Rosalba está com a “gordura” eleitoral queimada

Rosalba tem enfrentado resistências (Foto: cedida)

A prefeita Rosalba Ciarlini (PP) está no terceiro ano de gestão. A gordura eleitoral foi queimada neste período de muitas dificuldades e desgastes.

Os 51,12% obtidos nas urnas em 2016 estão reduzidos a algo em torno de 25% de intenções de votos se formos tirar uma média dos cenários apontados pela pesquisa Seta/Blog do Barreto.

Ela perdeu metade do capital eleitoral. Seu índice de bom/ótimo é de 24%, a avaliação positiva em questões como validade da palavra, honestidade e sensibilidade aos problemas da população oscilam dentro desta margem percentual, indicando que a prefeita está com as intenções de voto limitada ao eleitorado lhe é fiel.

Parece pouco, mas é muito. Só Rosalba em Mossoró é capaz de sobreviver a um desgaste deste tamanho. Só ela tem um quarto do eleitorado garantido independente do desempenho administrativo.

Mas o alerta preciso está aceso. A chefe do executivo municipal reduzida à bolha fica vulnerável ao voto útil em um nome da oposição. Se conseguir recuperar parcela do eleitorado insatisfeito ela tem a vida facilitada tirando proveito da desunião oposicionista.

Não há espaço para salto alto no rosalbismo. Isto seria sinônimo de subestimação dos adversários e da capacidade crítica do eleitor mossoroense. Só uma revisão de postura alteraria o quadro. A prefeita tem meios para isso, mas pelo que indica manterá o estilo administrativo padrão anos 1990.

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Allyson Bezerra é o novo que precisa ser observado com cautela

Allysson Bezerra é a novidade para 2020 (Foto: Assessoria/AL)

O deputado estadual Allyson Bezerra (SD) é a novidade na política mossoroense desde o ano passado quando se elegeu sendo o segundo mais votado na cidade com 13.095 sufrágios.

A política mostra que fenômenos assim sobem e caem em velocidade proporcional. A pesquisa Seta/Blog do Barreto mostra a mesma sequência do pleito para deputado estadual dentro de Mossoró: rosalbismo, Allyson, Tião/Jorge e PT.

O quadro é parecido, mas até as convenções do próximo ano muita coisa vai se alterar.

Jovem, Allyson merece ser observado com cautela. Tratá-lo como “o nome” é um exagero de quem não conhece os meandros da política local ou está se movimentando por interesses pessoais.

O deputado ainda precisa construir uma história, ter uma marca política. Ele é eloquente, mas qualquer falha pode lhe impor algum rótulo difícil de retirar. O rosalbismo é craque nisso, é preciso lembrar.

Outro ponto a ser lembrado é que o jeitão de novidade e discurso anti-establishment pode associá-lo a Bolsonaro para o bem ou para o mal.

O parlamentar precisa ser cauteloso tanto publicamente quanto nos bastidores sob pena de ser engolido como outros tantos já foram.

Cautela para si, cautela para quem o observa.

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Grupo de Tião/Jorge respira apesar da imagem trincada em 2018

Dupla segue competitiva em Mossoró (Foto: Assessoria)

A decisão de se juntar ao ex-governador Robinson Faria (PSD) nas eleições de 2018 trincou a imagem do empresário Tião Couto (PR) respingando no companheiro dele Jorge do Rosário (PR).

O grupo perdeu parte do capital eleitoral conquistado em 2016, mas segue respirando e fará parte do debate eleitoral para 2020.

Segundo o Blog apurou Tião caminha para mais uma mudança de partido se alinhando com o bolsonarismo local. Sua ida ao PSL é tratada de cima para baixo, o que pode provocar novos desgastes.

Tião vem de uma sequência de decisões políticas desastradas que lhe tira o direito de errar em 2020. É preciso rever as estratégias e encontrar uma bandeira que vá além do antirosalbismo raso.

