Mossoró no diário de Getúlio Vargas

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Por José Romero Araújo Cardoso*

A era Vargas foi a mais longeva experiência político-administrativa do Brasil republicano, cuja gênese encontramos na vitória da revolução em outubro de 1930. O processo foi interrompido em 1945 e reiniciado em 1950, tendo seu epílogo em agosto de 1954, quando do suicídio do chefe do executivo.

A centralização enfatizada por Vargas pôs fim à fragmentação do poder entre os representantes do mandonismo local, a qual se constituiu em símbolo das estruturas montadas na república velha, conforme enfatiza MELLO (1992).

A partir de 3 de outubro de 1930, quando triunfou o movimento revolucionário encabeçado pelo Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba, Vargas deu início à escrita de um diário cujo encerramento se deu em setembro de 1942, quando o Brasil já havia declarado guerra aos países do Eixo.

Este importante documento para a História do Brasil, compilado e publicado em dois volumes no ano de 1995 pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas e pela Editora Siciliano, apresentado por Celina Vargas do Amaral Peixoto, neta do estadista que marcou profundamente os novos rumos do modelo capitalista brasileiro a partir de sua posse no governo provisório em 1930, descortinam-se o dia-a-dia do governante, as relações políticas e os episódios marcantes de uma época.

A pressão exercida por São Paulo, principal centro econômico do País, resultando em tentativa revolucionária quer ficou conhecida pela pretensa defesa de uma constituinte, obrigando o governo federal a reprimir fortemente o movimento, caracterizou os rumos políticos entre os anos de 1932 e 1933.

Conforme BASBAUM (1991, p. 63), a convocação de uma constituinte e a elaboração de uma nova constituição perfaziam o panorama geral do ano de 1933. Neste ensejo, Vargas organiza visita aos Estados das regiões Nordeste e Norte, acompanhado de uma grande comitiva de políticos e jornalistas. O raid político-eleitoral do chefe do governo provisório e sua equipe dura cerca de um mês, sendo concluída em Belém (PA).

Ainda segundo BASBAUM (ibidem);

“O entusiasmo com que é recebido pelas populações do Norte e Nordeste,
Que o vêem pela primeira vez, mostra apenas o quanto as massas ainda
esperam dele, pois nada ainda haviam obtido. Mas Getúlio acredita que
aquilo significa – apoio incondicional. Assim acreditam também os futu-
ros deputados que mais tarde o elegerão Presidente da República.
E esse apoio dar-lhe-á a margem necessária para planejar a continua-
ção no poder.”

Obras importantes para o Nordeste seco, paralisadas após a conclusão do triênio Epitácio Pessoa na presidência da república (1919 – 1921), foram fiscalizadas e muitas inauguradas quando da visita presidencial. A açudagem se constituía em um dos carros-chefe da campanha presidencial encetada pela comitiva comandada por Getúlio Vargas.

Neste ensejo, Vargas faria sua primeira visita a Mossoró. Entre os circunstantes presentes que compunham a comitiva presidencial, encontrava-se assessor do Ministério de Viação e Obras Públicas de nome Orris Barbosa.

Posteriormente, o jornalista Orris Barbosa lançou em 1935, pela Adersen-Editores, do Rio de Janeiro, interessante opúsculo por título “Secca de 32 – Impressões sobre a crise nordestina”, no qual analisa desde as tentativas frustradas de implementação dos reservatórios hídricos no governo Epitácio pessoa, além de outras políticas públicas de suma importância, aos efeitos catastróficos da grande seca que teve início em 1926 com breve intervalo em 1929 e recrudescimento total em 1932, enfatizando ainda a visita presidencial aos estados do Nordeste e do Norte do Brasil.

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BARBOSA (p. 112), no capítulo intitulado “No alto sertão”, destaca a marcha batida em direção a Mossoró, frisando que a rodagem que interliga Assú à capital do oeste potiguar era regular. Destaca ainda que só à noite puderam alcançar o maior centro comercial do Rio Grande do Norte, na época, visitando, ainda o porto de Areia Branca, escoadouro natural dos produtos sertanejos.

Antes, em fevereiro de 1930, Mossoró havia sido palco de pregações revolucionárias capitaneadas pela caravana gaúcha liderada por Batista Luzardo. Até então, esta tinha sido a única oportunidade que os aliancistas haviam pregado em território mossoroense os ideais de renovação (ROSADO, 1996).

