Bolsonaro existe? Foi esfaqueado mesmo, ou é tudo ‘fake news’?

Por JUAN ARIAS

El País 

Talvez a História nunca tenha estado tão insegura entre a verdade e a mentira. Nunca, nem mesmo o presente foi posto tanto em dúvida. Será que descobrimos, de repente, que a verdade no estado puro não existe e que tudo pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo?

Vejamos o Brasil. Tudo parece ser uma coisa e o contrário. Há até quem chegue a perguntar a si mesmo se o capitão Jair Bolsonaro, que conseguiu 57 milhões de votos nas urnas não se sabe como, existe realmente ou é uma miragem. Coloca-se em dúvida até mesmo que tenha sido esfaqueado.

Em um mundo no qual até intelectuais chegam a pôr em dúvida a existência do Holocausto judeu, com um saldo seis milhões de pessoas — homens, mulheres e crianças — exterminadas nos campos de concentração, podemos ter a impressão de que a verdade não existe e não será possível conhecê-la.

Isso é positivo ou negativo? É verdade que dessa forma todos nos sentimos mais vulneráveis e inseguros ao não ser capazes de distinguir entre verdade e mentira. E, ao mesmo tempo, talvez tenhamos de nos acostumar a conviver em uma realidade mais complexa do que pensávamos, que nos obriga a estar mais vigilantes, já que os limites entre realidade e aparência, entre notícia e fake news, estão ficando cada vez mais tornam-se se fazem cada dia mais tênues e indefinidos.

O que sentimos hoje como uma inquietação, talvez porque estivemos séculos sentados tranquilos sobre nossas certezas, pode acabar sendo uma importante purificação. Durante séculos vivemos alimentados pelos dogmas que poder civil ou religioso nos impôs. Tudo era, sem que precisássemos nos preocupar em descobrir, branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, justo ou injusto. Era assim mesmo, ou será que tínhamos nos acostumado a conviver com a verdade imposta, o que nos dispensava da dúvida? As coisas eram como eram, porque sempre tinham nos ensinado assim. Teria dado muito trabalho colocá-las em discussão.

Sempre acreditamos nos livros de História, como se fossem textos sagrados que não pudessem ser discutidos. E se, na verdade, os livros de História nos quais bebemos durante séculos fossem, em sua maioria, uma grande fake news? Nós nos esquecemos de que, em grande parte, a História foi escrita pelos vencedores, nunca pelos perdedores. Como teriam escrito os mesmos fatos aqueles que perderam as guerras, as vítimas, os analfabetos que não podiam escrevê-la, mas que a sofreram em sua pele?

Será que estaria a salvo da contaminação das fake news o grande livro da Humanidade, a Bíblia, escrita no espaço de mil anos por autores desconhecidos, que as Igrejas cristãs consideram ter sido inspirada por Deus e, portanto, verdadeira? E se descobríssemos que historicamente a Bíblia não resistiria a uma crítica séria? Ou será que alguém pode acreditar que existiram seus personagens mais famosos, como Abraão, Noé, Matusalém e Moisés?

E analisando apenas os quatro evangelhos canônicos que os católicos consideram inspirados por Deus, quanto neles há de histórico e quanto há de catequese religiosa ou política? Qual é a versão verdadeira sobre o julgamento e condenação à morte do profeta Jesus se entre as versões dos quatro evangelistas há inúmeras diferenças bem visíveis? Qual é a figura real de Jesus, a que é apresentada aos judeus da época, cuja morte é totalmente atribuída aos romanos, ou aquela narrada aos gentios e pagãos, em que se carrega nas tintas contra os judeus e fariseus?

Talvez a inquietude que todos sentimos hoje, na nova era em que a Humanidade entrou ao não saber se estamos lidando com notícias verdadeiras ou falsas nem o quanto isso pode condicionar a convivência política e social, se deva, no fim das contas, a algo positivo, embora seja preciso se recompor e recuperar a serenidade para entender que vivemos em um mar agitado, no qual é difícil distinguir um peixe vivo de um pedaço de plástico.

Essa positividade que alguns pensadores começam a farejar na situação angustiante que vivemos, na qual verdade e mentira convivem abraçadas, talvez nasça de algo novo e ao mesmo tempo positivo que não existia no passado. Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo, não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado. Não é narrada pelos que se consideravam donos da verdade e a impunham com a espada na mão, se fosse necessário. Todos os poderes, civis e religiosos, fizeram isso. Hoje, a crônica começa a ser escrita e filtrada também pelos de baixo, pela periferia, por aqueles que não têm mais poder do que o oferecido pelas redes sociais.

Isso sem dúvida levará, como já está ocorrendo, a crises de identidade e à quebra de velhos paradigmas de segurança, como o que os dogmas e as verdades oficiais ofereciam antes. Era tudo mais cômodo e causava menos angústia. Mas não éramos também mais escravos do pensamento único do poder? O fato de não termos de nos preocupar em saber se o que nos ofereciam como história era verdade ou não, ou se era só a verdade de uma parte e não da outra, dava-nos tranquilidade. Hoje, estamos no meio de um ciclone que parece arrastar tudo e não é estranho que nos sintamos inseguros, irritados e até com medo.

