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Foro de Moscow

Foro de Moscow 5 out 2021 – O que significou a pane das redes

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Leis Lucas Santos no RN: Ubaldo Fernandes protocola dois PL’s de enfrentamento ao cyberbullying

Deputado apresentou conjunto de medidas visando combater bullying virtual (Foto: AL/RN)

O Rio Grande do Norte poderá contar com leis específicas de combate ao cyberbullying em consequência de um movimento nacional que acontece principalmente após o suicídio de mais um jovem por essa motivação, do adolescente potiguar Lucas Santos, filho dos músicos Walkiria Santos e César Soanata, que aconteceu há cerca de 10 dias.

Sobre a temática do ciberbullying deputado estadual Ubaldo Fernandes (PL) protocolou dois Projetos de Lei (PL’s) na Assembleia Legislativa.

A primeira das matérias protocoladas pelo parlamentar prevê a criação do “Programa Estadual de Enfrentamento ao Cyberbullying – Lucas Santos”, voltado ao combate a práticas hostis em ambiente cibernético, através de atos como: depreciar, assediar, remeter mensagens intrusivas da intimidade, enviar ou adulterar fotos e dados pessoais que resultem em sofrimento ou com o intuito de criar meios de constrangimento psicológico e social.

Segundo o PL, o Estado do Rio Grande do Norte, por meio de suas Secretarias competentes, deverá realizar programas alusivos ao combate à prática do cyberbullying.

Às escolas do Estado do Rio Grande do Norte, públicas e privadas, caberia: I – implementar, em seu calendário letivo anual, campanhas permanentes de conscientização, palestras e fóruns que integrem a comunidade escolar em prol da discussão do combate às práticas do cyberbullying; II – criar serviço especializado de acolhimento às vítimas de cyberbullying, disponibilizando acompanhamento com os profissionais que desempenhem atividades voltadas ao bem-estar social e mental; III – oferecer cursos de qualificação e capacitação aos seus profissionais com temáticas referentes ao disposto nesta Lei.

Já os veículos de comunicação digital, visual, radiofônico, televisivo e impresso, sediados no Estado do Rio Grande do Norte, deverão destinar espaço à publicização do combate ao cyberbullying.

Além disso, o veículo de comunicação também teria que, ao identificar a prática de cyberbullying realizado por terceiros em seu espaço de comunicação, a exemplo de comentários em páginas eletrônicas e mensagens enviadas por aplicativo de redes sociais, o dever de realizar a imediata remoção, bem como comunicar o fato às autoridades competentes para fins de averiguação dos fatos.

Em caso de inércia, o veículo de comunicação estaria, inclusive, sujeito à aplicação de multa, que variando entre 01 (um) e 50 (cinquenta) salários-mínimos, sopesada a sua capacidade econômica, revertendo-se tal valor ao Fundo Estadual de Assistência Social do Rio Grande do Norte.

Já a outra matéria protocolado pelo Deputado é a que “dispõe sobre a obrigatoriedade de se afixar cartazes fazendo advertência à prática criminosa do cyberbullying. Esse PL prevê que “fica determinado que todos os espaços de uso de computadores, públicos ou privados, deverão afixar cartazes fazendo menção à natureza ilícita da prática do cyberbullying  (com os seguintes dizeres: “CYBERBULLYING É CRIME: Nos termos das Leis Federais 12.965/2014 e 13.185/2015, entende-se como cyberbullying o ato de depreciar, assediar, remeter mensagens intrusivas da intimidade, enviar ou adulterar fotos e dados pessoais que resultem em sofrimento ou com o intuito de criar meios de constrangimento psicológico e social, estando o autor de tais práticas sujeito às sanções previstas na Legislação”).

“O avanço da Era Digital tem acelerado o descontrole das ações negativas que ocorrem em ambiente virtual, gerando graves consequências em desfavor de inúmeras pessoas, que, no caso tratado pela presente matéria, são vítimas do cyberbullying. Neste sentido, tem-se por necessária a ampliação deste debate, ultrapassando todos os tabus ainda existentes neste âmbito”, justifica o Deputado Ubaldo Fernandes.

As matérias devem ser lidas em plenário esta semana, indo para análise das comissões temáticas da casa legislativa para posterior apreciação e votação dos deputados estaduais.

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Sabe o que são caçadores de recompensa? Empresas pagam a quem detecta bugs em suas plataformas

Andres Alonso, um jovem de 15 anos, estava navegando pelo YouTube, assistindo vários conteúdos sobre programação, já que ele é um entusiasta de segurança da informação, quando acabou se deparando com uma informação que desconhecia: o Facebook tem um programa de bonificação para hackers e desenvolvedores que identifiquem vulnerabilidades nas plataformas da companhia. Dessa forma, o adolescente passou a investigar o Instagram durante alguns meses, e acabou descobrindo um “bug” (falha no sistema) na rede social. Ao informar à empresa sobre a sua descoberta, Alonso recebeu US$ 25 mil. O prêmio recebido pelo brasileiro foi dado através da plataforma de “bug bounty” do Facebook, sendo que outras empresas de tecnologia adotam a mesma nomenclatura para o programa que paga as pessoas que encontram alguma vulnerabilidade em suas plataformas e as informa.

A falha que Alonso identificou estava presente no Spark AR Studio, site de criação de filtros do Instagram. Segundo o jovem, “Esses efeitos de câmeras são compartilháveis: um usuário clica e pode usar o filtro. No entanto, percebi que podia manipular os links para incluir qualquer código e, se o usuário clicasse, eu teria acesso direto à conta dessa pessoa”.

Alonso se inscreveu no programa de recompensas em agosto do ano passado, após isso, ele enviou um relatório para a empresa de Zuckerberg, com todos os detalhes que havia descoberto durante a sua exploração. E para a surpresa do garoto, apenas um dia depois dele ter enviado as informações que havia coletado, o problema foi resolvido. “Quando isso aconteceu, entendi que realmente era um problema sério para terem resolvido tão rapidamente”, afirma Alonso.