Na oportunidade, ainda não haviam galgado o poder, cujo feito foi proporcionado pelos desdobramentos trágicos da revolta de Princesa, quando do assassinato do presidente paraibano João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, vice-presidente da chapa encabeçada por Vargas no ensejo da disputa presidencial em 1930 (INOJOSA, 1980; RODRIGUES, 1978).

Conforme o Diário de Getúlio Vargas (1995, p. 238), no dia 13 de setembro de 1933 houve a partida da comitiva para Mossoró. A viagem foi feita pela Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte. Antes, houve almoço em São Romão, num mato de oiticicas do sr. F.[Fernando] Pedrosa – vaquejada, visita à usina de algodão e à fábrica de óleo etc.

Corroborando o que Orris BARBOSA (ibidem) escreveu em seu clássico livro, Vargas destaca que até Mossoró prosseguiram de automóvel, onde houve recepção festiva, banquete e discursos.

Em edição do dia 31 de agosto de 1933, o jornal mossoroense O Nordeste, de propriedade de J. Martins de Vasconcelos, noticiou em primeira página a excursão presidencial do chefe do governo provisório pelo norte do País.

Destacava este veículo de comunicação que partia da capital federal, no dia 22 de agosto, no “Almirante Jaceguay”, a comitiva de Vargas, da qual faziam parte os ministros José Américo de Almeida e Juarez Távora, General Góes Monteiro, Comandante Américo Pimentel, sub-chefe da Casa Militar, Dr. Valder Sarmanho, da Casa Civil, bem como diversos repórteres representantes de diversos jornais cariocas.

O jornal “O Nordeste” enfatizou ainda que a convite do Interventor potiguar Mário Câmara, Getúlio Vargas visitaria Mossoró, seguindo viagem via Caraúbas, indo, antes, até Porto Franco. Finalizava a matéria jornalística fazendo louvações à campanha da Aliança Liberal e reverenciando a memória de João Pessoa.

Em 18 de setembro “O Nordeste” voltava a destacar com estardalhaço matéria sobre a visita da comitiva de Vargas, desta vez com mais ênfase devido a permanência do chefe do governo provisório a Mossoró.

Às 18 horas do dia 13 de setembro, Getúlio Vargas, acompanhado de vários membros do seu gabinete, integrando também a comitiva o Interventor Mário Câmara, o Dr. Potyguar Fernandes, chefe de Polícia da Capital, além do Dr. Gratuliano de Britto, interventor Federal do Estado da Paraíba, dirigia-se ao palacete da Praça Bento Praxedes, o qual ficou conhecido por Catetinho.

Na oportunidade, grande multidão se concentrou intuindo conhecer de perto o chefe máximo do executivo brasileiro. Conforme ainda “O Nordeste”, duas alas de alunos das escolas da cidade, estendiam-se, com o povo, do Jardim Público, até o lugar do destino, feericamente iluminado, e onde a banda de música “Santa Luzia”, em coreto adrede preparado, executou o hino nacional para o chefe de governo e sua comitiva.

Todas as repartições públicas içaram a Bandeira Nacional, em sinal de extremo respeito à ilustre visita. À noite houve cinema campal na Praça João Pessoa.

O discurso, pronunciado antes do banquete no Palacete da Praça Bento Praxedes, foi realizado pelo Dr. Adalberto Amorim, juiz de Direito da comarca. O magistrado falou em nome das classes conservadoras do município, bem como do comércio local

Em agradecimento, Getúlio Vargas respondeu ao oferecimento do banquete com palavras lisonjeiras a Mossoró, prometendo atender necessidades urgentes, a exemplo da continuação do prolongamento ferroviário, baixa nos transportes do sal e seu aperfeiçoamento e abertura de porto. Concluiu destacando a importância industrial e comercial do município potiguar.

No dia 14 de setembro houve visita de parte da comitiva à salina Jurema, localizada às margens do rio Mossoró. Às 8 horas encerrou-se a visita do chefe do governo provisório. A comitiva partiu em trem especial da Estrada de ferro, até Caraúbas, seguindo para Lucrecia e depois com destino a Sousa (PB), onde inspecionaram as obras do açude de São Gonçalo.

Quando da campanha presidencial em 1950, Vargas retornou a Mossoró. Relembrou fatos da primeira estadia demonstrando impressionante lucidez, como bem nos comprovou Raimundo Soares de Brito, presente ao encontro. Deixou o historiador estupefato ao perguntar por Jonas Gurgel, prefeito de Caraúbas quando da visita como chefe do governo provisório. Era o testemunho impecável da memória excepcional de um homem que marcou significativamente e de forma indelével a História do Brasil.

