O dia que Chico não morreu

Chico da Prefeitura faleceu ontem (Foto: autor não identificado)

Era abril de 2012, o então vereador e segundo colocado nas pesquisas para o Palácio da Resistência, Chico da Prefeitura estava em coma em decorrência de uma parada cardíaca.

Na coletiva o médico (permita-me omitir o nome) afirmou que 75% do coração do parlamentar estava comprometido. Pensei: “o ‘Juventude’ não dura muito”.

Temendo pelo pior deixei matéria com o obituário de Chico pronta e salva no “original”, pasta do sistema de O Mossoroense onde ficavam as matérias prontas para edição.

Caso ele morresse bastava fazer algum ajuste para publicar.

Friso que esta prática é comum quando figuras importantes, como Chico era, correm risco de morrer.

Pois bem, Chico não só resistiu como viveu mais sete anos e até tentou uma volta ao legislativo municipal em 2016.

O obituário nunca foi publicado, logicamente, e ainda em 2012 ele escolheu este operário da informação para dar sua primeira entrevista após recuperar-se.

Quando contei esta história a ele, o “Juventude” deu uma gargalhada e bem a seu estilo disparou: “ainda vou dar muito trabalho”.

Eu tinha um carinho enorme por Chico da Prefeitura, apesar das polêmicas que tivemos. Que a família dele tenha força para superar esta perda.

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25 anos do Plano Real: um quarto de século sem alta na inflação

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Plano Real é uma herança do Governo Itamar Franco (Foto: Web)

Por Daniel Cavagnari*

Nos anos 1980 e início dos anos 1990, a inflação era tão alta (chegou a 2.708,2% no ano) que diziam que cada brasileiro era um “economista em potencial”, justamente porque ele sentia e administrava a constante falta de dinheiro.

Mas o que é inflação, afinal? Imagine um lugar que produz bens avaliados para venda em R$ 1 milhão. Agora imagine que há disponível na economia R$ 2 milhões para o consumo das famílias (eu disse apenas para o consumo, excetuando-se qualquer tipo de poupança). O resultado é simples: como não posso atender a economia com poucos produtos e muito dinheiro, eu ajusto os preços. Esses produtos são encarecidos para atender essa demanda e passam a ser vendidos por até R$ 2 milhões. Pronto, o que custava R$ 1, agora custa R$ 2. Demanda maior que a oferta. Ou, muito dinheiro na economia procurando poucos produtos. Inflação.

Em julho de 1994 foi implementado o Plano Real, que eliminou a possibilidade de uma hiperinflação no futuro e uma catástrofe econômica maior ainda. Isso foi feito em três etapas: Programa de Ação Imediata, que “preparou a casa” para a nova moeda; criação da Unidade Real de Valor, pela qual o valor da moeda brasileira foi equiparado ao do dólar; e por fim a implantação da nova moeda, o real.

Mas ao contrário do que as pessoas pensam, o Plano Real não foi um decreto político ou uma decisão com resultados mágicos, custou muito caro. Muito mesmo. E me refiro não à economia do Brasil, mas aos que viviam nela e que somavam efetivamente valores ao Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, os empresários e as famílias.

De qualquer forma, fazer sacrifícios faz parte da nossa vida para se obter progresso e foi isso que aconteceu na implantação do Plano Real. Antes do seu lançamento vários processos haviam sido implementados. Destaco a seguir alguns dos principais:

– Cortes nos gastos públicos;

– Combate à sonegação fiscal;

– Privatizações;

– Política cambial e crédito internacional.

O período de maturação do plano foi até o ano de 2004. Nessa década o desemprego saltou de 5,03% para 12,57%. O PIB registrou crescimento tímido e chegou a ser negativo em 2003 (-0,20 %). A eliminação imediata da inflação também custou aos cofres públicos, cuja dívida cresceu significativamente — de R$ 153,2 bilhões em 1994 para R$ 946,7 bilhões em 2004.

Note ainda que a política cambial aplicada (manter o valor do real próximo ao do dólar), evitando principalmente a desvalorização do real ou especulação pelo dólar, apesar de baratear a importação de bens, também desaquecia o mercado interno (importações maiores) e desestimulava o mercado de exportações.

Até o início do Plano Real, a balança comercial tinha um desempenho médio positivo (vendíamos mais para o exterior do que comprávamos). É como se recebêssemos mais salário do que gastássemos em despesas cotidianas.

Depois da implantação do Plano, a queda foi tanta que desequilibramos a balança comercial, ou seja, passamos a importar mais do que exportar. Foi o resultado de manter artificialmente a nossa moeda (Real) equiparada ao dólar.

Enfim, o Plano Real e sua história demonstra que qualquer decisão política e econômica, de alto impacto e longo prazo, não nos possibilita colher frutos instantâneos, necessitando de anos de maturação e sacrifício.

*É coordenador do curso de Gestão Financeira do Centro Universitário Internacional Uninter.

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Há 87 anos, Santos Dumont tirava sua própria vida em hotel no Guarujá

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André Nogueira

Aventuras na História

Santos Dumont sempre foi considerado uma pessoa singular. Desde jovem, demonstrava hábitos estranhos à realidade da Belle Époque em que cresceu. Ele sempre se posicionou contra o patenteamento de suas invenções, o que ia à contramão da sociedade tradicionalista em consolidação na sua época.

Mesmo diante de diversas polêmicas sobre pioneirismo e patenteamento, é inegável que Alberto Santos Dumont foi um dos principais nomes do nascimento da aviação. Boa parte do boom na fabricação dessa máquina durante o século 20 se deu pela abertura do brasileiro, que não desejava os créditos pela ideia. E, no final, essa foi a sua sina.

A invenção de Alberto revolucionou a ideia de transporte e a própria noção dos limites do ser humano. No entanto, quando tais limites são ultrapassados, demora pouco tempo para que os militares se interessem pela novidade. E esse foi o caso final para o pacífico Santos Dumont.

Santos Dumont antes da decolagem de um de seus balões / Crédito: Reprodução

Em 23 de Julho de 1932, ele, que foi um dos maiores cientistas do século 20, cometeu suicídio no Grande Hotel de La Plage, no Guarujá. Aos 59 anos, enforcou-se, usando sua própria gravata, num ato de desespero. Não deixou nenhum bilhete ou carta de despedida, mas muitos de seus conhecidos e estudiosos de sua vida têm uma teoria bastante contundente: Santos Dumont se viu desiludido e responsável pelas atrocidades feitas com a sua principal ideia.