Tão inseguros que ainda há quem não saiba realmente quem é Bolsonaro ou se ele é uma invenção, ou se os médicos de dois hospitais de prestígio inventaram a história da facada. E Lula? E Moro? Como se escreverá amanhã a história atual do Brasil? Será que os historiadores de hoje conseguirão nos contar no futuro a verdade ou a fake news sobre o que está vivendo uma sociedade que se sente presa entre a verdade e o boato, entre o que ela gostaria que fosse e o que efetivamente é a realidade — que, afinal, tem possivelmente tem tantas caras e nuances quanto as cores do arco-íris.

É melhor não sofrer tanto e aprender a conviver em um mundo que já não é nem será aquele em que nossos pais viveram. E essa sim é uma verdade. Se opressora ou libertadora, só poderemos saber quando baixar a poeira dessa agitação em torno de verdade e falsidade ou de meias verdades e meias mentiras. O famoso filósofo espanhol Fernando Savater me lembrava de que “se o mundo parasse de mentir, acabaria despedaçado em poucos dias”. Às vezes, uma meia verdade pode salvar o mundo de uma catástrofe. Até a Igreja católica, com seus séculos de experiência em conduzir o poder, cunhou as famosas “mentiras piedosas”.

Para terminar, é verdade que Bolsonaro existe, com mais sombras do que luzes e mais incógnitas do que realidades. E também existe Lula, com toda sua história e todas suas contradições. O que não sabemos é como a História nos contará um dia este momento, que em outras colunas em já chamei de dor de parto, mais do que de funeral e morte. E em todo parto existe, ao mesmo tempo, dor e felicidade, ansiedade e esperança.

E, acima de tudo, a certeza de que a vida, com todas suas amarguras e crueldades, verdades e mentiras, é o único e o melhor que temos. Que no Brasil predomine, apesar de tudo, a cultura da vida e não a da morte. Essa é a grande aposta e a grande resistência. Para isso, todos deveríamos andar de mãos dadas.

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15 de novembro, Proclamação da República: por que historiadores concordam que monarquia sofreu um ‘golpe’

O quadro ‘Proclamação da República’, de Benedito Calixto; movimento que questiona rompimento com a monarquia ganhou força com as redes sociais

Vinícius Mendes

De São Paulo para a BBC Brasil

Meses após o Marechal Deodoro da Fonseca enganar a própria mulher, burlar as recomendações médicas e levantar da cama – onde havia passado a madrugada daquele 15 de novembro febril – para proclamar a República brasileira, o país já conhecia a primeira crítica articulada sobre o processo que havia removido a monarquia do poder em 1889.

Escrito pelo advogado paulistano Eduardo Prado, o livro Fastos da Ditadura Militar no Brasil, de 1890, argumentava que a Proclamação da República no Brasil tinha sido uma cópia do modelo dos Estados Unidos aplicada a um contexto social e a um povo com características distintas.

A monarquia, segundo ele, ainda era o modelo mais adequado para a sociedade que se tinha no país. Prado também foi o primeiro autor a considerar a Proclamação da República um “golpe de Estado ilegítimo” aplicado pelos militares.

Hoje, 129 anos depois, o tema ainda suscita debates: enquanto diversos historiadores apontam a importância da chegada da República ao Brasil, apesar de suas incoerências e dificuldades, um movimento que ganhou força nos últimos anos – principalmente nas redes sociais – ainda a contesta.

“A proclamação foi um golpe de uma minoria escravocrata aliada aos grandes latifundiários, aos militares, a segmentos da Igreja e da maçonaria. O que é fato notório é que foi um golpe ilegítimo”, disse à BBC News Brasil o empresário Luiz Philippe de Orleans e Bragança, tataraneto de D. Pedro 2º, o último imperador brasileiro, e militante do movimento de direita Acorda Brasil.

“Quando há ilegitimidade na proclamação de qualquer modelo de governo, não se consegue estabelecer autoridade e, dessa forma, não se tem ordem. É exatamente isso que aconteceu na República: removeram o monarca e, no momento seguinte, foi um caos”, completa Orleans e Bragança, justificando a partir da história os solavancos recentes da democracia brasileira.

Retrato do Marechal Deodoro da Fonseca por Henrique Bernardelli
Retrato do Marechal Deodoro da Fonseca por Henrique Bernardelli; ele proclamou a República no Brasil após uma madrugada febril

O processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016, deu novo gás ao movimento pró-monarquia, impulsionado pelas redes sociais e pela presença de grupos monarquistas nas manifestações contra o governo petista, entre 2015 e 2016 – muitos deles, empunhando bandeiras do Brasil Império.

