Governo e IHGRN resgatam brasão histórico do RN

Brasão será recuperado (Fotos: Demis Roussos)

O Governo do Estado e o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN) vão apresentar no dia 7 de agosto, data de aniversário do Estado, o projeto de recuperação do brasão original de armas potiguar. O desenho original, datado de 1909, foi resgatado pelo Instituto em seus arquivos e apresentado à governadora Fátima Bezerra em reunião nesta segunda-feira (20).

Para a governadora, o trabalho do IHGRN representa um grande gesto de respeito aos símbolos potiguares. “Antes de tudo nós temos que parabenizar o Instituto pela iniciativa de zelo com o nosso Estado, um resgate histórico que dá orgulho de partilhar”, comentou Fátima.

A solenidade prevista para 7 de agosto contará com a assinatura de um decreto governamental reconhecendo o resgate do brasão, que incluirá a participação da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Justiça. “Essa é uma iniciativa muito representativa, que precisa da participação de todos os poderes, a sociedade civil, a academia, os artistas”, reforçou a governadora.

O projeto de resgate histórico é fruto da parceria entre o IHGRN e o Grupo Vila, que irá patrocinar a distribuição de 5 mil exemplares do encarte com o desenho original. “Nós vamos entregar todo esse material para o Governo distribuir em instituições e órgãos públicos, para atualizar o brasão em todas as aplicações, incluindo a bandeira do Rio Grande do Norte”, explicou o presidente do IHGRN, Ormuz Barbalho Simonetti.

O brasão original foi feito na França pelo amazonense Corbiniano Villaça, por ordem do decreto nº 201, de 1º de julho de 1909, assinado pelo governador Alberto Maranhão. Neste mesmo documento, estão contidas todas as especificações sobre o desenho com a jangada de pescadores, a flor de algodão, o coqueiro, a carnaubeira e a cana de açúcar, com a estrela branca no topo do escudo.

PARCERIAS

A equipe do Governo do Estado e a diretoria do IHGRN também discutiram parcerias para cooperar com o trabalho desenvolvido pela organização, desde a distribuição em escolas da rede estadual de material produzido pelo instituto até ações conjuntas para formular estratégias de arrecadação que mantenham o instituto funcionando plenamente o ano inteiro.

A reunião contou ainda com a presença da vice-presidente do IHGRN, Joventina Oliveira, e a assessora Betânia Ramalho; o diretor geral da Fundação José Augusto, Crispiniano Neto; a secretária de Estado do Turismo, Ana Maria Costa; o diretor presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa do RN (Fapern), Gilton Sampaio; e a chefe de gabinete da Secretaria de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer, Maria do Socorro Batista.

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Rosalba e o uso das Identidades/Ensino para manipular

Por Tales Augusto*

Já se passaram 30 anos desde que Rosalba foi eleita pela primeira vez prefeita da cidade de Mossoró. De lá para cá, a cidade para muitos se revela enquanto parte da própria Identidade da pediatra que está no seu terceiro mandato (num deles foi reeleita). Assim sendo, em 2020 terá 16 anos que governa Mossoró e quando não era prefeita na maior parte das vezes que “ela indicou” quem ocupou a cadeira no Palácio da Resistência.

Segundo Dubar, a Identidade “é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento, a Identidade nunca é dada, é sempre construída e a (re)construir, em uma incerteza maior ou menor e mais ou menos durável”.

E assim se fez, mas para que possamos ter tal construção solidificada é necessário discursos e Foucault no seu A Ordem do Discurso nos dar passos de como tal construção pode atuar de formas diferentes e em áreas diferentes, não se resumindo ao que ouvimos e lemos, imagens, repetições e a sacralização é possível a partir de tais ações.

Aparentemente ações despretensiosas são executadas como a confecção de calçadas com emblema de uma Rosa ou ainda a própria História da Cidade ser alterada, como tentaram de forma nefasta colocar a família Rosado combatendo Lampião que não vingou, ainda bem.

Só que muita coisa mudou de 1989 para 2019, dentre elas a informação via Internet. Não nos enganemos, a mesma Internet que nos proporciona dados, fatos, leituras diversas, pode também ser usada para a perpetuação de Discursos e intenções que buscam desmentir a verdade. Esta, baseando-se em provas e não em devaneios ou acusações vazias.

Pois bem, temos uma mandatária que propaga aos quatro cantos do mundo, inclusive na Alemanha provavelmente que somos a Cidade de maior relevância no estado do Rio Grande do Norte no que concerne a Cultura, só que se esquece de ações que reprovam e desmentem a ela mesmo.

Alçada ao senado em 2006 com o apoio de dois outros oligarcas estaduais, tendo o José Agripino Maia e o Garibaldi Alves Filho como cabo eleitorais. Depois de 55 anos, vimos novamente à ascensão de um Rosado a governadoria (lembrando que a mesma é Rosado devido ser casada com o Carlos Augusto Rosado, esposo e mentor da Rosalba, além de maior articulador das suas campanhas). Entre 2006 até 2010 não temos boas lembranças do seu governo e no que tange a Educação tivemos algo que é de forte impacto na desvalorização da nossa Identidade enquanto potiguares e por sua vez mossoroenses.

A retirada das disciplinas de Cultura do RN que era ensinada do 6º ao 9º ano e de Economia do RN no Ensino Médio.

Aparentemente podemos pensar que 40 a 50 minutos de aulas semanais não são nada, contudo a soma dos 200 dias letivos, temos ao término de cada ano nada mais nada menos que 40 aulas. Somando no Ensino Fundamental II a totalidade de 160 aulas e no Ensino Médio 120 aulas.

É triste saber que o bairrismo tido como marca em estados vizinhos aqui não tem vez e nem voz, nem muito menos disciplina/matéria escolar. Como esperar que venhamos a respeitar aos outros se não nos reconhecemos? Se o poder público que esperávamos ser uma ferramenta de conscientização da Identidade a partir de ações educativas e por sua vez caminho ao respeito das alteridades nem ao mesmo é oferecido? Como nós mossoroenses podemos esperar uma valorização da História, Geografia e Cultura locais mesmo tendo na “Nossa Carta Magna”, a nossa Lei Orgânica premissas que defendem tal adoção e fica apenas no papel?

Observem:

Art. 169. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: (Redação dada pela Emenda 04/2016)

Art. 171. São fixados conteúdos mínimos para a Educação Infantil e Ensino Fundamental, de modo a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais, cívicos e artísticos, nacionais e regionais. (Redação dada pela Emenda 04/2016)

  • 2° – As escolas públicas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, incluem entre as disciplinas oferecidas, o estudo da cultura Norte Riograndense, envolvendo as noções básicas da literatura, das artes plásticas e do folclore do Município. (Redação dada pela Emenda 04/2016)

Vale lembrar que a ideia de Identidade se relaciona diretamente ao ideal de pertencimento, todavia o Espaço Local perdeu sua importância ou valor, sendo substituído por novos outros espaços, inclusive espaços virtuais, conhecemos mais o mundo que nossa própria casa.

Mossoró como uma cidade rica em cultura deixa a chance se esvai entre seus dedos, é necessário reflexão e se defrontar com nosso futuro-passado, memória-continuidade, a Identidade e o Bairrismo são importantes, sem negar a Alteridade que nos torna multi, esta que nos leva a entender o outro como diferente, mas jamais como inferior ou superior.

Imaginar que tínhamos Cultura do RN (6° ao 9° anos) e Economia do RN no Ensino Médio até 2014 e a mesma foi retirada por Rosalba quando governadora do estado do Rio Grande do Norte e hoje, a mesma fala que valoriza a Educação e Cultura? Deve achar que somos pessoas sem o mínimo discernimento e criticidade!

Por isso que o mandato de Rosalba soa mais como Personificação/Perpetuação dela e do clã, família, oligarquia Rosado a frente da Prefeitura Municipal de Mossoró, que a uma ação verdadeiramente preocupada com a cidade e os mossoroenses.

Parafrasear um presidente mexicano não custa nada, “Pobre Mossoró, tão perto e sempre governada pelos Rosados e aparentemente mesmo com Deus atuando, não conseguimos ainda nos libertar das amarras desta família!”

 

*É Historiador, autor do livro HISTÓRIA DO RN PARA INICIANTES, lecionou na rede privada e pública por duas décadas e atualmente é professor efetivo do IFRN/Campus Apodi

 

Baixe gratuitamente o livro HISTÓRIA DO RN PARA INICIANTES no link a seguir https://olimpiadadehistoriarn.wordpress.com/materialdeapoio/

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Sociedade contra o estado: não tem essa de “mais” ou “menos” evoluído

ANDRÉ NOGUEIRA

Aventuras na História

Por muito tempo (ou mesmo ainda hoje), se acreditou que os indígenas na América eram seres primitivos que viviam nas fases iniciais do desenvolvimento político humano, que seria universal. Os índios viveriam em tribos, pois eles estariam numa fase inicial do desenvolvimento político, que iria evoluir para formas mais complexas até atingirem a forma do Estado burocrático, modelo europeu.

Porém, há muito tempo existem criticas à essa visão, que é extremamente evolucionista e cria a ideia de que os índios são menos evoluídos e capazes que o branco europeu. Uma das mais importantes obras que desmentem essa tese vem de um importante antropólogo francês do século XX, o pesquisador Pierre Clastres (1934-1977). Ele foi um dos pioneiros nos estudos atualizados de antropologia política entre ameríndios e desenvolveu sua principal tese sobre os guayakis do Paraguai em seu livro de 1974 A Sociedade contra o Estado.

Clastres (Wikimedia Commons)

Clastres era filósofo de formação, mas entrou no campo da antropologia da América do Sul por influência de Métraux e Levi-Strauss, grandes acadêmicos franceses que tiveram contato com os países sul-americanos (principalmente Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia).

Os estudos do antropólogo vão partir da análise destes pressupostos científicos de sua época, que colocavam os índios numa posição de inferioridade cultural e racial, dizendo que não há elementos reais para entendermos que a forma horizontalizada e mais próxima ao igualitarismo visíveis nas relações políticas no mundo tribal guarani tem origem em algum tipo de caráter primitivo dessa estrutura de poder. Ao contrário, o pesquisador vai analisar o mundo tribal a partir de uma perspectiva de ação política.

Clastres coloca que no mundo sul-americano, as atividades relativas ao poder não eram simplesmente negadas pela “incapacidade” dos índios de atuar numa sociedade complexa, que era vista no mundo mexicano e maia por terem criado Estados e sociedades hierárquicas. É um erro, para Clastres, entendermos a política tribal como desacompanhada de uma lógica política que é ativamente mantenedora da estrutura social.

Isso significa dizer que a sociedade sem Estado e que dissolve suas hierarquias internas é resultado de um esforço ativo de impedir o desenvolvimento de relações hierárquicas de política e mandatarismo. Então, para o autor, o mundo político dos índios guayaki é, antes de uma sociedade sem o Estado, uma sociedade contra o Estado, pois os povos que formam o tecido social dessas tribos agiriam conscientemente pela manutenção de um mundo político sem membros que mandam e membros que obedecem, não estando presos a uma realidade de incapacidade de atuar de forma complexa e hierárquica. Sendo assim, não estando sujeitos a uma força evolutiva acima deles, que o levariam a uma sociedade estatizada.

Clastres no Brasil (Reprodução)

Em Clastres, não se ignora a figura de um pajé, por exemplo. Ou mesmo a noção de chefia. Mas a partir da noção antropológica que faz do autor partir das formas internas de compreensão de mundo, é possível ver entre os guarani na América do Sul uma tendência a uma lógica de sociabilidade que é repleta de marcos e mecanismos culturais que impedem o nascimento de figuras de comando e controle. Ao contrário, os chefes tribais não possuem poder de mando, somente reconhecimento social de sua fala como conselho. Há, portanto, o isolamento e a destituição de posições que possibilitem o desenvolvimento de uma camada dominante dentro dos grupos sociais.

Portanto, o mundo político dos índios é um mundo sem dirigentes, não sem articulação política. O estudo de Clastres é útil até hoje para uma análise não etnocêntrica da antropologia política indígena, nos lembrando de que análises simplistas e evolucionistas não são aplicáveis nos estudos sérios sobre a vida ameríndia.

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Hitler gargalhava quando o nazismo era confundido com a esquerda

Por João Carlos Magalhães

The Intercept

O que Adolf Hitler diria do disparate de que o nazismo “é de esquerda”, como afirmam o presidente Jair Bolsonaro, o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, e o guru do bolsonarismo Olavo de Carvalho? Ele provavelmente iria rir alto.

De fato, gargalhar era o que Hitler e seus colegas nazistas faziam quando eram confundidos com os “vermelhos”, com quem disputaram na porrada o poder durante os turbulentos anos que antecederam o início do Terceiro Reich. Quem conta é o próprio Hitler, em “Minha Luta”, o misto de autobiografia e manifesto de ódio lançado em 1925 no qual a ideologia nazista foi consolidada.

Em um capítulo devidamente intitulado “A Luta com os Vermelhos”, Hitler narra como seu partido era muitas vezes confundido com o do seus inimigos da esquerda, principalmente pelos “burgueses comuns” que, escreveu Hitler, “ficavam muito chocados por nós termos também recorrido à simbólica cor vermelha do bolchevismo”.

Segundo ele, muitas pessoas “nos círculos nacionalistas sussurravam que éramos apenas uma variação de marxistas, talvez marxistas disfarçados ou, melhor, socialistas.” Mais do que a cor vermelha, escreveu o futuro Führer, esses “nacionalistas” pareciam preocupados com a linguagem usada pelos nazistas, que chamavam um ao outro de “camaradas”, como comunistas faziam.

Hitler afirma que a confusão – em certa medida incitada pelos próprios nazis como estratégia publicitária – era, para ele, hilária.

“Quantas boas gargalhadas demos à custa desses idiotas e poltrões burgueses, nas suas tentativas de decifrarem o enigma da nossa origem, nossas intenções e nossa finalidade! A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.”

Anos depois de ter escrito o livro, Hitler usaria esse mesmo horror da “burguesia” nacionalista ao marxismo para arregimentar apoio da elite industrial alemã ao seu projeto autoritário. Uma vez empossado chanceler, em 1933, Hitler usou o incêndio no Reichstag como prova que de os comunistas estavam conspirando contra o seu governo. E, em 1934, ordenou a destruição das chamadas SA, uma facção paramilitar nazista comandada por Ernst Röhm, mais simpático às ideias comunistas. O violento expurgo, no qual centenas foram assassinados, foi apelidado de a Noite dos Longos Punhais.

O completo absurdo das declarações de Bolsonaro e companhia fica imediatamente claro para qualquer leitor mediano que tenha estômago para consultar o “Minha Luta” – proibido em vários países, mas facilmente encontrável na internet. Desde o início do livro, Hitler explicita que o anti-marxismo era, para ele, inseparável do antissemitismo e que ambos são o motivo fundante do nazismo. Em uma passagem em que explica seu processo de politização em Viena, Hitler chega a listar o primeiro antes do segundo: “Meus olhos se abriram para dois perigos, cujos nomes e significado terrível para a existência do povo alemão eu mal conhecia. Esses dois perigos eram o marxismo e o judaísmo”.

