ainda viu Fátima Bezerra subir para 34%, indo além do limite da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou menos.

Os números materializam a repercussão negativa da aliança bem como um quadro de menor potencial de influência eleitoral da prefeita que ainda é malvista fora dos limites de Mossoró. Sem contar o quadro de desgaste administrativo no segundo colégio eleitoral do Rio Grande do Norte.

O poder de transferência de votos de Rosalba já foi maior, mas não pode ser subestimado. Neste primeiro momento a influência dela, com filho e tudo, em favor de Carlos Eduardo, é nula.

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Análise do debate: candidatos buscam culpados sem apresentar soluções

Debate mostra baixo conteúdo propositivo (Foto: Thaísa Galvão)

Quem teve paciência de ficar até 1h de hoje assistindo o debate da Band Natal viu exposta a mediocridade generalizada da nossa classe política. Durante três horas oito postulantes trocaram farpas e pouco acrescentaram no campo das ideias.

Um festival de obviedades marcou o debate sem acrescentar nada de relevante ao eleitor. Em termos de conteúdo todos disseram praticamente a mesma coisa (e o esperado). Impossível citar uma proposta que desse o que falar.

“Vamos melhorar o RN”, foi a ladainha vazia.

NINGUÉM TEM PROJETO!

Todos os candidatos mostraram que conhecem os problemas do Rio Grande do Norte. Todos sabem que a educação é ruim, que a segurança é caótica, a saúde é vergonhosa e alguns lembraram que a nossa economia não gera receitas para o Governo porque o sofrido elefante enrolou a tromba em gargalos que parecem instransponíveis.

Solução? Nenhuma. Tudo muito vago.

Os candidatos se mostraram muito bons em identificar culpados. Sete deles culpam o governador Robinson Faria (PSD) que joga a responsabilidade para o restante da classe política que o isolou sem dar o apoio necessário. Juntando as duas argumentações tem uma verdade. O pessedista tem culpa, mas seus pares também.

Num festival de obviedades leva a melhor num debate quem possui mais retórica e algum conhecimento sobre os números. Quando o pleito nivela por baixo, a vantagem fica para quem tem mais “Recall” e experiência política porque o eleitor não gosta de “aventuras”.

Confesso, caro leitor, que estou preocupado com o futuro do Rio Grande do Norte. Elegemos dois governos muito ruins nas eleições anteriores justamente por termos encarado dois debates “despropositivos”.

Todos conhecem os problemas porque eles saltam aos olhos, mas até aqui ninguém mostrou capacidade de sugerir soluções nem explicar de onde tirar recursos.

O eleitor não quer saber dos problemas porque ele já os identifica. Queremos saber do “como” e é aí que mora o perigo. Os candidatos mostraram que não sabem o que fazer e ficam presos em tentativas que já deram errado como a cobrança da dívida das empresas (algumas nem existem mais) com o erário estadual ou dizer que vão buscar recursos em Brasília como se a função de um governador fosse peregrinar ministérios com um pires na mão.

O RN precisa investir em infraestrutura, gerar empregos e aumentar suas receitas para ter condições de enfrentar os problemas óbvios.

Estamos condenados a mais uma eleição onde o oba oba vai demarcando território forçando o eleitor potiguar a escolher o menos ruim.

Pobre RN!

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Bolsonaro e seu estranho Deus das armas

Juan Arias

O ex-paraquedista Jair Bolsonaro, de extrema direita, candidato a presidente, considera como “uma missão de Deus” que o Brasil tenha um Governo formado por militares. Assim manifestou dias atrás no Fórum da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), em São Paulo. “No meu ministério terei, sim, muitos militares”, afirmou. E seriam de primeira divisão, “atacantes como Neymar”. Pensa portanto, se ganhar as eleições, em colocar nas mãos desses generais do Exército os ministérios-chaves do seu Governo. E tudo isso por fidelidade a Deus.

Bolsonaro justifica um possível Executivo composto por militares argumentando que, se os presidentes anteriores escolheram como ministros “guerrilheiros, terroristas e corruptos”, como diz polemicamente, por que não poderia ele convocar generais do Exército? O ex-paraquedista quis unir em um só abraço, hábil e eleitoreiramente, as duas instituições que aparecem nas pesquisas como as mais bem avaliadas pelos brasileiros: o Exército e a Igreja. Pretende fazer um governo de militares como algo que Deus lhe pede. Desse modo, conseguiria o milagre, ou a aberração, de que o Exército pudesse governar o país sem ter que dar um golpe militar.

Ascanio Seleme retratou em uma de suas colunas no O Globo essa conjunção de Bolsonaro entre a Igreja e os militares durante a convenção que sacralizou sua candidatura à presidência: “Em alguns momentos, a convenção parecia um culto de uma grande igreja evangélica (…). Em outros momentos, a sensação era de que se estava dentro de um quartel”.