Um movimento de elites

A ideia de que a Proclamação da República foi um “golpe” é engrossada pelo historiador José Murilo de Carvalho, que escreveu um livro sobre os períodos monárquico e republicano do Brasil: O Pecado Original da República (editora Bazar do Tempo). Um dos intelectuais mais respeitados no país, Murilo também admite que é possível discutir a legitimidade do processo, como reivindicam os monarquistas atuais.

“Para se sustentar (a reivindicação de legitimidade da proclamação), ela teria que supor que a minoria republicana, predominantemente composta de bacharéis, jornalistas, advogados, médicos, engenheiros, alunos das escolas superiores, além dos cafeicultores paulistas, representava os interesses da maioria esmagadora da população ou do país como um todo. Um tanto complicado”, avalia.

Ainda de acordo com Murilo, não apenas foi um golpe, como ele não contou com a participação popular, o que fortalece o argumento de ilegitimidade apresentado pelos atuais monarquistas. Para ele, a distância da maior camada da população das decisões políticas é um problema que perdura até hoje.

“Embora os propagandistas falassem em democracia, o pecado foi a ausência de povo, não só na proclamação, mas pelo menos até o fim da Primeira República. Incorporar plenamente o povo no sistema político é ainda hoje um problema da nossa República. Pode-se dizer que as condições do país não permitiram outra solução e que os propagandistas eram sonhadores. Muitos realmente eram”, conta.

Luiz Philippe de Orleans e Bragança, tataraneto de D. Pedro IIDireito de imagemANA CAROLINA CAMARGO/BBC NEWS BRASIL
Image caption‘A proclamação foi um golpe de uma minoria escravocrata aliada aos grandes latifundiários, aos militares, a segmentos da Igreja e da maçonaria. O que é fato notório é que foi um golpe ilegítimo’, diz Luiz Philippe de Orleans e Bragança

Especialista no período, o jornalista e historiador José Laurentino Gomes, autor da trilogia 18081822 e 1889, concorda com a leitura do “golpe”. Para ele, no entanto, o debate sobre a legitimidade da República é sobre “quem legitima o quê”, o que está ligado ao processo de consolidação de qualquer regime político.

“O termo ‘legitimidade’ é muito relativo. Depende do que se considera o instrumento legitimador da nossa República. Se ele for o voto, ela não é legítima, porque o Partido Republicano nunca teve apoio nas urnas. Agora, se considerar esse instrumento a força das armas, foi um movimento legítimo, porque foi por meio delas que o Exército consolidou o regime”, diz.

Para Laurentino, a questão envolve a luta pelo direito de nomear os acontecimentos históricos que, no caso dos republicanos, conseguiram emplacar a ideia de “proclamação” e não de “golpe”.

“O que aconteceu em 1889, em 1930 e em 1964 é a mesma coisa: exército na rua fazendo política. Depende de quem legitima o quê. O movimento de 1964 não foi legitimado pela sociedade, mas a revolução de 1930 o foi tanto pelos sindicatos quanto pelas mudanças promovidas por Getúlio Vargas. A proclamação é contada hoje por quem venceu”, argumenta.

Para o historiador Marcos Napolitano, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), é possível, sim, falar em golpe na fundação da República. Já questionar sua legitimidade, como faz Orleans e Bragança, seria um revisionismo histórico incabível.

“Se pensarmos que a monarquia era um regime historicamente vinculado à escravidão (esta sim, uma instituição ilegítima, sob quaisquer aspectos), acho pessoalmente que a fundação da República foi um processo político legítimo que, infelizmente, não veio acompanhado de reformas democratizantes e inclusivas”, explica.

Mulher segura bandeira do BrasilDireito de imagemREUTERS
Image captionApós 129 anos, Proclamação da República ainda é alvo de debates

Segundo José Murilo de Carvalho, é possível afirmar que a proclamação foi obra quase totalmente dos militares, assim como conta o jornalista Laurentino Gomes em seu livro 1889.

“Só poucos dias antes do golpe é que líderes civis foram envolvidos”, explica Murilo. Para o professor Marcos Napolitano, porém, o fato de ter sido uma minoria a responsável por derrubar a monarquia não retira do movimento a sua legitimidade.

“Qualquer processo político está ligado à capacidade de minorias ativas ganharem o apoio de maiorias, ativas ou passivas, e neutralizarem outros grupos que lhes são contra. Nem sempre um processo político que começa com uma minoria ativa redunda em falta de democracia. Esta é a medida de legitimidade de um processo político. Muitos processos políticos democratizantes, que mudaram a história mundial, começaram assim. O que não os exime de serem processos muitas vezes traumáticos e conflitivos”, explica Napolitano.

Monarquia como opção de regime político?

Orleans e Bragança expressa uma alternativa que já existe há algum tempo entre um grupo restrito de historiadores. O mais militante deles é o professor Armando Alexandre dos Santos, da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul).

Frequentemente convidado pela Casa Real para palestras e eventos, ele é amigo pessoal de D. Luiz Gastão de Orleans e Bragança – que seria o imperador do país caso fosse uma monarquia – desde os anos 1980.