Isso porque o Brasil pouco demorou em usar o avião na repressão de seu próprio povo. A primeira vez em que isso ocorreu foi durante a Guerra no Contestado, Sul do país, onde um bando de camponeses cansados e em situação miserável, devido às políticas fundiárias da República, foram brutalmente bombardeados pela nova frota de aviões nunca antes usada. O mesmo ocorreu com a cidade de São Paulo, durante a Revolta de 1932. O fato afetou bastante o aeronauta.

Bombardeio em SP, 1932 / Crédito: Reprodução

Testemunhas afirmam que o inventor teria presenciado um bombardeio ocorrendo da Ilha da Moela, em frente ao seu hotel no Guarujá, pouco antes de conceber o ato. Existem teorias menos creditadas afirmando que ele tirou a própria vida por desilusão amorosa ou abandono por parte de amigos.

A verdade é que não sabemos em que nível cada um desses fatores motivou o ato, apenas conhecemos o fato de que, naquele dia 23, Alberto não desceu para almoçar no Hotel, como habitualmente fazia. Os funcionários do local, então, arrombaram a porta de seu quarto (152) e se depararam com um dos maiores gênios da engenharia brasileira sem vida e injustiçado pela realidade.

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Anúncios da época da escravidão mostram por que o Brasil precisa acertar as contas com o passado

Por Alexandre Andrada

The Intercept

AS ELITES BRASILEIRAS parecem ter um hábito secular de pôr uma pedra sobre o nosso passado. Apesar de sermos o país com a maior população negra fora da África, quase não há museus sobre o tema e mal estudamos o assunto nas escolas. O desconhecimento do brasileiro médio em relação aos horrores e às consequências da escravidão é enorme. O esquecimento não é um acaso, é um projeto.

O Brasil é o país mais importante na história da diáspora africana. Foram mais de 4 milhões de escravizados que desembarcaram em nossos portos, principalmente nos do Rio de Janeiro, Salvador e Recife, entre 1530 e 1850.

Na primeira metade do século 19, mais de 2 milhões de africanos aportaram no Brasil. Era uma multidão de gente. No censo de 1872, o primeiro de nossa história, o país tinha 10 milhões de habitantes e mais da metade (58%) da população era formada por pretos e pardos, incluindo livres, libertos e escravizados.

Os escravizados, nascidos no Brasil e na África, foram a mão de obra utilizada na criação da riqueza derivada do açúcar, do algodão, do ouro, do diamante e do café, principais produtos de exportação do país. Mas eles eram também empregados domésticos, amas de leite, sapateiros, barbeiros, vendedores de rua, pedreiros, pescadores, alfaiates, ferreiros. As ruas e as casas brasileiras do século 19 transbordavam escravidão.

Em 1872, apenas 0,08% dos escravizados eram alfabetizados. Isso, por si, só explica a ausência de relatos em primeira pessoa sobre esse drama. Por sorte, existe uma única autobiografia conhecida de um africano que passou pela experiência do navio negreiro e foi escravizado no Brasil. Ele se chamava Mahommah Baquaqua.

Nascido por volta de 1820, Baquaqua era filho de um comerciante muçulmano e frequentou uma escola religiosa localizada no atual estado de Benin. Sequestrado na África, foi trazido como escravo para o Brasil em 1845. O tráfico de escravizados já era proibido no Brasil desde 1830, graças a um acordo com a Inglaterra, e desde de 1831, por força de uma lei de iniciativa nacional. Se valessem essas leis, Baquaqua deveria ser declarado livre assim que pisasse o solo brasileiro; e seu traficante, preso. Mas esse era o mundo imaginário das leis, não o dos fatos.

Em sua autobiografia, publicada originalmente em 1854 nos Estados Unidos, Baquaqua relata o drama comum aos mais de 4 milhões de africanos escravizados que aqui desembarcaram.

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Imagem da edição do livro de Mahommah G. Baquaqua.

Foto: Bruno Veras (Public domain)

O relato dos horrores vividos no navio negreiro é pujante. Baquaqua conta que ele e seus companheiros de infortúnio foram empurrados “para o porão do navio em estado de nudez”, com “os homens amontoados de um lado e as mulheres do outro”. Como “o porão era tão baixo”, eles eram obrigados a “se agachar” ou ficar sentados no chão.

Uma viagem de navio de Angola até o Recife demorava em torno de 30 dias. Amontoados e acorrentados em posição desconfortável, o porão acumulava resquícios de urina, fezes, vômitos sob um forte calor. Relatos dão conta que as pessoas nas cidades primeiro sentiam o mau cheiro desses navios antes mesmo de os verem no horizonte. “A repugnância e a sujeira daquele lugar horrível nunca será apagada da minha memória”, escreveu Baquaqua.

As terríveis condições de higiene e alimentares faziam com que a taxa de mortalidade nas viagens superasse os 10% dos embarcados. Os que morriam pelo caminho tinham seus corpos atirados ao mar, o que torna o Atlântico um gigantesco cemitério de africanos.

Baquaqua conta que “a única comida” que eles tiveram durante a viagem era um “milho encharcado e cozido”. A água também era racionada: “um pint (equivalente a 400 ml) por dia era tudo o que era permitido e nada mais”.

“Houve um pobre rapaz que ficou tão desesperado por falta de água, que tentou arrancar uma faca do homem branco que trouxe a água, quando foi levado para o convés e eu nunca soube o que aconteceu com ele. Eu suponho que ele foi jogado ao mar.

A violência era crucial para manter a “ordem”. Baquaqua conta que, “quando qualquer um de nós se tornava desobediente, sua carne era cortada com uma faca”, então, “pimenta ou vinagre” eram esfregados na ferida.

Os grandes traficantes de escravos eram brasileiros e portugueses aqui residentes. Eram ricos comerciantes, cuja fortuna superava a dos produtores de açúcar e algodão. Eles eram os ricaços do Rio, Salvador, Recife etc. No Recife, na década de 1820, o maior traficante era o comerciante português Elias Coelho Cintra, que tinha o costume marcar seus escravos com a letra “E” com ferro em brasa no peito, feito gado.

Anúncio do furto de três africanos recém-chegados (“negros novos”) de Angola, que tinham “no peito esquerdo a marca E”, de Elias Coelho Cintra.

Anúncio do furto de três africanos recém-chegados (“negros novos”) de Angola, que tinham “no peito esquerdo a marca E”, de Elias Coelho Cintra.

