Ciro é racista ou nós é que não conhecemos nossa história?

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Capitão do Mato, o oprimido que impunha opressão

O pré-candidato a presidente da República Ciro Gomes (PDT) é racista? Não sei dizer. Já o entrevistei em duas oportunidades, mas não tenho qualquer contato com ele para cravar que sim ou não.

Mas comparar o vereador paulistano Fernando Holiday (DEM) a um capitão do mato é um gesto racista? Não. Quem vê racismo nisso é um racista ou não conhece os livros de história.

Então vos apresento o capitão do mato: era o funcionário das fazendas responsável pelas capturas dos escravos “fujões”. Muitos capitães do mato eram negros e por isso são sempre considerados traidores da causa de libertação dos escravos.

Por que existiam capitães do mato? Porque os militares se recusavam a cumprir a tarefa subalterna de correr atrás de escravos que fugiam em ato de resistência. O capitão do mato recebia recompensas por escravos “recuperados”.

Daí a inevitável comparação de negros que traem a causa negra com capitães do mato, repito.

Fernando Holiday é um traidor da causa negra? Diria que sim. Ele é contra as cotas raciais, reproduz o discurso da elite branca do “vitimismo negro”, ataca o movimento negro com frequência e nega a dívida histórica que o Brasil tem com os descendentes dos escravos.

Holiday é autor de um projeto de lei que acaba com a celebração do Dia da Consciência Negra que é feriado no dia 20 de novembro em São Paulo e em várias cidades brasileiras.

Fernando Holiday propôs acabar com as cotas raciais em concursos em São Paulo. Veja o que ele disse sobre o assunto:

“Nós negros e pobres podemos sim vencer na vida através do mérito, não precisamos ficar como vermes, como verdadeiras parasitas atrás do estado, querendo corroer cada vez mais e mais, com esse discurso de merda, com esse discurso lixo. Vocês fazem dos negros verdadeiros porcos no chiqueiro, que ficam fuçando a lama através do resto que o estado tem a nos oferecer. Pobres da periferia, negros da periferia, não se submetam a esse discurso”.

Não corrigir distorções históricas contra negros e pobres favorece brancos ricos e de classe média. O caminho do sucesso profissional para negros e pobres é muito mais tortuoso se ele não nascer com talento para música ou artes.

Não concorda?

Então vamos a frieza dos números. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 53,6% dos brasileiros se declaram negros ou pardos. Conforme o mesmo IBGE apenas 12,8% dos estudantes universitários são negros ou pardos.

Não precisa ser gênio para saber que isso é fruto de uma herança maldita de nosso passado deixada para os negros e não da incapacidade deles em conseguir alçar voos mais altos. Mecanismos como cotas (sou a favor de cotas sociais que beneficia em sua maioria os negros) servem para corrigir distorções e não fazer dos negros vermes, parasitas ou porcos chafurdando no chiqueiro como afirma Holiday. Palavras que distorcem o papel do Estado numa sociedade tão desigual como a nossa.

Por sinal, essas palavras do vereador do DEM, partido historicamente sem qualquer identificação com a causa negra, são muito mais próximas do racismo do que as declarações de Ciro.

Holiday alega que um negro pode vencer na vida pelo próprio esforço. É assim? Os números mostram que não. A desvantagem entre um negro um branco no Brasil começa na própria gestação. O caminho da infância a vida profissional para um negro tem muito mais percalços e criar mecanismos para que essa desigualdade diminua é legítimo.

Recorro ao IBGE mais uma vez: os negros são apenas 17,4% da faixa mais rica de nossa população.

Quando um negro como Holiday reproduz um discurso que não sugere mecanismo de inclusão social para os negros ele legitima um argumento que interessa a setores da elite branca que deseja perpetuar nossas injustiças históricas. Logo ele porta-se como um capitão do mato que tolhia a rebeldia dos negros que lutavam por liberdade.

Comparar Holiday a um capitão do mato nem de longe é um ato racismo. Ele se encaixa perfeitamente no perfil de quem traiu a causa negra como os capitães do mato no faziam no passado.

Diferentemente de Holiday, Ciro reproduz em todas as entrevistas a necessidade de se criar mecanismos de inclusão social. Ele repete como um mantra os dados do Atlas da Violência que aponta que a cada 100 homicídios no Brasil 71% das vítimas são negras.