Para Santos, a República representou a instauração de uma ditadura jamais vivida até então no Brasil.

“Foi uma quartelada de uma minoria revoltosa de militares que não teve nenhum apoio popular. A própria proclamação foi um show de indecisões: Deodoro da Fonseca, por exemplo, só decidiu proclamá-la porque foi pressionado pelos membros do seu grupinho que precisavam de um militar de patente para representá-los. Foi, acima de tudo, um modismo, uma imitação servil dos EUA”, argumenta.

Santos, no entanto, não encontra apoio para sua tese na maior parte da academia. Para os historiadores ouvidos pela BBC News Brasil, o retorno à monarquia não está definitivamente no horizonte político do país.

“O plebiscito de 1993 (para determinar a forma de governo do país) mostrou que há sólida maioria favorável à República, apesar das trapalhadas do regime. Fora do Carnaval, a imagem predominante da monarquia ainda é a de regime retrógrado”, afirma José Murilo de Carvalho, seguido por Gomes.

“Em um momento de discussão da identidade nacional, se somos violentos ou pacíficos, corruptos ou transparentes, vamos em busca de mitos fundadores. Um deles é D. Pedro, que era um homem culto e respeitado. Esse movimento monárquico atual é freudiano. É a busca de pai que resolva tudo sem que a gente se preocupe”, finaliza.

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HÁ 100 ANOS, TERMINAVA A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Silhuetas de soldados da Primeira Guerra Mundial Foto: Shutterstock

Aventuras na História

Em um buraco no chão – ali vivia um homem. Não era um buraco limpo ou confortável. Na verdade, era um buraco cheio de lama, com centenas de pessoas amontoadas e um cheiro denso de suor e dejetos. Quando a vida se tornava demasiado terrível, o homem tentava distrair a mente escrevendo um poema – ou rezando. Era um católico praticante, de 24 anos, segundo-tenente no Exército Britânico – e o buraco, onde ele viveu entre junho e outubro de 1916, era uma trincheira no norte da França, nas vizinhanças do Rio Somme. Ingleses, franceses e alemães travavam uma das batalhas mais sangrentas da história humana. No meio da lama e do sangue, o oficial tentava entender como tudo aquilo se encaixava em sua fé cristã. Certo dia, em um intervalo nos combates, ele se sentou sob uma árvore, no bosque de Bus-lès-Artois. Uma chuva fina caía, mas ele não se importou. Ficou ali, sem dormir e sem comer, por dois dias. E então redigiu uma longa carta a um de seus amigos de infância – que também estava servindo em uma trincheira, a quilômetros dali. “Minha principal impressão”, escreveu, “é que alguma coisa se quebrou para sempre”.

O oficial insone sob aquela árvore no bosque francês era John Ronald Reuel Tolkien – e suas palavras ecoaram o sentimento que dominava toda a Europa. Começando com um atentado terrorista em Sarajevo em 1914, a Primeira Guerra Mundial havia lançado as maiores potências da época em um duelo inútil, prolongado e sangrento. Os principais combatentes eram a Inglaterra, a França, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e o Império Turco-Otomano – mas a conflagração envolveu quase todos os países da Europa e se espalhou por todos os continentes do globo. Escavadas da França ao Oriente Médio, as trincheiras da Grande Guerra foram o símbolo de um conflito em que a maior vítima foi o otimismo da civilização europeia. Na obra A Crise do Espírito, de 1919, o francês Paul Valéry resumiu a melancólica lição aprendida: “Agora, nossa civilização sabe que é mortal”. O velho mundo que a geração de Tolkien conhecera estava realmente quebrado para sempre. E sobre os lamacentos alicerces das trincheiras, levantou-se o turbulento mundo em que vivemos.

Inferno na Terra

Além de ser, de fato, a primeira guerra a envolver todos os continentes, o conflito de 1914 a 1918 viu a estreia maciça das tecnologias da morte que marcariam os tempos modernos. Aviões e submarinos, embora desenvolvidos antes de 1914, foram usados pela primeira vez em larga escala na Grande Guerra – que também serviu de estopim para a invenção de outras máquinas, como o tanque. Por outro lado, aquela foi também uma guerra do século 19: generais de ambos os lados subestimaram o avanço tecnológico do inimigo e pagaram um alto preço por isso. “A doutrina militar dos ingleses e franceses era baseada no ímpeto e na rapidez dos soldados de infantaria – mas a artilharia pesada dos alemães colocou um fim ao brio e à galhardia dos antigos combates a pé”, diz o jornalista e historiador inglês Robin Cook, autor de mais de 30 livros sobre história militar. Já os generais alemães, cujo exército em terra era o mais moderno do mundo, subestimaram a Marinha inglesa: os britânicos começaram em 1914 um bloqueio naval à Alemanha, cortando suas rotas de comércio pelo mar e levando à morte mais de 300 mil alemães por desnutrição. Com falta de homens e mantimentos para sustentar seus planos grandiosos, o país também naufragou na lama.