Fonte: Diário de Pernambuco, 1829

Anúncio reporta a chegada do paquete Pernambuco, vindo de Angola, numa viagem que durou 26 dias. Embarcaram 257 cativos, sendo que 26 morreram, que se destinavam a Elias Coelho.

Anúncio reporta a chegada do paquete Pernambuco, vindo de Angola, numa viagem que durou 26 dias. Embarcaram 257 cativos que se destinavam a Elias Coelho. Vinte e seis morreram na travessia.

Fonte: Diário de Pernambuco, 1830

Um dos bairros ainda hoje mais miseráveis e violentos do centro do Recife é o dos “Coelhos”, nome derivado do fato daquela região ser de propriedade da família do maior traficante de escravos da cidade. Sempre que passo por aquela área, fico pensando que parte dos seus habitantes que sobrevivem em condições desumanas, muitos dos quais em palafitas à beira do rio Capibaribe, pode ser formada por descendentes dos escravizados marcados a ferro quente por Elias.

Ao chegarem no Brasil, esses africanos eram postos em quarentena em portos ou mesmo no interior dos navios. Sobrevivendo a essa fase, os escravizados eram obrigatoriamente batizados na fé católica e recebiam nomes à portuguesa. Viravam todos Josés, Franciscos, Marias, Catarinas – Baquaqua não diz qual era seu nome que teve em seus tempos de Brasil. A escravidão implica na desumanização completa do indivíduo. Perder o direito à religião e ao nome escolhido por seus antepassados é parte desse processo.

A viajante estrangeira Maria Graham, que esteve no país na década de 1820, retrata o horror da visão de uma dessas localidades.

“Mal tínhamos percorrido cinquenta passos no Recife, quando ficamos absolutamente enojados com a primeira vista de um mercado de escravos. Era a primeira vez que (…) estávamos em um país de escravos; e, por mais fortes e pungentes que sejam os sentimentos em casa, quando a imaginação retrata a escravidão, eles não são nada comparados à visão desconcertante de um mercado de escravos. (…) Cerca de cinquenta jovens criaturas, meninos e meninas, com toda a aparência de doença e fome, resultante da escassez de comida e longo confinamento em lugares insalubres, estavam sentados e deitados entre os animais mais sujos das ruas ”.

Ao chegar aqui, sendo ainda “boçal” (termo utilizado para descrever os cativos que não dominavam o português), Baquaqua foi colocado para realizar trabalhos puramente físicos. Seu primeiro ofício foi carregar pedras para a construção de uma casa para o seu proprietário.

Depois de ganhar algum domínio da língua, Baquaqua foi para a rua vender pão. Muitos dos escravizados no Brasil do século 19 eram os chamados “pretos de ganho”, isto é, cativos que trabalhavam na rua vendendo alguma mercadoria ou realizando algum serviço, para garantir uma renda diária ao seu proprietário.

Fotografia do acervo do Instituto Moreira Salles mostra vendedoras de rua no Rio na década de 1870.

Fotografia do acervo do Instituto Moreira Salles mostra vendedoras de rua no Rio na década de 1870.

Foto: Acervo/Instituto Moreira Salles

A escravidão não era exclusividade da agricultura para exportação e o escravizado não era “mercadoria” acessível apenas aos ricaços. O Brasil era uma sociedade escravista no sentido mais preciso do termo. Os anúncios de compra, venda, aluguel e fuga de escravos eram a matéria mais ordinária nas páginas dos jornais brasileiros neste período.

Um viajante escocês que passou pelo Recife em 1820 relata sua visão:

“Acho que nenhuma impressão fica mais profundamente impressa em minha mente do que a visão melancólica de centenas… de milhares de escravos negros que vi na cidade… Você não pode se mover em nenhuma direção, sem que a escravidão, com todas as suas misérias multiplicadas, prenda sua atenção. Se você anda pelas ruas, você encontra os escravos, a cada hora do dia, em centenas, gemendo e suando sob seus fardos, e gastando suas vidas miseráveis no desempenho daqueles trabalhos pesados que são feitos por cavalos na Escócia e na Inglaterra”.

Sendo vendedor de rua, Baquaqua conta que tentou ser obediente ao seu proprietário para evitar castigos e ter uma existência um pouco menos miserável. Mas mesmo sendo obediente, era agredido e humilhado. E como tantos outros escravizados, na busca de uma fuga da dureza do cotidiano, abusou do álcool. Além da bebida, Baquaqua imita o comportamento de outros milhares de escravizados: foge. Porém, também como era a regra, acaba recapturado.

Homens, mulheres, jovens e crianças viviam tentando fugir. Era uma luta desigual. Alguns, com sorte, podiam se aquilombar em Catucá, o mais famoso quilombo existente no Recife na primeira metade do século 19, que tanto amedrontava o “cidadão de bem” da cidade.

Trecho de uma carta escrita por um desembargador reclamando do “Quilombo dos negros dos palmares do Catucá”.

Trecho de uma carta escrita por um desembargador reclamando do “Quilombo dos negros dos palmares do Catucá”.

Fonte: Diário de Pernambuco, 1829

Mesmo “com ferro no pescoço” e com “uma ferida na canela direita”, Sebastião do Rosário tentou fugir da sua condição de escravo. Os anúncios de escravos fugidos eram parte obrigatório dos jornais brasileiros do período.

Mesmo “com ferro no pescoço” e com “uma ferida na canela direita”, Sebastião do Rosário tentou fugir da sua condição de escravo. Os anúncios de escravizados que fugiam eram parte obrigatória dos jornais brasileiros do período.

Fonte: Diário de Pernambuco, 1829.

Anúncio da fuga de uma criança de nove anos com “marcas pela cara” provocadas pelo uso “de uma máscara de flandres”.

Anúncio da fuga de uma criança de nove anos com “marcas pela cara” provocadas pelo uso “de uma máscara de flandres”.

Fonte: Diário de Pernambuco

Gravura mostrando um escravizado com ferros no pescoço e máscara de flandres.

Gravura mostrando um escravizado com ferros no pescoço e máscara de flandres.

Ilustração: Jacques Arago/Museu Afro Brasil (São Paulo)

Baquaqua conta que, após uma recaptura, saiu para vender pão, mas usou o dinheiro arrecadado para comprar bebida. Voltando a casa do senhor embriagado e sem dinheiro. Foi violentamente espancado. Revoltado e humilhado, Baquaqua tenta o suicídio:

“Eu preferiria morrer a viver para ser um escravo. Eu então corri para o rio e me joguei, mas sendo visto por algumas pessoas que estavam em um barco, fui resgatado do afogamento.”