Dizer que é racismo chamar de capitão do mato alguém como Holiday só reproduz mais racismo.

A BURRICE DE CIRO

Tão eloquente quanto loquaz, Ciro cometeu uma burrice ao comparar Holiday a um capitão do mato. Primeiro porque a maioria dos apoiadores do MBL, movimento cujo vereador paulistano é um dos líderes, não se dão muito bem com os livros de história. Segundo porque ele trouxe ao centro das atenções uma turma que estava em baixa na Internet nos últimos dias.

O MBL sempre soube jogar com maestria com a ignorância de setores da parcela conservadora da sociedade. Como a maioria das pessoas não sabem quem danado foi esse tal de capitão do mato nem conhece as ideias de Holiday vão compartilhar as palavras de Ciro no contexto imposto pelo fascistinhas travestidos de liberais.

O presidenciável abriu margem na entrevista a Jovem Pam para que interpretações distorcidas se propagassem na Internet.

Ciro tropeçou nas mesmo estando coberto de razão.

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Cuidado com o voo da galinha

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Muitos políticos pegando carona no retorno dos voos comerciais a Mossoró

Ontem foi um dia de folia política. Todo mundo posando de pai e mãe da criança chamada retorno dos voos comerciais em Mossoró. Uma conquista importante, mas que em vez de ser encarada de forma festiva deveria ser vista com status de alívio.

Era uma vergonha uma cidade do porte de Mossoró não ter um aeroporto funcionando a pleno vapor.

Foi em 2011, quando Rosalba Ciarlini (PP) era governadora, que o aeroporto perdeu os voos da Noar Linhas Aéreas. O problema começou na gestão dela e como prefeita ela não fez nada significativo para querer aparecer como “mãe” da criança.

Faça-se justiça!

Com 14 meses de atraso (ele tinha prometido para 12 de abril de 2017) os voos comerciais retornaram a Mossoró com o DNA do governador Robinson Faria (PSD). É uma criança com pai e sem mãe, diga-se.

Mas como já disse acima, o retorno dos voos comerciais é motivo mais de alívio que de festa. O projeto, diria, está em recuperação. Temos o exemplo dos voos da Noar Linhas Aéreas que duraram apenas nove meses entre outubro de 2010 e julho de 2011.

Cuidado para não termos apenas mais um voo da galinha.

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A semana que o Canteiro da Rosa murchou

Rosalba deixou o camarote rapidamente (Reprodução: Blog Carlos Santos)
Rosalba deixou o camarote rapidamente (Reprodução: Blog Carlos Santos)

Que semana!

Começou com as queixas da falta de segurança no Pingo da Mei Dia quando aconteceram algumas brigas sendo uma delas uma batalha campal no Memorial da Resistência e centenas de celulares roubados.

Mas não parou por aí.

O arquivamento da CEI do Lixo na Câmara Municipal foi uma “vitória de pirro” por expor a falta de transparência da administração de Rosalba Ciarlini (PP) na celebração de contratos.

Depois, Mossoró descobriu que existem servidores terceirizados com mais de oito meses de salários atrasados. Mais uma “vitória de pirro” na Câmara Municipal para barrar a audiência pública que debateria o assunto.

O problema agora está exposto.

Na quinta-feira mais problemas. Um festival de constrangimentos no Mossoró Cidade Junina. A Cidadela não abriu na quinta, a Arena das Quadrilhas não estreou, o Chuva de Bala foi ao palco com um dia de atraso e a desculpa que culpou os caminhoneiros não colou.

A Estação das Artes estava um canteiro de obras poucas horas antes do show de Aviões do Forró. Os barraqueiros chegaram a discutir uma greve por péssimos tratos do município, inclusive revelando que foram chamados de “favelados”.

A prefeita precisou colocar seus assessores para amanhecer a quinta-feira tendo que se explicar a respeito da queda do camarote. Por mais que a Prefeitura finja que não tem nada com isso, foi ela quem contratou uma empresa obscura do Ceará para fazer o serviço.

Rosalba escapou de cair junto com as vítimas do camarote por muito pouco e saiu da festa rapidamente do evento. O show continuou.