Aproximadamente um mês depois, a empresa entrou em contato com o jovem, agradecendo sua contribuição e lhe informando que lhe daria uma recompensa. “O trabalho do bug bounty é entender como os sistemas funcionam e caçar falhas. Assim as empresas se tornam mais seguras,” diz Alonso. Com isso, as companhias têm investido cada vez mais na segurança dos seus sistemas, a exemplo das melhores casas de apostas, que utilizam criptografia de ponta para se proteger os dados dos seus clientes, evitando assim o vazamento de informações.

Mercado milionário

Atualmente, o mercado para os “caçadores de bugs” tem crescido exponencialmente. Segundo o relatório “The Hacker Report”, feito pela plataforma HackerOne, no ano passado, os programadores cadastrados na “bug bounty” juntos receberam aproximadamente US$ 40 milhões em recompensas. Sendo que somente um hacker angariou mais de US$ 2 milhões. O relatório ainda aponta que o principal motivo pelos quais os hackers ingressam nesses programas é o aprendizado e testes de conhecimentos técnicos que alcançam procurando falhas em sistemas, sendo essa alternativa marcada por 85% dos entrevistados. Na segunda posição, aparece a recompensa financeira como fator decisivo para escolher a atividade de caçador de bug, e 76% dos entrevistados escolheram essa alternativa.

O setor privado é o principal responsável pelo crescimento deste mercado. E dia após dia, as empresas têm desenvolvido seus programas de bug bounty com o intuito de prevenir que cibercriminosos tomem proveito das falhas e vulnerabilidades do seus sistemas, o que pode causar prejuízos milionários.

O banco suiço Julius Baer previu que em 2021 os crimes cibernéticos custarão à economia global ao menos US$ 6 trilhões. Em junho deste ano tivemos um exemplo do estrago que os cibercriminosos podem causar – quando a JBS teve que paralisar alguns turnos em seus frigoríficos no Canadá, Estados Unidos e Austrália, após ter sido vítima de um ataque cibernético, que acabou bloqueando o acesso aos sistemas da empresa, e os criminosos exigiram uma recompensa para liberá-los. E para evitar um prejuízo maior relacionado ao vazamento de dados, a companhia acabou pagando o “resgate” de US$ 11 milhões.

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Peru: Lições de uma vitória inesperada

Bem menos popular que a adversária nas redes sociais, Castillo foi vitorioso nas urnas (Foto: Dante Zegarra/ANDINA)

Por Thiago Medeiros*

A eleição Peruana, com seu segundo turno sendo realizado no último domingo (06.06) determinou a eleição de Pedro Castillo (50,19%), candidato da esquerda, desconhecido, sem grande expressão, contra a já conhecida Keiko Fujimori (49,80%), filha do ex-presidente Alberto Fujimori, representando a direita. A vitória foi apertada, com uma pequena margem de vantagem. Com 100% dos votos apurados, a diferença de foi de apenas 68.473 votos. Essa divisão nacional, provoca um dos maiores desafios para Castillo, talvez maior que vencer a eleição: governar. Inclusive a candidata derrota já contesta o resultado das eleições e pede recontagem dos votos alegando fraude.

O Peru, vive uma condição singular. Após a Lava-Jato, operação que nós brasileiros conhecemos bem chegar por lá, o país vive um caos político e econômico. Essa crise política levou ao nascimento, em 2020, da chamada “Geração Bicentenária”, que saiu às ruas em defesa da democracia. Esta geração por meio de grandes protestos reivindicou melhores condições e redução das desigualdades no país Andino. A “Geração Bicentenário” também respondeu à decisão do Congresso de retirar Martín Vizcarra (vice e posterior sucessor de Pedro Pablo Kuczynski) do poder. Como bem frisa Castells, estes movimentos modernos se caracterizam por grande mobilização nas redes sociais, principalmente pelos jovens. A hashtag #MerinoRenuncia inundou as redes sociais, como o Facebook, Instagram e TikTok e Twitter.  Essa mobilização feroz nas redes sociais foi essencial para queda do governo interino de Manuel Merino. Para o movimento, Merino não os representa, não era o “seu presidente”.

Nosso objetivo aqui neste artigo não é se debruçar sobre os aspectos políticos da campanha, apenas desejamos neste início situar nosso leitor das condições contextuais para discutir o foco principal: engajamento nas redes sociais.

Pedro Castillo, professor sindicalista com insignificante apoio político, chegou às eleições com uma característica clara para seus adversários, ou ao menos assim imaginavam eles, a ausência do candidato nas redes sociais. Muitos pensaram que pela sua inexpressividade e por ser desconhecido não avançaria muito em engajar eleitores pelas redes sociais. Quando entrou na votação, ele tinha apenas 3.000 seguidores no Twitter e atualmente tem 79.000 contra mais de um milhão de Keiko Fujimori. No Instagram após sua vitória Pedro conta com 18.400 seguidores enquanto Keiko tem 254.000.

Para alguns analistas, Castillo poderia ter sido chamado no início da campanha do “candidato sem likes”, essa expressão pode representar muitos candidatos que em pleno século XXI, se perguntam como sobreviver ou melhor vencer, nesse mundo onde se fala muito ser essencial uma estratégia de comunicação política integrada nas várias plataformas? Mas será mesmo que o candidato da esquerda estava “sem likes”, ou essa era simplesmente uma visão míope dos analistas e seus adversários? Qual a estrutura de sua rede? Essas são perguntas que tentaremos aqui responder neste artigo.

Para que possamos caminhar em nossa análise, vale fazer uma explicação com relação aos perfis associados aos dois candidatos do segundo turno da eleição. A força de Pedro Castillo vem mais do sul do país, uma região mais rural e com forte presença da mineração, que teoricamente tenderia a ter menor “conectividade” que a base eleitoral de Fujimori que concentra sua força na região urbana e desenvolvida de Lima. Segundo estudo do IPSOS de 2020, a região metropolitana de Lima, entre a população de 6 anos ou mais de idade, mais de 80% estão conectados à internet de suas residências, enquanto no restante do país esse percentual de conexão mal ultrapassa os 40%. Dos que acessam, sabe-se que 90% o fazem pelo celular. Nessa massa, a penetração é liderada pelo Facebook com 94%, seguido pelo WhatsApp com 86%, Instagram com 60%, Twitter com 29% e TikTok com 18%. A diferença digital entre o Peru rural mais empobrecido e a região mais urbana e rica, realmente prevalece, ela é real mas tenderia a ser superada por uma mobilização que ficaria até o exponencial crescimento do professor esquecida pelos radares dos analistas e políticos.