Mais do que essa imaginada conexão entre marxistas e judeus, Hitler tinha repulsa ao ideário igualitário universal comunista. Com razão, já que ele contradiz o núcleo ideológico nazista, segundo o qual a “raça” ariana seria inerentemente superior, tendo, portanto, direito sobre as demais. Como escreveu o propagandista do Reich, Joseph Goebbels, num famoso livreto de propaganda de 1926: “O marxismo, cujas teorias são fatais para os povos e raças, é exatamente o oposto do [nacional] socialismo.”

Ao longo de sua autobiografia, Hitler descreve o marxismo diversas vezes como uma doença pestilenta, uma doutrina irracional e um risco existencial à Alemanha, que deveria ser combatido e aniquilado. Diz ele:

“Nos anos de 1913 e 1914, expressei minha opinião pela primeira vez em vários círculos, alguns dos quais agora são defensores do movimento nacional socialista, de que o problema sobre como o futuro da nação alemã pode ser assegurado é o problema sobre como o marxismo pode ser exterminado”.

Depois, reafirma: “No dia em que o marxismo for quebrado na Alemanha, os grilhões que nos prendem serão esmagados para sempre”. Disse ainda, ao rememorar eventos de 1923: “A primeira tarefa em um governo verdadeiramente nacionalista era procurar e achar as forças que estivessem decididas a lutar uma guerra de aniquilação contra o marxismo e, em seguida, dar liberdade de ação a essas forças.”

Não surpreende que os marxistas tenham sido um dos primeiros grupos a ser levados para campos de concentração, nos quais foram assassinados às centenas de milhares. Nem que todos os grupos neonazistas do pós-guerra mantenham o ódio à esquerda como ponto ideológico central.

Ninguém, no Brasil ou no exterior, precisa acreditar em jornalistas ou em historiadores para saber que o nazismo se opunha frontalmente ao comunismo. Basta ler as palavras de Hitler.

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Lula faz um ano na cadeia à espera do STJ e empenhado em controlar o PT

Homem segura cartaz pedindo liberdade para o ex-presidente Lula, no dia 31 de março (Foto: LEO CORREA/AP)

Por Felipe Betim e Afonso Benites

El País

A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva completa um ano neste domingo, 7 de abril, com o PT tentando reanimar a militância com atos pelo “Lula Livre” e adiando apenas para o segundo semestre a troca de poder na legenda, que ainda disputa espaço para se firmar como protagonista na oposição ao presidente Jair Bolsonaro (PSL). O consenso no partido é o de que as condenações por corrupção passiva e lavagem de dinheiro nos casos envolvendo o triplex do Guarujá e o sítio de Atibaia — 12 anos e 11 meses em ambos os casos — foram injustas e de que a prisão do ex-presidente é política. Na sigla, os atos pelo ex-presidente são uma forma não só de manter a pressão sobre o Judiciário como também de manter petistas e os movimentos sociais mais próximos unidos sob uma rara bandeira comum.

Da cadeia em Curitiba, Lula acompanha as discussões no partido, cuja eleição interna adiada tem potencial para, pela primeira vez, não corresponder com a vontade do ex-presidente, que já demonstrou seu desejo em manter a deputada federal Gleisi Hoffman na liderança. Com Gleisi na presidência, a influência de Lula nas decisões do partido estariam garantidas. Ao EL PAÍS, a deputada diz que o ex-presidente recebe informes das reuniões do partido. “Ele é o nosso presidente de honra. É natural e importante que ele receba as informações.Quando eu posso, escrevo cartas, porque essas ele pode receber. Trato das reuniões dos diretórios, das reuniões que fazemos, das decisões que tomamos”, contou Gleisi.

No plano legal, as esperanças de uma absolvição e soltura do petista são escassas. O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Antonio Dias Toffoli, decidiu adiar o julgamento sobre a constitucionalidade da prisão após a condenação em segunda instância, que estava marcada para a quarta-feira dia 10 e teria repercussão no caso. Agora, residem no recurso levado pela defesa ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ), o primeiro tribunal superior que analisará a sentença em segunda instância do caso Triplex — o caso do sítio Atibaia só foi julgado em primeira instância. Tanto o STJ como o STF só analisaram até o momento pedidos de soltura do ex-presidente, mas não a condenação em si. Ainda não há uma data marcada para que a 5ª turma do STJ se reúna, mas a defesa espera que isso ocorra em breve. Segundo o advogado Cristiano Zanin, a defesa pede e enfatiza no recurso a anulação do processo nas instâncias inferiores ou uma absolvição. Também apresenta argumentos auxiliares que poderiam levar a uma revisão do tamanho da pena — o que pode resultar, por exemplo, em prisão domiciliar — ou a prescrição do caso.

A defesa contesta as acusações e considera que não há provas suficientes de que a OAS presenteou o ex-presidente com um triplex no Guarujá como pagamento de propina por contratos na Petrobras. Apresenta ainda um leque de argumentos, como uma suposta falta de imparcialidade do juiz Sergio Moro — hoje ministro da Justiça de Bolsonaro— ou a negativa de que uma prova pericial no processo fosse produzida. Segundo Zanin, a defesa também contesta a competência da Justiça Federal para tratar do caso com base em suas decisões do Supremo. A primeira, de 2015, resultou no fatiamento da Lava Jato e deixou nas mãos da força tarefa de Curitiba apenas os casos relativos a corrupção na Petrobras. A defesa acredita que o caso não tem relação com o escândalo envolvendo a petroleira, embora a sentença condenatória estabeleça uma relação entre os contratos entre empreitas e a Petrobras com o triplex reformado que a OAS teria repassado para Lula. A segunda e mais recente decisão do STF, por seis votos a cinco, determinou que cabe a Justiça Eleitoral julgar crimes comuns, como os de corrupção e lavagem de dinheiro, conexos com delitos eleitorais de caixa 2.

“A jurisprudência do STJ é incompatível com a condenação do ex-presidente. Então, estamos pedindo que a Corte reafirme sua própria jurisprudência”, explica Zanin ao EL PAÍS. O problema é que, de acordo com uma pesquisa realizada pela Corte com base nos julgamentos de 69.000 recursos entre 2015 e 2017, apenas 0,62% dos casos julgados no STJ reverteram totalmente as decisões das instâncias inferiores e resultaram na absolvição do réu. A mesma pesquisa indicou que em 1,02% dos casos os ministros da 5ª e 6ª turma reverteram a pena de prisão por uma pena “restritiva de direitos”, como a prestação de serviços comunitários. Em 0,76% dos casos foi reconhecida a prescrição. Para Zanin, contudo, o caso do ex-presidente é peculiar. “Estamos vendo ao longo do tempo a ocorrência de diversas ilegalidades e abusos que precisam ser coibidos”, diz ele, no momento que a o entorno de Lula se queixa da falta de recursos para tocar a própria defesa. Há bens e contas bancárias do ex-presidente bloqueados por ordem de Moro e, por isso, há ações que buscam arrecadar dinheiro para a causa. Nesta semana, um grupo de fotógrafos anunciou ter arrecadado mais de 600.000 reais leiloando fotos históricas do petista.

Um PT em busca de protagonismo

No campo político os obstáculos não são menores. O PT tem a maior bancada na Câmara, com 55 deputados — um a mais que o PSL de Bolsonaro —, e é a maior força de oposição ao Governo. Mas, por ora, continua apostando suas energias na campanha pelo “Lula Livre” enquanto que as pesquisas indicam uma cristalização do apoio popular à prisão do ex-presidente — segundo o Atlas Político, cerca de 57,9% do eleitorado. “O partido ficou muito preso a isso. Não sei se dentro do partido existe consenso sobre o que fazer. Enquanto isso, o ‘Lula Livre’ dá certa unidade de ação para a máquina partidária. É algo que mantém todos unidos”, explica o sociólogo Celso Rocha de Barros.

Para ele, a “atualização” do PT ainda depende de como o Governo Bolsonaro, que completa cem dias nesta semana com a popularidade em queda, vai se sair. Ainda assim, ele chama atenção para o fato de que, embora numericamente maior, é mais comum ver lideranças de outros partidos progressistas, como os deputados Alessandro Molon (PSB), Tabata Amaral (PDT) ou Marcelo Freixo (PSOL), na linha de frente da oposição. “O partido ainda não assumiu uma liderança lá dentro, porque está preso a essas questões”, explica. Em jogo está também uma disputa também no campo progressista pela hegemonia, ocupada pelo PT há 30 anos.  “Se eles querem substituir o PT, precisam atrair as pessoas que gostam o PT. O Ciro Gomes, por exemplo, pela suas declarações e posturas, acaba sendo antipático para os eleitores PT. Além disso, essas pessoas foram coadjuvantes durante muito tempo e não precisaram se posicionar sobre questões econômicas e políticas de governo. Isso ficava na conta do PT”, pondera Rocha de Barros. “No mínimo”, explica ele, “a competição vai fazer bem e vai obrigar os petistas a se mexerem”.

Essa renovação depende também da liderança do partido, hoje nas mãos de Gleisi Hoffmann, apesar das ressalvas de alguns petistas. A política paranaense é considerada uma das responsáveis por manter como prioridade do partido a pauta do “Lula Livre”, enquanto há pouco debate sobre renovação partidária e outras questões programáticas a um ano e meio das eleições municipais. “Nós consideramos o Lula um preso político. Lula é a grande liderança política e popular desse Brasil. Depois dele não surgiu mais ninguém com essa envergadura, com essa grandeza, com esse poder de mobilização”, reafirma Gleisi.

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31 de março: entenda os bastidores do mais famoso golpe de estado do Brasil

Por André Nogueira

Aventuras na História

O termo “golpe de Estado”, antes de tudo, é um conceito das ciências humanas. Principalmente os historiadores e sociólogos buscam entender esse conceito para, na utilização em meio à análise, haver precisão metodológica.

Esse conceito já possui muita bibliografia. Há produção sobre essa noção desde o século XVII, quando as mudanças no funcionamento do mundo das cortes fez necessária a criação de um novo arcabouço de ideias para entender o mundo autofágico da política. Partindo da realidade política palaciana, o conceito se emoldura em sua forma moderna entre o XVIII e o XIX. Um golpe de Estado é uma anormalidade institucional, assim como uma revolução, uma revolta, uma invasão ou um impedimento, mas se diferencia destas outras em sua forma. Os historiadores hoje entendem golpe como a interrupção de um mandato ilegalmente por parte de membros internos à própria instituição.

Este é o caso do ocorrido no Brasil em 1964: há uma interrupção – vacância do cargo de Jango – ilegal – constitucionalmente, o mandato seria inviolável – por membros internos – Exército, que é parte do organograma do Estado – à instituição – Estado brasileiro.

Entenda como se compôs o cenário em que uma atitude drástica como um golpe militar foi viabilizada e com amparo de parte da sociedade.

Equipe de governo de Vargas, em que vemos Jango / Wikimedia Commons

Para tanto, voltamos a 1961, ano fulcral deste processo. Neste período, o presidente Jânio Quadros, numa tentativa de reatar relações com a população e aumentar seu poder, declara sua renúncia. Com isso, fica legalmente indicado que assuma o vice-presidente eleito, João Goulart, do PTB. Jango, na visão dos militares, era tido como um comunista – mesmo que sua proposta política desenvolvimentista beire a social-democracia – e não poderia assumir. O gaúcho, para piorar sua situação aos olhos dos militares, voltava de uma viagem diplomática à China. Com a oportunidade, os militares da alta patente se aproximam do Congresso e aprovam um fechamento institucional que é solucionado com um acordo com Jango: ele assumiria como prevê a Constituição, mas seria sob regime parlamentarista.

Essa anormalidade foi estranha não somente pela ilegalidade, mas também pela intangibilidade do regime na tradição política brasileira. Em 1963, por iniciativa da situação, é convocado um plebiscito nacional com o tema do regime político. Ganhando com 82% dos votos, o Brasil volta a ser presidencialista, tendo João Goulart como líder legal.

Jango tinha um histórico relevante, principalmente ao lado de Vargas. Inclusive, foi seu ministro do Trabalho na década de 1950. Com isso, a direita mais conservadora, que ocupava espaços de poder no Clube Militar e na UDN, que detesta o legado varguista, volta a ameaçar o governo do presidente. Ao mesmo tempo, João Goulart tinha como eixo principal do governo a “Bandeira Unificadora” das Reformas de Base, um dossiê de propostas reformistas de reajuste estrutural de diversas esferas que competem ao governo, com o objetivo de humanizar e dinamizar a economia brasileira e o funcionamento da máquina democrática. Com isso, Jango defendia bandeiras como o direito irrestrito ao voto, incluindo analfabetos e soldados (que não votavam na época), a distribuição de lotes de terra na forma de propriedade privada rural (reforma agrária), uma reforma fiscal visando à distribuição da renda etc.

Comício da Central do Brasil / Wikimedia Commons

O governo de Jango foi marcado principalmente pela polarização política e ideológica. No cerne da Guerra Fria (e poucos anos após a vitória dos revolucionários cubanos em Havana, fazendo pairar ameaças exageradas da paranoia anticomunista), a sociedade, extremamente politizada à época, experimentou uma radicalização desta polaridade, que se traduz na série de manifestações e expressões públicas da sociedade civil em relação ao governo e suas opiniões, contra e a favor de Jango. Foi o momento, por exemplo, do Comício da Central do Brasil (que, junto da anistia presidencial aos marinheiros amotinados, alimentou o discurso direitista de que Jango era radical e imprudente demais para governar) dos janguistas e da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, exigindo intervenção militar contra o “comunismo infiltrado e antibrasileiro”.

Por outro lado, os militares estão inseridos num contexto de hipérbole da lógica da Guerra Fria. Versado na Doutrina de Segurança Nacional, o alto escalão das Forças Armadas estava estritamente associado à Escola Superior de Guerra do Panamá, órgão chefiado por órgãos da segurança dos EUA, em que os militares latino-americanos eram ensinados sobre a ideologia liberal americana, a doutrina de alinhamento com o país e a luta anticomunista. Com isso, há a formação de toda uma geração de mandatários militares que têm menos interesse na integridade institucional de seus países e mais no direcionamento ideológico e moral puxado a um nacionalismo conservador e autoritário.

Diante de todo esse contexto, migremos para o fatídico ano de 1964. Os conspiracionistas militares, mesmo que não de forma monolítica, tinham já entendido a suposta necessidade de derrubar João Goulart. Nessa lógica, no dia 31 de março de 1964 – hoje fazendo 55 anos –, o general Olímpio Mourão, do batalhão de Minas Gerais do Exército, pega uma série de tanques e ruma pela estrada em direção ao Rio de Janeiro. Lá havia um grande contingente populacional antijanguista, incluindo o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, ícone do antivarguismo. Mourão acumula contingente e apoio no Rio de Janeiro de Lacerda e na São Paulo de Adhemar de Barros.

Tanques chegam a Brasília / Wikimedia Commons

Do Rio de Janeiro, os tanques conspiracionistas se voltam a Brasília. Na virada da noite, os golpistas já tinham ocupado o Planalto e exigiam a saída de Jango, que, incapaz de reagir, foge da capital e vai para o Rio Grande do Sul, onde tem grande base de apoio. O Rio Grande do Sul, historicamente, se associou à defesa dos projetos ligados a Vargas e Jango, tendo Leonel Brizola como governador e defensor da “Legalidade”, ou seja, a manutenção dos mandatos democraticamente eleitos.