*José Romero Araújo Cardoso é Professor Adjunto do departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Escritor. Especialista em Geografia e em Gestão Territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Contato: romero.cardoso@gmail.com.

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Única CEI a ser instalada na Câmara Municipal foi derrubada com menos de um mês. Relembre a história

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Nunca teve Comissão Especial de Inquérito na Câmara Municipal (CEI)? Errado. Teve sim senhor. Foi no tumultuado ano de 2013, aquele das cassações em escala industrial da então prefeita Cláudia Regina (DEM).

Em agosto daquele ano entre uma e outra queda jurídica da prefeita que terminou tendo o mandato interrompido em dezembro, tivemos a primeira CEI implantada na história da Câmara Municipal.

A CEI da folha de pagamento foi assinada pelos vereadores Jório Nogueira (PSD), Tomaz Neto (PDT), Vingt-un Neto (PSB), Genivan Vale (PR), Luiz Carlos (PT), Soldado Jadson (PT do B) e Lairinho Rosado (PSB).

Naquela época a CEI foi implantada após muita confusão interna. A oposição indicou Vingt-un Neto para a presidência, a relatoria ficou com Tássyo Mardonny (PSDB) e a secretaria de Alex Moacir (PMDB). Na de hoje o governismo ficou com tudo (ver AQUI).

A Comissão buscava investigar três situações suspeitas: 1) Servidores com carga horária de 40 horas no Estado e 180 horas na prefeitura; 2) Redução de salários dos servidores, o que é ilegal; 3) Servidores municipais recebendo salários acima do da prefeita de Mossoró.

A CEI chegou a se reunir e iniciar os trabalhos em 26 de agosto daquele ano, mas durou pouco mais de 20 dias sendo derrubada em 11 de setembro num ataque da bancada governista que levou abaixo a investigação.

A manobra regimental saiu de uma interpretação de que caberia a Comissão de Constituição e Justiça e o plenário darem a última palavra. A bancada governista passou como um rodo da campanha de Cláudia Regina e a CEI que deveria durar 90 dias não chegou ao primeiro terço de existência.

Meses depois, já com Cláudia fora do poder, a Prefeitura de Mossoró, sob o comando de Francisco José Junior realizou uma auditoria na folha de pagamento que apontou a existência de mais 600 servidores fantasmas.

Nunca deu em nada.

OUTRAS

A tentativa de CEI mais célebre é a do relatório Marpe que apontou irregularidades na primeira gestão de Roslaba Ciarlini (1989/91). Curiosamente, a protagonista das articulações que descartaram a Comissão foi a então presidente da Câmara, Maria Lúcia, mãe do vereador governista Emílio Ferreira (PSD), relator da CEI.

Mais recentemente outras duas CEIs não prosperaram: a das insulinas em 2014 e a do Mossoró Cidade Junina (ver AQUI) em 2016.

Os três casos ficaram apenas na tentativa.

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As viúvas (e amantes) da ditadura militar

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Sempre existiu a figura sinistra das viúvas da ditadura militar, mas com a Internet ela ganhou voz e capacidade de se propagar utilizando-se de meios democráticos para impor ideias autoritárias.

A viúva da ditadura militar é uma figura cuja relação com os livros de história é de puro ódio. “São panfletos manipulados pela esquerda”.

As viúvas da ditadura militar costumam falar que na época dos fardados no poder não tinha corrupção. Tudo ia muito bem porque a moralidade era a marca do regime. “Se não roubavam já estava de bom tamanho”, costumam argumentar.

Mas não é bem assim: estávamos numa época de autoritarismo onde a imprensa estava amordaçada pela censura, a oposição consentida estava esmagada e a Polícia Federal e Ministério Público eram miragens do que temos hoje. Mesmo assim os escândalos da ponte Rio/Niterói e Transamazônica estão aí para quem gosta de ler alguma coisa.

Mas para as viúvas da ditadura militar isso não é levado em consideração. “É coisa de petista”.

A viúva da ditadura militar fala que o Brasil viveu uma era de desenvolvimento e de grandes obras. Mas não se toca que aquele foi um período em que o crescimento se deu pela repressão aos trabalhadores beneficiando grandes empresários. A promessa de crescer o bolo para depois distribuir não foi cumprida. Pelo contrário: a herança do regime foi a hiperinflação. Incrível como as viúvas da ditadura culpam o PT por todos os problemas do país e não conseguem fazer essa relação simplória de causa e consequência do que aconteceu há quatro décadas.