O Blog já alertou para isso em outras oportunidades, mas Tião dá indícios de que imagina o sucesso empresarial ser uma garantia de êxito político. São áreas diferentes, que exigem inteligências distintas.

Suas decisões levam Jorge do Rosário a reboque.

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Isolda torna o PT pela primeira vez competitivo numa disputa pela Prefeitura de Mossoró

Isolda torna o PT competitivo em Mossoró (Foto: autor não identificado)

A deputada estadual Isolda Dantas (PT) já conseguiu uma proeza: levar a esquerda mossoroense ao Palácio José Augusto após 60 anos.

O último deputado estadual da esquerda local foi Cesário Clementino, um líder sindical perseguido posteriormente pelo regime militar.

Só isso já era por si uma vitória.

Agora a deputada aparece embolada na pesquisa Seta/Blogo do Barreto com o colega deputado estadual Allyson Bezerra (SD) e a dupla Tião Couto/Jorge do Rosário.

Nunca o PT teve uma candidatura competitiva em Mossoró. Isolda coloca o partido neste patamar após quase 40 anos de disputas.

O melhor desempenho de um petista foi de Luiz Carlos Martins (ex-vereador e ex-vice-prefeito) com 6.557 sufrágios em 1992.

A esquerda já vem mostrando ascensão em Mossoró desde 2016 quando Gutemberg Dias (PC do B), com apoio do PT, recebeu 11,152 votos.

Isolda vem nos últimos anos revitalizando o PT na cidade, renovando o partido trazendo jovens quadros e aumentando a participação feminina na agremiação.

É um nome com plenas condições de crescer ao longo do processo eleitoral caso realmente venha a ser candidata.

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Cinco momentos em que Rosalba não colocou os interesses de Mossoró acima das questões políticas

Rosalba: cinco momentos em que Mossoró não foi prioridade (Foto: autor não identificado)

A prefeita de Mossoró Rosalba Ciarlini (PP) faz uma gestão pautada num modelo administrativo que no final dos anos 1990 pode até ter dado certo, mas hoje não funciona mais.

Uma das características desse modelo de gestão é o de colocar os interesses políticos e pessoais acima dos interesses da cidade.

Vamos citar cinco casos em que isso ficou evidente na atual gestão:

  • Em maio do ano passado um grupo de procuradores entrou em contato com o gabinete pedindo audiência com Rosalba para apresentar um projeto que visa melhorar a arrecadação município. Até hoje estão sendo ignorados;
  • As agendas da prefeita em Brasília estão sendo realizadas exclusivamente com o sobrinho e deputado federal Beto Rosado (PP). Ela evita contanto com outros parlamentares deixando de ampliar a possibilidade de atração de recursos por meio de emendas;
  • O jornalista Carlos Santos relatou que há meses o empresário Rútilo Coelho, que fez parte da gestão de Francisco José Junior, tenta uma audiência com a prefeita para firmar parceria para um evento do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) que atrairia 1.500 pessoas a Mossoró em setembro. O pedido de audiência foi ignorado. Mossoró perdeu a oportunidade de fazer a economia gerar na rede hoteleira. Seria 1.500 hospedagens por quatro dias;
  • O deputado estadual Allyson Bezerra (SD) há 30 dias tenta uma audiência com a prefeita para saber dela quais são as demandas da Prefeitura de Mossoró que podem ser mediadas pelo legislativo estadual;
  • A prefeita acabou com o projeto da Base Integrada Cidadão (BIC) sem apresentar qualquer ação alternativa para melhorar os índices de segurança em Mossoró.

Com certeza é possível que o leitor apresente algum outro ponto em que a prefeita colocou o interesse público em segundo plano.

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O que vem por aí em SST

Por Rodrigo Ferreira*

A Internet das Coisas (IoT) vai modificar as Avaliações Ambientais. No lugar de se fazer medições pontuais, serão feitas medições permanentes, inclusive com a tomada de decisões em tempo real (ex.: evacuar um local com uma concentração de substância que apresente nível de concentração elevado, ou interromper a tarefa de um trabalhador exposto a ruído acima do limite de tolerância ou do tempo permitido).