Tropas britânicas entrincheiradas: companhia de ratos e sapos AP Images

Foram os alemães, aliás, que cavaram as primeiras trincheiras, em setembro de 1914. Três meses antes, haviam invadido a Bélgica e a França, chegando a 70 km de Paris, mas logo tiveram de recuar até as margens do Rio Aisne. Ali fincaram pé: recuar mais seria uma desonra. Sem conseguir avançar sob a forte artilharia inimiga, ingleses e franceses confiscaram pás, picaretas e enxadas nas fazendas das vizinhanças – e também começaram a cavar seus próprios buracos.

As valas improvisadas logo se transformaram em sistemas complexos. Os soldados tinham de dormir no chão, enrolados em suas capas – e eram despertados constantemente pela passagem de ratos, sapos e insetos. Quando o solo estava molhado, era impossível se deitar – então os soldados tinham de dormir sentados, encostados uns nos outros.  No lado alemão, as trincheiras eram mais organizadas. Tábuas de madeira sustentavam a terraplanagem, e em alguns lugares havia até iluminação, ventilação e abrigos de concreto. Mas o efeito desmoralizante era o mesmo. Lohar Dietz, que serviu no norte da França, descreveu a exaustão que tomara conta dos soldados rasos alemães em 1914: “Seria muito melhor atacar da forma mais louca e temerária do que ficar o dia inteiro aqui, escutando o barulho das granadas e imaginando se serei o próximo a ir pelos ares”.

A guerra das ilusões

Em 24 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando – herdeiro do Império Austro-Húngaro – fazia uma visita a Sarajevo, na atual Bósnia. O território, na época, era dominado pelos austríacos, mas diversas organizações clandestinas buscavam a independência. Era o caso da Mão Negra – grupo formado por bósnios de etnia sérvia, que sonhavam com a criação de uma Grande Iugoslávia, unindo todos os eslavos do leste europeu. Foi um membro da Mão Negra, o sérvio étnico Gravilo Princip, quem puxou o gatilho da Primeira Guerra: os tiros de sua pistola derrubaram o arquiduque austríaco e sua esposa, quando passavam pelas ruas de Sarajevo no carro oficial.

Soldados alemães tentam retirar uma carroça de atendimento médico: guerra sem princípios Corbis

Em seguida, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia, apoiadora da Mão Negra – mas o que deveria ser uma guerra punitiva e localizada se alastrou por toda a Europa e pelo resto do mundo. A monarquia alemã, aliada dos austríacos, logo entrou na guerra. E arrastou consigo o Império Turco-Otomano, aliado de Berlim. A Sérvia, por sua vez, era aliada da Rússia, que era aliada da França, que era aliada da Inglaterra… Como alpinistas cegos, amarrados uns aos outros, as grandes potências foram desabando no precipício – e sua queda envolveu também os protetorados e colônias europeias, que, na época, ocupavam 80% do globo.

Quase todos os envolvidos saíram perdendo. A Alemanha planejava usar a conflagração para construir um império – mas o passo foi maior que suas pernas. Os impérios russo, austro-húngaro e turco-otomano pretendiam proteger suas fronteiras e aumentar seu poder, mas acabaram destroçados ao fim do conflito. Já a França e a Inglaterra acreditavam, no início da guerra, que suas antigas táticas de infantaria seriam suficientes para derrotar o maquinário alemão, mas acabaram perdendo mais de 2 milhões de soldados – na maioria, jovens. Não por acaso, o historiador alemão Fritz Fischer chamou a Primeira Guerra de “a guerra das ilusões”.

Moléstias do lodo

Balas de franco-atiradores e projéteis de artilharia não eram os únicos perigos. Nas trincheiras da Bélgica e da  França, o solo pantanoso ficava alagado no inverno. Mergulhados no lodo, os soldados desenvolviam uma doença que ficou conhecida como “pé de trincheira”: a umidade deixava os pés azulados ou vermelhos, cheios de bolhas e úlceras, que muitas vezes acabavam em gangrena e amputação. A supremacia desse elemento úmido, escuro e pegajoso é uma constante nos relatos de soldados. Em uma carta de 14 de dezembro de 1914, o capitão inglês Noel Chavasse descreveu um grupo de soldados escoceses após três dias nas trincheiras em Kemmel, no norte da França: “Eles ficaram 72 horas com água e lama até o joelho, e é horrível vê-los saindo de lá de dentro. Já não parecem jovens, nem parecem homens.   Jamais vi algo assim. Parecem criaturas bestiais”.

Havia uma praga adicional: os piolhos. Amontoados e com pouca higiene, os soldados não tinham como evitar a infestação. E os problemas não se resumiam à coceira das picadas. De todos os soldados ingleses que ficaram doentes na frente ocidental, um quinto foi atacado pela bactéria Bartonella quintana – transmitida pelos piolhos, causava febre alta, tontura e terríveis dores nas pernas, nas costas e na cabeça. A “febre de trincheira” não era fatal, mas podia deixar as vítimas fora de combate por semanas ou meses. E foi esse o diagnóstico para o paciente J. R. R. Tolkien, que viera até a enfermaria com 40 graus de febre. Três dias depois, Tolkien era evacuado do campo de batalha e jamais voltou aos combates.  Foi assim que um piolho mudou a história da literatura.