O conjunto dessa obra fez ressurgir as críticas à administração municipal nas redes sociais minimizando aquele silêncio ensurdecedor.

O Canteiro da Rosa murchou em uma semana como nunca nas quatro passagens dela pelo Palácio da Resistência.

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Um resumo do atraso do RN em dois atos

Carlos Eduardo Alves (PDT) foi eleito para ser prefeito de Natal até 31 de dezembro de 2020. Largou tudo para realizar o sonho de ser governador do Rio Grande do Norte. Trata-se de um anseio pessoal.

O vice dele, Álvaro Dias (MDB), assumiu a Prefeitura de Natal. Em vez de cuidar da cidade que está cheia de problemas ele pressiona vereadores da base a reforçar a candidatura do filho dele, Adjuto Neto, a deputado estadual. O assédio é tão grande que três edis já romperam com o emedebista.

O projeto pessoal é a prioridade número um do prefeito que virou vice.

Entendeu porque o Rio Grande do Norte não vai para frente?

Projetos pessoais estão acima do interesse público.

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Um nicho eleitoral ignorado em Mossoró pelos pré-candidatos ao Governo

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Nas eleições de 2016, Rosalba Ciarlini (PP) foi eleita pela quarta vez prefeita de Mossoró com 67.476 votos num universo de 167.120 eleitores. Em números absolutos mais de cem mil eleitores deixaram de votar na chefe do executivo estadual.

Os adversários da prefeita somaram 65.114 votos. O restante se distribuiu entre brancos, nulos e abstenções.

Hoje é perceptível a olho nu que a popularidade da prefeita não é das melhores. Falta apenas uma pesquisa para materializar isso, mas a oposição parece fazer questão de não explorar isso.

Resultado: a fama de maior eleitora de Mossoró está intacta e os pré-candidatos ao Governo do Estado não estão se atentando a isso.

O antirosalbismo existe mesmo com uma oposição desarticulada. A preguiça e o desconhecimento sobre como está o quadro político em Mossoró criou uma falsa dependência do apoio de Rosalba para conquistar o eleitorado mossoroense.

Trata-se de um equívoco estratégico que até mesmo a senadora Fátima Bezerra (PT), tradicional adversária do rosalbismo, está cometendo.

Há um vácuo de liderança em Mossoró desde que as duas principais alas da família Rosado se uniram após mais de 30 anos de arengas. Ninguém ocupou.

Passado

Quando os Rosados eram um bloco monolítico, não existia adversários em Mossoró com potencial para derrota-los. Na ausência de uma liderança forte, Aluízio Alves mesmo com base na capital acabou se tornando o principal contraponto ao rosadismo na cidade. Sua atuação por aqui era intensa.

O mesmo acontece hoje em Mossoró, mas com a diferença de que até mesmo uma liderança de nível estadual poderia ocupar esse vácuo formando um grupo na cidade como Aluízio fez no passado.

Os tempos são outros, mas a história mostra que é possível conquistar uma boa votação em Mossoró sem o apoio da prefeita (e Prefeitura).

Os números estão aí para mostrar que é possível. Basta deixar o óbvio de lado e usar um pouco de criatividade e ousadia.

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Culpar a Câmara pela derrubada da CEI do lixo é burrice

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Mossoró tem um hábito estúpido de transferir para a Câmara Municipal todas as mazelas da cidade. No arquivamento da CEI do Lixo o erro se repete. O legislativo, como sempre, assume o ônus pelos problemas do executivo.

Quem se enrolou com contratos de limpeza pública denunciados pelo jornalista Carlos Santos? A gestão da prefeita Rosalba Ciarlini (PP).

Quem assinou os contratos de limpeza que estão sob investigação do Tribunal de Contas do Estado (TCE)? É a administração da Rosa de Mossoró.

Quem fez seguidos reajustes nos contratos de limpeza pública? A gestão rosada.

A equipe técnica do TCE constatou a ausência de de documentos comprobatórios da liquidação das despesas contratuais, pesquisas mercadológicas, planilhas de preços justificadoras dos valores contratados, planilhas de preços unitários demonstrativas da economicidade, relatórios das medições dos serviços, definição dos roteiros, frequências das coletas, extensão das vias a serem operadas e comprovação do quantitativo de profissionais necessários.