O argumento mais apaixonado e convincente (para quem não se informa além de postagens do Facebook) das viúvas dos fardados está em dizer que tinha menos violência. Mas os números torturam a viúva do regime. Até o início dos anos 1960 o número de homicídios na cidade de São Paulo era de 5 para cada 100 mil habitantes. Ao final do regime eram 39 assassinatos para cada 100 mil habitantes. Apenas para citar a maior cidade do país como exemplo.

Mas as viúvas da ditadura dirão que isso é coisa de petista.

Outro argumento é o de que tudo que era feito no regime era por uma causa justa: o combate aos comunistas. Toda viúva da ditadura militar embarca na conversa fiada de que o golpe de 1964 evitou que o Brasil se tornasse um “república sindicalista”.

Até hoje me pergunto o que danado seria uma “república sindicalista”?

No entanto, a história vem de novo para torturar as viúvas saudosas de ouvir um coturno marchando pela sua porta: o deputado Rubens Paiva não era um guerrilheiro nem terrorista. Ele foi assassinado pelo regime. JK e Carlos Lacerda foram exilados mesmo sendo fiadores do golpe e os dois morreram em condições suspeitíssimas em pleno período da operação condor (Jango também faleceu na mesma época que seus outrora algozes). Crianças foram fichadas como elementos subversivos como Ernesto Carlos Dias do Nascimento. Ele tinha um ano e três meses de idade e foi preso junto com os irmãos de 4, 6 e 9 anos. Um tremendo pau de arara para saudosistas da ditadura que bancam caçadores de pedófilos na Internet.

Dezenas de deputados e senadores tiveram os mandatos cassados e ficaram sem direitos políticos por 10 anos. Eles não eram terroristas. Mas isso, as viúvas da ditadura não se importam.

As viúvas da ditadura chamam o golpe de 1964 de “revolução”. As mais comedidas chamam de “contragolpe” ou “golpe preventivo”. As mais cegas de paixão afirmam que foi tudo dentro da constituição porque João Goulart tinha fugido do Brasil. Pelo visto em 1964 o Rio Grande do Sul estava independente. Sempre argumentam que o STF não se opôs como se o Supremo daquela época tivesse o mesmo poder de hoje. Não sabem as viúvas da ditadura que ministros chegaram a ser ameaçados de perde de cargos logo após o golpe.

Mas as viúvas da ditadura vivem num mundo à parte. Agora ganharam a companhia das amantes da ditadura, os que se dizem “liberais” e defensores da democracia estão há vários dias justificando atrocidades do período como sendo algo que valeu apena por perseguir comunistas. Mais parecem “bolsominions” envergonhados.

É comum ver viúvas da ditadura usando termos como “ditabranda”, “mataram pouca gente”, “tinha eleição”, “pelo menos nos salvou do comunismo”, “no Chile foi muito pior”, “Fidel e Stálin mataram muito mais gente”, etc…

A viúva da ditadura convive muito bem com a amante como as mulheres reprimidas do passado que não tinham noção dos próprios direitos.

A história mostra que regimes autoritários também atingem seus entusiastas. Mas livro de história não é uma coisa interessante para uma viúva da ditadura. Nem para suas parceiras “liberais”.

A viúva da ditadura ficou muito chateada com a revelação dos documentos da CIA que mostram que o ditador Ernesto Geisel dava autorização para matar subversivos.

A viúva da ditadura (e as amantes) vão apelar com esse texto. Serei chamado de petista, vermelho, terrorista, etc…

Confira outros textos da série

O Isentão

O Esquerdista Arrogante

O Bolsominion

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O voto impresso e o “aplauso para os derrotados”