A legislação virá a reboque dessas inovações, já que não terá muito sentido Programa de Prevenção de Riscos Ambientais onde o ambiente não seja permanentemente monitorado.

Hoje a grande dificuldade é o custo, mas com a popularização haverá soluções cada vez mais baratas e mais completas. O padrão KNX provavelmente cumprirá um papel importante, e deve abocanhar parte deste mercado.

Tanto iOT quanto IA devem ser inseridos na Segurança do Trabalho junto com projetos de automação: a câmera de vigilância que vai detectar incêndios e chamar os bombeiros também vai analisar situações de risco de acidentes; o sensor em uma caldeira que detecta a avaria e aciona a manutenção também vai garantir a interrupção do trabalho em condições arriscadas; os sensores da empilhadeira que garantem não haver obstáculos também só permitirão sua condução por profissional habilitado; os sensores do EPI que medirão temperatura também vão monitorar o uso correto do equipamento; etc.

Inteligência Artificial também será integrada a plataformas que utilizem IoT, e tornarão mais assertivas as decisões e o controle de riscos. Já existe hoje no Brasil alguns softwares usando IA de forma rudimentar, mas APIs como os do Watson (IBM) em breve estarão incorporados a estes softwares.

Realidade Aumentada será usada principalmente para antecipação de riscos e investigação de acidentes. Influenciará o leiaute de ambientes, considerando também a ergonomia e a prevenção de acidentes, entre outros fatores. Realidade Virtual terá muitas aplicações em treinamentos, principalmente com simuladores. Inteligência Artificial “lerá” os dados destes treinamentos e vai sugerir adaptações, mudanças de leiaute e tomada de decisões.

Haverá uma redução drástica do número de profissionais de SST empregados, mas os salários “dos sobreviventes” tende a aumentar. Serão exigidas novas habilidades e conhecimentos. Programação será diferencial. Capacitação para manusear Big Data, Iot e IA serão exigidos de Técnicos e Engenheiros. Geolocalização será figurinha fácil dentro da Segurança do Trabalho. O mercado de consultoria de QSMS tende a se concentrar em grandes empresas e eliminar a maior parte dos pequenos negócios e dos autônomos por falta de fôlego financeiro. O dimensionamento legal dos SESMTs provavelmente será revisto. Serão validados dentro do PCMSO dados tirados de sensores usados diariamente pelos trabalhadores, e o trabalho dos Médicos do Trabalho será mais analítico.

Uma das curiosidades é que o eSocial, ao incluir no mercado de SST as milhões de empresas brasileiras que não cumprem a legislação, vai gerar um fluxo financeiro que deve financiar boa parte destas mudanças, ao mesmo tempo que vai gerar massa de clientes para consumir as soluções e barateá-las.

Outra curiosidade é que será pequeno o número de startups gerando soluções para QSMS: o conhecimento técnico é tão refinado que é difícil desenvolver serviços e produtos sem mão de obra cara, o que geralmente é um impeditivo para pequenas empresas.

Para finalizar, eu diria que qualquer profissional deste setor que não esteja se preparando para estas inovações terá muita chance de ficar desempregado, e empresas que não estão incorporando tecnologias em suas operações estão dando adeus ao mercado.

O divisor de águas será em 2019, com a entrada do eSocial. A partir daí a concentração de capital das empresas que capturarem fatias relevantes deste mercado começará a financiar as evoluções que devem aparecer em larga escala a partir do 2020. Lá por 2030 olharemos para o ano de 2018 e perguntaremos: como eles conseguiam fazer Segurança do Trabalho naquelas condições?

*É palestrante e consultor esocial

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O atraso da narrativa de “A elite do atraso”

Por Paulo Ghiraldelli Jr*

Os gregos antigos nos ensinaram a narrativa da tragédia. Nela, nunca se disse que não eram os homens os autores da própria história. Os homens eram de fato postos como fazendo a sua história, mas, por mais que quisessem fugir do destino traçado pelos deuses, pegando vários caminhos diferentes e mudando de percurso, sempre terminavam por realizar o traçado desenhado pelas divindades. Até hoje esse tipo de narrativa faz sucesso. A consciência popular diz: “ninguém foge de seu destino”.