Depois disso, ele é posto à venda.

Anúncio publicado no Diário de Pernambuco em 1830, em que anuncia: “vende-se por [ser] fujão”. O termo “ladino” significava que, apesar de o escravo ser africano, ele já dominava o idioma e os costumes locais.

Anúncio publicado no Diário de Pernambuco em 1830, em que anuncia: “vende-se por [ser] fujão”. O termo “ladino” significava que, apesar de o escravo ser africano, ele já dominava o idioma e os costumes locais.

Fonte: Diário de Pernambuco

Baquaqua é vendido “para fora da província”. Essa era uma outra forma comum de punição e de controle dos escravizados: os que se comportavam mal eram vendidos sob a condição de serem levados para localidades distantes. Toda a sociabilidade construída pelo escravizado naquela cidade era, de repente, desfeita, em uma repetição das agruras do navio negreiro.

Anúncio de venda de escravo no Diário de Pernambuco.

Anúncio de venda de escravo no Diário de Pernambuco.

Fonte: Diário de Pernambuco

Seu destino foi o Rio de Janeiro, a capital do Império e maior cidade do país. Passou então a trabalhar a bordo de um navio. Após algumas viagens – ele narra passagens por Santa Catarina e Rio Grande do Sul –, a embarcação teria como destino Nova York.

Em 1847, em solo estadunidense, Baquaqua conseguiu finalmente fugir da condição de escravizado e se tornou, mais uma vez, um homem livre. Seus companheiros no Brasil, porém, teriam que esperar até 1888 para terem a mesma sorte.

Livres, mas sem nenhuma indenização por séculos de trabalho forçado, sem acesso à terra, à educação, marcados pelo preconceito e vítimas do racismo “científico” que ganha força no final do século 19 e começo do século 20. Enquanto os imigrantes italianos que aqui aportavam aos milhares a partir de 1890 tinham passagem subsidiada, salário, terra e liberdade para trocar de emprego depois de cinco anos, os pretos e pardos não tinham nada.

Nos EUA, neste exato momento, está em debate no Congresso a questão da reparação dos descendentes de escravizados. No Brasil, diz-se ainda que cotas são “racismo reverso”. O esquecimento da escravidão é um projeto muito bem elaborado pela elite.

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Dom Pedro II: o mais humilde e culto dos imperadores

Por M.R. TERCI*

Aventuras na História

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Desde muito cedo, o imperador Dom Pedro II elegera, como credo pessoal, a filosofia de que quanto maior a grandeza de uma alma, mais profunda deveria se tornar a sua humildade. Assim, muitos historiadores apontam que, entre tantas outras virtudes, seu reinado teve como marca a modéstia e a humildade.

Grande parcela de seus súditos era imensamente mais rica do que ele. Na corte, havia, ainda, residências muito mais confortáveis e luxuosas que a do imperador, destinadas a cientistas, artistas e intelectuais. Dom Pedro II, contudo, não exigia para si mais do que sua escrivaninha e seus livros, gosto que desenvolveu logo cedo.

Tal fato foi documentado por diversas personalidades ao longo de seu reinado, como na ocasião em que um diplomata francês, em visita ao Brasil em 1842, descobriu Pedro, então com 17 anos, mergulhado na leitura de Platão. Em 1847, o escritor português Alexandre Herculano escreveria: “É geralmente sabido que o jovem imperador do Brasil dedica todos os momentos que pode salvar das ocupações materiais de chefe de Estado ao culto das letras.”

Tinha, o imperador, pois, nas ciências e na literatura as mais agradáveis ocupações do trono. Sua bússola moral, sem dúvida, foi a busca pelo conhecimento, com vistas a arrebanhar novas tecnologias para o Brasil, o que colocava em prática sempre que se ausentava do país. Procurava perguntar sobre tudo, mantendo-se informado sobre todos os assuntos.

Nesse requisito, sem dúvida, todas as suas viagens foram coradas pelo mais absoluto sucesso. Na França, procurou pelo cientista Louis Pasteur e o escritor Victor Hugo. Em Roma, após ser recebido pelo Papa Pio IX, foi se encontrar com o romancista Alessandro Manzoni. Sempre tido como o mais acessível e humilde dos líderes, na Europa, os modos simples de Dom Pedro II desgostaram e escandalizaram a aristocracia. Um monarca que valoriza mais a companhia de um ficcionista boêmio à de Sua Santidade?

Todavia, Dom Pedro II seguia firme em seu propósito de travar contato com as mais proeminentes mentes de seu tempo, não importando seu status dentro da sociedade. Em Portugal, abandonou compromissos de Estado para visitar Camilo Castelo Branco, um grande escritor, mas que caíra em desgraça quando o infortúnio o arrastou à sarjeta.

Em 1876, nos Estados Unidos, sua simplicidade fascinou os burgueses práticos e republicanos. O New York Herald, jornal escalado para cobertura de sua viagem, haveria de estampar em suas páginas: “muitos republicanos de Nova York teriam sido mil vezes menos acessíveis que Sua Majestade, o imperador do Brasil.”

De fato, a admiração despertada nos norte-americanos foi tão grande que se apressaram em tomar posse do brilho do personagem, homem prático e empreendedor, alcunhando-o de o Imperador Ianque ou ainda de o nosso Imperador Americano.

Nos artigos da já tradicionalmente crítica imprensa dos Estados Unidos, as palavras sobre Dom Pedro II são só elogios: “Confessamos que nos dá orgulho o nosso imperador americano ao fazer tanta coisa. Viaja sem ruído nem cerimônia. Vai ao fundo de cada questão. Vê tudo o que é possível ver. Não desperdiça tempo com Secretaria de Estado ou títeres de gabinete. Corre para assistir um espetáculo de Shakespeare; daí passa a ver como é feito um grande jornal e, ao amanhecer do dia seguinte, entra na igreja como um bom cristão.” Disse ainda o artigo do New York Times: “Se não fosse rei, daria um grande repórter.”

Mais tarde, escreveria um repórter do Washington Post: “Dom Pedro volta para o Brasil conhecendo os Estados Unidos melhor do que dois terços dos membros do Congresso.”

Uma caricatura da época, que ironiza esse interesse pelos intelectuais, talvez seja a mais autêntica síntese de quem foi Dom Pedro II do Brasil. A ilustração mostra o imperador chegando a um país estrangeiro e imediatamente perguntando ao seu presidente: “Onde estão os seus sábios?”

*É escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro.