Para Jimena Ledgard, alguns comentaristas na tentativa de explicar o fenômeno de Castillo chegaram a declarar que “o Peru sem internet falou”, essa seria uma explicação mais conveniente para a vitória inesperada. Mas uma conversa com os apoiadores da classe trabalhadora e rural de Castillo revela uma história mais complexa. Não é tanto que estejam desconectados, mas que se movem em uma câmara de eco virtual diferente.

Para se ter uma ideia a falta de canais oficiais do Peru Libre nas redes sociais gerou confusão na mídia. Os representantes da campanha só confirmaram após as eleições qual das contas do Twitter em nome de Castillo era a autêntica. Antes disso, a mídia às vezes citava relatos não oficiais como representativos da linha do partido. O próprio partido, reconhece inclusive que eles não têm uma estratégia específica de comunicação digital.

No entrando segundo Jimane, o Google Trends já dava sinal que a campanha de Castillo tenderia a crescer.  Antes mesmo de as pesquisas registrarem um interesse maior pela candidatura de Castillo, ele já estava sendo pesquisado no Google mais do que Mendoza. Este já seria um sinal que havia por parte da população no mínimo um grande interesse por esta candidatura, os movimentos de base, ou seja, da própria população buscando uma identificação com uma candidatura mostra o que a “bolha” de observação não conseguia ver.

O Cientista Político argentino Mario Riorda, tem falado sobre o caráter da sufocante personalização da política, com forte apelo para os atores enquanto mobilizadores de seu eleitorado tirando peso das propostas eleitorais. No caso de Pedro, o fenômeno acontece, porém ele não se reflete diretamente nas contas pessoais do candidato.

A mobilização do imaginário político pelo candidato da esquerda fez movimentar a população a agira em favor dele. Centenas de grupos são criados de maneira orgânica. Legard aponta para a importância dos grupos pró-Castillo no Facebook. Devido à sua dinâmica, os grupos do Facebook podem ser públicos ou privados.  Utiliza-se também o WhatsApp uma plataforma que pode ser explorada tantos os grupos como a conversa individual, dotada de credibilidade pela proximidade entre as relações sociais.

De acordo com Ledgard, os grupos do Facebook por região também são muito ativos. Por exemplo, Pedro Castillo Presidente- Região de Cusco (39.400 membros) dentre vários outros. “Nossa abordagem é descentralizar a política. É por isso que deixamos as regiões falarem por si. Isso inclui estratégias de comunicação. Damos algumas orientações aos adeptos de cada local, mas deixamos que façam os seus próprios spots”, explicou o cientista político Franco Pomalaya Neyra a Legard. Pomalaya Neyra faz parte da equipe de networking do Peru Libre (coligação de Pedro Castillo) e é responsável pelas transmissões ao vivo.

Por exemplo nos grupos do Facebook, os apoiadores do Castillo participam de discussões políticas, compartilham vídeos, artigos, memes e também se comunicaram intimamente por meio do WhatsApp. Dessa forma, os grupos do Facebook tornam-se a ponta do iceberg de uma rede muito mais próxima e indetectável. A importância dos grupos de WhatsApp (cujo limite inalterável é de 256 membros), já foi vista na campanha de Jair Bolsonaro, com a sutil diferença que nenhuma empresa ou qualquer mecanismo malicioso de envio artificial de mensagens operou aqui.

Outro fator importante, é que a campanha de Castillos apesar de sua característica inicial, sendo mais rural, ela consegue engajar determinados grupos que são bastante conectados e articulados nas redes sociais, estamos falando dos jovens. Castillo aproveita então uma predisposição existente de uma formação de “redes” das relações sociais que tinham uma forte rejeição a Keiko Fujimori.

Essa é uma grande estratégia que trabalha as bases de um eleitorado, e tira um peso colocado no personalismo da comunicação política. A grande motivação para que a população contribuía nas redes sociais vêm das mobilizações do imaginário político, compreendidos pelos símbolos, pelo discurso mobilizado, pela representação do candidato frente as bandeiras de campanha. Sem comparações ideológicas, a campanha nas redes socais, marcada pela mobilização social nas redes sociais faz Pedro Castillo e Bolsonaro se aproximarem. Essa pode ser a saída de construção para os políticos que não têm uma vasta rede social, se você não tem a terceirização provocada pela mobilização é o melhor caminho.

*É Publicitário e Sociólogo.

Este texto não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema. Envie para o barreto269@hotmail.com e bruno.269@gmail.com.

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Reportagem

“Eu me senti humilhada”, diz Weny. Entenda porque a história da jovem exposta por praticar infração de trânsito é um combo dos problemas do Brasil atual

Weny foi obrigada a retirar a mascara e ouviu resignada a humilhação imposta por Giuliana (Foto: reprodução/Blog do Barreto)

Era para ser mais um dia normal na vida de Weny Maisa, funcionária da Cosern, que parou para almoçar em um restaurante no bairro de Capim Macio, área nobre de Natal. Mas como tantos de nós em algum momento da vida ela estacionou onde não podia: a frente de uma residência.

O Código Brasileiro de Trânsito em seu inciso IX do artigo 181 é claro na proibição:

IX – onde houver guia de calçada (meio-fio) rebaixada destinada à entrada ou saída de veículos:

Infração – média;

Penalidade – multa;

Medida administrativa – remoção do veículo;

Mas Weny era uma pessoa da classe trabalhadora num bairro chique cometendo um erro e é aí que se expõe o atraso da nossa elite dissecado nas obras do sociólogo natalense Jessé de Souza. Assim ela cruzou o caminho da publicitária Giuliana Amorim que estava com pressa, mas teve todo tempo do mundo para humilhar Weny, esperar o agente de trânsito, filmar o ato da multa e colocar nas redes sociais. O vídeo você pode conferir AQUI ou AQUI.

O fato em si é um combo que junta crime de violação do direito de imagem e um problema sociológico herdado dos tempos da escravidão que persiste nos dias atuais.

Giuliana perdeu a razão quando violou o inciso X do artigo 5º da Constituição Federal que diz:

Art. 5º, X: são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.