Quem foi que está sem essa documentação? A Câmara Municipal? Não. Foi a Prefeitura de Mossoró sob a gestão de Rosalba Ciarlini que cessou problemas de seus antecessores.

Então por que se revoltar apenas contra a Câmara? Ali é uma casa política onde a prefeita tem maioria. Foi você quem elegeu os vereadores que se submetem aos caprichos palacianos.

A oposição fez a parte dela em propor a CEI e deve seguir sugerindo outras até que um dia a população se erga contra os desmandos da cidade que afunda em problemas enquanto agora todos pensam no show de Aviões do Forró.

Nada de anormal em uma cidade onde a existência de um buraco na rua, falta de coleta de lixo ou médico na UBS leva os eleitores a irem aos programas de rádio perguntarem “cadê os vereadores?” quando na verdade deveriam perguntar onde está a prefeita. Esta segue em silêncio fingindo que nada tem com isso.

Ia esquecendo de um detalhe: a sua cidadania seletiva e preguiçosa também é responsável.

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Mossoró no diário de Getúlio Vargas

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Por José Romero Araújo Cardoso*

A era Vargas foi a mais longeva experiência político-administrativa do Brasil republicano, cuja gênese encontramos na vitória da revolução em outubro de 1930. O processo foi interrompido em 1945 e reiniciado em 1950, tendo seu epílogo em agosto de 1954, quando do suicídio do chefe do executivo.

A centralização enfatizada por Vargas pôs fim à fragmentação do poder entre os representantes do mandonismo local, a qual se constituiu em símbolo das estruturas montadas na república velha, conforme enfatiza MELLO (1992).

A partir de 3 de outubro de 1930, quando triunfou o movimento revolucionário encabeçado pelo Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba, Vargas deu início à escrita de um diário cujo encerramento se deu em setembro de 1942, quando o Brasil já havia declarado guerra aos países do Eixo.

Este importante documento para a História do Brasil, compilado e publicado em dois volumes no ano de 1995 pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas e pela Editora Siciliano, apresentado por Celina Vargas do Amaral Peixoto, neta do estadista que marcou profundamente os novos rumos do modelo capitalista brasileiro a partir de sua posse no governo provisório em 1930, descortinam-se o dia-a-dia do governante, as relações políticas e os episódios marcantes de uma época.

A pressão exercida por São Paulo, principal centro econômico do País, resultando em tentativa revolucionária quer ficou conhecida pela pretensa defesa de uma constituinte, obrigando o governo federal a reprimir fortemente o movimento, caracterizou os rumos políticos entre os anos de 1932 e 1933.

Conforme BASBAUM (1991, p. 63), a convocação de uma constituinte e a elaboração de uma nova constituição perfaziam o panorama geral do ano de 1933. Neste ensejo, Vargas organiza visita aos Estados das regiões Nordeste e Norte, acompanhado de uma grande comitiva de políticos e jornalistas. O raid político-eleitoral do chefe do governo provisório e sua equipe dura cerca de um mês, sendo concluída em Belém (PA).

Ainda segundo BASBAUM (ibidem);

“O entusiasmo com que é recebido pelas populações do Norte e Nordeste,
Que o vêem pela primeira vez, mostra apenas o quanto as massas ainda
esperam dele, pois nada ainda haviam obtido. Mas Getúlio acredita que
aquilo significa – apoio incondicional. Assim acreditam também os futu-
ros deputados que mais tarde o elegerão Presidente da República.
E esse apoio dar-lhe-á a margem necessária para planejar a continua-
ção no poder.”

Obras importantes para o Nordeste seco, paralisadas após a conclusão do triênio Epitácio Pessoa na presidência da república (1919 – 1921), foram fiscalizadas e muitas inauguradas quando da visita presidencial. A açudagem se constituía em um dos carros-chefe da campanha presidencial encetada pela comitiva comandada por Getúlio Vargas.

Neste ensejo, Vargas faria sua primeira visita a Mossoró. Entre os circunstantes presentes que compunham a comitiva presidencial, encontrava-se assessor do Ministério de Viação e Obras Públicas de nome Orris Barbosa.