 

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George Orwell: por dentro de 1984, sua obra mais visionária

Aventuras na História 

“Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam 13 horas.” Assim começa um dos romances mais citados do século 20. A frase omite o ano da ação, mas isso seria redundante, pois ele dá nome à obra: 1984. Só a menção ao título desencadeia uma avalanche de associações mentais: comunismo, polícia política, nazifascimo, tortura… O livro ganhou fama por tratar de forma ficcional de uma das grandes mazelas contemporâneas, o totalitarismo.

Escrito pelo jornalista, ensaísta e romancista britânico George Orwell e publicado em 1949, o texto nasceu destinado à polêmica. Foi traduzido em 65 países, virou minissérie, filmes, inspirou quadrinhos, mangás e até uma ópera. Mas – ah!, estava demorando – ganhou renovados holofotes em 1999, quando a produtora holandesa Endemol batizou seu reality show (formato que chegou à TV nos anos 1970), de Big Brother, o mais sinistro personagem, ou melhor, entidade do livro.

O pai da ideia, John de Mol, nega de pés juntos a inspiração, mas há outras associações possíveis além do nome do programa. A origem do título 1984 é controversa. Orwell supostamente queria “O Último Homem da Europa”, mas seu editor Frederick Warburg insistiu que trocasse por algo mais comercial. O texto foi concluído em 1948 e o nome traz os dois dígitos finais invertidos. Era uma forma de dizer que a distopia descrita não era uma ameaça distante.

No enredo que tem Londres como cenário (na fictícia Oceânia) -, tudo gira em torno do Grande Irmão. “Quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis”, o Big Brother é o líder máximo. Assumiu o poder depois de uma guerra de escala global (análoga à Segunda Guerra, porém com mais explosões atômicas), que eliminou as nações e criou três grandes estados transcontinentais totalitários. A Oceânia reúne a ex-Inglaterra, as ex-Américas, ex-Austrália e Nova Zelândia e parte da África. É um mundo sombrio e opressivo.

1984, por George Orwell

Cartazes espalhados pelas ruas mostram a figura bisonha da autoridade suprema e o slogan: “O Grande Irmão está de olho em você”. E está mesmo, literalmente, graças às “teletelas”. Espalhadas nos lugares públicos e nos recantos mais íntimos dos lares, elas são uma espécie de televisor capaz de monitorar, gravar e espionar a população, como um espelho duplo. A intimidade era tão devassada ali quanto na casa do Projac que sediou a última edição do Big Brother Brasil.

O protagonista é Winston Smith. Funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, um dos quatro ministérios que governam Oceânia, sua função é falsificar registros históricos, a fim de moldar o passado à luz dos interesses do presente tirânico (prática, aliás, comum na União Soviética).

A opressão era física e mental. A Polícia das Ideias atuava como uma ferrenha patrulha do pensamento. Relações amorosas estavam entre as muitas proibições. Nesse cenário de submissão onde não há mais leis, mas sim inúmeras regras determinadas pelo Partido, ninguém nunca viu o Grande Irmão em pessoa. Uma sacada genial do autor: o tirano mais amedrontador é também aquele mais abstrato.

Winston detesta o sistema, porém evita desafiá-lo além das páginas de seu diário. Isso muda quando se apaixona por Júlia, funcionária do Departamento de Ficção. O sentimento transgressor o faz acreditar que uma rebelião é possível. Mas combater o regime não é nada fácil. Enredada numa trama política, a “reeducação” dos amantes será brutal.

Raros escritores tiveram o privilégio de virar adjetivo. George Orwell (um pseudônimo) foi um deles. Seu nome de batismo, na Igreja Anglicana, é Eric Arthur Blair. Se Marcel Proust deu origem a “proustiano”, por causa das ricas descrições memorialistas, o termo “orwelliano” virou sinônimo dos vívidos e sinistros porões do totalitarismo.

Não que, como romancista, ele seja comparável a James Joyce, Franz Kafka ou Proust. Os críticos costumam ser mais positivos sobre seus ensaios. Ainda assim não são unânimes. O grande legado de Orwell é mesmo sua lucidez política.

George Orwell

Nascido na Índia, em 1903, filho de um funcionário colonial inglês, ele nunca levou vida fácil. Cursou uma escola da elite (Eton). Em vez de seguir o caminho seguro (matricular-se numa universidade chique como Oxford), entrou para a Polícia Imperial da Índia. Lá conheceu de perto a truculência do Império Britânico no esforço de controlar os nativos. Orwell tinha tudo para ser promovido, mas, escandalizado, largou a farda e foi levar uma vida boêmia em Paris e Londres.

Nessa época, beirou a mendicância. Em 1936, viajou para a Espanha para lutar contra o franquismo, na Guerra Civil. Foi ferido no pescoço e dali em diante só conseguiria falar em tom baixo. Dizia ser um socialista democrático. Já um amigo, o escritor Malcolm Muggeridge, o definiu como “um sujeito que é fácil de a gente amar, mas difícil de ter por perto”. Uma de suas marcas pessoais era um rígido senso de justiça e de busca da verdade. Alguns o admiravam por isso.

Outros o viam como um grande chato. O certo é que essa característica o ajudou a se desencantar das utopias políticas, inclusive a soviética, impiedosamente atacada também em A Revolução dos Bichos (1945). “A aceitação de qualquer disciplina política parece ser incompatível com a integridade literária”, afirmou, inconformado com a subserviência dos intelectuais aos regimes de direita ou de esquerda.

Poucos descreveram tão bem a tortura política. Nas páginas de 1984, O’Brien, um figurão do Partido, usa um método especialmente cruel: o flagelo com ratos. “Eles saltarão sobre seu rosto e começarão a devorá-lo. Às vezes atacam primeiro os olhos. Às vezes abrem caminho pelas bochechas e devoram a língua”, diz a Winston.

Dedo-duro

Num episódio controverso, Orwell entregou ao serviço secreto britânico, em 1949, uma lista de 130 simpatizantes do comunismo, entre eles J.B. Priestley e Charles Chaplin. O autor foi procurado quando estava hospitalizado, tratando-se de uma tuberculose. Ele morreu no ano seguinte.

A obra do escritor é profética também sobre a questão da quebra de privacidade. O avanço tecnológico permite um amplo monitoramento (dos satélites às microcâmeras). Em Nova York, a ONG New York Civil Liberties Union protesta hoje contra a existência de 40,76 câmeras instaladas por quilômetro quadrado em Manhattan. Uma coisa, porém, Orwell não pôde antever: o gosto atual pelo exibicionismo/voyeurismo (o que vale tanto para a moçada do Big Brother quanto para certos usuários do Youtube, Facebook e afins).