Porém, para além do uso de contingente militar contra um representante do povo eleito, está no momento de ocupação do Congresso Nacional o principal indício de ilegalidade desse processo. Com o recuo de Jango, o líder do Parlamento, Ranieri Mazzilli, associado à conspiração militar, declara vaga a Presidência da República, argumentando que o presidente abriu mão do cargo ao ter fugido e estaria fora do território nacional (supostamente Uruguai). Porém, Jango estava no sul do país e isso era fato conhecido. Ao assumir o cargo de presidente com esse argumento, Mazzilli rasga a Constituição de 1946 junto aos militares, dando fim a um ciclo político democrático iniciado com a queda do Estado Novo.

Mazzilli passa faixa para Castelo Branco / Wikimedia Commons

Com a vacância da Presidência, o Congresso convoca uma nova eleição indireta para declarar um indicado da junta militar como chefe de Estado. Elegem assim Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente militar e membro da ala moderada entre os golpistas. Todo o processo vai envolver não somente o exílio de Jango, mas uma série de cassações em massa de deputados, governadores e membros de partidos políticos ligados tanto à esquerda quanto à direita. Até Carlos Lacerda, udenista de extrema-direita, foi perseguido pelos militares depois de um tempo. Logo no primeiro ano, a liberação de longas listas de cassação política remodelou a configuração das forças políticas no Estado. O PTB e o PSD passam a sofrer sanções governamentais claramente autoritárias. O calor do golpe atingiu até as Forças Armadas: além dos membros do Exército que eram de esquerda (Henrique Teixeira Lott se destaca, mas não era o único), hoje se calcula que mais de 6 mil militares, incluindo oficiais, foram afetados diretamente com as cassações e mortes do golpe.

Padres católicos tentam conter agentes da repressão / Wikimedia Commons

Ao mesmo tempo, o golpe envolveu uma confusão interna dentro da própria aliança golpista, em que pairava a dúvida sobre o retorno ou não da normalidade institucional dos anos anteriores. Castello Branco defendia o retorno do poder democrático às mãos civis, mas foi a ala ligada à “Linha Dura”, de Costa e Silva, que tomou as rédeas do processo e conduziu o golpe à instalação de um governo ditatorial que vai durar até 1985, com a morte de opositores, o fechamento do Congresso, a tortura sistemática e o uso de eleições indiretas para a manutenção do governo pelo Alto Escalão do Exército. Muitos morreram e desapareceram durante a ditadura (e não somente esquerdistas ligados à guerrilha) e a democracia brasileira até hoje é abalada pela desestruturação da democracia possibilitada pelo movimento vertical dos militares em 1964. Quando recomendaram a Jango que fechasse o Congresso para passar as Reformas, Jango recusou. A junta militar devia ter feito o mesmo.

Encerra-se com uma citação do presidente, general e ditador Ernesto Geisel sobre a alcunha de “golpe” ao movimento de 1964: “O que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções fazem-se por uma ideia, em favor de uma doutrina. Nós simplesmente fizemos um movimento para derrubar João Goulart. Foi um movimento ‘contra’, e não ‘por’ alguma coisa. Era contra a subversão, contra a corrupção. Em primeiro lugar, nem a subversão nem a corrupção acabam. Você pode reprimi-las, mas não as destruirá. Era algo destinado a corrigir, não a construir algo novo, e isso não é revolução”.

Parada militar acontecendo dentro de batalhão, em que se expõe no desfile um preso no pau de arara / Documentário ‘Arara’

PARA CONHECER MAIS, RECOMENDAM-SE ALGUMAS OBRAS BÁSICAS:

Marcos Napolitano, 1964: História do Regime Militar Brasileiro

Octavio Ianni, O Colapso do Populismo do Brasil

Carlos Alberto Brilhante Ustra, A Verdade Sufocada: a história que a esquerda não quer que o Brasil conheça

Glaucio D. Soares, A democracia interrompida (Partidos Políticos 1945-1964).

Paulo Evaristo Arns (org). Projeto Brasil Nunca Mais

Adriano Codato. O golpe de 64 e o regime de 68. História, Questões e Debates

Camilo Tavares: O Dia que durou 21 anos (Documentário)

Leon Hirszman. Maioria Absoluta (Documentário)

Felipe Cânido. Arara: Um Filme Sobre um Filme Sobrevivente (Documentário)

Em instantes o Blog do Barreto traz reportagem especial resgatando o contexto do Golpe no Rio Grande do Norte.

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A história de Lauro da Escóssia, lendário jornalista mossoroense

Vasculhando o Google para buscar informações sobre Lauro da Escóssia para contribuir numa pesquisa do colega jornalista Eliabe Alves encontrei um trabalho marcante do início de minha carreira jornalística: o caderno especial em homenagem ao centenário de Lauro da Escóssia publicado em 16 de março de 2005 em O Mossoroense.

Um dos primeiros desafios que recebi e com muita honra cumpri. Lauro da Escóssia é uma figura marcante na história do jornalismo local.

Confira o conteúdo do caderno especial produzido há 14 anos:

Lauro da Escóssia

 

Decano do jornalismo chega aos 100 anos de história

Bruno Barreto

Da Redação

“Tudo quanto escrevi, procurando enfeixar em um livro, revela o desejo de deixar para a posteridade, ao simples contato de meus conterrâneos, um pouco da imagem do passado guardado na lembrança deste conterrâneo e amigo”, a frase atribuída a Lauro da Escóssia revela bem o amor deste mossoroense, nascido no dia 14 de março de 1905, pelo povo de sua cidade de origem.

Lauro que completaria 100 amanhã teve uma vida intensa, professor formado pela escola normal foi responsável pela reabertura de O Mossoroense, a grande paixão de sua vida, em 1946 com a ajuda de Jorge Freire de Andrade, Ving-ut Rosado e José Augusto Rodrigues.

Antes já havia trabalhado no jornal como repórter no mesmo periódico tendo como ponto alto em 1927 quando foi o responsável pela cobertura da invasão do bando de Lampião a capital do Oeste, ocasião em que ele conseguiu entrevistar o cangaceiro Jararaca antes mesmo que o mesmo fosse interrogado pela polícia. Este é considerado um dos maiores furos de reportagem da história da imprensa potiguar, graças a isso o jornal, com 5.400 exemplares vendidos, atingiu a maior vendagem de sua história.

Lauro da Escóssia casou-se duas vezes a primeira delas com Dolora Azevedo do Couto Escóssia com quem teve 8 filhos, após a morte dela casou com Lourdes Alves da Escóssia adotandos seus filhos, com ela se manteve casado até a sua morte em 19 de julho de 1988. “Lauro foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, foi meu amigo, companheiro e marido. Tanto é que após a sua morte nunca mais casei. Em nossa vida nunca houve cansaço nem de minha parte nem da dele. Em minha mente está sempre a impressão de que ele está viajando, quando isso acontece sinto muita paz”, conta sua esposa Lourdes Escóssia.

Segundo seus familiares Lauro da Escóssia era dono de um temperamento muito explosivo. “Lauro trazia no sangue o arrebatamento e a impetuosidade de seu avô, Jeremias. Panfletário e sem medo herdou tantos traços de identificação, revelados nas suas ações e reações, por vezes bruscas, senão violentas, que sempre reclamam conduta irredutível, coragem e espírito de deliberação”, assim foi descrito pelo ex-prefeito de Mossoró Raimundo Nonato em depoimento para o livro ‘Escóssia’ de autoria do jornalista Cid Augusto.

Apesar do temperamento forte Lauro da Escóssia era um homem que não guardava rancores. “Papai estourava, mas dali a dois minutos já estava bonzinho”, revelou sua filha Margarida Escóssia.

A sua relação com os filhos era muita aberta e pautada pelo carinho. “Papai era um homem à frente de seu tempo absorvia muito bem as mudanças e era muito atencioso com todos nós, a única ressalva que ele tinha com a gente era quando a gente ia para a churrascaria O Sujeito (onde hoje se localiza o clube Carcará), como ele nunca podia ir e mamãe sempre ia conosco ele dizia brincando que a gente seria levado pelo rio e parar em Porto Franco (atual Grossos)”, conta Margarida. 

Essa boa relação com os filhos se repetiu com os seus netos também, a recíproca por parte dos netos era verdadeira tanto que todos eles lhe chamavam de Vôzinho. “Me recordo como se fosse hoje das conversas do meu avô, ele era um homem muito centrado em si, pensava um pouco pra falar, mas suas palavras eram sempre sábias, tinha o poder de nos dar segurança quando era abordado sobre qualquer assunto. Lauro da Escóssia não foi só um grande jornalista, ele foi também um grande avô e sempre encontrava hora para nós, por isso todos nós netos chamavam ele de Vôzinho”, afirma Daniele da Escóssia.

Apesar de fazer história em Mossoró Lauro da Escóssia era um homem de hábitos simples. “A falta de vaidade de Papai era tão grande que ele fazia questão de ter apenas um par de sapatos. O prato preferido dele era bolo de leite, diabético, ele pagava para a empregada comprar o bolo escondido da gente”, conta Margarida da Escóssia.

Lauro não fazia distinção entre seus amigos tanto podia ser amigo dos mais ilustres como dos mais simples. A prova disso é que duas de suas grandes amizades foram o ex-governador Dix-sept Rosado (falecido em 1951) e o pedreiro Francisco Constantino o ‘Chico Boseira’. “A amizade de papai com Dix-sept era desde os tempos de prefeitura, quando ele foi secretário, a fidelidade era tamanha que um dia o ex-governador pouco antes de falecer pediu para papai guardar um bilhete em segredo o que ele fez até o final da vida. Já com Chico era uma amizade muito divertida, eles conversavam e se davam muito bem, ele brincava muito com Chico chamando ele de poliglota porque ele fazia de um tudo era pedreiro, encanador e eletricista”, revela Margarida.

‘Chico Boseira’, ainda está vivo e relembra a sua relação com o amigo. “Quando lembro do meu amigo, vem duas coisas a minha memória: a primeira era que ele dizia que eu era seu filho mais velho e a segunda eram as nossas conversas sempre descontraídas ele sempre pedia para eu contar anedotas e fazer cantigas populares. Até o meu apelido quem colocou foi Lauro, antes me chamavam de ‘Chico Roseira’ porque todos jardins que plantava davam certo, uma vez ele pediu para eu fazer um para um na sua casa e as plantas morreram e ficou tudo sujo aí ele mudou o meu apelido”, diz.

O seu grande prazer nas horas de descanso era ir ao Sítio Senegal, localizado em Alagoinha, que levava esse nome por ser muito seco. Lá ele ia tomar conta das cabras e galinhas que criava.

Nos últimos dias de sua vida, Lauro da Escóssia esteve muito doente, mas não perdia o bom humor. “Ele sempre estava de bom humor independente das doenças das doenças que lhe atingiam”, conta a viúva Lourdes Escóssia.

 

Lauro se tornou nome de rua e museu

 

A intensa vida de Lauro da Escóssia não poderia deixar de lhe render inúmeras homenagens. As mais visíveis são: a cessão de seu nome à rua localizada no Abolição  IV e ao Museu ao qual dedicou os últimos anos de sua vida.

Seu nome foi dado a uma das ruas do Abolição IV na década de 80 através de um decreto do então prefeito Dix-huit Rosado em reconhecimento a sua contribuição sociocultural dada a cidade. Era justamente nesse trecho que ele passou os últimos fins de semana de sua vida.

Outra homenagem importante o decano só recebeu após a sua morte: trata-se da medalha de reconhecimento outorgada pela Câmara Municipal, em setembro de 1988.

No entanto, a mais importante de todas as homenagens que Lauro poderia receber era doar o seu nome ao Museu Municipal, a antiga Cadeia Pública onde ele entrevistou o cangaceiro Jararaca, em 1927.

O museu passou a ter o seu nome em 18 de julho de 1991, após a então prefeita de Mossoró, Rosalba Ciarlini, sancionar projeto de lei do vereador Júnior Escóssia, após acatar sugestão do então diretor da casa de cultura, João Bosco de Queiroz Fernandes. “Tio Lauro era muito ligado ao museu, mesmo doente ele não deixava de vir até aqui”, conta Maria Lúcia da Escóssia, atual diretora do museu.

Para se ter uma idéia do amor e dedicação de Lauro da Escóssia ao museu, próximo à sua morte ele fez a seguinte confidência a um grupo de pessoas que estavam ali com ele, entre elas o pesquisador Raimundo Brito. “Com os olhos cheios de lágrimas, Lauro proferiu a seguinte frase: ‘Sei que vocês vão me enterrar, mas a minha alma vai ficar aqui dentro'”, relatou Raimundo Brito.

 

Intelectuais falam sobre trabalho de Lauro da Escóssia

 

Grandes amigos de Lauro da Escóssia homenagearam entre eles, intelectuais do calibre de Ving-un Rosado, Raimundo Brito e Dorian Jorge Freire.

O historiador Vingt-un Rosado destacou a dedicação de Lauro da Escóssia ao Jornalismo. “Era um homem humilde que foi um servidor do Rio Grande do Norte, como um jornalista que virava noites na redação em uma vigília incansável”.

O jornalista Dorian Jorge Freire o considera o maior jornalista da história da imprensa mossoroense. “Lauro foi o maior jornalista que Mossoró já teve, quando o jornal saía era sempre um grande momento, com ele nunca houve censura”, afirmou.

Já Raimundo Brito preferiu falar sobre a relação de Lauro com o Museu Municipal que hoje leva o seu nome. “Sobre Lauro prefiro repetir aquilo que foi colocado no livro que ele escreveu sobre a história de Mossoró: …a vida de Lauro, a história de Mossoró e a de O Mossoroense, como se vê tudo ali é uno e indivisível. Uma coisa assim parecida com a santíssima trindade…”

 

Livros de Lauro foram publicados nos últimos dez anos de vida

 

A produção literária de Lauro da Escóssia ficou restrita aos últimos dez anos de sua vida. O seu primeiro livro, publicado em 1978, ‘As dez Gerações da Família Gamboa’, em que ele fez um estudo genealógico sobre os descendentes do alferes Manuel Nogueira de Lucena, fundador da família Gamboa.

Três anos depois, o decano do jornalismo potiguar escreveu ‘Memórias de um Jornalista de Província’, no qual fala sobre momento importantes que viveu ao longo da história de Mossoró como a fundação das primeiras entidades recreativas e esportivas, relatando a chegada do primeiro automóvel e do primeiro avião, invasão do bando de Lampião, as secas de 1915 e 1917, fundação do Tiro de Guerra e do Grupo de Escoteiros, criação da Escola Normal e de sua atuação político-partidária nas revoluções de 1924 e 1930.

O ‘Futebol da Gente’, de 1982 aborda a história do esporte em Mossoró, com destaque para o momento em que cita o fato de Celina Guimarães ter sido a primeira mulher de que se tem notícia a ter arbitrado um jogo de futebol no Rio Grande do Norte.