Os historiadores modernos, entusiasmados pelo ideia de aventura, típica do mundo do Renascimento, deram crédito para os indivíduos intrépidos. A tragédia se separou da escrita da história definitivamente. Ela passou a contar para o teatro e tão somente para o teatro. Os pensadores vieram a falar de um outro modo e estilo, conferindo um poder de decisão aos indivíduos – noção esta então recém criada – jamais vista antes. Guardamos desse tipo de história, em nossos manuais escolares, as aventuras de Cristóvão Colombo, de Vasco da Gama e tantos outros. É nessa linha que, até hoje, falamos de Napoleão. Não raro ainda falamos de Stalin e Hitler assim! Isso quando não começamos, a partir daí, a falar no estilo das teorias conspiratórias!

Nos dias de hoje, quando a regra é a auto-intensificação, acreditamos na filosofia de Sartre em sua colaboração maior com a ideologia do momento. Para entendermos como nos vemos hoje em dia, vale aqui repetir Sloterdijk:

“O indivíduo é simplesmente o homem sem missão, o não-mensageiro. Constitui uma espécie de produto semi-acabado o que, de resto, é precisamente aquilo que a educação moderna pretende fazer da criatura humana: produtos semi-acabados que devem trabalhar-se até se tornarem produtos acabáveis utilizáveis – o que quase ninguém alcança. Foi Sartre quem forneceu a ideologia deste fenômeno ao dizer que o importante é fazermos alguma coisa do que fizeram de nós” (1)

Não sei o quanto eu gostaria de responsabilizar Sartre pela ideia de que, agora, temos de contar a história como sendo feita a partir de nossa intervenção pessoal e voluntariosa, uma história de reconstrução pessoal, de re-invenção (como está na moda falar). Mas sei bem que é assim que temos, ao menos alguns de nós, nos empenhado em narrativas históricas. Essas narrativas são diferentes daquelas que Marx, também no início da modernidade, exatamente por seu respeito a Hegel, nos ensinou escrever. Narrativas como as atuais, que fazem sucesso entre nossas esquerdas, esqueceram completamente de Marx, e passaram a gerar histórias em que os indivíduos agem como protagonistas exclusivos dos feitos. Fazem do que fizeram delas algo extraordinário! Mas, o que é mais grave, ao serem postos como donos de todo destino, logo esses indivíduos se apresentam também como senhores do bem e do mal, agindo então como mentirosos espertalhões, que sem convencimento do que dizem, enganam uma massa de tolos – ou seja, todos nós.

Vi esse último tipo de narrativa no livro de Jessé de Souza, A elite do atraso. É uma narrativa em que nós todos somos vistos como tontos, e a Lava Jato associada à Rede Globo, como donos do mundo e do destino, e sendo formadas por pessoas de profunda má fé, e que nunca fizeram qualquer denúncia séria sobre a corrupção. O que fizeram foi apenas exercer suas funções de bandidos com poderes quase mágicos de contarem mentiras, com o objetivo de nos levar a entregar a Petrobrás para estrangeiros milicianos. Esse tipo de narrativa é, a meu ver, menos útil para mim; não vejo como uma pessoa que a vive, que se situa nela. Inclusive, uma narrativa assim poderia estar extremamente a serviço de uma visão generosa demais para com os políticos da coalização governista imperante nos últimos entre 2002 e 2018. Um trecho do livro do Jessé exemplifica bem o que quero dizer:

“A Globo, em associação com a grande mídia a maior parte do tempo, e a Lava Jato fizeram o contrário disso tudo [proteger o patrimônio nacional] e a nós todos de perfeitos imbecis. A título de combater a corrupção dos tolos, turbinaram e legitimaram a corrupção real como nunca antes neste país das multidões de imbecilizados”. (2)

Nesse tipo de narrativa, a Globo e os homens da Lava Jato surgem como deuses malévolos, enganadores, e nós, então, tontinhos que precisamos do grande Jessé para deixarmos de sermos os imbecis que somos, para abrir os olhos e ver como que o único objetivo de tudo era a entrega do nosso petróleo aos … yankees! “O petróleo é nosso” brada Jessé, como se estivesse nos anos 50, servindo de bucha de Vargas que, na verdade, tomou tal frase para si após ter prendido o real defensor dela, Monteiro Lobato.