“As pessoas agora detestam acima de tudo o anonimato. Explorar o privado virou uma forma de participação pública”, diz a especialista em comunicação Cosette Castro, da Universidade Pública de Barcelona. “Na obra de Orwell, é o governo que observa tudo através de câmeras – ele fala de autoritarismo e não de voyeurismo, como é nosso caso”, disse John de Mol, criador do Big Brother, numa entrevista à revista VEJA.

Mas Orwell faz questão de frisar que existe um nexo indissolúvel entre voyeurismo e totalitarismo. No livro, é evidente o prazer de O’Brien em imiscuir-se na vida dos outros. Em As Sombras do Amanhã, de 1945, o historiador Johann Huizinga demonstrou que uma das chaves para o sucesso dos regimes autoritários é estimular a bisbilhotice alheia. Todo mundo gosta de um pouco de fofoca e muitos ditadores já usaram isso a seu favor, para coletar informações sobre os cidadãos.

“Temos curiosidade de saber como o outro dorme, come, toma banho. O Big Brother propicia uma resposta a esse anseio”, diz Cosette. O fenômeno do reality show, que talvez tivesse escandalizado o escritor, é mundial. No Brasil, faz sucesso há dez anos. “O reality show é um laboratório do qual a audiência também faz parte”, afirma Cosette Castro, referindo-se ao poder dos telespectadores de decidir o destino dos participantes dos programas. O Big Brother da ficção foi superado pelo Grande Irmão da realidade.

Teletelas

“Viveremos uma era em que a liberdade de pensamento será de início um pecado mortal e mais tarde uma abstração sem sentido”, disse Orwell. As teletelas do livro são ferramentas de controle. Estão em todo canto. Transmitem mensagens e monitoram ao mesmo tempo.

Novafala

No mundo de 1984, a língua ganha novos termos, e palavras antigas, novas acepções. A semântica é distorcida para criar um estado de torpor e confusão. Isso está expresso no lema do Partido único: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”.

Grande Irmão

Ditador e líder do Partido. É dever da população amá-lo, embora nunca tenha sido visto em pessoa. Foi inspirado em Josef Stalin e representa o perigo do totalitarismo, junto com a teletela. Nas ruas, cartazes mostram seu rosto e dizem “O Grande Irmão está de olho em você”.

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Governo e IHGRN resgatam brasão histórico do RN

Brasão será recuperado (Fotos: Demis Roussos)

O Governo do Estado e o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN) vão apresentar no dia 7 de agosto, data de aniversário do Estado, o projeto de recuperação do brasão original de armas potiguar. O desenho original, datado de 1909, foi resgatado pelo Instituto em seus arquivos e apresentado à governadora Fátima Bezerra em reunião nesta segunda-feira (20).

Para a governadora, o trabalho do IHGRN representa um grande gesto de respeito aos símbolos potiguares. “Antes de tudo nós temos que parabenizar o Instituto pela iniciativa de zelo com o nosso Estado, um resgate histórico que dá orgulho de partilhar”, comentou Fátima.

A solenidade prevista para 7 de agosto contará com a assinatura de um decreto governamental reconhecendo o resgate do brasão, que incluirá a participação da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Justiça. “Essa é uma iniciativa muito representativa, que precisa da participação de todos os poderes, a sociedade civil, a academia, os artistas”, reforçou a governadora.

O projeto de resgate histórico é fruto da parceria entre o IHGRN e o Grupo Vila, que irá patrocinar a distribuição de 5 mil exemplares do encarte com o desenho original. “Nós vamos entregar todo esse material para o Governo distribuir em instituições e órgãos públicos, para atualizar o brasão em todas as aplicações, incluindo a bandeira do Rio Grande do Norte”, explicou o presidente do IHGRN, Ormuz Barbalho Simonetti.

O brasão original foi feito na França pelo amazonense Corbiniano Villaça, por ordem do decreto nº 201, de 1º de julho de 1909, assinado pelo governador Alberto Maranhão. Neste mesmo documento, estão contidas todas as especificações sobre o desenho com a jangada de pescadores, a flor de algodão, o coqueiro, a carnaubeira e a cana de açúcar, com a estrela branca no topo do escudo.

PARCERIAS

A equipe do Governo do Estado e a diretoria do IHGRN também discutiram parcerias para cooperar com o trabalho desenvolvido pela organização, desde a distribuição em escolas da rede estadual de material produzido pelo instituto até ações conjuntas para formular estratégias de arrecadação que mantenham o instituto funcionando plenamente o ano inteiro.

A reunião contou ainda com a presença da vice-presidente do IHGRN, Joventina Oliveira, e a assessora Betânia Ramalho; o diretor geral da Fundação José Augusto, Crispiniano Neto; a secretária de Estado do Turismo, Ana Maria Costa; o diretor presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa do RN (Fapern), Gilton Sampaio; e a chefe de gabinete da Secretaria de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer, Maria do Socorro Batista.

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Rosalba e o uso das Identidades/Ensino para manipular

Por Tales Augusto*

Já se passaram 30 anos desde que Rosalba foi eleita pela primeira vez prefeita da cidade de Mossoró. De lá para cá, a cidade para muitos se revela enquanto parte da própria Identidade da pediatra que está no seu terceiro mandato (num deles foi reeleita). Assim sendo, em 2020 terá 16 anos que governa Mossoró e quando não era prefeita na maior parte das vezes que “ela indicou” quem ocupou a cadeira no Palácio da Resistência.

Segundo Dubar, a Identidade “é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento, a Identidade nunca é dada, é sempre construída e a (re)construir, em uma incerteza maior ou menor e mais ou menos durável”.

E assim se fez, mas para que possamos ter tal construção solidificada é necessário discursos e Foucault no seu A Ordem do Discurso nos dar passos de como tal construção pode atuar de formas diferentes e em áreas diferentes, não se resumindo ao que ouvimos e lemos, imagens, repetições e a sacralização é possível a partir de tais ações.

Aparentemente ações despretensiosas são executadas como a confecção de calçadas com emblema de uma Rosa ou ainda a própria História da Cidade ser alterada, como tentaram de forma nefasta colocar a família Rosado combatendo Lampião que não vingou, ainda bem.

Só que muita coisa mudou de 1989 para 2019, dentre elas a informação via Internet. Não nos enganemos, a mesma Internet que nos proporciona dados, fatos, leituras diversas, pode também ser usada para a perpetuação de Discursos e intenções que buscam desmentir a verdade. Esta, baseando-se em provas e não em devaneios ou acusações vazias.