Em 1983, ele publicou mais dois livros, ‘Cronologias Mossoroenses e ‘Desfolhando a Saudade’, o primeiro faz uma síntese histórica da cidade, através de fatos e acontecimentos numa seqüência cronológica desde aos primórdios da capital do Oeste. Já no segundo, o autor reúne textos de sua irmã mais nova Maria Escossilda, em O Mossoroense e outros pequenos jornais nos quais ela colaborou até a sua morte, em 1935.

Em 1986 foi a vez de Lauro lançar a sua penúltima obra literária, ‘Anedotas do Padre Mota – Vultos Populares e Outras Coisas de Mossoró…’. Este livro é dividido em três partes: a primeira reúne o anedotário produzido pelo ex-prefeito e vigário da Diocese de Mossoró, Padre Mota; na segunda, faz alusão às histórias dos tipos populares que conviveu; já a terceira e última etapa deste livro reúne crônicas sobre a cidade.

No ano de sua morte, Lauro da Escóssia publicou seu último livro ‘A Maçonaria em Mossoró’, no qual relata a história da maçonaria em Mossoró desde os seus primórdios.

 

Ex-funcionários lembram do jornalista

 

Divertido e exigente, este era ‘Seu Lauro’, como os funcionários de O Mossoroense se referiam a Lauro da Escóssia, um homem que conseguia o respeito e admiração dos que o acompanhavam na lida.

Francisco Guerra, um dos mais antigos funcionários deste jornal, lembra que a convivência com o jornalista era uma festa. “Quando o jornal ficava pronto ela gostava de levar a gente para jantar, mas antes, durante o serviço, ele era muito rígido”, lembra.

Cosme Freire, o ‘Vovô, outro antigo funcionário de O Mossoroense, disse que sempre que lembra de Lauro é pela dedicação dele ao jornal. “Era impressionante, ele dormia no jornal às vezes”, conta.

José Ferreira Filho, que trabalhou com ‘Seu Lauro’, falou sobre o temperamento de seu antigo patrão: “Ele era um misto que ninguém entendia, era explosivo e ao mesmo tempo não era, quando ele estourava o que era dito não afetava a ninguém”, conta.

 Todos os funcionários eram tratados como se fossem seus filhos. “Seu Lauro tinha mais filhos do que os de sangue, é uma imensa lista: Juarez, Paulinho, Dedé Pretinho, Zé Almeida, Miúdo, Lauro de Pedrinho, Surica, Vicentinho, Gabriel, Peruca, Emery Costa, Guerra, os dois Vovôs (Cosme e Damião), Anastácio, Julimar, Chico Boseira, Cizinho, Wilson Bezerra, Maia Pinto, Zé Maria Alves, Zé Maia, Chico Bento, Shao-lin, Amâncio, Arnaldo, Toinho Silveira, Ivonete de Paula, Marcelino, Jânio, Socorro, João da Cruz, Flor de Maria, Bezerra, Sônia Lima, Emiliana, Nilo Santos e tantos outros que não me vêm à memória”, relata.

 

Lauro atuou também em várias áreas

 

Além do museu e do jornalismo, Lauro da Escóssia atuou em áreas variadas que iam desde a política até o desporto, passando pela educação, maçonaria.

Mesmo nunca tendo assumido cargo eletivo a atuação política de Lauro da Escóssia foi muito intensa, integrante de dois partidos: o Partido Popular e do Partido Republicano.

Foi opositor da Revolução 1930 comandada por Getúlio Vargas. Foi partidário da Revolução Constitucionalista de 1932, que ocorreu em São Paulo com objetivo de implantar uma constituição no país que vinha há dois anos sendo comandado por um governo provisório.

Convidado duas vezes a se candidatar a deputado estadual recusou-se a disputar a vaga à Assembléia Legislativa, preferindo se envolver com a política através de seu jornal, que chegou a ser fechado duas vezes em virtude de suas posições a favor do regime democrático.

Lauro atuou como secretário em Mossoró nas administrações  municipais de Padre Mota, Dix-sept Rosado e Jorge Pinto. Sem contar que também foi presidente do Tiro de Guerra de Mossoró e o Centro Regional de Escoteiros de Mossoró.

A sua atuação política se estendeu ao desporto quando dirigiu entidades como a Associação Mossoroense de Desportos Atléticos (atual Liga Desportiva Mossoroense), dirigiu o Humaitá Futebol Clube, o Clube Atlético Mossoroense e a Liga Operária de Mossoró.

Outra área que Lauro atuou foi na Maçonaria, ele fundou a Loja Maçônica João da Escóssia. Ele foi o primeiro venerável, cargo máximo de uma loja.

Além disso, Lauro foi professor primário formado pela Escola Normal de Mossoró, em 1925, em 1928 começou a dar aula no serviço público, em 1930 foi contratado em definitivo, ele trabalhou durante 33 anos nessa área. Lauro ainda foi um dos responsáveis pela vinda do Tiro de Guerra para Mossoró e um de seus primeiros presidentes.

 

Lauro da Escóssia aos 100 anos

Vingt-un Rosado

 

Na celebração dos seus grandes filhos, as cidades costumam juntar, num mutirão de excelência, clero, nobreza e povo. 

Certamente a prefeita Fafá e a governadora Wilma terão sensibilidade suficiente para levar os seus governos a assumir uma participação efetiva nas festividades comemorativas do centenário de Lauro da Escóssia, um grande de Mossoró.

O evento não pode se limitar a um programa do círculo familiar, mas deve despertar a província inteira, além dos lindes municipais.

Porque Lauro foi um servidor devotado do Rio Grande do Norte, como jornalista, principalmente, ele executava todas as tarefas de um jornal do interior, todas, desde a mais humilde até a de redação e virava as noites, numa vigília incansável, para que no outro dia a cidade dispusesse do seu centenário “O Mossoroense”.

Jeremias da Rocha Nogueira fora o fundador em 17 de outubro de 1872, na fase do combate acirrado da maçonaria contra a igreja católica.

Um guerreiro da Loja Maçônica 24 de Junho contra o vigário Antonio Joaquim Rodrigues, da igreja católica.

Eis o seu avô.

A segunda fase é de João da Escóssia Nogueira, o xilógrafo, cujo pioneirismo na arte em que era um mestre, apesar de autodidata.

Homem de talento extraordinário que está despertando o interesse de centros culturais do país.

Eis o seu genitor, o construtor da fase que começou em 12 de junho de 1902.

Lauro e Escossinha carregaram com muita garra, coragem, humildade, desprendimento as tarefas que herdaram de Jeremias da Rocha Nogueira e João da Escóssia.

Funcionário público, Lauro o foi com zelo e probidade.

Diplomado em 1925 pela tradicional Escola Normal de Mossoró, na turma de que faziam parte, dentre outros, o memorialista Raimundo Nonato da Silva, o fabuloso retirante da seca de 1919 e Lauro Reginaldo, o “Bangu”, que seria por duas vezes secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, cargo também ocupado por Luís Carlos Prestes, “o cavaleiro da esperança”.

Diretor do museu municipal, que eu organizara no tempo de Dix-sept, desdobrou-se em iniciativas culturais de valor.

Professor do ensino primário, tantas vezes perseguido pela independência do seu procedimento, como jornalista combativo.

Memorialista e historiador, deixou livros importantes para o estudo de Mossoró e sua região.

Desejo distinguir “As Dez Gerações da Família Camboa”, para mim o mais importante título da genealogia potiguar.

Um livro que resultou de pesquisas axaustivas, uma vez que o linhagista Francisco Fausto de Souza estudara as cinco primeiras gerações.

No livro de Lauro está a própria história de Mossoró.

Ao terminar este depoimento singelo, quero homenagear três bisnetos de Lauro e Dolora, que são netos de Vingt-un e América, filhos de Lauro da Escóssia Neto e Lúcia Helena Rosado da Escóssia: o universitário Laurence Rosado da Escóssia, hoje habitante do país da saudade, Wagner Rosado da Escóssia, que deverá concluir no agosto próximo a sua graduação em Ciência Jurídicas e Sociais e a odontóloga Cynthia Rosado da Escóssia.

Tibau, 13 de fevereiro de 2005.

 

Escrevendo com o coração

Lauro da Escóssia Neto

 

Pediram-me para escrever  sobre Lauro da Escóssia. Eu, seu primeiro neto, sua terceira geração… Não trago no sangue seu gene de escritor e jornalista modestamente dito de província. O que posso dizer de “vôzinho”?  Serei suspeito para falar no homem  que foi  avô e pai devotado? Não. Tendo compartilhado durante toda a sua vida de suas amarguras e esperanças, vejo-me qualificado a rememorar, não o jornalista, o memorialista e escritor, mas o homem Lauro da Escóssia em toda sua infinita modéstia. 

 Em um dia desses qualquer, às primeiras horas da  Ave Maria, na Rádio Difusora de Mossoró, lida pela voz de Genildo Miranda, um   transglobe  captava suas ondas, e a brisa quente e suave trazida pelo nordeste, embalava prazerosamente a cadeira de balanço de seu Lauro, em sua calçada à rua Dr. Mário Negócio, 158.

 Normalmente, à exceção da segunda-feira, que era dia  de Maçonaria, estava  em sua calçada, à luz do poste da “Comensa” localizado exatamente em frente à porta principal de sua casa.

Ali sentado com a companheira de toda sua vida, dona Dolora, rádio posto ao colo, ofertava a  quem passava, um fraternal “boa noite fulano de tal.” Conhecia a todos.  Moradores e comerciantes da sua rua e adjacências retribuíam com satisfação o boa-noite de seu Lauro. Naquele tempo, mães, pais, avós, tios, vizinhos, eram autoridades presumidas, dignas de respeito e consideração. Os valores morais eram outros.  Não se duvidava do caráter das pessoas.  Por preservar estes valores, seu Lauro podia desfrutar de sua calçada e ter a porta aberta nas noites quentes de verão.

Era uma rua residencial. O comércio existente na época, resumia-se ao armazém de Raimundo Marques, de onde saía o misto de Isidoro para Tibau; Rubens Pinto & Cia; a padaria de seu Eli; o armazém de seu Chiquinho  Andrade, alguns poucos cafés, e já no final do quarteirão, a serraria de seu Otávio. Em tempo: havia também a academia de jiu-jitsu do Dr. Diniz Câmara, que funcionava na sua própria casa. Homem forte e robusto, no tatame distribuía golpes pra todo lado, para infelicidade geral dos seus magérrimos alunos.   Se não me falha a memória, este era o comércio da rua Mário Negócio naquele tempo. 

A rua era uma tranqüilidade. Poucas pessoas possuíam veículos e na maioria das vezes, andavam a pé, já que não existia ainda transporte coletivo, a não ser os táxis do Posto Cinco e Santa Luzia. Imagine quantas pessoas passavam pela calçada de seu Lauro ofertando-lhe um sonoro “boa-noite”  quando não paravam para trocar   algumas palavras..

Impreterivelmente, todos os dias, às 5 horas, a pé,  fazia sua peregrinação matinal ao Mercado Público. Lá era o ponto de encontro de amigos e compadres, comparsas das doces prosas matinais. Havia o açougueiro João Tobias, o gazeteiro seu Tico já com “O Mossoroense” , “novinho em folha”, e Antonio Bezerra,  com seu armazém de cereais.

Fui várias vezes com ele ao Mercado, menino-criança, cheguei a  participar algumas vezes de sua roda de amigos. Todos sorriam em paz e faziam graça sobre coisas  simples que hoje não vemos mais.

Ao retornar para casa, deixava a feira e partia para o trabalho.  Ia embora, como sempre foi: a pé, apesar do corpo pesado e do joelho doente. Era avesso a médico. Assim como partia, chegava: cansado e ofegante, mas sempre sorrindo.

Apesar das adversidades que a vida lhe proporcionava, sempre encontrava um coração afetuoso que lhe dizia para seguir em frente. Era  Dolora, sua esposa, minha avó e mãe, que trazia consigo a fé do mundo todo, buscando em Deus e em Santa Luzia, a mágica divina de poder criar e educar bem os seus sete filhos: Lauro, Danilo, Margarida, Concita, João, Carmem e Guga, e de quebra, Coné e Noemia.

Lauro da Escóssia viveu com completo desamor ao dinheiro. Sua vida era a família, O Mossoroense e a Maçonaria que ele tanto amou.

Não me cabe aqui falar da sua importância para a imprensa potiguar. Todos já sabemos. Só não sabíamos como era o dia a dia do homem que deixou marcado na sociedade mossoroense, sua luta, seu amor ao trabalho, a  paixão pelas coisas de sua terra. Encontrei no livro de Francisco Obery Rodrigues, Rua Coronel Vicente Sabóia, coleção mossoroense, série “C” vol.1180, pg.86, uma bem próxima descrição do meu avô: “Era assíduo e dedicado ao jornalismo. De temperamento ardoroso, foi um profissional combativo, parecendo ter sido o que herdou, em maior grau, o ardor cívico, o denodo e a coragem de Jeremias da Rocha Nogueira…Participou ostensivamente da política, sempre na defesa dos interesses de nossa terra.”

Lauro da Escóssia deixou para nós  exemplo de vida e coragem, levantando uma bandeira de paz e  profunda consciência política e social. Este era Lauro da Escóssia. Seu Lauro para uns tantos outros, vôzinho para mim.

 

Vozinho: um gosto pela vida

Liliana da Escóssia Melo

Por ter sido Vozinho um jornalista, homem afeito às letras, e ser eu uma psicóloga, professora, igualmente afeita às letras, quase viciada em saber – saber do mundo, das pessoas, de suas semelhanças e diferenças, seus encantos e desencantos, seus medos e ousadias, suas capacidades inventivas e destrutivas, enfim, de tudo que é “humano, demasiadamente humano” – era de se esperar que a grande influência exercida por ele na minha vida fosse o gosto, a curiosidade e o interesse pelo conhecimento. Não que isso não seja verdade.

Mas Vozinho deixou-me outras coisas. Deixou-me, principalmente, um imenso gosto pela vida. Não a vida em seu sentido mais abstrato e idealizado, mas a vida concreta, que se traduz nos espaços que escolhemos para habitar, nas atividades que realizamos cotidianamente, na rede de amigos e amores que construímos ao longo da vida, nos sonhos que insistimos em realizar, nas nossas pequenas e grandes ações, nos nossos desejos.

Deixou-me ainda um compromisso ético com a vida: nunca se submeter àquilo que nos enfraquece, que nos subtrai a potência do viver. Vozinho era assim: apostava numa vida bela, bem vivida e intensa. Mesmo que isso resultasse numa vida “menos extensa”.  Personagem paradoxal, a um só tempo, eficiente e suave, firme e terno, beligerante e delicado, pesado e leve. Leve, ao ponto de me acompanhar – em seus primeiros tempos de viuvez – nas minhas primeiras incursões aos salões de dança. E não pensem que era para dançar valsa. Quando encontro algumas amigas da adolescência elas lembram sempre de Vozinho dançando rock com a gente na ACDP (ainda existe?), ou em alguma boate da cidade, quando íamos de Natal passar férias em Mossoró. Vivemos isso com o prazer de quem vive algo surpreendente e encantador.  A sua presença lúdica e protetora (juntamente com Badi) foi um ingrediente indispensável para que pudéssemos experimentar as aventuras próprias daquela idade.