Posteriormente, o jornalista Orris Barbosa lançou em 1935, pela Adersen-Editores, do Rio de Janeiro, interessante opúsculo por título “Secca de 32 – Impressões sobre a crise nordestina”, no qual analisa desde as tentativas frustradas de implementação dos reservatórios hídricos no governo Epitácio pessoa, além de outras políticas públicas de suma importância, aos efeitos catastróficos da grande seca que teve início em 1926 com breve intervalo em 1929 e recrudescimento total em 1932, enfatizando ainda a visita presidencial aos estados do Nordeste e do Norte do Brasil.

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BARBOSA (p. 112), no capítulo intitulado “No alto sertão”, destaca a marcha batida em direção a Mossoró, frisando que a rodagem que interliga Assú à capital do oeste potiguar era regular. Destaca ainda que só à noite puderam alcançar o maior centro comercial do Rio Grande do Norte, na época, visitando, ainda o porto de Areia Branca, escoadouro natural dos produtos sertanejos.

Antes, em fevereiro de 1930, Mossoró havia sido palco de pregações revolucionárias capitaneadas pela caravana gaúcha liderada por Batista Luzardo. Até então, esta tinha sido a única oportunidade que os aliancistas haviam pregado em território mossoroense os ideais de renovação (ROSADO, 1996).

Na oportunidade, ainda não haviam galgado o poder, cujo feito foi proporcionado pelos desdobramentos trágicos da revolta de Princesa, quando do assassinato do presidente paraibano João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, vice-presidente da chapa encabeçada por Vargas no ensejo da disputa presidencial em 1930 (INOJOSA, 1980; RODRIGUES, 1978).

Conforme o Diário de Getúlio Vargas (1995, p. 238), no dia 13 de setembro de 1933 houve a partida da comitiva para Mossoró. A viagem foi feita pela Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte. Antes, houve almoço em São Romão, num mato de oiticicas do sr. F.[Fernando] Pedrosa – vaquejada, visita à usina de algodão e à fábrica de óleo etc.

Corroborando o que Orris BARBOSA (ibidem) escreveu em seu clássico livro, Vargas destaca que até Mossoró prosseguiram de automóvel, onde houve recepção festiva, banquete e discursos.

Em edição do dia 31 de agosto de 1933, o jornal mossoroense O Nordeste, de propriedade de J. Martins de Vasconcelos, noticiou em primeira página a excursão presidencial do chefe do governo provisório pelo norte do País.

Destacava este veículo de comunicação que partia da capital federal, no dia 22 de agosto, no “Almirante Jaceguay”, a comitiva de Vargas, da qual faziam parte os ministros José Américo de Almeida e Juarez Távora, General Góes Monteiro, Comandante Américo Pimentel, sub-chefe da Casa Militar, Dr. Valder Sarmanho, da Casa Civil, bem como diversos repórteres representantes de diversos jornais cariocas.

O jornal “O Nordeste” enfatizou ainda que a convite do Interventor potiguar Mário Câmara, Getúlio Vargas visitaria Mossoró, seguindo viagem via Caraúbas, indo, antes, até Porto Franco. Finalizava a matéria jornalística fazendo louvações à campanha da Aliança Liberal e reverenciando a memória de João Pessoa.

Em 18 de setembro “O Nordeste” voltava a destacar com estardalhaço matéria sobre a visita da comitiva de Vargas, desta vez com mais ênfase devido a permanência do chefe do governo provisório a Mossoró.

Às 18 horas do dia 13 de setembro, Getúlio Vargas, acompanhado de vários membros do seu gabinete, integrando também a comitiva o Interventor Mário Câmara, o Dr. Potyguar Fernandes, chefe de Polícia da Capital, além do Dr. Gratuliano de Britto, interventor Federal do Estado da Paraíba, dirigia-se ao palacete da Praça Bento Praxedes, o qual ficou conhecido por Catetinho.

Na oportunidade, grande multidão se concentrou intuindo conhecer de perto o chefe máximo do executivo brasileiro. Conforme ainda “O Nordeste”, duas alas de alunos das escolas da cidade, estendiam-se, com o povo, do Jardim Público, até o lugar do destino, feericamente iluminado, e onde a banda de música “Santa Luzia”, em coreto adrede preparado, executou o hino nacional para o chefe de governo e sua comitiva.