Bolsonaro é um personagem que sabe, além do mais, usar a falácia de querer resolver problemas complexos com receitas simplistas. Uma delas é a de querer tirar o país da crise política, econômica e moral que o castiga com uma equipe de governo formado por membros do Exército. Demonstrou que leva a sério esse projeto ao escolher como vice o general Mourão, que já tinha insinuado, meses atrás, a necessidade de uma intervenção militar frente à crise política e institucional que agita o Brasil.

Trata-se de um militar defensor da ditadura e da tortura, que se permitiu em seguida arriscar palpites culturais ao afirmar, com tons racistas, que os brasileiros sofrem da “indolência dos indígenas” e da “malandragem dos africanos”. Sua função de vice-presidente o coloca constitucionalmente, além disso, na possibilidade de chegar à presidência se, por algum motivo, o titular tiver que abandonar o cargo, algo quase já normal neste país.

Desde antes de Lula chegar ao poder foi criado o ministério da Defesa ocupado por civis, mas agora teríamos com Bolsonaro a anomalia de um Governo em democracia formado por generais. O Brasil apresentaria, nesse caso, uma série de problemas que poderiam comprometer gravemente a democracia. Os militares, cuja função é a de defesa do Estado, estariam governando, e isso poderia arrastar as demais instituições à confusão. É como se alguém quisesse criar um governo de juízes. Seria a morte do Estado de direito, que se funda na divisão de poderes. E tudo isso amalgamado na ambiguidade religiosa de Bolsonaro e seus acólitos, que já revelaram mais de uma vez querer governar com a Bíblia mais do que com a Constituição.

Não sei que estranho Deus das armas inspirou Bolsonaro a formar um Governo com o Exército para resolver os problemas do país. Não pode ter sido o Deus cristão, o dos evangelhos, cuja fé o militar professa, já que esse é um Deus de paz – “Todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão” (Mateus, 26,52) –, de perdão e não de vingança, de respeito pelos diferentes, e defensor de todas as liberdades – “A verdade vos livrará” (João, 8,31) –, o Deus que condena a ambiguidade, que pediu a seus discípulos que respeitassem as instituições sem as confundir: “Deem a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César” (Mateus, 17,24ss), respondeu Jesus aos fariseus que buscavam tentá-lo, confundindo Deus com o Estado.

Misturar o divino com o profano, a Igreja com o Exército e a fé com as urnas é preparar o terreno para novas guerras como as que a humanidade já sofreu no passado, muitas delas realizadas em nome desse Deus militar que hoje parece inspirar Bolsonaro. Pastores evangélicos e cristãos em geral começam a questionar se podem, sem trair sua consciência, votar num candidato cujo Deus é mais o das metralhadoras e da morte que o dos ramos de oliveira da paz, que são o coração do cristianismo ainda não poluído pelo poder profano.

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Primeira medida a ser adotada pela URSAL: melhorar o ensino de História

Leonardo Sakamoto

Um dos pontos altos do debate entre os presidenciáveis, na noite desta quinta (9), na TV Bandeirantes, foram os devaneios do Cabo Daciolo sobre um plano secreto para implementar a União das Repúblicas Socialistas da América Latina (Ursal).

A esquerda é um dos maiores sacos de gatos, com pessoas que brigam até sobre qual o lado correto de quebrar um ovo. Não raro, ela é tratada como um bloco monolítico – que pensa igual, age igual, reclama igual. Talvez por isso, há quem acredite que comunistas e socialistas estejam prestes a dominar o continente. Mal sabem que as esquerdas desses países são diferentes, brigam entre si e não conseguem nem fazem com que um gato faça cocô na caixinha, quanto mais unificar a América Latina em uma ”pátria grande” revolucionária.

”A democracia é uma delícia, uma beleza, mas ela tem certos custos”, lamentou de forma bem-humorada Ciro Gomes diante do surto do colega, que o acusou de estar por trás desses planos.

Coincidentemente (ou não), Cabo Daciolo era bombeiro antes de ser eleito deputado federal, mesma profissão de Guy Montag, protagonista de ”Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury – que foi transposto para a tela por François Truffaut (1966) e Ramin Bahrani (2018). Na obra de ficção, bombeiros não apagavam incêndios, mas os provocavam. Queimavam livros, proibidos sob o argumento de que opiniões individuais tornavam pessoais antissociais e infelizes. O pensamento crítico era combatido. Quem lia era preso e ”reeducado”. Se uma casa tinha livros, bombeiros eram chamados para por tudo a baixo.