É bem verdade que Vozinho era desmedido em alguns aspectos, como, por exemplo, em relação a sua dieta alimentar. Mas, ao mesmo tempo, havia nele uma sabedoria das doses e das misturas, sabedoria própria dos artistas, dos que operam misturas inusitadas entre cores e formas a fim de produzir uma obra. Vozinho era assim: na sua mistura de ingredientes produziu gestos, textos, livros, jornais, amigos, uma imensa família, uma bela vida, uma obra de arte.

Lembrar de Vozinho é um exercício que situo entre a vida e o póstumo, entre a alegria de quem ganhou algo que nunca perderá e a saudade de um tempo irreversível, que permanece marcado na memória e no corpo.

 

Jornalista Lauro da Escóssia: um amigo de infância

 

LÚCIA ROCHA

 

Durante a infância tive amizade com algumas pessoas de idade avançada. Quando falam em seu Lauro da Escóssia, digo que foi meu amigo de infância. Explico: ele era avô de Florina, Cláudia e Valéria – filhas de Margarida Escóssia – e minhas amigas de infância. Fomos vizinhos na rua Mário Negócio. 

A gente se divertia na rua mesmo. Na construção da Padaria 2001 brincávamos de esconde-esconde no canteiro de obras. Mas quando as brincadeiras eram na casa delas, que moravam com o avô jornalista, eu deixava de brincar e ia conversar com seu Lauro, meu primeiro professor de jornalismo. Deliciava-me ouvindo suas histórias de repórter de província.  

Em casa ele passava o tempo todo lendo. Por diversas vezes me contou da entrevista com Jararaca na cadeia pública de Mossoró, onde hoje é o museu que leva o seu nome.

No verão de 1988, passei as férias na redação de O Mossoroense colhendo material para um trabalho da UFRN. Nem acreditava que estava mexendo e tocando nas coisas de seu Lauro… Uma pessoa de caráter, que viveu para o jornalismo ético, comprometido com a verdade, com os fatos e não as versões. Que fazia jornalismo e não bajulismo. Hoje um fenômeno mundial. 

Para quem não sabe, Lauro da Escóssia fazia de tudo no jornal: fotógrafo, repórter, vendedor e criador de anúncios, administrador, chefe de reportagem, editor, diagramador e por aí vai. Sem esquecer que ele fazia tudo isso numa época em que não havia computador, notebook, gravador, Internet, MSN, celular, fax, carro de reportagem, link e tudo o que nossos veículos de comunicação oferecem como ferramenta para o repórter de hoje.

Sempre estou me lembrando de seu Lauro. E aprendendo com suas atitudes, iniciativas e ousadia. No ano passado um colega não estava conseguindo fazer uma matéria com doutor Milton Marques e pediu ajuda, pois o homem estava ocupado demais com as instalações da TCM.

Consegui um tempo na agenda dele e a tal entrevista ficou para as 15 horas. O homem ocupadíssimo transferiu outras ocupações. Ficou à tarde toda preso a esse compromisso e o repórter não apareceu. Pior, não comunicou nada.

Fiquei sabendo disso depois, por Stella Maris. Liguei para o colega e alegou que ficou esperando um carro do jornal e não apareceu nenhum. Bem, contei a ele a história de seu Lauro e repeti o que disse acima: seu Lauro não tinha isso, isso e aquilo e fazia um jornal inteiro sozinho. Como é que a gente tem hoje isso, isso e aquilo e deixamos de cumprir uma simples pauta?

Veja bem, o repórter ficou na ‘esperança’ de aparecer um carro e, ‘esquecendo’ que o homem da TCM é ocupado demais, poderia tê-lo dispensado pelo telefone, fax, Internet ou celular.

Se vivo hoje, seu Lauro teria ido de mototáxi. 

Lúcia Rocha, cientista social e jornalista, ex-aluna e amiga de infância do jornalismo de Lauro da Escóssia.

 

As três dores de Lauro da Escóssia

FERREIRA FILHO

 

Abril de 1960. Início da campanha para governador do Estado. O então candidato (depois eleito) Aluízio Alves começava a investir alto na mídia, e os órgãos de comunicação estavam “de bem com a vida”. Eu acabara o primário, e minha avó, Dona Cândida (“tratadeira” de mulher de resguardo), levou-me ao jornal O Mossoroense para ser apresentado a Seu Lauro, pedindo-lhe que me arranjasse um emprego. Fazer “qualquer coisa”. “Se você tem vontade de trabalhar, vai se sair bem por aqui”, disse-me ele, com o sorriso sempre aberto.

Aquele homem viria a ser meu pai, profissionalmente falando, pois, filho e neto de dono de jornal, já nascera com o dom da profissão nas veias. Começava ali a minha trajetória de aprendizado dentro das oficinas, sempre incentivado por ele, que, de cara, gostou de mim. Empenhei-me dentro das oficinas e fui galgando profissões, da mais simples a mais sofisticada para a época, que eram de varrer o prédio e derreter chumbo à de linotipista.

Era brincalhão ao extremo, às vezes recriminado severamente pelo filho Lauro da Escóssia Filho. Tratava a todos nós, seus empregados, como a seus próprios filhos. Humano, correto, tinha uma preocupação exagerada com todos que o serviam. Se, na hora da raiva, cometia alguma injustiça, tinha a humildade de desfazê-la com a naturalidade dos justos. Gostava de “atiçar” Zé Almeida (um dos nossos) para fazê-lo dizer impropérios aberrantes, para com isso se contorcer em estrondosas gargalhadas. Fomos expulsos, em 1961, por uma enchente no rio Mossoró, indo para o prédio antigo do Colégio Diocesano Santa Luzia (dos Padres), onde hoje funciona a agência Centro do Banco do Brasil.

Uma grande dor lhe cortou o coração, quando, em 1963, O Mossoroense foi obrigado a fechar suas portas, pois as coisas se tornaram difíceis ao ponto de não poder continuar. Ficou uma pequena gráfica funcionando. Lauro Filho sustentando, quase totalmente, com o seu salário, os poucos empregados que ficaram. Eu me desliguei da empresa em busca de novos caminhos.

Novembro de 1970. Convocado a voltar a O Mossoroense na sua reabertura, encontrei Seu Lauro, sorriso aberto. Acho que renascera. “Zé Ferreira, você faz parte da família O Mossoroense”, dizia-me. Viuvez, nova família, coisas que mexeram com sua vida, não o deixaram diferente para conosco, seus “filhos”. Quando “solteiro”, fizemos muitas farras juntos. Andávamos por aí, ele, eu, Anastácio, Guerra, Vovô e outros, quando se gabava de ser um patrão que tinha bom relacionamento com seus empregados.

  1. A penúltima dor. O Mossoroense foi vendido ao grupo que hoje o comanda. “Gostaria que permanecesse no jornal o mesmo pessoal que comigo trabalhou até hoje”, argumentou. Foi nomeado diretor do Museu Municipal, que hoje tem o seu nome. A 20 de julho de 1988, a última dor (a da morte) se abateu sobre ele, seu nobre coração não agüentou e ele partiu. 12 anos nos separam de Lauro da Escóssia. Não sentimos a sua falta, pois ele cumpriu a tarefa a que foi incumbido aqui na terra. Mas deixou em todos nós, que o conhecemos, um sentimento que não se pode evitar: SAUDADE.

FERREIRA FILHO é do setor de composição da Gazeta do Oeste

 

A vida em tecnicolor é melhor

Tomislav R. Femenick

A última vez que a vi, ela estava desbotada, meio amarelada e corroída nas bordas. Hoje não sei por onde anda. Deve estar perdida em algum vão, algum espaço vazio de alguma gaveta ou armário ou, então, guardada em algum desses pacotes de coisas do passado que todos nós temos, pacotes esses que aumentam de tamanho e número na proporção em que acumulamos anos de existência. É apenas uma fotografia em preto e branco, em tamanho de postal, dessas batidas sem dar tempo para pose e com tempo de exposição muito curto, um instantâneo, mas que teve a capacidade de reter a alma de Lauro da Escóssia – Seu Lauro, quando eu falava com ele, o Velho Lauro, quando eu falava dele.

Foi tirada de manhã cedo, em sua casa na praia de Tibau. Nela, Seu Lauro estava despenteado, ainda vestindo pijama e sorrindo, comedidamente. Quando eu lhe mostrei a foto, ele simplesmente me disse: “É… sou eu. Mas seria melhor se fosse em tecnicolor”. Deu-me as costas, e saiu de porta a fora, atrás de um comprimido de Antineuválgico Rosado, que foi comprar na farmácia ao lado. A foto era sim bem ele. Simples, despojado, e comedido. Mas, se olhássemos bem, ali encontraríamos outras de suas características. Veríamos a sua obstinação, coragem e teimosia em fazer com que nós, os que compúnhamos o quadro de repórteres e cronistas de O Mossoroense, escrevêssemos de forma que desse para o povo ler e entender e, sem “arrodeios”. Indo diretos ao assunto, sem encher lingüiças.

É nesse campo que está o relevo da figura de Lauro de Escóssia. Certa vez, com o original de um artigo de Jaime Hipólito na mão, o chamou e perguntou: “Jaime, o que quer dizer ‘emula’, essa palavra que você escreveu?” Depois de Jaime explicar, ele retrucou: “Jaime, eu que escrevo todo dia, não sei o que diabo é ‘emula’, como é que você vai querer que os leitores saibam? Quem ler jornal é o povo”. Outra vez foi com Walter Gomes. “Walter venha cá. Leia o começo de sua crônica de amanhã”. Walter pegou o original das mãos de Seu Lauro e, com voz impostada, começou a ler o texto que era mais ou menos assim: “Era meio-dia, mas o céu estava escuro, enegrecido pelas nuvens pesadas que cobriam todo o teto do mundo. O frio fazia-me bater os dentes…”. Aí Seu Lauro interveio. “Walter, meu filho, onde é que está essa chuva toda? Os nossos leitores são de Mossoró, do Oeste, onde chuva é pouca, quando há. Quer matar o pessoal de raiva ou inveja?”.

Tive também o meu quinhão. No início da noitada de um sábado, eu estava em uma festa na ACDP, quando recebi um telefone de César de Alencar e Toinho Rodrigues, dizendo que iam mandar um “carro de praça” para que eu fosse até a casa de um deles, pois tinham um grande furo de reportagem para me dar. Fui. Era o lançamento da candidatura de Toinho para prefeito – a primeira vez. Peguei os dados e corri para a redação. A edição do dia seguinte ainda não estava fechada. Falei com o chefe da gráfica que esperasse um pouco que eu ia escrever uma matéria importante. Seu Lauro perguntou se não dava para sair na edição de terça-feira. Eu disse que não e lhe contei o furo. Sua reação foi pronta: “Venha comigo, você vai ditar a matéria para o linotipista, mas nada de palavras desnecessárias, nada de adjetivos, somente as palavras essenciais. Um texto enxuto. Sem a sua mania de encompridar tudo que escreve, pensando que só as suas matérias são importantes”. A notícia foi a manchete da edição. Grande professor da arte de escrever para jornal.

Em certo ano, no final dos anos cinqüenta, no período que antecedeu o carnaval o jornal lançou uma coluna, escrita a “mil mãos”, isto é, por todo mundo, para animar o período momesco. Seu título era “Café? Só, Sai-te”, parodiando o “Café Society”, de grande cronista social carioca Ibraim Sued. Nos primeiros dias, tinha de tudo. Notícias de festas, baile, clubes que se organizavam, o carnaval de do Ipiranga, da ACDP e de rua, porém o que terminou dando a tônica do espaço foi o humor. Certo dia saiu uma notinha despretensiosa, mais ou menos assim: “Comenta-se, em rodas da sociedade local, que uma das senhoritas de determinado clube carnavalesco não precisa gastar dinheiro com máscara, ela já é mascarada por natureza”. Era uma nota sem endereço certo, pois simplesmente foi inventada por Lauro Filho. Por outro lado, a palavra mascarada tanto poderia dizer que a moça era feia como antipática, cheia de pose.

Entretanto foi suficiente para ferir os brios do irmão de uma determinada senhorita, que saiu espalhando pela cidade que, as tantas horas, iria ao jornal tomar satisfação. O sujeito tinha fama de brabo. Nós ficamos receosos. Só Lauro Filho quis enfrentá-lo na marra. Perto da hora marcada, Seu Lauro mandou que todo mundo entrasse e fosse para a oficina, que era como chamávamos a gráfica naquela época. O fulano chegou e, apoiado no balcão que separava a redação dos visitantes, falou alto: “Quero falar com quem escreve a coluna de carnaval e saber se a nota sobre a moça que não precisa usar máscara é sobre a minha irmã”. Prontamente Seu Lauro retrucou: “Por quê? A sua irmã é feia?”. O valentão não teve como responder e foi embora. Grande conhecedor da alma humana.

Dessa sua qualidade e capacidade de apaziguar as coisas eu e Walter Gomes usamos e abusamos, principalmente nos finais das tardes de sábados, quando íamos pedia “vale” ao Lauro Filho e ele negava, dizendo que o pagamento era no fim do mês e nós dois que soubéssemos dosar os gastos, pois o jornal não era banco etc., etc. e tal. Aí nós sabíamos o que fazer. Ficávamos na redação fazendo uma coisa e outra, até que Lauro Filho fosse embora e os jornaleiros chegassem para prestar contas das vendas do dia. Seu Lauro era quem recebia o dinheiro. O “vale” estava garantido. Só tínhamos que nos preparar para enfrentar Lauro Filho, na segunda-feira. Mas Seu Lauro sempre estava por perto para ajeitar as coisas. Grande apaziguador de grandes e pequenas desavenças.

Grande Velho Lauro. Como foi longe, com aquele seu andar cadenciado, que mais parecia ginga de malandro. Como via longe, com aqueles óculos que teimavam em escorregar para a ponta do nariz. Adormecia em cima das resmas de papel, nas noites em que as linotipos davam uma de “primas-donas” e, encrenqueiras, não queriam trabalhar. Velho guerreiro que inovou a imprensa mossoroense, dia-a-dia construindo e reconstruindo um jornal que se sustentava muito no seu empenho, luta, garra e tenacidade e, também, na visão e no trabalho do seu filho, o Lauro Filho.

Não era alto, mas como era grande o Velho Lauro. Jornalista por descendência, vocação e prazer. Um homem que via a vida com todas suas cores, porque em tecnicolor é melhor.

 

Esse daí é o meu avô!!

Florina da Escóssia Collaço

Quando minha mãe disse:  –  Escreva algo sobre papai!

A princípio disse que não, não iria escrever nada para ser comparado com os depoimentos de tantos intelectuais, de tantas pessoas preparadas. Não, definitivamente não!

Mas, aos poucos, fui argumentando e convencendo a mim mesma; pois no meu caso, seria o coração que deveria falar e as minhas lembranças ninguém mais teria, pois não concebo a minha história de vida sem Vozinho (é assim que nós os netos, o chamamos carinhosamente) e as minhas memórias teriam uma grande lacuna sem a sua presença.       

Então resolvi escrever!

O Lauro que vocês conhecem

Jornalista, historiador,

Que do ensino foi inspetor.