Todas as repartições públicas içaram a Bandeira Nacional, em sinal de extremo respeito à ilustre visita. À noite houve cinema campal na Praça João Pessoa.

O discurso, pronunciado antes do banquete no Palacete da Praça Bento Praxedes, foi realizado pelo Dr. Adalberto Amorim, juiz de Direito da comarca. O magistrado falou em nome das classes conservadoras do município, bem como do comércio local

Em agradecimento, Getúlio Vargas respondeu ao oferecimento do banquete com palavras lisonjeiras a Mossoró, prometendo atender necessidades urgentes, a exemplo da continuação do prolongamento ferroviário, baixa nos transportes do sal e seu aperfeiçoamento e abertura de porto. Concluiu destacando a importância industrial e comercial do município potiguar.

No dia 14 de setembro houve visita de parte da comitiva à salina Jurema, localizada às margens do rio Mossoró. Às 8 horas encerrou-se a visita do chefe do governo provisório. A comitiva partiu em trem especial da Estrada de ferro, até Caraúbas, seguindo para Lucrecia e depois com destino a Sousa (PB), onde inspecionaram as obras do açude de São Gonçalo.

Quando da campanha presidencial em 1950, Vargas retornou a Mossoró. Relembrou fatos da primeira estadia demonstrando impressionante lucidez, como bem nos comprovou Raimundo Soares de Brito, presente ao encontro. Deixou o historiador estupefato ao perguntar por Jonas Gurgel, prefeito de Caraúbas quando da visita como chefe do governo provisório. Era o testemunho impecável da memória excepcional de um homem que marcou significativamente e de forma indelével a História do Brasil.

*José Romero Araújo Cardoso é Professor Adjunto do departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Escritor. Especialista em Geografia e em Gestão Territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Contato: romero.cardoso@gmail.com.

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O WhatsApp está nos deixando mais burros

whatsapp-montagem

Por Rodrigo Ratier

Em Desconstrução

O vídeo é caseiro e o senhor de paletó desalinhado está enfurecido. Entre um perdigoto e outro, chama os políticos de “canalhas”, “calhordas”, “desgraçados”. Diz que 200 milhões de “pessoas de bem” podem passar por cima do Congresso na hora em que quiserem.

– Quem é?

– Sei lá. Parece que é um empresário de Santa Catarina. Compartilhei porque é exatamente o que eu penso.

***

Áudio de suposto general convoca o “povo brasileiro” a ir para a frente do Palácio do Planalto na noite do dia 30. Quando der oito horas do dia 31, o Exército vai depor Temer (que mora no Jaburu) e fazer a intervenção militar.

– Verdade?

– Esse amigo meu só me passa coisa quente.

***

Gente, tá tendo o maior quebra-pau na Câmara! O Temer, a pedido do Rodrigo Naia [sim, Naia], decretou estado de sítio. Os deputados estão saindo na porrada. O Exército foi convocado. A TV não está passando. Assistam o vídeo [de uma briga antiga no Congresso].

– É sério?

– Isso a gente não vê na Globo!

***

Entre as coisas que a greve dos caminhoneiros nos mostrou, uma das mais evidentes foi o poder do WhatsApp. O onipresente aplicativo de troca de mensagens foi fundamental para a organização do paradão, além de funcionar como epicentro das mais variadas abobrinhas. Batalhões marchando sobre Brasília. Generais (sempre eles!) mandando estocar o que fosse possível. PCC ordenando toque de recolher – ou, em outras versões, incentivando que a criminalidade aproveitasse o caos para tocar o terror. Tudo “documentado” por áudios e vídeos que “provam” essas e outras revelações sensacionais, como as destacadas no início do texto.

O mais impressionante é que as pessoas acreditaram. Se não inteiramente, ao menos em parte. Se não em parte, ao menos para ficar com uma pulga atrás da orelha e aquela sensação de “Seráááá?”, que faz descrer de todo o resto, mesmo das informações corretas. Aconteceu na greve, mas tem sido uma constante. O popular “Zap Zap” é, cada vez mais, um monumento à burrice. Sua ação potencializa tanto caricaturas como os terraplanistas quanto interpretações equivocadas da realidade.