Para escapar desse tipo de narrativa, que repõe a história de indivíduos poderosos e a completa com chistes sobre mocinhos e bandidos, nada melhor que reinvocar Marx. Para este, as relações postas pelo capitalismo invertem a relação sujeito-objeto. As relações sociais e o dinheiro, que se completam formando o capital, saem da condição de objetos e se transformam em sujeitos. Nós viramos os objetos – somos coisificados, mas não nos tornamos tontos. Marx fornece a narrativa em que o capital se põe como sujeito e, então, não traça o jogo e o vencedor, nem chama os jogadores de bandidos de um lado e tolo de outros; mas, o que o capital faz, e o que é o importante de ver, é que, antes do jogo, ele traça o campo do jogo e a escolha do desporto praticado. Quem faz essa escolha é o capital. Ele é o sujeito da história. Se não atentamos para os seus deslocamentos, se não vemos que o jogo é jogado no campo do capitalismo financeiro, e não mais no capitalismo comercial e industrial, ficamos perdidos, e passamos a achar que a Globo e a Lava Jato são feitas de deuses que sabem tudo e mentem, e que nós não sabemos nada e que somos enganados pela nossa idiotia. Eu falaria assim para Jessé:  desculpe-me meu caro, mas eu não sou idiota, eu não preciso de sua narrativa pseudo-reveladora para entender um pouco da realidade que vivo. Falo isso por poder ver que os poderes da Lava Jato e da Globo não advém da mentira, mas do fato de estarem na perspectiva fortalecida de quem é o sujeito da história, o capital.

Quando pegamos um livro como o do professor Ladislau Dowbor, A era do capital improdutivo (3), temos o perfeito antídoto à narrativa policialesca de Jessé de Souza.  Nesse livro, o que interessa é o campo de jogo. Como o capital financeiro se fez presente? E então, por sua obra, como ele fez pessoas simplórias, que pronunciam “conje” ao invés de “cônjuge”, chegarem a ter poder? Os que aparentemente mentem, de fato não mentem não porque são virtuosos, mas simplesmente porque são simplórios e acreditam no que fazem. Ou acreditam no que fazem porque estudaram e encontraram na narrativa autojustificadora do capital um aspecto racional. Então eles, os poderosos, falam coisas que acolhem muito da verdade. A corrupção denunciada pela Lava Jato existiu. Essas pessoas simplórias que ganharam o poder e o prestígio e começaram a falar grosso, durante um tempo, assim puderam agir porque falam a voz do capital. Jogam o jogo traçado pelo campo posto pelo capital. Não destoam dos interesses do dinheiro-que-gera-dinheiro-sem-que-ocorra-produção, que é o mundo da felicidade da Bolsa de Valores.

Se olhamos assim a história, pela via de Marx, então podemos tratar nossos adversários políticos com seriedade. Entendemos a visão deles. Passamos a respeitá-los diante do que acreditam, e nos qualificamos para a discussão com eles, invocando o direito de fornecer nossa narrativa, por exemplo, para as mudanças das leis trabalhistas e a reforma da previdência. Não fazendo isso, não poderemos sentar à mesa para negociar e propor alternativas, pois, afinal, não teríamos o que falar para bandidos que sabem que estamos certos, mas teimam em advogar suas saídas para a crise mesmo não acreditando nelas.