Passei alguns anos pra encontrar,

Só vim descobrir mais tarde

E no tempo não podia voltar.

Claro que não é uma questão de valor

O seu ou o meu é mais merecedor,

O fato é simples de entender:

Lauro da Escóssia é pra mim

O meu querido Vozinho.

Não consigo conceber

 A idéia familiar,

De crescer

Sem tê-lo por perto

Para nos ensinar.

Ensinar a ser gente grande

 E não desanimar.

 Ensinar que as novas gerações

 Chegarão!!

O seu espaço, conquistarão!!

Sem que devamos nos escandalizar,

Pois se não for ilegal

Tudo tem que ser normal.

Ensinar que tudo passa:

 Tristeza, dificuldade,

Toda e qualquer adversidade

 Terão que passar.

 E se não for por emoção 

Não vale a pena chorar.

Essas são lições primeiras

Que recebi ainda na infância, nas brincadeiras

E guardo no fundo do coração.

Era assim o meu avô!

 Ouvi por esses dias:

“Lauro da Escóssia? Que chique!!”

 Que chique, qual nada 

Vozinho era um trabalhador, 

Era um homem do povo,

Um grande sonhador.

Do povo guardava os “causos”

Que bem cedinho colhia

Dia após dia.

No Mercado Publico Central

O que dava pra ser notícia

Ia parar nas folhas do jornal,

O que não dava,

Transformava em histórias

Que vivia a nos contar.

Seu maior xodó?

Era a história desse povo,

Era Santa Luzia,

Era Mossoró!! 

Falar de Vozinho, não é difícil não 

É só vasculhar a memória

E soltar a voz do coração.

É lembrar o ambiente

Que na época, era a pça do Cid

Ou Vigário Antônio Joaquim.

Dá uma saudade grande

 Da festa de Santa Luzia

Com os fogos e os coloridos alfinins 

Falar de Vozinho é assim,

É falar das excursões

Que fazíamos a Gangorra

Com todos da família,

De Bernadete e Luiz Serafim.

Falar de Vozinho

Lembra Tibau,

 Coalhada, Jornal, 

Lembra Rádio Rural,

Mercado Central.

Lembra os vizinhos

Stênio e Joana D’arc,

Eder Medeiros e Mariza.

 Lembra o coreto da praça

 Com a Banda de Música Municipal, 

Lembra tantas coisas!!

Lembra Isaura(Titia)

Que mesmo depois que perdemos Vozinha

Assumiu como se fosse sua própria tia.  

Tudo isso era Vozinho!

Homem íntegro e fiel 

Sempre preocupado com os seus

E os seus eram todos: 

Os filhos, os filhos dos filhos 

E aqueles que não eram mais filhos

Por haver perdido suas mães. 

Ele acolhia a cada um.

É o homem que conheci 

De olhos azul anil, 

De cabeça branca como a neve, 

De passo lento. 

No meu relato, podem ter certeza

Não caberia, um outro não. 

Esse daí é o meu avô!! 

Neta de Lauro da Escóssia e filha de Margarida Escóssia.

 

Um homem com cheiro de jornal

“A maior lembrança que tenho de Vôzinho, na minha infância, era de que ele tinha cheiro de jornal”, esta frase proferida por Valéria Escóssia, neta de Lauro, mostra o apreço que o jornalista tinha nutria por O Mossoroense.

A carreira jornalística de Lauro da Escóssia teve início em 1922, quando este tinha apenas 17 anos. Nessa fase inicial trabalhou como cronista esportivo, período em que ajudou a criar outros pequenos jornais como o ‘O Humaitá’ e ‘O Esportivo’.

Antes disso trabalhou em todas as funções existentes no jornalismo da época foi tipógrafo e editorialista até se tornar diretor de O Mossoroense em 1946, a exceção fica para o serviço de linotipista, que não executava. Já dentro da redação não se limitou apenas ao trabalho como editor e repórter, chegando a ser até mesmo cronista social.

Foi correspondente do “Diário de Pernambuco’em Recife, “Diário de Notícias” no Rio de Janeiro, sem contar que colaborou com jornais da capital como a ‘Tribuna  do Norte’, ‘Diário de Natal’ e ‘A Republica’.

Mas foi em O Mossoroense que Lauro da Escóssia dedicou os seus melhores dias, era muito comum ele dormir na própria sede do jornal o que deixava os familiares enlouquecidos.  “Papai era muito dedicado ao jornal, muitas vezes ele dormia por lá e quando acordava ia direto ao mercado para acompanhar as primeiras vendagens, procurar novas notícias e fazer as compras”, revela a filha Margarida da Escóssia.

Sem dúvida nenhuma o maior feito de Lauro da Escóssia como jornalista foi a entrevista com o cangaceiro Jararaca, ele conseguiu conversar com o bandido antes mesmo de ele ser interrogado pela polícia.

Outra grande façanha de sua vida foi ter mantido O Mossoroense em circulação durante quase 30 anos, na mais absoluta abnegação. Ele reabriu o jornal em 1946 mantendo-o em funcionamento até 1965. Nesse período, em 1953 ele adquiriu para o jornal duas máquinas de linotipo e uma impressão marioni. Em 1970 Lauro reabriu novamente O Mossoroense, ficando a frente do jornal até 1975 quando vendeu a folha já centenária à família Rosado. “Quando ele teve que fechar o jornal foi um dos períodos mais difíceis de sua vida, ele ficou em um desanimo que dava dó, tudo o que ele mais queria era manter o jornal funcionando para evitar que a história morresse”, conta sua filha Margarida.

Em Mossoró ele manteve a coluna ‘Mossoró no Passado’, na qual abordava os fatos históricos da cidade, como a invasão do bando de Lampião.

Durante os 30 anos em que comandou O Mossoroense, Lauro, preferiu ser fiel as idéias do que a qualquer outra coisa mesmo que elas dessem prejuízo a sua empresa.

 

Lauro foi responsável pelo maior furo de reportagem da história do RN

 

O dia 19 de junho de 1927 foi importantíssimo na história do Jornal O Mossoroense e de toda a imprensa potiguar, pois foi neste dia que foi publicado o maior furo de reportagem d Estado. Tratava-se da entrevista que o cangaceiro Jararaca concedeu a Lauro da Escóssia na prisão, antes mesmo de depor em inquérito policial. 

Com a reportagem, de repercussão nacional, transformada em matéria do jornal O Estado de São Paulo, o jornal chegou a uma vendagem recorde de 5.400 exemplares, patamar nunca mais alcançado.

A manchete dizia “Hunos da nova espécie” e a sub-manchete, “O famigerado Lampião e seu grupo de asseclas atacam Mossoró”. As chamadas diziam “A heróica defesa da cidade” e “É morto o bandido Colchete é gravemente ferido o lombrosiano Jararaca”. 

Em seu livro “Escóssia”, Cid Augusto transcreve a reportagem, que é introduzida por comentário discordando do adjetivo atribuído a Jararaca na chamada, e que pode ser conferida abaixo na íntegra:

“- Não, nada. Sujeito simpático. Ele começou me dizendo que se chamava José Leite, tinha 27 anos e nasceu no dia 5 de maio em Buíque, Pernambuco. Sujeito moreno, muito moreno, mas não era negro. Era solteiro e andava com Lampião há um ano e alguns meses. Ele tinha um fuzil mauser e cartucheiras de duas camadas, ms 560 mil réis no bolso e uma caixinha com obras de ouro no valor de 1 conto de réis. Disse que o ataque a Mossoró foi idealizado por Massilon Leite e que Lampião relutou um pouco, por causa da história das duas Igrejas. Que quando Lampião chegou a Mossoró não gostou nada, nada, daquela ‘igreja da bunda redonda’ (de onde estavam partindo os tiros contra o bando). De repente, Jararaca começava a rir, diz Lauro da Escóssia, e a gente perguntava por que, espantado como um homem com um buraco de bálano peito ainda conseguia rir.

-Mas, enfim, Jararaca, para que Lampião queria tanto dinheiro?

‘- Era pra comprar os volantes de Pernambuco.’

Voltamos a outros episódios com Jararaca na prisão.

Kelé não entrou na cadeia. Um seu ordenança, negro bem alto chegou perto de Jararaca, tendo-lhe arrancado do pescoço, num gesto brusco, uma volta de ouro que trazia com uma medalha de Santa. Depois cobiçou um anel que o bandido trazia no dedo. Jararaca tentou tirar, não conseguindo, ao que o negro foi logo dizendo: ‘- Coloque a mão aqui. Eu vou cortar o dedo para tirar o anel’. E puxou um faca (facão) ao que o Dr. Marcelino implorou:

‘- Meu senhor, não faça isto. Cortar o dedo na minha frente, não’.

O negro desistiu, por certo atento à sensibilidade do doutor.

Jararaca, fez um pedido com certa ironia:

‘- Tragam Kelé que eu quero dizem quem é cangaceiro’.

Disse depois: 

‘- Kelé era do nosso bando e a polícia paraibana fez dele um sargento para nos perseguir’.

Mesmo ferido, Jararaca não escondia seu riso, o desejo de ainda viver e no momento em que uma linda jovem de nossa sociedade penetrava na sala, atenta à sua curiosidade para ver o bandido, este pergunta:

‘- Esta moça é daqui?’. Ao que, recebendo a afirmativa, disse: ‘- Se o capitão (Lampião) soubesse que aqui tinha uma moça tão bonita teria entrado na cidade.’

A uma pergunta de D. Marola Silva (esposa do Sr. Veriato Silva), se os vinte e tantos traços que tinham na coronha de sua arma eram anotações de morte feitas pelo mesmo, como dizem, respondeu-lhe: 

‘- É tudo mentira, minha senhora. Eu nunca matei ninguém’. E deu uma boa gargalhada, saindo o vento pelo furo do peito. Apenas impaciente ficou seguidas horas naquele sofrimento, pelo que chegou a pedir um canudo de mamão e algumas pimentas malaguetas, dizendo que com isso ficaria bom.

Perguntei-lhe como. Disse: ‘- No bando, quando alguém recebe ferimento como este (apontando para o peito), sopra-se malagueta pelo canudo colocado na ferida. Sai toda salmoura do outro lado. Arde muito, mas a gente fica curado’. 

Mas, apesar de tudo isto, Jararaca vinha aos poucos melhorando e se tivesse sido medicado convenientemente não morreria pelos ferimentos. 

O tenente Laurentino de Morais tinha ido a Natal de onde voltou na quarta-feira seguinte. Esperou pela quinta, quando Jararaca seria transportado para Natal. Alta noite, da quinta para a sexta-feira, levaram Jararaca, não para Natal e sim para o cemitério, onde já estava aberta a sua cova.

Disse o bandido: ‘- Vocês não me levam para Natal. Sei que vou morrer. Vão ver como morre um cangaceiro!’ 

Naquele local foi-lhe dada uma coronhada e uma punhalada mortal. O bandido deu um grande urro e caiu na cova, empurrado. Os soldados cobriram-lhe o corpo com essa areia.

Essa ocorrência feita às escondidas foi guardada com as devidas reservas por alguns dias. Tempos depois, o capitão Abdon Nunes, naquela época comandante da guarnição policial de Mossoró, revelou em depoimento a morte de Jararaca’.

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Bolsonaro existe? Foi esfaqueado mesmo, ou é tudo ‘fake news’?

Por JUAN ARIAS

El País 

Talvez a História nunca tenha estado tão insegura entre a verdade e a mentira. Nunca, nem mesmo o presente foi posto tanto em dúvida. Será que descobrimos, de repente, que a verdade no estado puro não existe e que tudo pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo?

Vejamos o Brasil. Tudo parece ser uma coisa e o contrário. Há até quem chegue a perguntar a si mesmo se o capitão Jair Bolsonaro, que conseguiu 57 milhões de votos nas urnas não se sabe como, existe realmente ou é uma miragem. Coloca-se em dúvida até mesmo que tenha sido esfaqueado.

Em um mundo no qual até intelectuais chegam a pôr em dúvida a existência do Holocausto judeu, com um saldo seis milhões de pessoas — homens, mulheres e crianças — exterminadas nos campos de concentração, podemos ter a impressão de que a verdade não existe e não será possível conhecê-la.

Isso é positivo ou negativo? É verdade que dessa forma todos nos sentimos mais vulneráveis e inseguros ao não ser capazes de distinguir entre verdade e mentira. E, ao mesmo tempo, talvez tenhamos de nos acostumar a conviver em uma realidade mais complexa do que pensávamos, que nos obriga a estar mais vigilantes, já que os limites entre realidade e aparência, entre notícia e fake news, estão ficando cada vez mais tornam-se se fazem cada dia mais tênues e indefinidos.

O que sentimos hoje como uma inquietação, talvez porque estivemos séculos sentados tranquilos sobre nossas certezas, pode acabar sendo uma importante purificação. Durante séculos vivemos alimentados pelos dogmas que poder civil ou religioso nos impôs. Tudo era, sem que precisássemos nos preocupar em descobrir, branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, justo ou injusto. Era assim mesmo, ou será que tínhamos nos acostumado a conviver com a verdade imposta, o que nos dispensava da dúvida? As coisas eram como eram, porque sempre tinham nos ensinado assim. Teria dado muito trabalho colocá-las em discussão.

Sempre acreditamos nos livros de História, como se fossem textos sagrados que não pudessem ser discutidos. E se, na verdade, os livros de História nos quais bebemos durante séculos fossem, em sua maioria, uma grande fake news? Nós nos esquecemos de que, em grande parte, a História foi escrita pelos vencedores, nunca pelos perdedores. Como teriam escrito os mesmos fatos aqueles que perderam as guerras, as vítimas, os analfabetos que não podiam escrevê-la, mas que a sofreram em sua pele?

Será que estaria a salvo da contaminação das fake news o grande livro da Humanidade, a Bíblia, escrita no espaço de mil anos por autores desconhecidos, que as Igrejas cristãs consideram ter sido inspirada por Deus e, portanto, verdadeira? E se descobríssemos que historicamente a Bíblia não resistiria a uma crítica séria? Ou será que alguém pode acreditar que existiram seus personagens mais famosos, como Abraão, Noé, Matusalém e Moisés?

E analisando apenas os quatro evangelhos canônicos que os católicos consideram inspirados por Deus, quanto neles há de histórico e quanto há de catequese religiosa ou política? Qual é a versão verdadeira sobre o julgamento e condenação à morte do profeta Jesus se entre as versões dos quatro evangelistas há inúmeras diferenças bem visíveis? Qual é a figura real de Jesus, a que é apresentada aos judeus da época, cuja morte é totalmente atribuída aos romanos, ou aquela narrada aos gentios e pagãos, em que se carrega nas tintas contra os judeus e fariseus?

Talvez a inquietude que todos sentimos hoje, na nova era em que a Humanidade entrou ao não saber se estamos lidando com notícias verdadeiras ou falsas nem o quanto isso pode condicionar a convivência política e social, se deva, no fim das contas, a algo positivo, embora seja preciso se recompor e recuperar a serenidade para entender que vivemos em um mar agitado, no qual é difícil distinguir um peixe vivo de um pedaço de plástico.