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Por Emerson Linhares*

Sempre fui fã de revistas em quadrinhos. Muito mais fã dos super heróis, mas nunca pude comprar as revistas por uma série de motivos que não vou elencar aqui, até para deixar o passado em paz.
Então para mim, aos 46 anos, o universo Marvel e o Mundo D.C. praticamente são novidades que, aos poucos, vou descobrindo por causa da fantástica tecnologia proporcionada pela internet. É no streaming do Netflix que acabo minha rede, a de varandas, deliciando-me com as aventuras de Thor, The Flash, Spider Man, Super-homem, Batman e tantos outros heróis e seus arqui-inimigos.
Um dos vilões mais interessantes da D.C. é Clifford DeVoe, O Pensador, que criou o Chapéu do Pensamento, que lhe deu a habilidade de controlar a mente dos seus adversários entre outras capacidades telecinéticas. Não só isso! Como podemos assistir em The Flash, a série, DeVoe quer fazer um reboot na tecnologia porque ele acredita que a humanidade não está sabendo fazer uso dela e portanto é preciso destruir tudo para que ele possa recriar e administrar com mais zelo o que hoje nós, seres humanos, não podemos mais prescindir.
Se DeVoe acredita que homens e mulheres utilizam mal a tecnologia como a conhecemos hoje, isso é uma falácia inominável, até porque ao longo da história podemos ver que os avanços tecnológicos sempre foram utilizados sobretudo para as conquistas territoriais, para fins bélicos, mas sempre criados em nome do bem e desviados de seus objetivos iniciais, como voar no 14 Bis de Alberto Santos Dumont. Alguém pode culpá-lo por outros transformar sua invenção em uma máquina de guerra?
De um lado temos as conquistas tecnológicas, todas dentro de seu tempo, e do outro a sua forma de utilização, para o bem ou para o mal. A tecnologia em si não é má ou boa; é essencial a um propósito de garantia de bem-estar. Pelo menos é isso que me passa o sistema do voto eletrônico vigente no Brasil. Considerado seguro, mais uma vez teve sua confiabilidade questionada na eleição em que foi eleita pela segunda vez a senhora Dilma Roussef, justamente por quem era para ter ligado para ela e a ter parabenizado pela vitória, o derrotado Aécio Neves.
Só o fato de Aécio ter feito esse questionamento, prejudicou sobremaneira a estabilidade do voto eletrônico, pois que ele foi bem votado e, claro, semeou a dúvida no seu quinhão de eleitores. A partir daí, criou-se a expectativa de que na próxima eleição tivessemos a impressão do voto de cada eleitor para que se garantisse uma eleição sem falhas. Bobagem que custará aos cofres públicos – que sairá do seu bolso, caro eleitor – uma fortuna.
Como bem disse o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), semana passada, Admar Gonzaga: “vamos gastar R$ 2 bilhões –isso me deixa doente– para bater palma para perdedor. Isso não entra na minha cabeça, não convém à democracia e, para mim, é inconstitucional”. Não há mais o que dizer a não ser aplaudir o magistrado, que vai contra o pensamento de quem acredita que a impressão do voto se sobrepõe ao voto eletrônico.
Não precisamos de um DeVoe fazendo um reset no sistema eleitoral mais festejado, aplaudido e respeitado do mundo. Inclusive eu acredito que já eramos para ter avançado nessa esfera, votando a partir de computador, tablet ou smartphone – e quiça do caixa eletrônico – mas isso é um outro assunto.
Lotário I, filho mais velho de Luís, O Piedoso, e neto de Carlos Magno, disse: “Ominia mutantur, nos est in illis mutamur (Todas as coisas mudam e nós, nelas, também mudamos). Que se mude o sistema de votação no Brasil, mas que seja para melhor….

*É Diretor de Jornalismo da Rádio Difusora de Mossoró, bacharel em Direito e aluno de Pós-graduação em Direito Previdenciário

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A tradição do “Partido do Presidente da Assembleia”

PSDB é a bola da vez com a força do presidente da Assembleia Legislativa
PSDB é a bola da vez com a força do presidente da Assembleia Legislativa

Na Assembleia Legislativa existe uma tradição que vem se mantendo desde a redemocratização dos anos 1980: a força do “Partido do Presidente da Assembleia”.

É sempre assim: os deputados escolhem um nome para comandar a mesa diretora e ele monta um grupo político capaz de um influenciar nos pleitos estaduais.

A primeira experiência foi com o antigo PL (atual PR), partido do então presidente Vivaldo Costa (1989/91). A legenda deu muito trabalho ao então governador Geraldo Melo em votações na casa. Vivaldo acabou sendo o vice-governador da chapa vitoriosa de José Agripino em 1990.

O PL seguiu forte nos quatro anos da gestão de José Agripino assim o então presidente da Assembleia Legislativa Raimundo Fernandes foi candidato ao Senado em 1994, amargando o quarto lugar.

Já em 2001, Álvaro Dias deixou o PMDB e assumiu o PDT sem reforçar a agremiação como outros presidentes da Assembleia Legislativa. Nos oitos do Governo Garibaldi Filho o partido mais forte na casa era o PPB (atual PP) do vice-governador Fernando Freire que hoje cumpre pena por corrupção.