Exemplo recente: o aplicativo ajudou a propagar, entre grupos de caminhoneiros e na sociedade em geral, a ideia de “intervenção militar constitucional” – o Exército, amparado pela lei, tomando o controle do país por um tempinho e varrendo os corruptos até as próximas eleições, quando o poder seria devolvido aos civis. Em artigo na Folha de S. Paulo (disponível aqui para assinantes), Conrado Hübner Mendes e Rafael Mafei Rabelo Queiroz, professores da Faculdade de Direito da USP, esclarecem que a Constituição não prevê nada parecido. Qualquer atuação das Forças Armadas precisa ser requisitada por representantes eleitos. Outra rota, como a ocorrida em 1964 (intervenção “pontual” que durou 21 aninhos), é golpe. Por sua própria natureza, o WhatsApp não permite esse tipo de contraditório. Não é uma praça pública digital, como o Facebook, antes do reino do algoritmo e suas bolhas ideológicas, um dia ambicionou ser. O WhatsApp é desde o berço um condomínio fechado, um clube restrito, uma rodinha de amigos que se reforçam em suas crenças (maluquices? preconceitos?), fofocam, conspiram. Um ambiente em que a disputa por atenção privilegia o que parece espetacular, secreto, exclusivo, sensacional. Terreno fértil para boatos, distorções e mentiras de todo o tipo.

(Sim, estamos falando de notícias falsas e seus parentes. Fico pensando na primeira pessoa que teve a ideia de publicar uma notícia falsa na internet. “Vamos ver se consomem esse lixo”, pode ter dito – o risinho vilanesco fica por sua conta. Não só consomem lixo como acreditam nele. Não só acreditam como compartilham. Não só compartilham como produzem mais lixo, num moto-perpétuo de desinformação com consequências muito ruins para a sociedade.)

A informação existe para que as pessoas possam tomar decisões em suas vidas. Quando a informação é de má qualidade, as decisões também serão. Pessoas passam a agir com base no pânico, na paranoia, em perseguições, conspirações e outros tipos de sentimentos com pouco amparo na realidade. Tudo isso pode ser, e vem sendo, explorado por gente com interesses políticos e econômicos que lucram com o estado de permanente confusão.

É chocante a credulidade das pessoas em relação a esse tipo de lorota. Escancara que não fomos educados para ler notícias. Num passado recente, o grande temor era que os meios de comunicação pudessem, com suas sofisticadas estratégias discursivas, “manipular” as pessoas. Saudades desses tempos ingênuos. O que não poderíamos imaginar é que as pessoas estivessem tão desequipadas para checar rudimentos do jornalismo, como autoria, data de publicação e procedência, além de não perceberem a diferença entre informação e opinião (nota: o problema atinge ricos e pobres, jovens e velhos, homens e mulheres).

A solução passa pela educação, e tudo que segue esse caminho demora muito tempo para dar resultados. Ou seja, só teremos boas notícias lá para a frente, e isso se a gente se esforçar e começar a trabalhar desde já para reverter esse quadro. No curto prazo, seguiremos mergulhando no abismo da ignorância. Vêm eleições por aí e… Aliás, será que vêm mesmo? Porque eu li no WhatsApp que…

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Carlos Eduardo ignora Mossoró. Mossoró ignora Carlos Eduardo

Carlos Eduardo esteve pela última vez em Mossoró como mero expectador da palestra de Ciro Gomes
Carlos Eduardo esteve pela última vez em Mossoró como mero expectador da palestra de Ciro Gomes

Pré-candidato a governador há dois meses, o ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves (PDT) ainda não colocou os pés em Mossoró este ano. O pedetista esteve discretamente pela última vez na segunda maior cidade do Rio Grande do Norte em novembro do ano passado quando acompanhou a agenda do presidenciável Ciro Gomes.

Carlos Eduardo ainda fez uma visita a prefeita Rosalba Ciarlini. Ele fez questão de registrar nas redes sociais. Ela não.