Essa positividade que alguns pensadores começam a farejar na situação angustiante que vivemos, na qual verdade e mentira convivem abraçadas, talvez nasça de algo novo e ao mesmo tempo positivo que não existia no passado. Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo, não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado. Não é narrada pelos que se consideravam donos da verdade e a impunham com a espada na mão, se fosse necessário. Todos os poderes, civis e religiosos, fizeram isso. Hoje, a crônica começa a ser escrita e filtrada também pelos de baixo, pela periferia, por aqueles que não têm mais poder do que o oferecido pelas redes sociais.

Isso sem dúvida levará, como já está ocorrendo, a crises de identidade e à quebra de velhos paradigmas de segurança, como o que os dogmas e as verdades oficiais ofereciam antes. Era tudo mais cômodo e causava menos angústia. Mas não éramos também mais escravos do pensamento único do poder? O fato de não termos de nos preocupar em saber se o que nos ofereciam como história era verdade ou não, ou se era só a verdade de uma parte e não da outra, dava-nos tranquilidade. Hoje, estamos no meio de um ciclone que parece arrastar tudo e não é estranho que nos sintamos inseguros, irritados e até com medo.

Tão inseguros que ainda há quem não saiba realmente quem é Bolsonaro ou se ele é uma invenção, ou se os médicos de dois hospitais de prestígio inventaram a história da facada. E Lula? E Moro? Como se escreverá amanhã a história atual do Brasil? Será que os historiadores de hoje conseguirão nos contar no futuro a verdade ou a fake news sobre o que está vivendo uma sociedade que se sente presa entre a verdade e o boato, entre o que ela gostaria que fosse e o que efetivamente é a realidade — que, afinal, tem possivelmente tem tantas caras e nuances quanto as cores do arco-íris.

É melhor não sofrer tanto e aprender a conviver em um mundo que já não é nem será aquele em que nossos pais viveram. E essa sim é uma verdade. Se opressora ou libertadora, só poderemos saber quando baixar a poeira dessa agitação em torno de verdade e falsidade ou de meias verdades e meias mentiras. O famoso filósofo espanhol Fernando Savater me lembrava de que “se o mundo parasse de mentir, acabaria despedaçado em poucos dias”. Às vezes, uma meia verdade pode salvar o mundo de uma catástrofe. Até a Igreja católica, com seus séculos de experiência em conduzir o poder, cunhou as famosas “mentiras piedosas”.

Para terminar, é verdade que Bolsonaro existe, com mais sombras do que luzes e mais incógnitas do que realidades. E também existe Lula, com toda sua história e todas suas contradições. O que não sabemos é como a História nos contará um dia este momento, que em outras colunas em já chamei de dor de parto, mais do que de funeral e morte. E em todo parto existe, ao mesmo tempo, dor e felicidade, ansiedade e esperança.

E, acima de tudo, a certeza de que a vida, com todas suas amarguras e crueldades, verdades e mentiras, é o único e o melhor que temos. Que no Brasil predomine, apesar de tudo, a cultura da vida e não a da morte. Essa é a grande aposta e a grande resistência. Para isso, todos deveríamos andar de mãos dadas.

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15 de novembro, Proclamação da República: por que historiadores concordam que monarquia sofreu um ‘golpe’

O quadro ‘Proclamação da República’, de Benedito Calixto; movimento que questiona rompimento com a monarquia ganhou força com as redes sociais

Vinícius Mendes

De São Paulo para a BBC Brasil

Meses após o Marechal Deodoro da Fonseca enganar a própria mulher, burlar as recomendações médicas e levantar da cama – onde havia passado a madrugada daquele 15 de novembro febril – para proclamar a República brasileira, o país já conhecia a primeira crítica articulada sobre o processo que havia removido a monarquia do poder em 1889.

Escrito pelo advogado paulistano Eduardo Prado, o livro Fastos da Ditadura Militar no Brasil, de 1890, argumentava que a Proclamação da República no Brasil tinha sido uma cópia do modelo dos Estados Unidos aplicada a um contexto social e a um povo com características distintas.

A monarquia, segundo ele, ainda era o modelo mais adequado para a sociedade que se tinha no país. Prado também foi o primeiro autor a considerar a Proclamação da República um “golpe de Estado ilegítimo” aplicado pelos militares.

Hoje, 129 anos depois, o tema ainda suscita debates: enquanto diversos historiadores apontam a importância da chegada da República ao Brasil, apesar de suas incoerências e dificuldades, um movimento que ganhou força nos últimos anos – principalmente nas redes sociais – ainda a contesta.

“A proclamação foi um golpe de uma minoria escravocrata aliada aos grandes latifundiários, aos militares, a segmentos da Igreja e da maçonaria. O que é fato notório é que foi um golpe ilegítimo”, disse à BBC News Brasil o empresário Luiz Philippe de Orleans e Bragança, tataraneto de D. Pedro 2º, o último imperador brasileiro, e militante do movimento de direita Acorda Brasil.

“Quando há ilegitimidade na proclamação de qualquer modelo de governo, não se consegue estabelecer autoridade e, dessa forma, não se tem ordem. É exatamente isso que aconteceu na República: removeram o monarca e, no momento seguinte, foi um caos”, completa Orleans e Bragança, justificando a partir da história os solavancos recentes da democracia brasileira.

Retrato do Marechal Deodoro da Fonseca por Henrique Bernardelli
Retrato do Marechal Deodoro da Fonseca por Henrique Bernardelli; ele proclamou a República no Brasil após uma madrugada febril

O processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016, deu novo gás ao movimento pró-monarquia, impulsionado pelas redes sociais e pela presença de grupos monarquistas nas manifestações contra o governo petista, entre 2015 e 2016 – muitos deles, empunhando bandeiras do Brasil Império.

Um movimento de elites

A ideia de que a Proclamação da República foi um “golpe” é engrossada pelo historiador José Murilo de Carvalho, que escreveu um livro sobre os períodos monárquico e republicano do Brasil: O Pecado Original da República (editora Bazar do Tempo). Um dos intelectuais mais respeitados no país, Murilo também admite que é possível discutir a legitimidade do processo, como reivindicam os monarquistas atuais.

“Para se sustentar (a reivindicação de legitimidade da proclamação), ela teria que supor que a minoria republicana, predominantemente composta de bacharéis, jornalistas, advogados, médicos, engenheiros, alunos das escolas superiores, além dos cafeicultores paulistas, representava os interesses da maioria esmagadora da população ou do país como um todo. Um tanto complicado”, avalia.

Ainda de acordo com Murilo, não apenas foi um golpe, como ele não contou com a participação popular, o que fortalece o argumento de ilegitimidade apresentado pelos atuais monarquistas. Para ele, a distância da maior camada da população das decisões políticas é um problema que perdura até hoje.

“Embora os propagandistas falassem em democracia, o pecado foi a ausência de povo, não só na proclamação, mas pelo menos até o fim da Primeira República. Incorporar plenamente o povo no sistema político é ainda hoje um problema da nossa República. Pode-se dizer que as condições do país não permitiram outra solução e que os propagandistas eram sonhadores. Muitos realmente eram”, conta.

Luiz Philippe de Orleans e Bragança, tataraneto de D. Pedro IIDireito de imagemANA CAROLINA CAMARGO/BBC NEWS BRASIL
Image caption‘A proclamação foi um golpe de uma minoria escravocrata aliada aos grandes latifundiários, aos militares, a segmentos da Igreja e da maçonaria. O que é fato notório é que foi um golpe ilegítimo’, diz Luiz Philippe de Orleans e Bragança

Especialista no período, o jornalista e historiador José Laurentino Gomes, autor da trilogia 18081822 e 1889, concorda com a leitura do “golpe”. Para ele, no entanto, o debate sobre a legitimidade da República é sobre “quem legitima o quê”, o que está ligado ao processo de consolidação de qualquer regime político.

“O termo ‘legitimidade’ é muito relativo. Depende do que se considera o instrumento legitimador da nossa República. Se ele for o voto, ela não é legítima, porque o Partido Republicano nunca teve apoio nas urnas. Agora, se considerar esse instrumento a força das armas, foi um movimento legítimo, porque foi por meio delas que o Exército consolidou o regime”, diz.

Para Laurentino, a questão envolve a luta pelo direito de nomear os acontecimentos históricos que, no caso dos republicanos, conseguiram emplacar a ideia de “proclamação” e não de “golpe”.

“O que aconteceu em 1889, em 1930 e em 1964 é a mesma coisa: exército na rua fazendo política. Depende de quem legitima o quê. O movimento de 1964 não foi legitimado pela sociedade, mas a revolução de 1930 o foi tanto pelos sindicatos quanto pelas mudanças promovidas por Getúlio Vargas. A proclamação é contada hoje por quem venceu”, argumenta.

Para o historiador Marcos Napolitano, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), é possível, sim, falar em golpe na fundação da República. Já questionar sua legitimidade, como faz Orleans e Bragança, seria um revisionismo histórico incabível.

“Se pensarmos que a monarquia era um regime historicamente vinculado à escravidão (esta sim, uma instituição ilegítima, sob quaisquer aspectos), acho pessoalmente que a fundação da República foi um processo político legítimo que, infelizmente, não veio acompanhado de reformas democratizantes e inclusivas”, explica.

Mulher segura bandeira do BrasilDireito de imagemREUTERS
Image captionApós 129 anos, Proclamação da República ainda é alvo de debates

Segundo José Murilo de Carvalho, é possível afirmar que a proclamação foi obra quase totalmente dos militares, assim como conta o jornalista Laurentino Gomes em seu livro 1889.

“Só poucos dias antes do golpe é que líderes civis foram envolvidos”, explica Murilo. Para o professor Marcos Napolitano, porém, o fato de ter sido uma minoria a responsável por derrubar a monarquia não retira do movimento a sua legitimidade.

“Qualquer processo político está ligado à capacidade de minorias ativas ganharem o apoio de maiorias, ativas ou passivas, e neutralizarem outros grupos que lhes são contra. Nem sempre um processo político que começa com uma minoria ativa redunda em falta de democracia. Esta é a medida de legitimidade de um processo político. Muitos processos políticos democratizantes, que mudaram a história mundial, começaram assim. O que não os exime de serem processos muitas vezes traumáticos e conflitivos”, explica Napolitano.

Monarquia como opção de regime político?

Orleans e Bragança expressa uma alternativa que já existe há algum tempo entre um grupo restrito de historiadores. O mais militante deles é o professor Armando Alexandre dos Santos, da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul).

Frequentemente convidado pela Casa Real para palestras e eventos, ele é amigo pessoal de D. Luiz Gastão de Orleans e Bragança – que seria o imperador do país caso fosse uma monarquia – desde os anos 1980.

Para Santos, a República representou a instauração de uma ditadura jamais vivida até então no Brasil.

“Foi uma quartelada de uma minoria revoltosa de militares que não teve nenhum apoio popular. A própria proclamação foi um show de indecisões: Deodoro da Fonseca, por exemplo, só decidiu proclamá-la porque foi pressionado pelos membros do seu grupinho que precisavam de um militar de patente para representá-los. Foi, acima de tudo, um modismo, uma imitação servil dos EUA”, argumenta.

Santos, no entanto, não encontra apoio para sua tese na maior parte da academia. Para os historiadores ouvidos pela BBC News Brasil, o retorno à monarquia não está definitivamente no horizonte político do país.

“O plebiscito de 1993 (para determinar a forma de governo do país) mostrou que há sólida maioria favorável à República, apesar das trapalhadas do regime. Fora do Carnaval, a imagem predominante da monarquia ainda é a de regime retrógrado”, afirma José Murilo de Carvalho, seguido por Gomes.

“Em um momento de discussão da identidade nacional, se somos violentos ou pacíficos, corruptos ou transparentes, vamos em busca de mitos fundadores. Um deles é D. Pedro, que era um homem culto e respeitado. Esse movimento monárquico atual é freudiano. É a busca de pai que resolva tudo sem que a gente se preocupe”, finaliza.

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HÁ 100 ANOS, TERMINAVA A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Silhuetas de soldados da Primeira Guerra Mundial Foto: Shutterstock

Aventuras na História

Em um buraco no chão – ali vivia um homem. Não era um buraco limpo ou confortável. Na verdade, era um buraco cheio de lama, com centenas de pessoas amontoadas e um cheiro denso de suor e dejetos. Quando a vida se tornava demasiado terrível, o homem tentava distrair a mente escrevendo um poema – ou rezando. Era um católico praticante, de 24 anos, segundo-tenente no Exército Britânico – e o buraco, onde ele viveu entre junho e outubro de 1916, era uma trincheira no norte da França, nas vizinhanças do Rio Somme. Ingleses, franceses e alemães travavam uma das batalhas mais sangrentas da história humana. No meio da lama e do sangue, o oficial tentava entender como tudo aquilo se encaixava em sua fé cristã. Certo dia, em um intervalo nos combates, ele se sentou sob uma árvore, no bosque de Bus-lès-Artois. Uma chuva fina caía, mas ele não se importou. Ficou ali, sem dormir e sem comer, por dois dias. E então redigiu uma longa carta a um de seus amigos de infância – que também estava servindo em uma trincheira, a quilômetros dali. “Minha principal impressão”, escreveu, “é que alguma coisa se quebrou para sempre”.

O oficial insone sob aquela árvore no bosque francês era John Ronald Reuel Tolkien – e suas palavras ecoaram o sentimento que dominava toda a Europa. Começando com um atentado terrorista em Sarajevo em 1914, a Primeira Guerra Mundial havia lançado as maiores potências da época em um duelo inútil, prolongado e sangrento. Os principais combatentes eram a Inglaterra, a França, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e o Império Turco-Otomano – mas a conflagração envolveu quase todos os países da Europa e se espalhou por todos os continentes do globo. Escavadas da França ao Oriente Médio, as trincheiras da Grande Guerra foram o símbolo de um conflito em que a maior vítima foi o otimismo da civilização europeia. Na obra A Crise do Espírito, de 1919, o francês Paul Valéry resumiu a melancólica lição aprendida: “Agora, nossa civilização sabe que é mortal”. O velho mundo que a geração de Tolkien conhecera estava realmente quebrado para sempre. E sobre os lamacentos alicerces das trincheiras, levantou-se o turbulento mundo em que vivemos.

Inferno na Terra

Além de ser, de fato, a primeira guerra a envolver todos os continentes, o conflito de 1914 a 1918 viu a estreia maciça das tecnologias da morte que marcariam os tempos modernos. Aviões e submarinos, embora desenvolvidos antes de 1914, foram usados pela primeira vez em larga escala na Grande Guerra – que também serviu de estopim para a invenção de outras máquinas, como o tanque. Por outro lado, aquela foi também uma guerra do século 19: generais de ambos os lados subestimaram o avanço tecnológico do inimigo e pagaram um alto preço por isso. “A doutrina militar dos ingleses e franceses era baseada no ímpeto e na rapidez dos soldados de infantaria – mas a artilharia pesada dos alemães colocou um fim ao brio e à galhardia dos antigos combates a pé”, diz o jornalista e historiador inglês Robin Cook, autor de mais de 30 livros sobre história militar. Já os generais alemães, cujo exército em terra era o mais moderno do mundo, subestimaram a Marinha inglesa: os britânicos começaram em 1914 um bloqueio naval à Alemanha, cortando suas rotas de comércio pelo mar e levando à morte mais de 300 mil alemães por desnutrição. Com falta de homens e mantimentos para sustentar seus planos grandiosos, o país também naufragou na lama.