Mas a força da cadeira de presidente da Assembleia Legislativa alçou Álvaro Dias a condição de deputado federal e hoje ele acaba de assumir a Prefeitura de Natal.

Entre 2003 e 2010, o atual governador Robinson Faria comandou a casa. Fez do minúsculo PMN o maior partido do parlamento independente do resultado das eleições. Quando não elegia membros, cooptava os que foram aprovados nas urnas. Com a força do cargo ele fez de Fábio Faria deputado federal pela primeira vez em 2006 e foi eleito vice-governador em 2010.

Na era Ricardo Motta (2011/2015), o PROS foi a bola da vez. A legenda cresceu na mesma velocidade que se esvaziou após as eleições de 2014. Ricardo foi reeleito com 80.249 votos, a maior votação da história de um deputado estadual potiguar. Ele ainda elegeu o filho, Rafael Motta, vereador em 2012 e deputado federal dois anos depois.

Agora é a vez do PSDB de Ezequiel Ferreira de Souza fazer força via presidência da Assembleia. Hoje são oito deputados estaduais. A legenda se arvora de ser a segunda maior do Rio Grande do Norte e quer indicar um nome para o Senado em uma das chapas do campo conservador.

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Blog do Barreto faz enquete sobre prisão de Lula

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“Você achou justa a prisão do ex-presidente Lula?”. Essa é a pergunta da enquete da semana realizada no Blog do Barreto para esta semana.

Lula se entregou a Polícia Federal no último sábado para cumprir pena por condenação por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do Triplex do Guarujá.

Para participar da enquete participe do Grupo do Blog do Barreto no Facebook. Apenas perfis falsos terão solicitações rejeitadas.

Para votar clique AQUI

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Como Lula transformou a própria prisão em vitória política

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Desde que a Lava Jato começou qualquer pessoa medianamente com noções sobre política saberia que o desfecho dela seria a prisão do ex-presidente Lula. A pressão dos antipetistas era focada nisso e a sensação de que isso aconteceria era inevitável.

Na última quinta-feira, Sérgio Moro expediu a ordem de prisão com a benevolência de o ex-presidente se entregar voluntariamente. Mas se esse roteiro proposto pelo magistrado fosse cumprido não estaríamos falando de Luís Inácio Lula da Silva.

Política é espetáculo e os fatos se movem como numa peça de teatro em que personagens e autores se misturam. Lula escolheu ser o autor e protagonista da história de sua própria prisão. Não acatou a recomendação do juiz de Curitiba muito bem orientado por seus advogados.

O ex-presidente se entrincheirou no mítico Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo onde saiu do anonimato para a glória política mesclando aplausos, vaias e encenações políticas ao longo de quase 50 anos de vida pública.

O palco não poderia ser mais simbólico.

O discurso de Lula ontem foi de manual do marketing político. Ele assumiu a posição de vítima com maestria inflamando apoiadores e deixando viva as ideias que defende.

Era visível para quem acompanhou para Globo News o incômodo dos comentaristas políticos com a narrativa. As análises eram sempre no sentido de reduzir o discurso de Lula à militância. Discordo dessa visão reducionista. Lula falou para a camada da população beneficiada pelos avanços sociais nos seus oito anos de governo. Foi para preservar esse eleitorado que ele discursou.

O espetáculo político foi voltado ao povão, essa parcela majoritária da sociedade que nós classe média nem sempre conseguimos compreender suas decisões e tentamos manipulá-los em nosso benefício.

Os adversários do lulismo terão muito trabalho para transformar a interpretação de perseguido político feita por Lula em algo digno de canastrão. Por enquanto está mais para um Oscar do que para a Framboesa de Ouro.

A narrativa do petista o faz de vítima e convence boa parte do eleitorado (lembre-se: ele lidera todas as pesquisas, inclusive vencendo com folga as simulações de segundo turno) porque seus maiores adversários estão livres, alguns graças ao famigerado foro privilegiado.

O último ato antes da prisão foi tentativa da militância de impedir que ele se entregasse, mas Lula saiu caminhando entre apoiadores até o carro da Polícia Federal.

Qual político seria preso assim? Só Lula.

Ele conseguiu transformar a própria prisão em uma vitória política cujo escolhido pelo PT para disputa presidencial terá que saber explorar na próxima encenação política que também é chamada de eleições.