Os homens do governo atual, de Bolsonaro, e os seus intelectuais, estão convictos que suas explicações da crise brasileira são corretas. E em parte, para os interesses do capital, estão mesmo! Eles falam da crise gerada pela necessidade de combater a inflação, não deixar a corrupção reaparecer, e então fazer o “ajuste fiscal”. Nós, vendo como o capitalismo financeiro funciona, queremos colocar que a crise é devido à dívida, que esta deveria ser auditada, e que se não trouxermos o capital para o campo da produção, com algum controle sobre a financeirização, não teremos chance de sobreviver. Podemos sentar para conversar e podemos por na mesa a nossa narrativa, levando a sério a deles, porque não estamos nos sentando com gente que sabe de tudo e que só nos ludibria com sacanagem, ainda que saibamos que os adversários jamais seriam canonizados pelo Papa Francisco.

Quando abandonamos o capital na sua tarefa invertida de ser sujeito, e começamos a olhar só para o jeitão de Dalagnol e William Waack, acreditando no poder enganador deles sobre nós, e achando que isso é a história, pegamos uma via que não é a da minha preferência. A narrativa de Jessé serve para a rede Globo fazer novela, ela até nos mobiliza emocionalmente, mas ela ajuda pouco na hora de enfrentarmos a política.

*É filósofo.

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Mais uma década perdida!

Por Celso Tracco*

O desemprego voltou a aumentar. Passamos de 13 milhões de desempregados. Assistimos cenas chocantes: filas quilométricas em pleno centro da maior cidade do país em busca de uma simples senha, que talvez se converta em uma entrevista de emprego e finalmente em uma vaga preenchida. Observação: a maioria das vagas, segundo os organizadores do evento, oferece um salário em torno de R$1.500,00. Enquanto isso, em Brasília, assistimos cenas bizarras protagonizadas pelos nossos dirigentes: discussões “altamente produtivas” sobre comemorar ou não datas históricas (sic), idas e vindas nas nomeações de ministérios, pautas “bomba” que apenas agravam nossa já combalida governabilidade. É evidente que aqueles que estão buscando um emprego há anos acompanham com muito interesse essas discussões.

O desalento e a desocupação, termos usados pelo IBGE, também subiram. Agora somam cerca de 14 milhões de brasileiros. Os desalentados são aqueles que desistiram de procurar qualquer tipo de trabalho remunerado, ficam em casa, quem sabe ajudando nos afazeres domésticos. Os desocupados são aqueles que não têm oportunidade ou capacidade para sequer vender algo no “shopping trem”, “shopping metrô”, ou em alguma banquinha de rua. No entanto, ainda na tranquila Brasília, assistimos as idas e vindas para o início da tramitação no Congresso da Reforma da Previdência, motivadas por discussões que mais parecem cenas saídas de uma ópera bufa. Seria cômico se não fosse trágico. O senso de urgência dos governantes, antigos e novos, não tem nenhuma consonância com as necessidades do povo, para minorar sua miserável e degradante situação de vida. Simplesmente lamentável, o comportamento de nossos representantes!

O óbvio despreparo desses governantes caminha para uma nova marcha da insensatez, e gera, infelizmente, uma desesperança na maioria da população brasileira em relação ao seu futuro. E ela tem muitas razões para isso! Se as atuais expectativas econômicas para 2019 e 2020 se confirmarem, e não vemos motivos para que isto não ocorra, estaremos vivendo a pior década em termos de crescimento econômico de toda a nossa história. O Brasil necessita, urgentemente, retomar o caminho do crescimento econômico. Precisa gerar empregos de maneira consistente, positiva, aumentar sua população ocupada e alentada para um futuro esperançoso. Preparar suas gerações para o futuro e não ficar discutindo fumaça. Precisamos olhar para a frente, irmanados, juntos! Todos sabem que unidos somos mais fortes. Todos sabem que dividir é uma técnica maquiavélica de governar. Parar discussões idiotas é o primeiro passo para começar a se entender. Seja para o bem comum de uma família, seja em Brasília, para o bem da maioria da população brasileira. O Brasil é o país das oportunidades perdidas. Um dia a conta chega.