E expôs a chaga da escravidão que ainda persiste no comportamento de setores da sociedade brasileira, um tema bastante estudado por Jessé de Souza autor de livros como A Elite do Atrasado e A Classe Média no Espelho. Confira trecho de uma entrevista dele a Isto É em 2018 que mostra bem o que a gente encontra no vídeo. “O Brasil é um país doente, patologicamente doente pelo ódio de classe. Isso é o mais característico do Brasil: o ódio patológico ao pobre. É a doença que nós temos. A gente nunca assumiu a autocrítica de que somos filhos da escravidão, com todas as doenças que a escravidão traz: a desigualdade, a humilhação, o prazer sádico na humilhação diante dos mais frágeis, o esquecimento e o abandono da maior parte da população. Esse é o grande problema brasileiro. O resto é bobagem”.

Giuliana não só manifestou seu ódio de classe contra Weny como sentiu o prazer sádico de expor o assunto nas redes sociais e em seguida fazer uma enquete para saber se o que fez merecia aprovação.

Publicitária buscou aplausos nos Stories do Instagram após humilhar Weny

É um caso de narcisismo clássico em que ela se sentiu triunfante por ter humilhado alguém em situação social e economicamente inferior além da necessidade de mostrar ter prestígio com o poder público municipal fazendo questão de agradecer ao prefeito de Natal Álvaro Dias (PSDB) pela rapidez do serviço de fiscalização de trânsito. Por sinal, a publicitária trabalhou na gestão municipal até 2018. “Obrigado Álvaro Dias, “Tacinho” e Flávio que ajudou (sic) nessa operação”, gabou-se.

Mas a tentativa de demonstrar poder sobre outra pessoa fez, na verdade, ela perder a razão em um caso simples de se resolver tornando-o público e recebendo uma saraivada de críticas nas redes sociais.

Resultado: Giuliana fechou o perfil no Instagram para não ser insultada por haters.

“Eu me senti humilhada”, diz Weny que estuda processar Giuliana

Mostrando a mesma dignidade do vídeo, em conversa com o Blog do Barreto Weny Maisa contou como se sentiu quando foi achincalhada por Giuliana.

“Eu me senti bem humilhada pra falar a verdade”, desabafa.

Ela conta que o vídeo é só uma parte do que teve que ouvir por ter errado no estacionamento d veículo. “Eu só vim ver o vídeo há pouco. Ela nem postou tudo que falou, mas não quero entrar em detalhes”, frisou.

Sobre a possibilidade de processar Giuliana, Weny está buscando orientação, mas a tendência é que tente uma reparação judicial. “Provavelmente sim para que outra pessoa não precise passar pelo que passei”, analisou.

A funcionária da Cosern reforça o que o vídeo demonstra sobre seu comportamento no caso: ela reconhece que errou. “Eu sei que errei, eu pedi desculpa. Esperei e não fui reativa quanto à multa. Por pura falta de atenção não notei que era garagem”, explica.

Reação de conhecidos

No post do vídeo que o Blog do Barreto fez no Twitter várias pessoas que conhecem Weny se manifestaram sempre no sentido de se tratar de uma pessoa educada. Os depoimentos seguem com a grafia original:

“Conheço essa menina. Gente finíssima, super educada, e reforçou isso se portando de maneira exemplar perante uma humilhação dessas… Espero que ela processe essa “cidadã de bem” pelo constrangimento. Inacreditável…”, disse Igor V.

“Não acredito que fizeram isso com ela boy… era da minha turma de estágio e um amor de pessoa, um poço de educação, que ódio desse povo de Natal”, disse Renato Lopes.

“A moça é minha amiga. Uma das pessoas mais sensíveis, inteligentes e incríveis que já conheci na vida. Tem uma doçura e leveza que poucas pessoas hj em dia tem. Nunca encontrei uma pessoa tão disposta a ajudar sempre e qualquer pessoa”, falou Thaís Celina.

Pai de Giuliana sai em defesa da filha: “não tem sangue de barata”

Após críticas, Giuliana fechou conta no Instagram

O pai de Giuliana, Flávio Pipolo Amorim, reagiu as críticas que a filha vinha sofrendo nas redes sociais e postagem no Twiter:

“Eu sou o pai da “cidadã de bem” a quem você se refere. Gostaria de saber se V.S. estaria feliz em ter sua garagem residencial bloqueada por um carro, por mais de 2 horas, sem poder sair de sua casa em uma emergência. Sangue de barata não é todo mundo que tem”.

O problema é que a versão dada por Flávio se contradiz com o conteúdo do vídeo em que Giuliana fala que queria colocar o carro para dentro de casa e não retirar para uma emergência. “Você me obrigou a deixar o meu carro no sol”, diz aos 25 segundos do vídeo. Você pode conferir AQUI ou AQUI.

Ou seja: ela estava chegando e não saindo de casa, o que derruba a tese da situação emergencial para justificar o chilique transmitido nas redes sociais.

Cosern diz estar acompanhando o caso e prestando assistência à Weny

Por meio de nota ao Blog do Barreto a Cosern informou que está acompanhando o caso e prestando assistência a funcionária Weny Maisa que também passará por uma “reciclagem”.

Confira a nota:

NOTA COSERN

Com relação ao vídeo que circula nas redes sociais mostrando uma infração de trânsito praticada por uma colaboradora da empresa, a Cosern informa que a penalidade prevista no Código Brasileiro de Trânsito já foi aplicada e que a colaboradora passará por uma reciclagem.

A Cosern lamenta o episódio, ressalta que condena, veementemente, quaisquer condutas de humilhação e desrespeito nas relações profissionais e sociais e informa que está prestando assistência à colaboradora.

Por fim, a Cosern reitera o compromisso com os valores de transparência e de integridade difundidos e praticados pelo Grupo Neoenergia.

ASSESSORIA DE IMPRENSA DA COSERN

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Cancelamento Social

Por Angie Piqué*

Uma nova forma de punição vem ganhando força no tribunal das redes sociais: o cancelamento de pessoas. O fenômeno, que tem sua origem na “Cultura do Cancelamento”, vem sendo utilizado na internet para punir, excluir e, principalmente, cancelar, pessoas públicas, que disseram coisas preconceituosas e ofensivas consideradas inaceitáveis na atualidade. A chamada cultura do cancelamento permite que a opinião pública se manifeste contra qualquer ato considerado inaceitável para os dias de hoje como, por exemplo, racismo, discriminação, preconceito, xenofobia, homofobia e abuso de poder. Porém, por outro lado, ela também oferece perigos que são característicos a qualquer ato de censura e exclusão, já que nem sempre é claro o limite entre o certo e o errado.