Trincheiras

As trincheiras foram o fenômeno mais emblemático da Primeira Guerra Mundial – e se tornaram um símbolo não apenas dos horrores do conflito, mas também de sua futilidade. Os primeiros a escavarem valas fortificadas foram os alemães, em setembro de 1914, às margens do Rio Aisne. O desenho geral das trincheiras germânicas foi copiado com algumas alterações em lugares como a atual Turquia, a Itália, a Palestina e a Polônia. Mas a maior parte se concentrava na Bélgica e no norte da França, do litoral até a fronteira com a Suíça.

As trincheiras se tornaram símbolo dos horrores da guerra Daniel Rosini

Cada sistema de trincheiras era formado, em geral, por três valas, de 2 a 4 m de profundidade, separadas por uma distância entre 60 e 270 m. Na primeira linha, ficavam os sentinelas e franco-atiradores – que recuavam para a segunda vala em caso de bombardeio. A reserva de soldados ficava no terceiro buraco. Havia trincheiras menores, longitudinais, conectando as maiores – serviam para que os soldados recuassem ou avançassem sem se expor ao fogo inimigo e, também, para o transporte de alimentos e munição. No solo pantanoso do norte da França, o fundo das trincheiras era forrado com sacos de areia, mas mesmo assim os alagamentos eram constantes.

Entre as posições inimigas, ficava a Terra de Ninguém – um espaço de 9 a algumas centenas de metros, cortado por arames farpados e pontuado por crateras de bombas.

Para dificultar a mira dos adversários, as trincheiras eram escavadas em ziguezague, fazendo ângulos de 90º para a direita e para a esquerda, sucessivamente, como um labirinto. De acordo com o historiador americano Paul Fussell, mais de 40 mil km de valas foram escavadas na Grande Guerra – se esticadas numa linha reta, dariam a volta ao mundo. “Teoricamente, seria possível caminhar da Bélgica até a Suíça quase sem sair de debaixo da terra, eventualmente pulando de uma trincheira para outra”, escreveu Fussell em The Great War and Modern Memory, de 1981.

Terra de ninguém

Nos intervalos entre os ataques, os soldados entrincheirados viviam em estranha intimidade com os inimigos. Em algumas partes da frente ocidental, a área deserta separando as posições adversárias – conhecida como Terra de Ninguém – tinha apenas 9 m de largura. Era possível ouvir os soldados tossindo, conversando, chorando ou espirrando do outro lado. Nos primeiros meses da guerra, os soldados rasos em ambas as frentes haviam desenvolvido uma rotina para tornar a vida menos terrível: os franco-atiradores disparavam apenas em horários específicos, dando chance para que os inimigos recolhessem seus mortos, comessem ou dormissem.

Quando os oficiais graduados não estavam olhando, a cortesia entre os adversários rasos crescia. Em 10 de dezembro de 1914, a voz de um soldado inglês ecoou na Terra de Ninguém às margens do Aisne: “Bom dia, Fritz. Venha pegar uns cigarros”. Fritz era o nome genérico dado pelos ingleses aos soldados alemães. Fritz respondeu, em inglês: “Vamos nos encontrar no meio do caminho. Ninguém atira”. Pouco depois, os inimigos estavam no terreno neutro, trocando cigarros, uísque, queijos e apertos de mão.

Alemães montam árvores de Natal em 1915: a guerra teve momentos de solidariedade Getty Images

A confraternização chegou ao ápice no Natal de 1914. “De repente, luzes começaram a aparecer na balaustrada alemã, e logo ficou claro que eram árvores de Natal improvisadas, adornadas com velas acesas”, escreveu o inglês Graham Williams, em carta de 24 de dezembro de 1914, na Bélgica. Os alemães então começaram a cantar Stille Nacht, Helige Nacht – sua versão de Noite Feliz. Os ingleses responderam com outro hino natalino, The First Nowell. Situações assim aconteceram em vários locais: cerca de 100 mil soldados entraram em uma trégua não oficial. E, em alguns lugares, as confusões geopolíticas das grandes potências deram lugar a jogos não letais. Em Ypres, no dia 1º de janeiro, alemães e escoceses disputaram uma amigável partida de futebol sobre o solo esburacado e congelado da Terra de Ninguém. Os alemães venceram por 3 a 1.

Nuvem da morte

As tréguas espontâneas não agradaram nem os generais nem os governantes das potências em guerra. Em dezembro de 1915, o alto-comando inglês intensificou os bombardeios contra as trincheiras alemãs, para aniquilar qualquer chance de um novo Natal feliz. Ao longo dos quatro anos de guerra, os dois lados tentaram a todo custo quebrar o impasse das trincheiras. Um dos métodos – o mais pavoroso – foi colocado em ação pela primeira vez em Ypres, no dia 22 abril de 1915.