Pois bem, temos uma mandatária que propaga aos quatro cantos do mundo, inclusive na Alemanha provavelmente que somos a Cidade de maior relevância no estado do Rio Grande do Norte no que concerne a Cultura, só que se esquece de ações que reprovam e desmentem a ela mesmo.

Alçada ao senado em 2006 com o apoio de dois outros oligarcas estaduais, tendo o José Agripino Maia e o Garibaldi Alves Filho como cabo eleitorais. Depois de 55 anos, vimos novamente à ascensão de um Rosado a governadoria (lembrando que a mesma é Rosado devido ser casada com o Carlos Augusto Rosado, esposo e mentor da Rosalba, além de maior articulador das suas campanhas). Entre 2006 até 2010 não temos boas lembranças do seu governo e no que tange a Educação tivemos algo que é de forte impacto na desvalorização da nossa Identidade enquanto potiguares e por sua vez mossoroenses.

A retirada das disciplinas de Cultura do RN que era ensinada do 6º ao 9º ano e de Economia do RN no Ensino Médio.

Aparentemente podemos pensar que 40 a 50 minutos de aulas semanais não são nada, contudo a soma dos 200 dias letivos, temos ao término de cada ano nada mais nada menos que 40 aulas. Somando no Ensino Fundamental II a totalidade de 160 aulas e no Ensino Médio 120 aulas.

É triste saber que o bairrismo tido como marca em estados vizinhos aqui não tem vez e nem voz, nem muito menos disciplina/matéria escolar. Como esperar que venhamos a respeitar aos outros se não nos reconhecemos? Se o poder público que esperávamos ser uma ferramenta de conscientização da Identidade a partir de ações educativas e por sua vez caminho ao respeito das alteridades nem ao mesmo é oferecido? Como nós mossoroenses podemos esperar uma valorização da História, Geografia e Cultura locais mesmo tendo na “Nossa Carta Magna”, a nossa Lei Orgânica premissas que defendem tal adoção e fica apenas no papel?

Observem:

Art. 169. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: (Redação dada pela Emenda 04/2016)

Art. 171. São fixados conteúdos mínimos para a Educação Infantil e Ensino Fundamental, de modo a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais, cívicos e artísticos, nacionais e regionais. (Redação dada pela Emenda 04/2016)

  • 2° – As escolas públicas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, incluem entre as disciplinas oferecidas, o estudo da cultura Norte Riograndense, envolvendo as noções básicas da literatura, das artes plásticas e do folclore do Município. (Redação dada pela Emenda 04/2016)

Vale lembrar que a ideia de Identidade se relaciona diretamente ao ideal de pertencimento, todavia o Espaço Local perdeu sua importância ou valor, sendo substituído por novos outros espaços, inclusive espaços virtuais, conhecemos mais o mundo que nossa própria casa.

Mossoró como uma cidade rica em cultura deixa a chance se esvai entre seus dedos, é necessário reflexão e se defrontar com nosso futuro-passado, memória-continuidade, a Identidade e o Bairrismo são importantes, sem negar a Alteridade que nos torna multi, esta que nos leva a entender o outro como diferente, mas jamais como inferior ou superior.

Imaginar que tínhamos Cultura do RN (6° ao 9° anos) e Economia do RN no Ensino Médio até 2014 e a mesma foi retirada por Rosalba quando governadora do estado do Rio Grande do Norte e hoje, a mesma fala que valoriza a Educação e Cultura? Deve achar que somos pessoas sem o mínimo discernimento e criticidade!

Por isso que o mandato de Rosalba soa mais como Personificação/Perpetuação dela e do clã, família, oligarquia Rosado a frente da Prefeitura Municipal de Mossoró, que a uma ação verdadeiramente preocupada com a cidade e os mossoroenses.

Parafrasear um presidente mexicano não custa nada, “Pobre Mossoró, tão perto e sempre governada pelos Rosados e aparentemente mesmo com Deus atuando, não conseguimos ainda nos libertar das amarras desta família!”

 

*É Historiador, autor do livro HISTÓRIA DO RN PARA INICIANTES, lecionou na rede privada e pública por duas décadas e atualmente é professor efetivo do IFRN/Campus Apodi

 

Baixe gratuitamente o livro HISTÓRIA DO RN PARA INICIANTES no link a seguir https://olimpiadadehistoriarn.wordpress.com/materialdeapoio/

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Sociedade contra o estado: não tem essa de “mais” ou “menos” evoluído

ANDRÉ NOGUEIRA

Aventuras na História

Por muito tempo (ou mesmo ainda hoje), se acreditou que os indígenas na América eram seres primitivos que viviam nas fases iniciais do desenvolvimento político humano, que seria universal. Os índios viveriam em tribos, pois eles estariam numa fase inicial do desenvolvimento político, que iria evoluir para formas mais complexas até atingirem a forma do Estado burocrático, modelo europeu.

Porém, há muito tempo existem criticas à essa visão, que é extremamente evolucionista e cria a ideia de que os índios são menos evoluídos e capazes que o branco europeu. Uma das mais importantes obras que desmentem essa tese vem de um importante antropólogo francês do século XX, o pesquisador Pierre Clastres (1934-1977). Ele foi um dos pioneiros nos estudos atualizados de antropologia política entre ameríndios e desenvolveu sua principal tese sobre os guayakis do Paraguai em seu livro de 1974 A Sociedade contra o Estado.

Clastres (Wikimedia Commons)

Clastres era filósofo de formação, mas entrou no campo da antropologia da América do Sul por influência de Métraux e Levi-Strauss, grandes acadêmicos franceses que tiveram contato com os países sul-americanos (principalmente Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia).

Os estudos do antropólogo vão partir da análise destes pressupostos científicos de sua época, que colocavam os índios numa posição de inferioridade cultural e racial, dizendo que não há elementos reais para entendermos que a forma horizontalizada e mais próxima ao igualitarismo visíveis nas relações políticas no mundo tribal guarani tem origem em algum tipo de caráter primitivo dessa estrutura de poder. Ao contrário, o pesquisador vai analisar o mundo tribal a partir de uma perspectiva de ação política.

Clastres coloca que no mundo sul-americano, as atividades relativas ao poder não eram simplesmente negadas pela “incapacidade” dos índios de atuar numa sociedade complexa, que era vista no mundo mexicano e maia por terem criado Estados e sociedades hierárquicas. É um erro, para Clastres, entendermos a política tribal como desacompanhada de uma lógica política que é ativamente mantenedora da estrutura social.