A maneira punitiva como funciona o cancelamento virtual de pessoas se assemelha a antiga forma relatada na história de apedrejamento ou linchamento. Aqueles que desejam repudiar algum tipo de comportamento conseguem participar de forma direta no ato de repreender e expressar raiva, ódio e outros sentimentos negativos. O cancelamento virtual, apesar de não ter consequências diretamente letais, como acontece no linchamento, acaba provocando a exclusão de uma determinada pessoa do convívio, pelo menos a nível virtual, acarretando, em muitos dos casos, consequências importantes. Dependendo com quem e em que circunstâncias isto acontece, quem sofre o cancelamento pode perder oportunidades de troca, visibilidade, contratos profissionais, patrocínios e, também, manchar sua imagem pública.

Neste jogo de exclusão, tanto aquele que é repudiado como aquele que exerce o repúdio pode sofrer diversas consequências psíquicas preocupantes. O fato de se sentir excluído de forma tão rápida e por tantas pessoas ocasiona sentimentos de desamparo, depressão e, em alguns casos, pode despertar uma sede de vingança. A vítima do cancelamento pode se sentir injustiçado e, consequentemente, procurar a forma de “dar o troco”.

Ainda que consideremos que muitas das pessoas canceladas são merecedoras de serem banidas ou limitadas em relação à emissão de opiniões ou participações em grupos, não podemos esquecer que o objetivo mais importante deste tipo de ação deveria ser o seu efeito educador. E como educar alguém que é banido do grupo? A opinião pública pode, de forma devastadora e muito rápida, destruir a imagem de alguém inocente ou, até mesmo, contribuir para atos destrutivos e preocupantes, como o suicídio, brigas e guerras entre grupos e expressões de ódio que inflamam e dividem os membros de um grupo ou sociedade. Estes perigos se tornam mais preocupantes no caso dos adolescentes, que representam uma população que domina a internet e que utilizam a cultura do cancelamento sendo extremamente rígidos nas críticas sobre o que eles mesmos consideram certo ou errado.

É fundamental que pais e educadores procurem conversar com os adolescentes sobre todos estes riscos e tentem, sempre que possível, demonstrar que qualquer tipo de postura considerada condenável, ofensiva ou preconceituosa acaba tendo consequências incontroláveis que podem afetar drasticamente a vida de outra pessoa.

*É gestora Nacional do Curso de Psicologia da Estácio

Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.

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Recuso o fatalismo de quem acha que somos puras marionetes das redes

João Pereira Coutinho*

Nunca olhei para as redes sociais como o Quinto Cavaleiro do Apocalipse. Ingenuidade minha, talvez. Ou sorte.

A primeira vez que usei a internet tinha 22 anos. Quando conto isso a certos auditórios púberes, eles riem na minha cara. Como era viver nas cavernas, sem WhatsApp ou Facebook?

Era horrível, gente. Uma pessoa acordava, vivia a sua vida com outra paz de espírito e, na maioria dos casos, não tinha uma conta do psiquiatra para pagar.

Depois, quando a internet chegou, tratei do fenômeno de forma puramente instrumental: era um meio para, não uma forma de vida em si.

Exemplo: o Google é perfeito quando sabemos o que pesquisar. Mas jamais me passaria pela cabeça levar a sério todos os gatafunhos que aparecem na rede como se fossem as tábuas da lei. O ceticismo, que é estimável em qualquer área da vida, é imprescindível na selva virtual.

O mesmo vale para os anúncios personalizados. Os gigantes tecnológicos vendem o meu perfil para que os anunciantes possam tentar-me com uma precisão mefistofélica?

Admito que sim. Em certos casos, até agradeço: da música ao cinema, da literatura aos lugares, são incontáveis as descobertas que fiz porque alguém as fez por mim.

Mas recuso o fatalismo tecnológico de quem acha que somos puras marionetes das redes sociais, sem autonomia ou controle.

Não somos. Não sou. A última palavra será sempre a minha.

Tive sorte, definitivamente. A minha geração também. Mas que dizer da geração pós-1996 —a geração Z, na linguagem dos especialistas— que nasceu, cresceu e irá envelhecer e morrer olhando para o ecrã do celular?

Esse é o grande mérito de “O Dilema das Redes”, o documentário do momento na Netflix: quem não conheceu a vida analógica está mais desarmado para a vida virtual. Isso é particularmente chocante em questões de verdade e mentira, talvez a grande observação do documentário.

Ilustrada 29.set Coutinho

Sim, as redes viciam; exploram as preferências dos usuários; arruínam a sanidade deles com imagens inatingíveis de perfeição.

Sem falar dos “likes” que brincam com a autoestima da espécie a uma escala literalmente planetária: como afirma um dos tecnossábios entrevistados no filme, todos precisamos da aprovação dos outros, mas não de milhares de outros, de cinco em cinco minutos.

Mas o problema principal está na forma como as redes aprofundam e cristalizam a nossa ignorância. Exemplo: se acreditamos que a Terra é plana, seremos encaminhados para a ala do manicômio onde existem outros malucos como nós. O que significa que as nossas convicções nunca são testadas ou contestadas, são apenas reforçadas.

Se isso é cômico em matéria geofísica (eu gosto dos terraplanistas e me divirto com eles), é menos cômico em matéria política. Esquerda e direita sempre existiram na política moderna; e a diversidade de opiniões é a maior proeza das democracias liberais e pluralistas.

Mas para que essas democracias funcionem, é preciso que os participantes do jogo democrático aceitem previamente uma verdade, ou um conjunto de verdades, que é exterior e objetiva.

Eu posso preferir a liberdade sobre a igualdade (ou vice-versa). Mas convém que, antes do debate, os diferentes participantes aceitem a validade da democracia, ou da decência, ou da honestidade, ou da racionalidade, como alicerces de qualquer sociedade civilizada.