Dos pré-candidatos colocados até aqui, o pedetista é o caso mais emblemático de desinteresse pelo eleitorado mossoroense. Até aqui o único elo entre ele e Mossoró é o desejo de ter o apoio da prefeita Rosalba Ciarlini (PP), incluindo a indicação de um vice made in Palácio da Resistência.

Não há registro sequer de contatos de Carlos Eduardo com os ex-vereadores Genivan Vale e Tomaz Neto, estrelas de seu partido em Mossoró.

Se Carlos Eduardo ignora Mossoró, a resposta da cidade também é com indiferença. Ele não consegue juntar dois dígitos nas pesquisas realizadas na cidade nem existe qualquer movimento político na cidade no sentido de lhe dar alguma sustentação no pleito vindouro.

O ex-prefeito de Natal não tem previsão de agenda em Mossoró conforme informou a assessoria de imprensa dele. Nem mesmo o contato popular no “Pingo” atraiu o homem.

Então fica assim: Carlos Eduardo ignora Mossoró. Mossoró ignora Carlos Eduardo. Nesse dito pelo não dito quem perde é o pré-candidato.

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Desprezo de Manoel Bezerra pelas vaias é fruto da forma como vereadores conquistam votos

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“Com vaia ou sem vaia, eu sou eleito”. A frase foi dita no meio de uma discussão acalorada em que o sempre sereno vereador Manoel Bezerra (PRTB) perdeu as estribeiras. Não é para menos: ele estava sendo a vidraça que recebia as pedras sonoras das galerias após querer jogar na lata do lixo a Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar os contratos de limpeza urbana da Prefeitura de Mossoró.

As vaias converteram em cacos os nervos de Manoel Bezerra que reagiu desprezando quem o critica e, porque não, o despreza também pela sua origem humilde.

Acossado entre a opinião pública preguiçosa de Mossoró e os interesses palacianos, Manoel Bezerra não pensou duas vezes em agir para varrer para debaixo do tapete da história mossoroense a CEI do Lixo. O trabalho só não se consumou porque a sessão foi encerrada devido ao tumulto.

Manoel Bezerra tem razão quando diz não precisar dos aplausos das galerias para seguir na política. A vaia é digna de seu desprezo pelo interesse público. A cidadania seletiva e preguiçosa de Mossoró explica porque temos uma cidade que perde tantas oportunidades. O sal não elevou a cidade a algo maior porque a abundância é prima da indolência, o petróleo cada vez mais escasso gerou praças em vez de desenvolvimento e o que Manoel tem com isso? Tudo. Ele não precisa do eleitorado esclarecido para se manter vereador. Quanto menos desenvolvida uma cidade menos qualificada a Câmara Municipal porque o nível de exigência do eleitor é mínimo. Basta algum assistencialismo que não inclui socialmente para as migalhas se converterem em votos.

Manoel não precisa de aplauso, repito. Ele precisa de Prefeitura. É alinhado ao inquilino temporário do Palácio da Resistência. É o poder governista que lhe permite conseguir a ambulância para o doente, converte em facilidades as dificuldades que os desfavorecidos encontram no serviço público ou consegue o calçamento da rua abandonada. Para quê reconhecimento da opinião pública se a conta de luz do mais pobre ele paga no final do mês?

Para Manoel Bezerra a vaia não importa. Os votos estão garantidos em 2020 porque o eleitorado é fiel e grato. Manoel tem o voto de gratidão. O voto de opinião é motivo de desprezo porque ele nunca terá. Nem faz questão de ter.

Manoel Bezerra é o personagem deste texto, mas isso vale para pelo menos dois terços das 21 cadeiras da Câmara Municipal. A cidadania preguiçosa manda para casa os vereadores mais atuantes porque apresentar bons projetos, fazer discursos eloquentes, propor debates sobre temas relevantes ou fiscalizar o executivo não tem a menor importância diante da gratidão de quem tem a conta de luz paga todo mês pelo vereador ou tem nele o caminho para dar um “jeitinho” convertendo em facilidades as dificuldades impostas pela burocracia nossa de cada dia.

Assim se formam os cercadinhos de votos que conferem mandatos e sufoca a opinião pública ainda que preguiçosa em nossa cidade.

A conquista de um mandato não depende da opinião e a opinião não tem peso num contexto de cidadania preguiçosa e seletiva como a nossa.

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