* É escritor, palestrante e consultor

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Os 100 dias de um idiota no poder

Por Jessé Souza*

A eleição de Jair Bolsonaro foi um protesto da população brasileira. Um protesto financiado e produzido pela elite colonizada e sua imprensa venal, mas, ainda assim, um “protesto”. Para a elite o que conta é a captura do orçamento público e do Estado como seu “banco particular” para encher o próprio bolso. A reforma da previdência é apenas a última máscara desta compulsão à repetição.

Mas as outras classes sociais também participaram do esquema. A classe média entrou em peso no jogo, como sempre, contra os pobres para mantê-los servis, humilhados e sem chances de concorrer aos privilégios educacionais da classe média. Os pobres entraram no jogo parcialmente, o que se revelou decisivo eleitoralmente, pela manipulação de sua fragilidade e pela sua divisão proposital entre pobres decentes e pobres “delinquentes”. Juntos, a guerra social contra os pobres e entre os pobres, elegeu Bolsonaro e sua claque.

Foi um protesto contra o progresso material e moral da sociedade brasileira desde 1988 e que foi aprofundado a partir de 2002. Estava em curso um processo de aprendizado coletivo raro na história da sociedade brasileira. Como ninguém em sã consciência pode ser contra o progresso material e moral de todos, o pretexto construído, para produzir o atraso e mascará-lo como avanço, foi o pretexto, já velho de cem anos, da suposta luta contra a corrupção.

A “corrupção política”, como tenho defendido em todas as oportunidades, é a única legitimação da elite brasileira para manipular a sociedade e tornar o Estado seu banco particular. A captura do Estado pelos proprietários, obviamente, é a verdadeira corrupção que, inclusive, a “esquerda” até hoje, ainda sem contra discurso e sem narrativa própria, parece ainda não ter compreendido.

Agora, eleição ganha e Bolsonaro no poder, começam as brigas intestinas entre interesses muito contraditórios que haviam se unido conjunturalmente na guerra contra os pobres e seus representantes. Bolsonaro é um representante típico da baixa classe média raivosa, cuja face militarizada é a milícia, que teme a proletarização e, portanto, constrói distinções morais contra os pobres tornados “delinquentes” (supostos bandidos, prostitutas, homossexuais, etc.) e seus representantes, os “comunistas”, para legitimar seu ódio e fabricar uma distância segura em relação a eles. Toda a sexualidade reprimida e toda o ressentimento de classe sem expressão racional cabem nesse vaso. O seu anticomunismo radical e seu antintelectualismo significam a sua ambivalente identificação com o opressor, um mecanismo de defesa e uma fantasia que o livra de ser assimilado à classe dos oprimidos. Olavo de Carvalho é o profeta que deu um sentido e uma orientação a essa turma de desvalidos de espírito.

A escolha de Sérgio Moro foi uma ponte para cima com a classe média tradicional que também odeia os pobres, inveja os ricos, e se imagina moralmente perfeita porque se escandaliza com a corrupção seletiva dos tolos. Mas apesar de socialmente conservadora, ela não se identifica com a moralidade rígida nos costumes dos Bolsonaristas de raiz que estão mais perto dos pobres. Paulo Guedes, por sua vez, é o lacaio dos ricos que fica com o quinhão destinado a todos aqueles que sujam a mão de sangue para aumentar a riqueza dos já poderosos.

Os 100 dias de Bolsonaro mostram que a convivência desses aliados de ocasião não é fácil. A elite não quer o barulho e a baixaria de Bolsonaro e sua claque que só prejudicam os negócios. Também a classe média tradicional se envergonha crescentemente do “capitão pateta”. Ao mesmo tempo sem barulho nem baixaria Bolsonaro não existe. Bolsonaro “é” a baixaria. Sérgio Moro, tão tolo, superficial e narcísico como a classe que representa, é queimado em fogo brando já que o Estado policial que almeja, para matar pobres e controlar seletivamente a política, em favor dos interesses corporativos do aparelho jurídico-policial do Estado, não interessa de verdade nem a elite nem a seus políticos. Sem a mídia a blindá-lo, Sérgio Moro é um fantoche patético em busca de uma voz.