Quando não existe esse consenso mínimo, tudo é violência e gritaria, com os diferentes símios a tentarem esmagar o crânio do inimigo.

No fundo, as mídias sociais reatualizam o velho problema do relativismo: se não existe a verdade, mas apenas a minha verdade mil vezes reforçada, isso me autoriza a usar a força bruta para converter os incréus.

Haverá saída para este labirinto?

Há: a internet é um faroeste e, como aconteceu com o próprio faroeste, a regulação e a lei acabarão por chegar a esse território selvagem. O combate ao anonimato, por exemplo, é uma das mais importantes batalhas.

Mas as leis não resolvem tudo. É preciso que os usuários, sobretudo os mais jovens, aprendam a sair do aquário e a respirar fora dele.

Isso implica que noções arcaicas de conhecimento e reflexão —ler livros, escutar especialistas, estudar, viver “cá fora”— são hoje mais importantes do que nunca. Não apenas porque nos tornam melhores; mas porque nos tornam mais vigilantes e menos otários perante a última vigarice do feed de notícias.

Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.

*Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

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Deputado aponta contradição de Carlos Eduardo, chama ele de sonso, é bloqueado por ex-prefeito e ironiza: “sentiu?”

O deputado estadual Sandro Pimentel (PSOL) lacrou com a cara do ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves (PDT) que fez uma crítica a governadora Fátima Bezerra (PT) acusando-a de falta de liderança para evitar a saída da Petrobras do Estado.

Pimentel rebateu dizendo chamando de sonso o pedetista que apoiou Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018 contrariando orientação partidária.

“O governo que está retirando a Petrobras do Rio Grande do Norte é o mesmo que o senhor apoiou na eleição. Mais pobre e mais miserável com seu apoio. Não venha dar uma de sonso”.

A reação de Carlos Eduardo foi de bloquear o deputado do PSOL que reagiu com uma ironia clássica dos grupos de Whatsapp:

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Na batalha das redes, a extrema direita ganha por W.O.

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

Por Rosana Pinheiro Machado

The Intercept

Enquanto você lê esta coluna, parte da rede bolsonarista de WhatsApp recebe aproximadamente 5 mil mensagens nos quase 2 mil grupos de apoio ao ex-capitão.

“A extrema direita ganha por W.O.”, quando há vitória de um time sem adversário. Assim Pedro*, expert em tecnologia e política, define a atual disputa ideológica entre direita e esquerda nas redes sociais. Ele segue sua explicação: “é como se fosse uma guerra aberta, na qual a direita vem com drone e bombardeio, e a esquerda joga um fogo de artifício para o alto para tentar demonstrar reação, sem exatamente entender que está numa guerra”.

Pedro se vale de muitas figuras de linguagem para explicar e dar sentido ao horror da caixa de pandora que tem em mãos. O último monitoramento realizado por sua equipe analisou 2.513 grupos de WhatsApp bolsonaristas, 93.886 usuários e mais de 5 milhões de mensagens conspiracionistas sobre o coronavírus compartilhadas desde fevereiro.

Eu acessei o software, sem preparo psicológico prévio, e fiquei enojada e atônita por alguns dias. Para pesquisadores que trabalham com big data e extrema direita, é normal lidar com uma quantidade imensa de dados desse tipo. Mas não é o meu caso. A sensação de ver a máquina do ódio funcionando a todo a vapor, segundo a segundo, me fez entender um pouco o que Pedro queria dizer com uma guerra sem adversário.

Pedro tem um vasto e respeitado currículo profissional na área de política e tecnologia, mas prefere manter sua identidade protegida para seguir nos bastidores sua luta contra a desinformação. Abrindo a caixa de pandora diariamente, ao mesmo tempo em que tenta dialogar com as principais lideranças do campo da esquerda no Brasil, o pesquisador tem uma visão bastante árida da fragilidade tecnológica do campo progressista. Para ele, as esquerdas têm uma dupla defasagem na disputa política-tecnológica.

Primeiro, uma parte da esquerda ainda não entendeu – e talvez não esteja disposta a entender – que a grande mudança de paradigma político no século 21 foi impulsionada pela tecnologia. Segundo, esse estado de inanição apenas reflete algo de fundo, que é uma falta de projeto e orientação para o futuro.

É claro que existem movimentos, mídias, ativistas, influenciadores digitais e parlamentares que se preocupam com o tema e têm grande impacto nas redes. Não se trata de ignorar o trabalho daqueles que, há alguns anos, estão tentando mudar esse quadro. O ponto é meramente reconhecer que esses esforços não chegam perto de compor estrategicamente um ecossistema de atores que se movem, mais ou menos de forma coordenada, num processo de disputa política propriamente dito.

Pedro relata situações em que desenvolveu projetos digitais para partidos e lideranças de esquerda. Sua frustração é, campanha após campanha, ver que o trabalho é muitas vezes interrompido após as eleições: “Não dá para parar. Esse é um projeto contínuo”.

Acreditar que basta ganhar a eleição de 2022 para mudar o quadro catastrófico em que nos metemos faz parte do autoengano generalizado e sintomático que acomete a esquerda tradicional há quase uma década.

Surgem manifestações coxinhas, a gente dá risada. Bolsonaro se coloca como candidato, a gente diz que ele não terá tempo de televisão e que o sistema político irá se regenerar em torno da polarização PT versus PSDB. Bolsonaro cresce nas pesquisas, é porque Lula está preso – sim, evidentemente, mas podemos pensar que não foi só isso? Bolsonaro ganha as eleições é porque levou a facada  – sim, esse foi um elemento desestabilizador, mas podemos pensar que não foi só isso?

Não se trata de ignorar os muitos golpes que a esquerda e o PT, em particular, sofreram. Mas é preciso também entender que a extrema direita vem se articulando nas mídias desde a virada do milênio. E essa articulação tem sido feito com propósito, tentativa de coordenação de diferentes vertentes e sistematicamente espalhando paranoia e pânico moral contra inimigos forjados.