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A prisão de Lula emoldura o lulismo para a posteridade

LULA PRESO

Por Demétrio Magnoli

As duas afirmações seguintes não são idênticas: 1) Pobre do país que envia à prisão o candidato presidencial favorito; 2) Pobre do país cujo candidato presidencial favorito é enviado à prisão. A primeira concentra uma narrativa filopetista na qual a vontade popular é fraudada pelo Estado. A segunda, uma narrativa antipetista, na qual a ordem legal protege a nação do populismo.

Ambas, porém, concordam no qualificativo empregado como lamento: numa versão ou na outra, a prisão de Lula revela a dimensão da crise nacional brasileira.

Já se falou demais sobre a “história de vida” de Lula. Conta-se que, para preservar um simbolismo político valioso, FHC dissuadiu os tucanos de apresentarem um pedido de impeachment após as confissões de Duda Mendonça, em 2005, auge do escândalo do mensalão, quando um Lula alquebrado segurava-se nas cordas. O romance épico do retirante nordestino famélico que conquistou o Planalto seria, segundo o sociólogo tucano, um mito político insubstituível: a coroa de louros de nossa jovem democracia. O que fazer com isso, no dia da prisão de Lula?

O Lula descrito por Lula nunca foi menos que a metáfora de forças sociais irresistíveis. Nas assembleias da Vila Euclides, em 1980, ele disse que corporificava a classe trabalhadora. Nos dias de glória do Palácio, desde 2003, e depois, sob o assédio dos tribunais, passou a dizer que corporifica o próprio povo brasileiro. A derrota de Lula equivaleria, então, à derrota da nação.

Você tem o direito de divergir dessa narrativa arrogante, de evidentes raízes autoritárias. Mas, tirando os cínicos incuráveis, ninguém discordará de que a democracia brasileira perde algo muito relevante: a oportunidade de julgar, nas urnas, o legado dos governos de Lula e Dilma. O lulismo condenado pelos juízes escapa ao tribunal da cidadania. Isso tem consequências.

Na “era Lula”, a Petrobras foi colonizada por um cartel de partidos políticos —PT, PMDB, PP— e extorquida pelo cartel de empreiteiras associadas ao lulismo. Sob o comando de Lula, o BNDES transferiu fortunas ao empresariado que orbitava em torno da lâmpada do Estado.

O “pai dos pobres” gabava-se de ser, ao mesmo tempo, o “pai dos ricos”. Mas o Lula que ruma para uma cela da PF não é o camarada dos Odebrecht, o brother de Eike Batista, o patrono do metrô de Caracas ou o mecenas do ditador angolano José Eduardo dos Santos, mas apenas o presumido proprietário de um tríplex vagabundo numa praia urbana decadente.

No fim, a obra da Justiça é um tapume que oculta a obra do lulismo —e, nesse passo, evita o escrutínio público dos capítulos decisivos de nossa história recente.

dia da prisão de Lula deve ser anotado no calendário como o zênite de um fracasso nacional: nossa persistente incapacidade de extrair as lições da falência do lulismo. A nação polarizada entre fanáticos lulistas e fanáticos antilulistas desistiu de examinar os fundamentos da política econômica que provocou a mais profunda depressão de nossa história recente.

O país hipnotizado pela novela vulgar do processo de Lula abdicou de refletir sobre a natureza das políticas sociais voltadas para estimular o consumo privado. A crítica política do lulismo deu lugar à histeria regressiva do bolsonarismo. É como se, a caminho da cadeia, Lula tivesse lançado um feitiço idiotizante, condenando-nos a uma guerra fratricida sobre seu destino pessoal.

O suicídio de Vargas eternizou o varguismo. A prisão de Lula não abole o lulismo, mas o emoldura para a posteridade. Numa ponta, oferece alento à narrativa exterminista de uma direita em rebelião contra o princípio do pluralismo. Na outra, remete às calendas a hora do acerto de contas da esquerda brasileira com o populismo lulista.

Não chore. Não comemore. No dia de sua prisão, Lula ganhou a liberdade de iludir um pouco mais.

*Demétrio Magnoli

É doutor em geografia humana e especialista em política internacional.

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Lula: bandido ou mocinho?

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A prisão do ex-presidente Lula oscila na maré das intepretações. Para quem gosta dele trata-se de um preso político sem provas perseguido pelas elites. Para quem o odeia é um político preso por corrupção com provas irrefutáveis.

Tudo que gira em torno de um personagem político do quilate de Lula tem viés político. A técnica jurídica para o bem ou mal sempre ficará em segundo plano.

Mas a pergunta feita pelos ansiosos amantes da história como eu é: como será visto Lula no futuro? Será um trabalho duro para historiadores explicar o que acontece nos dias atuais.