Tropas britânicas entrincheiradas: companhia de ratos e sapos AP Images

Foram os alemães, aliás, que cavaram as primeiras trincheiras, em setembro de 1914. Três meses antes, haviam invadido a Bélgica e a França, chegando a 70 km de Paris, mas logo tiveram de recuar até as margens do Rio Aisne. Ali fincaram pé: recuar mais seria uma desonra. Sem conseguir avançar sob a forte artilharia inimiga, ingleses e franceses confiscaram pás, picaretas e enxadas nas fazendas das vizinhanças – e também começaram a cavar seus próprios buracos.

As valas improvisadas logo se transformaram em sistemas complexos. Os soldados tinham de dormir no chão, enrolados em suas capas – e eram despertados constantemente pela passagem de ratos, sapos e insetos. Quando o solo estava molhado, era impossível se deitar – então os soldados tinham de dormir sentados, encostados uns nos outros.  No lado alemão, as trincheiras eram mais organizadas. Tábuas de madeira sustentavam a terraplanagem, e em alguns lugares havia até iluminação, ventilação e abrigos de concreto. Mas o efeito desmoralizante era o mesmo. Lohar Dietz, que serviu no norte da França, descreveu a exaustão que tomara conta dos soldados rasos alemães em 1914: “Seria muito melhor atacar da forma mais louca e temerária do que ficar o dia inteiro aqui, escutando o barulho das granadas e imaginando se serei o próximo a ir pelos ares”.

A guerra das ilusões

Em 24 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando – herdeiro do Império Austro-Húngaro – fazia uma visita a Sarajevo, na atual Bósnia. O território, na época, era dominado pelos austríacos, mas diversas organizações clandestinas buscavam a independência. Era o caso da Mão Negra – grupo formado por bósnios de etnia sérvia, que sonhavam com a criação de uma Grande Iugoslávia, unindo todos os eslavos do leste europeu. Foi um membro da Mão Negra, o sérvio étnico Gravilo Princip, quem puxou o gatilho da Primeira Guerra: os tiros de sua pistola derrubaram o arquiduque austríaco e sua esposa, quando passavam pelas ruas de Sarajevo no carro oficial.

Soldados alemães tentam retirar uma carroça de atendimento médico: guerra sem princípios Corbis

Em seguida, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia, apoiadora da Mão Negra – mas o que deveria ser uma guerra punitiva e localizada se alastrou por toda a Europa e pelo resto do mundo. A monarquia alemã, aliada dos austríacos, logo entrou na guerra. E arrastou consigo o Império Turco-Otomano, aliado de Berlim. A Sérvia, por sua vez, era aliada da Rússia, que era aliada da França, que era aliada da Inglaterra… Como alpinistas cegos, amarrados uns aos outros, as grandes potências foram desabando no precipício – e sua queda envolveu também os protetorados e colônias europeias, que, na época, ocupavam 80% do globo.

Quase todos os envolvidos saíram perdendo. A Alemanha planejava usar a conflagração para construir um império – mas o passo foi maior que suas pernas. Os impérios russo, austro-húngaro e turco-otomano pretendiam proteger suas fronteiras e aumentar seu poder, mas acabaram destroçados ao fim do conflito. Já a França e a Inglaterra acreditavam, no início da guerra, que suas antigas táticas de infantaria seriam suficientes para derrotar o maquinário alemão, mas acabaram perdendo mais de 2 milhões de soldados – na maioria, jovens. Não por acaso, o historiador alemão Fritz Fischer chamou a Primeira Guerra de “a guerra das ilusões”.

Moléstias do lodo

Balas de franco-atiradores e projéteis de artilharia não eram os únicos perigos. Nas trincheiras da Bélgica e da  França, o solo pantanoso ficava alagado no inverno. Mergulhados no lodo, os soldados desenvolviam uma doença que ficou conhecida como “pé de trincheira”: a umidade deixava os pés azulados ou vermelhos, cheios de bolhas e úlceras, que muitas vezes acabavam em gangrena e amputação. A supremacia desse elemento úmido, escuro e pegajoso é uma constante nos relatos de soldados. Em uma carta de 14 de dezembro de 1914, o capitão inglês Noel Chavasse descreveu um grupo de soldados escoceses após três dias nas trincheiras em Kemmel, no norte da França: “Eles ficaram 72 horas com água e lama até o joelho, e é horrível vê-los saindo de lá de dentro. Já não parecem jovens, nem parecem homens.   Jamais vi algo assim. Parecem criaturas bestiais”.

Havia uma praga adicional: os piolhos. Amontoados e com pouca higiene, os soldados não tinham como evitar a infestação. E os problemas não se resumiam à coceira das picadas. De todos os soldados ingleses que ficaram doentes na frente ocidental, um quinto foi atacado pela bactéria Bartonella quintana – transmitida pelos piolhos, causava febre alta, tontura e terríveis dores nas pernas, nas costas e na cabeça. A “febre de trincheira” não era fatal, mas podia deixar as vítimas fora de combate por semanas ou meses. E foi esse o diagnóstico para o paciente J. R. R. Tolkien, que viera até a enfermaria com 40 graus de febre. Três dias depois, Tolkien era evacuado do campo de batalha e jamais voltou aos combates.  Foi assim que um piolho mudou a história da literatura.

Trincheiras

As trincheiras foram o fenômeno mais emblemático da Primeira Guerra Mundial – e se tornaram um símbolo não apenas dos horrores do conflito, mas também de sua futilidade. Os primeiros a escavarem valas fortificadas foram os alemães, em setembro de 1914, às margens do Rio Aisne. O desenho geral das trincheiras germânicas foi copiado com algumas alterações em lugares como a atual Turquia, a Itália, a Palestina e a Polônia. Mas a maior parte se concentrava na Bélgica e no norte da França, do litoral até a fronteira com a Suíça.

As trincheiras se tornaram símbolo dos horrores da guerra Daniel Rosini

Cada sistema de trincheiras era formado, em geral, por três valas, de 2 a 4 m de profundidade, separadas por uma distância entre 60 e 270 m. Na primeira linha, ficavam os sentinelas e franco-atiradores – que recuavam para a segunda vala em caso de bombardeio. A reserva de soldados ficava no terceiro buraco. Havia trincheiras menores, longitudinais, conectando as maiores – serviam para que os soldados recuassem ou avançassem sem se expor ao fogo inimigo e, também, para o transporte de alimentos e munição. No solo pantanoso do norte da França, o fundo das trincheiras era forrado com sacos de areia, mas mesmo assim os alagamentos eram constantes.

Entre as posições inimigas, ficava a Terra de Ninguém – um espaço de 9 a algumas centenas de metros, cortado por arames farpados e pontuado por crateras de bombas.

Para dificultar a mira dos adversários, as trincheiras eram escavadas em ziguezague, fazendo ângulos de 90º para a direita e para a esquerda, sucessivamente, como um labirinto. De acordo com o historiador americano Paul Fussell, mais de 40 mil km de valas foram escavadas na Grande Guerra – se esticadas numa linha reta, dariam a volta ao mundo. “Teoricamente, seria possível caminhar da Bélgica até a Suíça quase sem sair de debaixo da terra, eventualmente pulando de uma trincheira para outra”, escreveu Fussell em The Great War and Modern Memory, de 1981.

Terra de ninguém

Nos intervalos entre os ataques, os soldados entrincheirados viviam em estranha intimidade com os inimigos. Em algumas partes da frente ocidental, a área deserta separando as posições adversárias – conhecida como Terra de Ninguém – tinha apenas 9 m de largura. Era possível ouvir os soldados tossindo, conversando, chorando ou espirrando do outro lado. Nos primeiros meses da guerra, os soldados rasos em ambas as frentes haviam desenvolvido uma rotina para tornar a vida menos terrível: os franco-atiradores disparavam apenas em horários específicos, dando chance para que os inimigos recolhessem seus mortos, comessem ou dormissem.

Quando os oficiais graduados não estavam olhando, a cortesia entre os adversários rasos crescia. Em 10 de dezembro de 1914, a voz de um soldado inglês ecoou na Terra de Ninguém às margens do Aisne: “Bom dia, Fritz. Venha pegar uns cigarros”. Fritz era o nome genérico dado pelos ingleses aos soldados alemães. Fritz respondeu, em inglês: “Vamos nos encontrar no meio do caminho. Ninguém atira”. Pouco depois, os inimigos estavam no terreno neutro, trocando cigarros, uísque, queijos e apertos de mão.

Alemães montam árvores de Natal em 1915: a guerra teve momentos de solidariedade Getty Images

A confraternização chegou ao ápice no Natal de 1914. “De repente, luzes começaram a aparecer na balaustrada alemã, e logo ficou claro que eram árvores de Natal improvisadas, adornadas com velas acesas”, escreveu o inglês Graham Williams, em carta de 24 de dezembro de 1914, na Bélgica. Os alemães então começaram a cantar Stille Nacht, Helige Nacht – sua versão de Noite Feliz. Os ingleses responderam com outro hino natalino, The First Nowell. Situações assim aconteceram em vários locais: cerca de 100 mil soldados entraram em uma trégua não oficial. E, em alguns lugares, as confusões geopolíticas das grandes potências deram lugar a jogos não letais. Em Ypres, no dia 1º de janeiro, alemães e escoceses disputaram uma amigável partida de futebol sobre o solo esburacado e congelado da Terra de Ninguém. Os alemães venceram por 3 a 1.

Nuvem da morte

As tréguas espontâneas não agradaram nem os generais nem os governantes das potências em guerra. Em dezembro de 1915, o alto-comando inglês intensificou os bombardeios contra as trincheiras alemãs, para aniquilar qualquer chance de um novo Natal feliz. Ao longo dos quatro anos de guerra, os dois lados tentaram a todo custo quebrar o impasse das trincheiras. Um dos métodos – o mais pavoroso – foi colocado em ação pela primeira vez em Ypres, no dia 22 abril de 1915.

Por volta das 5 e meia da tarde, soldados argelinos e marroquinos – convocados nas colônias francesas da África – avistaram uma nuvem esverdeada que se aproximava, soprada por uma brisa suave. O estranho nevoeiro logo preencheu as trincheiras. No início, nada aconteceu: a nuvem de cheiro doce apenas causou cócegas nas narinas dos soldados. Mas, em segundos, o veneno fez efeito. Centenas de homens sentiram os pulmões em chamas e caíram no chão, com bolhas espumantes brotando da garganta. E morreram asfixiados, com braços contorcidos e rostos escuros. Outros tantos se levantaram, em pânico, e tentaram fugir das trincheiras, mas a maioria foi metralhada pelos alemães a postos do outro lado. Em dez minutos, 6 mil homens estavam mortos; outros milhares ficaram cegos, incapazes de lutar.

A nuvem esverdeada era o gás cloro, inventado naquele ano pelo químico Fritz Harber por encomenda do exército alemão. “Apesar dos efeitos terríveis, naquele mesmo dia ficou claro que o gás não era uma arma decisiva”, diz o historiador Lawrence Sondhaus, autor de A Primeira Guerra Mundial: História Completa. “Os próprios alemães tinham medo de avançar pelas áreas cobertas de gás cloro – e, por isso, não conseguiram tomar a posição inimiga”. Mesmo assim, as nuvens da morte continuaram sendo usadas. Os britânicos desenvolveram um similar ao gás cloro e os franceses elaboraram um composto ainda mais letal, o fosgênio, inodoro e sem cor.

Soldados norte-americanos com máscara contra gases em 1917: recurso brutal e pouco efetivo AP Images

As primeiras contramedidas logo foram tomadas: soldados foram abastecidos com pequenas máscaras de algodão que, embebidas em água, retardavam os efeitos dos gases. As máscaras rudimentares se desenvolveram até tomar a forma que se tornou sinistramente famosa: um estranho elmo que cobria todo o rosto, conectado a um cilindro com substâncias que absorviam e filtravam os gases letais. As mortes diminuíram, mas os efeitos colaterais – como a cegueira temporária – continuaram tirando soldados de combate até o fim da guerra.

Foi o que aconteceu a certo soldado austríaco naturalizado alemão, em outubro de 1918. Cegado por um ataque britânico com gás, em Ypres, o rapaz de 25 anos passou os últimos meses do conflito em um hospital na Alemanha. No dia 10 de novembro, um pastor protestante anunciou aos pacientes a já esperada notícia: o kaiser havia caído, a Alemanha se tornara uma república, e a guerra estava perdida. O jovem recuperou a visão e escreveria, anos depois, em suas memórias: “Seguiram-se dias terríveis e noites ainda piores – eu sabia que tudo estava perdido… Nessas noites o ódio cresceu em mim… Confinado àquela cama, veio à minha cabeça a ideia de que um dia eu libertaria a Alemanha, que um dia eu a tornaria grande de novo”. Seu nome era Adolf Hitler.

A guerra que não acabou

A Grande Guerra sacudiu e reorganizou o mundo. Durante os cem anos seguintes, o xadrez da política global seria jogado no tabuleiro que emergiu dos escombros de 1918. Para começar, a guerra pôs fim ao domínio supremo da Europa sobre o globo. Ao longo do século 19, a população europeia crescera sem parar: em 1914, 40% da população global era formada por cidadãos de países europeus, residentes não só em seus países de origem como em colônias ao redor do planeta. A Grande Guerra pôs fim ao crescimento demográfico do Velho Mundo: a maior parte dos 9 milhões de mortos do conflito era formada por europeus.

A Grande Guerra foi um terremoto. No meio do conflito, em 1917, estourou a revolução que pôs fim à monarquia dos Romanov na Rússia. Finlândia, Estônia, Látvia e Lituânia ganharam independência do desfeito império czarista – enquanto a União Soviética se preparava para espalhar a revolução pelo resto do mundo. Dos escombros do Império Austro-Húngaro nasceram a Iugoslávia e a Tchecoslováquia – que ao longo do século 20 se desmembrariam em Sérvia, Croácia, Bósnia, Kosovo, Montenegro, República Tcheca e Eslováquia.

No Oriente Médio, as províncias do Império Otomano viraram butim dos vencedores. Ingleses e franceses inventaram as fronteiras de Síria, Líbano, Iraque, Palestina e Jordânia. Alguns dos conflitos que assolam o mundo até hoje foram plantados na época – como a guerra entre Israel e os palestinos. Durante a Primeira Guerra, os ingleses prometeram independência às terras habitadas por árabes, em troca de ajuda contra os turcos. Mas na década de 20 passaram a estimular a imigração de judeus ao Oriente Médio – o que levou à fundação de Israel, em 1948.

Além disso, a Grande Guerra viu o surgimento de um novo poder global. Até então, os EUA seguiam uma política de não se intrometer em assuntos internacionais – mas sua entrada na guerra, em 1917, selou a derrota da Alemanha e abriu a era da intervenção global americana. Quando a guerra terminou, em 1918, o século de Washington havia começado.

Saiba mais

A Primeira Guerra Mundial – A História Completa, Lawrence Sondhaus, Contexto, 2013

Tolkien and the Great War, John Garth, HarperCollins, 2003

The First World War, John Keegan, Alfred A. Knopf, 1999

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