Quando não entendemos que a vitória de Bolsonaro faz parte de um projeto muito maior, só nos resta esperar as pesquisas de aprovação do governo a cada semana e ficar agarrados naquelas que indicam alguma queda da base dos 30% do que seria o núcleo-duro bolsonarista. Resta-nos torcer para que o governo se autodestrua. Basta eleger alguns parlamentares e tentar não perder em 2022. Resta-nos acreditar que tudo o que aconteceu no Brasil foi fruto das fake news bolsonaristas produzidas no “gabinete do ódio”. Acreditamos que, ao prender seus agentes estratégicos, o núcleo-duro bolsonarista seria desestruturado.

Essa é uma visão limitada de como se articula a rede bolsonarista política e tecnologicamente. Pedro dá o exemplo da prisão de Sara Winter, que não tinha nenhuma menção no ecossistema de extrema direita. Após sua detenção, houve uma explosão de seu nome na rede, em uma onda de viralização de linguagem religiosa que pedia por orações por ela em mais de 1.031 grupos cheios de emojis de amém e linguagem de guerra espiritual.

“Infelizmente, a rede de distribuição de informação do ecossistema é muito maior do que a operação da Polícia Federal foi capaz de identificar”, diz um relatório realizado pela equipe de Pedro, demonstrando que, para além dos grupos militantes declarados, essa rede atua também por clusters presentes em grupos de venda, pornografia e caminhoneiros.

Pedro sempre bate na tecla que a incompreensão de como funciona o ecossistema traz resultados negativos para a esquerda enquanto um campo de oposição. “Muitas pessoas pensam que basta acabar com o gabinete do ódio como se a rede bolsonarista fosse meramente uma estrutura de poder e financiamento vertical. A grande incompreensão é não entender que essa rede atua com suas próprias mídias e é muito mais autônoma, horizontal, autofinanciada do que se imagina”.

O gabinete do ódio – que precisa, sim, ser desestruturado –  é, portanto, consequência (e não apenas a causa) de um alinhamento de forças de articulistas e influenciadores outrora pulverizados. Acabar com esse ponto de organização não necessariamente mina os 18 mil outros domínios de divulgação política mapeados por Pedro.

É evidente que esse ângulo de olhar a realidade traz uma profunda angústia e uma sensação de impotência. A primeira coisa que nos perguntamos é como sair dessa. É possível que os ratos voltem para os esgotos depois de as comportas terem sido abertas? É possível regenerar um sistema putrefato que funciona livremente?

Em primeiro lugar, penso que é importante não perder de vista que nem tudo é vitória por W.O. do lado de lá. O professor especialista Fábio Malini, pioneiro no estudo de big data e política das redes no Brasil, comentou comigo recentemente que não podemos esquecer que o poder bolsonarista, atualmente, advém de uma máquina de propaganda governista, o que, a meu ver, enfraquece a espontaneidade e autenticidade do ecossistema.

Malini também destaca o fato que ideias progressistas estão ganhando espaço nas redes e no mercado editorial, citando Felipe Neto e Djamila Ribeiro, por exemplo, e que mais atenção pública tem sido dada ao trabalho de parlamentares de esquerda. O professor também mostra que as hashtags #antifa #antirracismo e #auxilioemergencial são exemplos de disputas narrativas que o campo progressista venceu nas redes.

Ambos os pesquisadores concordam que o anticientificismo de Bolsonaro é um ponto fraco. Quando a gente fala de esperança nas redes, ela vem da renovada atuação de cientistas pautando debates nacionais, os quais não apenas defendem o conhecimento técnico, mas também a democracia.

Buscando uma luz no fim do túnel, questionei Pedro se havia um ponto de abalo nesse ecossistema. Ele me disse que as mensagens de pessoas infectadas por coronavírus são um ponto importante de desestabilização. Começaram a circular mensagens de pessoas chorando, relatando sofrimento e morte, dizendo que não era uma “gripezinha”. Malini entende que isso afeta a classe médica e também os demais grupos apoiadores, produzindo um efeito negativo que não é instantâneo, mas tem “influência de longo prazo”.

Nada disso, contudo, impacta imediatamente a caixa de pandora bolsonarista, especialmente via WhatsApp. É por isso que, no curto e no médio prazo, é tão importante investigar e regular as mídias. Não se trata de uma salvação, mas um passo importante para impor limites no avanço da extrema direita, que até agora andou sem freios.

Quando conversei com o historiador Federico Finchelstein para minha última coluna, perguntei como e quando acabam regimes fascistas baseados em mentiras. Ele me respondeu que, olhando para o passado, o esgotamento se dá da maneira mais trágica: quando as pessoas começam a morrer. Essa é uma resposta que faz todo o sentido e encontra eco na própria política de morte bolsonarista, que agora atinge seus próprios apoiadores.

Mas, em termos de ação política, essa não é uma resposta aceitável para o campo de oposição, que não pode esperar – e não tem esperado – que as pessoas morram.

A verdade é que pouco adianta regular as mídias e prender criminosos extremistas sem apresentar um projeto político e tecnológico alternativo a médio e longo prazo. A luta comunicacional contra a extrema direita é inglória e assimétrica porque os fascistas atuam por mentiras que tocam no âmago no medo – e o medo é um sentimento que mobiliza os indivíduos visceralmente. Mas é possível entrar nessa batalha de forma honesta mudando o modus operandi.

Por pelo menos quatro décadas, os gurus da extrema direita estudaram as táticas políticas da esquerda. Agora, está na hora de a esquerda fazer o movimento contrário, não para copiar os métodos sujos, mas para entender seu funcionamento.

A experiência da extrema direita aponta para a formação de uma rede em que as pessoas se sentem incluídas no processo político, se sentem atores ativos e não passivos no ecossistema bolsonarista. Isso já estava claro nas minhas pesquisas e de Lúcia Scalco com jovens no Morro da Cruz, realizadas em Porto Alegre em 2017. Os simpatizantes repassavam mensagens e criavam conteúdos voluntariamente no YouTube para espalhar em outras redes.

Há muito pouco disso no campo da esquerda tradicional, que usa o WhatsApp ainda de forma vertical, cadastrando números de telefone para passar informação de políticos e partidos unilateralmente. Também se disseminou a promoção de intermináveis lives, bastante explicativas do mundo e muito pouco participativas – e não raramente com a caixa de comentários do Instagram fechada. Por uma hora, o político x fala com o líder do movimento y – e há quem acredite que isso é disputa de redes. Esse é um modelo que está fadado ao fracasso.