Lula não é o primeiro ex-presidente a ter problemas jurídicos nem será o primeiro ex-mandatário do país a ficar atrás das grades. Juscelino Kubitschek, viveu isso logo após a ditadura militar (cujo golpe teve endosso do próprio) ser instaurada. Vida devassada, acusado de todo tipo de crimes contra o erário e no final o mais emblemático foi o caso de um apartamento luxuoso na Vieira Souto, um dos lugares mais badalados do país. O imóvel teria sido cedido a JK em troca de propina. No fim JK não sofreu condenações e entrou para história como o presidente que impulsionou a industrialização do país.

Outros ex-presidente também foram presos, mas por motivos diversos à corrupção.

Getúlio Vargas também entrou para história como o “pai dos pobres” e por ser o presidente que criou a Petrobras. É para muitos o maior governante da história do país. Mas sofreu ataques muito parecidos com os que Lula sofre hoje. Talvez não tenha conhecido o xilindró por ter cometido suicídio em 1954.

Mas o tempo e a história varreram os escândalos e a imagem de Vargas que ficou foi mais positiva que negativa.

Hoje Lula divide o país como Vargas e JK no passado. O tempo dirá se ele será absolvido pela história como os outros dois ou se será condenado outra vez no veredito dos historiadores.

Daqui a 20 ou 30 anos saberemos se Lula é bandido ou mocinho na história do Brasil.

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A “maldição” do vice de Mossoró

 

 

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O Brasil vive o seu segundo período democrático em 129 anos de república. O primeiro foi entre 1945 e 1964 e o segundo está em curso (e atualmente ameaçado) desde 1985. Em períodos democráticos a segunda maior cidade de qualquer Estado tem um peso fundamental em disputas por governos.

No Rio Grande do Norte um candidato ao Governo ter um vice de Mossoró tem um grande apelo para toda região Oeste.

Mas isso não se converte em vitórias. Pelo menos a prática mostra isso. Todos os candidatos que tiveram um vice de Mossoró perderam a disputa pelo Governo do Estado.

Em 1950*, Duarte Filho, ex-prefeito de Mossoró entre 1935 e 36, foi o vice de Manoel Varela. Acabaram derrotados pelo mossoroense Dix-sept Rosado que tinha como companheiro de chapa o natalense Sílvio Pedroza. Djalma Marinho (avó do deputado federal Rogério Marinho) perdeu para Aluízio Alves em 1960 tendo Vingt Rosado como vice.

Em 1965**, Tarcísio Maia, que tinha residência fixa na Fazenda São João em Mossoró, foi o vice da chapa derrotada encabeçada por Dinarte Mariz. Monsenhor Walfredo Gurgel levou a melhor.

Com o Brasil retomando a democracia, em 1986***, o deputado federal Antonio Florêncio, foi o vice de João Faustino. Embora fosse nascido em Pau dos Ferros ele tinha atuação política em Mossoró e era conhecido como “deputado do sal”.

Em 1994, Lavoisier Maia perdeu para Garibaldi Alves Filho no primeiro turno. A vice dele era a hoje prefeita de Mossoró Rosalba Ciarlini.

Em 2002 dois candidatos ao Governo do Estado tiveram vices de Mossoró. Fernando Bezerra tinha como companheiro de chapa Carlos Augusto Rosado e ficou fora do segundo turno. Fernando Freire tinha a companhia de Laíre Rosado. Por coincidência os integrantes dessa última chapa estão presos.

Wilma de Faria, uma mossoroense, acabou levando a melhor naquele ano e se tornando a primeira mulher governadora do Rio Grande do Norte.

Em 2014, o professor mossoroense Ronaldo Garcia era o vice do terceiro colocado ao Governo do Estado, Robério Paulino.

Para este ano são especulados vices de Mossoró nas chapas de Fátima Bezerra (PT) e Carlos Eduardo Alves (PDT).

*Com colaboração do leitor Francisco Veríssimo.

**Nesse ano o Regime Militar estava estabelecido, mas ainda houve eleições diretas para Governador. Colaborou o leitor Francisco Veríssimo.

***Colaborou o ex-reitor da UERN Walter Fonsêca.

Obs.: se o leitor lembrar de algum outro mossoroense candidato a vice-governador nos períodos democráticos (1945/64 e desde 1985) favor fazer contato pelo e-mail barreto269@hotmail.com ou Whatsapp (84) 9.8889-3574.

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