O incendiário Daciolo, que propôs alterar a Constituição Federal de ”todo o poder emana do povo” para ”todo o poder emana de Deus” também acredita no poder da reeducação – à sua imagem e semelhança. ”Eu quero deixar uma mensagem para os ateus, para os cristãos de forma geral, o espírita, o católico, a Umbanda, o evangélico, que vamos levar a nação a clamar o Senhor”, afirmou no debate.

No dia 10 de maio de 1933, montanhas de livros foram criadas nas praças de diversas cidades da Alemanha. O regime nazista queria fazer uma limpeza da literatura e de todos os escritos que desviassem dos padrões que eles queriam impor. Centenas de milhares queimaram até as cinzas. Einstein, Mann, Freud, entre outros, foram perseguidos por ousarem pensar diferente da maioria. A Alemanha ”purificou pelo fogo” as ”ideias imundas deles”, da mesma forma que, durante a Contra-Reforma, a Santa Inquisição purificou com fogo a carne, o sangue e os ossos daqueles que ousaram discordar.

O bombeiro Daciolo foi uma mão na roda para o capitão Jair Bolsonaro, que acabou parecendo até comedido diante da fúria do colega de Câmara dos Deputados. Mas, antes do fim do debate, fez questão de defender a imposição das ideias do movimento Escola Sem Partido, caso seja eleito.

Educar por educar, passando apenas dados e técnicas, sem conscientizar o futuro trabalhador e o cidadão do papel que ele pode vir a desempenhar na sociedade, sem considerar a realidade à sua volta, sem ajudá-lo a construir um senso crítico e questionador sobre o poder, seja ele vindo de tradições, corporações, religiões ou governos, é o mesmo que mostrar a uma engrenagem o seu lugar na máquina. A um tijolo, em qual parte do muro deve permanecer – na base da opressão, se necessário for. Se não entendeu, ouça The Wall, do Pink Floyd.

Repito o que já disse aqui várias vezes: uma das principais funções da escola deveria ser ”produzir” pessoas pensantes e contestadoras que podem – no limite – colocar em risco a própria sociedade do jeito que a conhecemos, fazendo ruir a estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Em outras palavras, educar pode significar libertar ou enquadrar. Pode ajudar às pessoas a descobrirem como quebrar suas próprias correntes ou ser o pior cativeiro possível, fazendo com que oprimidos atuem gratuitamente como cães de guarda de seus opressores.

Que tipo de educação estamos oferecendo hoje? Que tipo de educação precisamos ter? Que tipo de educação um movimento como o Escola Sem Partido e tantas outras propostas fundamentalistas querem implantar? Ou, em suma: Como qualificar o debate público com políticos que não discutem políticas públicas?

Se o debate público e o debate eleitoral fossem mais qualificados, o cidadão comum se sentiria motivado a ler determinados textos até para não ser questionado coletivamente nas redes sociais ao expor argumentos ruins, preconceituosos e superficiais. Como dizer que o nazismo é de esquerda por conta do nome do partido alemão (Hitler se revira no mármore do inferno quando alguém o chama de comunista); que a Terra é plana e é o centro do universo, apesar de séculos de provas científico e imagens; que toda vacinação adoece crianças e serve apenas para a indústria farmacêutica ganhar dinheiro; que a ação humana não impacta o clima.

O que temos contudo, é que o discurso violento e simplificador – mais palatável e que mexe com nossos sentimentos mais primitivos e simples – ecoa e repercute. Esse discurso basta em si mesmo. Não precisa de nada mais do que si próprio para ser ouvido, entendido e absorvido. Em um debate qualificado quem usa esses argumentos toscos nem seria ouvido. Contudo, fazem sucesso na rede. Colam rápido, colam fácil. Viralizam. Memetizam.

Se há um exército que retuíta, compartilha e dá ”like” sem checar esse discurso, porque para ele isso basta, também existe uma miríade que preenche o vácuo deixado pela informação insuficiente que recebe com suas fantasias a fim de dar sentido à sua existência ao invés de ir atrás de mais conhecimento. Guiados apenas pela emoção ao invés de razão, tornam-se terreno fértil para as conspirações.

Não que elas não existam, porque existem. Mas são importantes demais para que o impacto de sua descoberta seja enfraquecido pela sua banalização no cotidiano sem graça. Como a revelação da criação de uma Ursal em um debate eleitoral.

Uma mentira contada repetidas vezes para si mesmo vira verdade e, para os outros, torna-se religião. Se a mensagem está bem estruturada, usando elementos simbólicos comuns ao universo do destinatário, que ele consegue consumir facilmente, e que faz algum sentido, por que não acreditar? Ainda mais por que questionar com profundidade leva tempo e paciência, commodities que estão cada vez mais difíceis de juntar.