Isso significa dizer que a sociedade sem Estado e que dissolve suas hierarquias internas é resultado de um esforço ativo de impedir o desenvolvimento de relações hierárquicas de política e mandatarismo. Então, para o autor, o mundo político dos índios guayaki é, antes de uma sociedade sem o Estado, uma sociedade contra o Estado, pois os povos que formam o tecido social dessas tribos agiriam conscientemente pela manutenção de um mundo político sem membros que mandam e membros que obedecem, não estando presos a uma realidade de incapacidade de atuar de forma complexa e hierárquica. Sendo assim, não estando sujeitos a uma força evolutiva acima deles, que o levariam a uma sociedade estatizada.

Clastres no Brasil (Reprodução)

Em Clastres, não se ignora a figura de um pajé, por exemplo. Ou mesmo a noção de chefia. Mas a partir da noção antropológica que faz do autor partir das formas internas de compreensão de mundo, é possível ver entre os guarani na América do Sul uma tendência a uma lógica de sociabilidade que é repleta de marcos e mecanismos culturais que impedem o nascimento de figuras de comando e controle. Ao contrário, os chefes tribais não possuem poder de mando, somente reconhecimento social de sua fala como conselho. Há, portanto, o isolamento e a destituição de posições que possibilitem o desenvolvimento de uma camada dominante dentro dos grupos sociais.

Portanto, o mundo político dos índios é um mundo sem dirigentes, não sem articulação política. O estudo de Clastres é útil até hoje para uma análise não etnocêntrica da antropologia política indígena, nos lembrando de que análises simplistas e evolucionistas não são aplicáveis nos estudos sérios sobre a vida ameríndia.

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Hitler gargalhava quando o nazismo era confundido com a esquerda

Por João Carlos Magalhães

The Intercept

O que Adolf Hitler diria do disparate de que o nazismo “é de esquerda”, como afirmam o presidente Jair Bolsonaro, o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, e o guru do bolsonarismo Olavo de Carvalho? Ele provavelmente iria rir alto.

De fato, gargalhar era o que Hitler e seus colegas nazistas faziam quando eram confundidos com os “vermelhos”, com quem disputaram na porrada o poder durante os turbulentos anos que antecederam o início do Terceiro Reich. Quem conta é o próprio Hitler, em “Minha Luta”, o misto de autobiografia e manifesto de ódio lançado em 1925 no qual a ideologia nazista foi consolidada.

Em um capítulo devidamente intitulado “A Luta com os Vermelhos”, Hitler narra como seu partido era muitas vezes confundido com o do seus inimigos da esquerda, principalmente pelos “burgueses comuns” que, escreveu Hitler, “ficavam muito chocados por nós termos também recorrido à simbólica cor vermelha do bolchevismo”.

Segundo ele, muitas pessoas “nos círculos nacionalistas sussurravam que éramos apenas uma variação de marxistas, talvez marxistas disfarçados ou, melhor, socialistas.” Mais do que a cor vermelha, escreveu o futuro Führer, esses “nacionalistas” pareciam preocupados com a linguagem usada pelos nazistas, que chamavam um ao outro de “camaradas”, como comunistas faziam.

Hitler afirma que a confusão – em certa medida incitada pelos próprios nazis como estratégia publicitária – era, para ele, hilária.

“Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade! A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.”

Anos depois de ter escrito o livro, Hitler usaria esse mesmo horror da “burguesia” nacionalista ao marxismo para arregimentar apoio da elite industrial alemã ao seu projeto autoritário. Uma vez empossado chanceler, em 1933, Hitler usou o incêndio no Reichstag como prova que de os comunistas estavam conspirando contra o seu governo. E, em 1934, ordenou a destruição das chamadas SA, uma facção paramilitar nazista comandada por Ernst Röhm, mais simpático às ideias comunistas. O violento expurgo, no qual centenas foram assassinados, foi apelidado de a Noite dos Longos Punhais.

O completo absurdo das declarações de Bolsonaro e companhia fica imediatamente claro para qualquer leitor mediano que tenha estômago para consultar o “Minha Luta” – proibido em vários países, mas facilmente encontrável na internet. Desde o início do livro, Hitler explicita que o anti-marxismo era, para ele, inseparável do antissemitismo e que ambos são o motivo fundante do nazismo. Em uma passagem em que explica seu processo de politização em Viena, Hitler chega a listar o primeiro antes do segundo: “Meus olhos se abriram para dois perigos, cujos nomes e significado terrível para a existência do povo alemão eu mal conhecia. Esses dois perigos eram o marxismo e o judaísmo”.

Mais do que essa imaginada conexão entre marxistas e judeus, Hitler tinha repulsa ao ideário igualitário universal comunista. Com razão, já que ele contradiz o núcleo ideológico nazista, segundo o qual a “raça” ariana seria inerentemente superior, tendo, portanto, direito sobre as demais. Como escreveu o propagandista do Reich, Joseph Goebbels, num famoso livreto de propaganda de 1926: “O marxismo, cujas teorias são fatais para os povos e raças, é exatamente o oposto do [nacional] socialismo.”

Ao longo de sua autobiografia, Hitler descreve o marxismo diversas vezes como uma doença pestilenta, uma doutrina irracional e um risco existencial à Alemanha, que deveria ser combatido e aniquilado. Diz ele:

“Nos anos de 1913 e 1914, expressei minha opinião pela primeira vez em vários círculos, alguns dos quais agora são defensores do movimento nacional socialista, de que o problema sobre como o futuro da nação alemã pode ser assegurado é o problema sobre como o marxismo pode ser exterminado”.

Depois, reafirma: “No dia em que o marxismo for quebrado na Alemanha, os grilhões que nos prendem serão esmagados para sempre”. Disse ainda, ao rememorar eventos de 1923: “A primeira tarefa em um governo verdadeiramente nacionalista era procurar e achar as forças que estivessem decididas a lutar uma guerra de aniquilação contra o marxismo e, em seguida, dar liberdade de ação a essas forças.”

Não surpreende que os marxistas tenham sido um dos primeiros grupos a ser levados para campos de concentração, nos quais foram assassinados às centenas de milhares. Nem que todos os grupos neonazistas do pós-guerra mantenham o ódio à esquerda como ponto ideológico central.

Ninguém, no Brasil ou no exterior, precisa acreditar em jornalistas ou em historiadores para saber que o nazismo se opunha frontalmente ao comunismo. Basta ler as palavras de Hitler.

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