Por volta das 5 e meia da tarde, soldados argelinos e marroquinos – convocados nas colônias francesas da África – avistaram uma nuvem esverdeada que se aproximava, soprada por uma brisa suave. O estranho nevoeiro logo preencheu as trincheiras. No início, nada aconteceu: a nuvem de cheiro doce apenas causou cócegas nas narinas dos soldados. Mas, em segundos, o veneno fez efeito. Centenas de homens sentiram os pulmões em chamas e caíram no chão, com bolhas espumantes brotando da garganta. E morreram asfixiados, com braços contorcidos e rostos escuros. Outros tantos se levantaram, em pânico, e tentaram fugir das trincheiras, mas a maioria foi metralhada pelos alemães a postos do outro lado. Em dez minutos, 6 mil homens estavam mortos; outros milhares ficaram cegos, incapazes de lutar.

A nuvem esverdeada era o gás cloro, inventado naquele ano pelo químico Fritz Harber por encomenda do exército alemão. “Apesar dos efeitos terríveis, naquele mesmo dia ficou claro que o gás não era uma arma decisiva”, diz o historiador Lawrence Sondhaus, autor de A Primeira Guerra Mundial: História Completa. “Os próprios alemães tinham medo de avançar pelas áreas cobertas de gás cloro – e, por isso, não conseguiram tomar a posição inimiga”. Mesmo assim, as nuvens da morte continuaram sendo usadas. Os britânicos desenvolveram um similar ao gás cloro e os franceses elaboraram um composto ainda mais letal, o fosgênio, inodoro e sem cor.

Soldados norte-americanos com máscara contra gases em 1917: recurso brutal e pouco efetivo AP Images

As primeiras contramedidas logo foram tomadas: soldados foram abastecidos com pequenas máscaras de algodão que, embebidas em água, retardavam os efeitos dos gases. As máscaras rudimentares se desenvolveram até tomar a forma que se tornou sinistramente famosa: um estranho elmo que cobria todo o rosto, conectado a um cilindro com substâncias que absorviam e filtravam os gases letais. As mortes diminuíram, mas os efeitos colaterais – como a cegueira temporária – continuaram tirando soldados de combate até o fim da guerra.

Foi o que aconteceu a certo soldado austríaco naturalizado alemão, em outubro de 1918. Cegado por um ataque britânico com gás, em Ypres, o rapaz de 25 anos passou os últimos meses do conflito em um hospital na Alemanha. No dia 10 de novembro, um pastor protestante anunciou aos pacientes a já esperada notícia: o kaiser havia caído, a Alemanha se tornara uma república, e a guerra estava perdida. O jovem recuperou a visão e escreveria, anos depois, em suas memórias: “Seguiram-se dias terríveis e noites ainda piores – eu sabia que tudo estava perdido… Nessas noites o ódio cresceu em mim… Confinado àquela cama, veio à minha cabeça a ideia de que um dia eu libertaria a Alemanha, que um dia eu a tornaria grande de novo”. Seu nome era Adolf Hitler.

A guerra que não acabou

A Grande Guerra sacudiu e reorganizou o mundo. Durante os cem anos seguintes, o xadrez da política global seria jogado no tabuleiro que emergiu dos escombros de 1918. Para começar, a guerra pôs fim ao domínio supremo da Europa sobre o globo. Ao longo do século 19, a população europeia crescera sem parar: em 1914, 40% da população global era formada por cidadãos de países europeus, residentes não só em seus países de origem como em colônias ao redor do planeta. A Grande Guerra pôs fim ao crescimento demográfico do Velho Mundo: a maior parte dos 9 milhões de mortos do conflito era formada por europeus.

A Grande Guerra foi um terremoto. No meio do conflito, em 1917, estourou a revolução que pôs fim à monarquia dos Romanov na Rússia. Finlândia, Estônia, Látvia e Lituânia ganharam independência do desfeito império czarista – enquanto a União Soviética se preparava para espalhar a revolução pelo resto do mundo. Dos escombros do Império Austro-Húngaro nasceram a Iugoslávia e a Tchecoslováquia – que ao longo do século 20 se desmembrariam em Sérvia, Croácia, Bósnia, Kosovo, Montenegro, República Tcheca e Eslováquia.

No Oriente Médio, as províncias do Império Otomano viraram butim dos vencedores. Ingleses e franceses inventaram as fronteiras de Síria, Líbano, Iraque, Palestina e Jordânia. Alguns dos conflitos que assolam o mundo até hoje foram plantados na época – como a guerra entre Israel e os palestinos. Durante a Primeira Guerra, os ingleses prometeram independência às terras habitadas por árabes, em troca de ajuda contra os turcos. Mas na década de 20 passaram a estimular a imigração de judeus ao Oriente Médio – o que levou à fundação de Israel, em 1948.