A esquerda precisa já se ocupar das redes de forma mais propositiva, horizontal e articulada para formar um ecossistema inclusivo, que não fique permanentemente caçando a carteirinha de seus membros.

O campo tradicional da esquerda precisa se abrir, fomentar alianças amplas, ampliar as linhas de debate, formar novas lideranças e oferecer esperança, utopia e projeto no lugar do medo.

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Candidatos não usam bem as redes sociais

Por João Miras*

A presença de um candidato nas redes sociais, aliada a um forte trabalho de comunicação, pode ser decisiva para o resultado nas urnas. Atualmente, é praticamente impossível pensar uma campanha eleitoral sem o uso dessa ferramenta.
É impossível imaginar que, hoje em dia, qualquer pessoa consiga se comunicar sem usar os meios digitais, o que vale também para uma eleição. Cada vez mais pessoas têm mais acesso a essas plataformas. Quem apostar nas redes sociais vai conseguir falar com mais pessoas e com mais agilidade.

A utilização de ações de marketing político nas mídias sociais já estava nos projetos de todos os candidatos a vereador e prefeito para as eleições municipais deste ano. Mas, por conta das restrições de mobilidade da pandemia, foram além de uma natural ambientação e se precipitaram vertiginosamente para as novas mídias, já que não há nenhuma outra forma disponível para se comunicar com a população. O isolamento social decorrente da crise sanitária não permitiu que os candidatos se movessem planejadamente para as redes, mas, verdadeiramente, fossem empurrados para elas.

Estudei o impacto de todos os fenômenos midiáticos das últimas décadas na comunicação política e posso afirmar que o que ocorre agora, desde a última etapa da evolução na tecnologia da informação, não tem precedentes na história, e a grande maioria dos candidatos e equipes de campanha não estão preparados para enfrentar o desafio das mídias sociais.
Pelo que estou vendo nas dezenas de municípios onde realizo consultorias e palestras, posso afirmar que os candidatos entenderam que marketing eleitoral nas mídias sociais seria apenas uma questão de jogar para o formato digital on-line peças criadas para o marketing político convencional, anteriormente veiculadas em mídias tradicionais o que, evidentemente, é incorreto.

As mídias sociais para impactarem necessitam de um certo informalismo por personificar relações e se caracterizam muito mais por serem uma janela em que se olha para dentro da casa, do que alguém olhando de dentro da casa para a rua, notadamente na atividade de comunicar uma candidatura e suas características. Não só pela característica da nova mídia, mas também porque o candidato é um ser humano e não uma empresa, faz-se necessário entender sua exposição pela ótica do pessoal, e não do institucional.

A implementação de uma campanha política nas redes sociais é o segundo passo também de uma decisão anterior, a de ter uma definição clara de planejamento estratégico de comunicação. Isso significa ter uma estratégia de condução e posicionamento da candidatura, de conceituação da criação de conteúdo e de formulação de linguagens próprias para os vários segmentos. Essas necessidades são básicas numa campanha e sempre precisarão de profissionais experientes, como planejadores e estrategistas de comunicação. Mas, em geral, as campanhas não dispõem dessa experiência.

O uso das redes sociais em uma campanha eleitoral deve ser entendido também como uma extensão de outras ações de presença digital por um site ou blog, por exemplo, em que o candidato possa apresentar seu perfil, ideias e propostas.

O marketing político nas mídias sociais parte do pressuposto da criação de um relacionamento mais próximo entre o candidato e seu eleitorado, já que é essencialmente marketing de relacionamento. É essa a ideia por trás das redes sociais, criar um canal rápido, fácil e barato para que o candidato possa dialogar com os eleitores, e eles com os candidatos.

É essa última parte que faz toda a diferença nas campanhas de marketing eleitoral nas mídias sociais: o retorno do candidato para os eleitores e o uso desse feedback como base para o refinamento de propostas de campanha.

Mas, além de uma análise conceitual, existem mesmo possibilidades de veiculação e segmentação que as novas mídias oferecem e que, enquanto fator de alcance dos públicos-alvo, também diferem totalmente dos modelos de estruturação dos antigos pacotes de planos de mídia tradicionais.

Os políticos envolvidos nas pré-campanhas das eleições municipais deste 2020, definitivamente, não estão preparados para bem utilizar essas novas mídias em suas campanhas. Sem exceção.

Mas não é só. Como alguns aplicativos e plataformas se tornaram verdadeiras retransmissoras, pela enorme base de inscritos, e considerando a possibilidade dos impulsionamentos, abriu-se a possibilidade de os políticos, adotando filtros de segmentação adequados, veicularem para públicos que sequer o acompanham no relacionamento social oficial de seguidores.

Com a enorme rejeição que a classe política em geral tem no momento, por causa das sucessivas crises econômicas e sociais geradas por crises políticas consecutivas, muitos políticos têm preferido o caminho de usar as redes em branding para construção de reputação e autoridade de marca, deixando de lado muitas vezes os processos de integração e engajamento com seus seguidores. O ideal é fazer os dois.

Interações com os eleitores por meio dos canais das redes sociais podem também ser fonte de opiniões que retroalimentam a campanha eleitoral. Pode ser também por meio delas (além das tradicionais pesquisas profissionais de opinião, que são muito mais importantes no campo das eleições majoritárias) que o candidato e sua equipe podem ter uma visão mais específica de determinados segmentos. Ajuda muito.

Há profissionais qualificados para trabalhar com mídias sociais em campanhas eleitorais, mas o mais difícil é um profissional com experiência em marketing político para assumir o grande desafio de trabalhar corretamente a imagem de um candidato, considerando a pessoa e a perspectiva da marca.

Mas ter um perfil em uma rede social não vai garantir a eleição de ninguém. O que realmente elege um candidato é uma ação de marketing digital com estratégia e planejamento estritamente sincronizada com muitas outras ações de campanha, principalmente as do marketing político clássicas.

*É estrategista de marketing político e autor dos livros “Política e Comunicação A Evolução da Democracia e a Propaganda em 122 Anos de República no Brasil” e “Pensando Fora da Caixa — Uma Coleção de Imagens Escritas sobre um Jeito de Pensar a Vida e a Política”.

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