O resumo da ópera mostra a dificuldade de se dominar uma sociedade marginalizando, ainda que em graus variáveis, cerca de 80% dela. Bolsonaro e sua penetração na banda podre das classes populares foi útil para vencer o PT. Mas ele é tão grotesco, asqueroso e primitivo que governar com ele é literalmente impossível. A idiotice dele e de sua claque no governo é literal no sentido da patologia que o termo define. Eles vivem em um mundo á parte, comandado pelo anti-intelectualismo militante, o qual não envolve apenas uma percepção distorcida do mundo. O idiota é também levado a agir segundo pulsões e afetos que não respeitam o controle da realidade externa. Um idiota de verdade no comando da nação é um preço muito alto até para uma elite e uma classe média sem compromisso com a população nem com a sociedade como um todo. Esse é o dilema dos 100 dias do idiota Jair Bolsonaro no poder.

*É sociólogo e autor de A Elite do Atraso dentre outras obras.

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A síntese. A posição dos moderados

Por Francisco Carlos*

A tentativa de formar dois rígidos polos ideológicos no Brasil está ficando ridícula e perigosa. Perceba, a título de exemplo, que quem não entra na lógica alucinada do “nós contra eles” é tachado, no mínimo, de “isentão”.

Na verdade, dividindo ou pretendendo dividir as massas, pelo patrulhamento político das opinões sobre temas nacionais, os indutores da polarização estão querendo tolher a capacidade das pessoas de construírem senso crítico, com o único objetivo de fortalecer suas bases políticas. Quem não concorda é “empurrado” para o “outro lado”. Vai para o grupo “do eles”. O objetivo dessa estratégia não é forma seres pensantes, mas alienados seguidores.

Eu não quero ser contra Bolsonaro, porque “nada que vem dele pode ser bom”. Também não quero achar que, seguindo-o, estou me afastando de qualquer ideologia, negando que, na verdade, estou abraçando outra. Eu quero perceber que há questões que devo apoiar e outras que não devo apoiar. Aliás, que devo rechaçar completamente.

Por outro lado, acredito que há coisas ruins dos governos petistas que não quero mais para o Brasil e há coisas que precisam permanecer e até serem aperfeiçoadas e ampliadas.

Vamos ler os conteúdos de forma atenciosa, refletir e tirar conclusões provisórias.

Se não concordarmos com algo do “nosso lado”, não vamos apoiar, vamos combater. Podemos fazer isso sem trocar de lado. Pelo menos até enquanto os prós (a nosso ver), sejam mais fortes que os contras.

O fundamento do que estou falando (ou tentando falar) é antigo. Tese, antítese e síntese. Quem desejar, escolha uma tese ou fique com sua anti tese. Eu estou procurando a síntese. Um olho no gato e outro no peixe.

Vamos lembrar que a síntese não é uma posição de neutralidade. É outra opção, construída a partir das tensões entre as duas posições anteriores.

Não existe neutralidade. Existe tentativa de ser neutro e objetivo. Esse esforço configura a formação de uma terceira opção, e não algo que fica no meio das duas primeiras.

Pode ser que alguém pretenda a neutralidade se distanciando e não assumindo posições. Não é o caso de quem busca uma síntese.

Quem busca a síntese não está defendendo a isenção. Está querendo algo melhor, uma terceira (e provisória) alternativa. Quem desejar, pode permanecer alienado, no conforto dos polos, conversando com os seus iguais.

A formação de grupos e o sentimento de pertencimento é bom e necessário. A capivara fora do grupo é presa fácil. Mas, não precisamos estar em tudo e o tempo todo subjugados aos limites determinados pelo grupo. Evolução está fora dos limites estabelecidos, seja ele qual for.

Um grande abraço.

*É professor da Faculdade de Economia da UERN e Vereador

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