O mundo sem teorias da conspiração seria menos divertido e romântico. E teríamos que assumir muitas de nossas responsabilidades sem jogar a culpa no desconhecido, no oculto, no sobrenatural, no estrangeiro.

Os cantos mais sombrios de nossa alma sempre buscaram juntar cacos de informações e dar sentido a um ocorrido de forma mágica quando não conseguimos ter acesso à visão geral. Imagine que chato seria um mundo em que as pessoas se dedicassem a aprender História a fim de compreender como chegaram até o aqui e o agora, garantindo uma boa parte dessa visão geral.

Mas, enfim, se tudo der errado, pelo menos teremos a Ursal e suas nove Copas do Mundo.

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Haddad é ‘recall’ de Dilma, poste que deu defeito

Josias de Souza

No mundo dos negócios, o recall é uma convocação que as empresas fazem aos consumidores para trocar peças ou produtos vendidos com defeito. Evitando riscos à vida, à saúde e à segurança da clientela, o fabricante atenua o vexame e livra-se das indenizações. Lula está prestes a introduzir na política a prática do recall. Com uma diferença: ele oferecerá um novo poste ao eleitorado, Fernando Haddad, sem reconhecer que o poste anterior, Dilma Rousseff, revelou-se uma fraude.

À espera da decretação formal de sua inelegibilidade pela Justiça Eleitoral, Lula trata a fabricação da candidatura de Haddad como um grande negócio. Se o eleitor comprar a tese de que o novo poste é solução para os problemas nacionais, Lula será convertido em mártir. Se o produto for refugado, o presidiário do PT renovará a pose de vítima. Em qualquer hipótese, o segredo do negócio é esconder o fiasco da administração de Dilma Rousseff.

Levado à vitrine como vice da chapa tríplex do PT, Haddad aderiu ao coro que celebra a presença de Lula na liderança das pesquisas como uma consequência da comparação do seu governo com a gestão de Michel Temer. Nessa versão, os brasileiros recordam que havia mais empregos e renda sob Lula. E deploram a volta do desemprego e da miséria sob Temer. Para que esse tipo retórica fique em pé, será necessário que a amnésia petista vire um fenômeno epidêmico.

A gestão de Temer é ruinosa. Mas a ruína econômica é consequência direta do desastre gerencial que foi o governo de Dilma. As digitais de Lula estão gravadas no fiasco. É de sua autoria a criação do mito da gerentona. É dele também a responsabilidade do pelo descalabro ético. O mensalão e o petrolão nasceram no seu governo, período em que coalização virou eufemismo para organização criminosa.

No limite, Lula é responsável também pela perversão do governo Temer, pois foi nos seus mandatos que o PMDB tornou-se sócio do PT na usina de propinas. Tudo isso teve um custo. Para quem desceu a rampa do Planalto cavalgando uma popularidade de 84%, os 30% de intenção de votos detectados pela mais recente pesquisa do Datafolha revelam que o prestígio da fábrica de postes já não é o mesmo.

Entre 2013 e 2016, a economia brasileira encolheu 6,8%. Na gestão empregocida de Dilma, o desemprego saltou de 6,4% para 11,2%. Foram ao olho da rua algo como 12 milhões de trabalhadores. Deflagrada em 2014, a Lava Jato demonstrou que o único empreendimento que prosperava no Brasil era a corrupção. Agora, na campanha de 2018, o PT tenta empurrar o espólio de Dilma para dentro do armário.

O PT mantém Dilma longe da cena presidencial. Confinou-a numa candidatura ao Senado, em Minas Gerais. Lula, Haddad e a cúpula petista só lembram do poste anterior quando sentem a necessidade de renovar a teoria do “golpe”. Um golpe sui generis, pois Dilma foi deposta por seus aliados, sob regras constitucionais, numa sessão presidida pelo amigo Ricardo Lewandowski, do STF.

Diante do descalabro em que se converteu o governo de Dilma, as causas invocadas para sua cassação  —o uso de recursos de bancos públicos para pedalar despesas que eram de responsabilidade do Tesouro e a abertura de créditos orçamentários sem a autorização do Congresso— são pretextos para condenar uma administradora precária pelo caos que produziu.

O instituto do recall está regulamentado no Código de Defesa do Consumidor. Ao oferecer um poste novo ao eleitorado sem reconhecer que empurrou pela segunda um poste micado para 54 milhões de eleitores em 2014, Lula viola pelo menos duas exigências do texto legal:

1) “O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança.”

2) “O fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua introdução no mercado de consumo, tiver conhecimento da periculosidade que apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários.”

Nesse ritmo, o preso mais célebre da Lava Jato acabará adicionando problemas novos ao seu extenso prontuário. Arrisca-se a ser acionado no Procon.

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