Além disso, a Grande Guerra viu o surgimento de um novo poder global. Até então, os EUA seguiam uma política de não se intrometer em assuntos internacionais – mas sua entrada na guerra, em 1917, selou a derrota da Alemanha e abriu a era da intervenção global americana. Quando a guerra terminou, em 1918, o século de Washington havia começado.

Saiba mais

A Primeira Guerra Mundial – A História Completa, Lawrence Sondhaus, Contexto, 2013

Tolkien and the Great War, John Garth, HarperCollins, 2003

The First World War, John Keegan, Alfred A. Knopf, 1999

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Garibaldi e Agripino e a velha roupa colorida

Garibaldi e Agripino ficarão sem mandato por decisão do eleitor pela primeira vez

“Você não sente nem vê

Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo

Que uma nova mudança em breve vai acontecer

E o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo

E precisamos todos rejuvenescer”

Na música Velha Roupa Colorida o genial Belchior trava uma dialética entre o velho e o novo. Ouvindo ela no carro hoje enquanto me dirigia ao trabalho lembrei de que quando pesquisava os jornais dos anos 1980 para o trabalho, que resultou no livro Os Rosados Divididos, que os então jovens e promissores Garibaldi Alves Filho e José Agripino Maia apareciam como o futuro do Rio Grande do Norte.

Agora faz apenas cinco dias que eles conheceram a segunda derrota de suas respectivas carreiras e pela primeira, por decisão do eleitor, vez ficarão sem mandato em mais de 30 anos.

Há 40 anos eles eram o novo, a renovação da história política das famílias Alves e Maia que já dividiam a política no Rio Grande do Norte. Garibaldi sucedeu o tio Aluízio, ex-governador, em carisma popular.

A força de Aluízio se dividiu em dois herdeiros Garibaldi com as qualidades citadas acima e o filho Henrique Alves ficando com a reconhecida capacidade de articulação.

José Agripino deu um toque de juventude e fôlego ao clã Maia herdando a estrutura política montada durante a ditadura militar pelo pai, Tarcísio.

As carreiras de Agripino e Garibaldi são praticamente idênticas. Os dois foram prefeitos de Natal sendo o primeiro biônico em 1979 e o segundo eleito pelo voto popular em 1985.

Ambos foram governadores duas vezes. 

Agripino eleito em 1982, favorecido pelo voto vinculado, e em 1990 derrotando o primo Lavoisier Maia no segundo turno. Garibaldi eleito e reeleito em 1994 e 98 nesta última impondo a única derrota eleitoral de “Jajá” até domingo.

Líder da oposição e presidente nacional do DEM nos governos petistas, Agripino foi eleito senador em quatro oportunidades (1986, 1994, 2002 e 2010). Garibaldi em outras três (1990, 2002 e 2010) sendo presidente do Senado entre 2007 e 2008.

Garibaldi ainda foi ministro da previdência, um dos mais bem avaliados, inclusive.

Mas o que levou os dois principais líderes políticos do Rio Grande do Norte a uma derrota humilhante como a do último domingo? A letra de Belchior da abertura deste artigo diz muito: “o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo e precisamos todos rejuvenescer”.

Agripino e Garibaldi não perceberam ao longo dos últimos anos que uma nova mudança ia acontecer e não se atualizaram. Se mantiveram presos às velhas práticas de sempre apostando tudo na velha política de compadrio, distribuição de emendinhas para segurar apoios de prefeitos que mais parecem mendigos em busca de recursos federais nas portas dos gabinetes do Congresso Nacional.

A eleição de 2014 deu um recado ignorado pela dupla com as derrotas de seus aliados para Governo e Senado para uma chapa reduzida sob a batuta de Robinson Faria (PSD) e Fátima Bezerra (PT).

Agripino, principalmente, e Garibaldi, um pouco menos, se distanciaram do povo potiguar, não assumiram bandeiras importantes. O primeiro dedicou os últimos oitos anos a destruir o PT focando-se numa atuação que deixou muito de lado os interesses do Rio Grande do Norte. O segundo se acomodou no carisma, no um milhão de votos que recebeu em 2010 e na fama de maior eleitor do sofrido elefante.

Nenhum dos dois moveu uma palha no processo de desinvestimento da Petrobras. Assistiram passivamente o desastre acontecer, apenas para citar uma das grandes pautas do Estado.

Quando 2018 se iniciou eles finalmente já estavam cientes de que teriam pela frente uma eleição complicada. A dupla eleita separada em 2002 e em dobradinha (ou voto casado) em 2010 tinha percebido que seria difícil. Em janeiro, Garibaldi em entrevista no programa Conversa de Alpendre da TCM disse que teria pela frente a eleição mais difícil da vida.

Agripino encontrou na necessidade de tornar o palanque oligárquico menos pesado a saída honrosa para o rebaixamento político à Câmara Federal, mas mesmo assim não deu. Recebeu apenas 64.678 votos e acabou ficando na segunda suplência de deputado federal em sua coligação. A humilhação nas urnas surpreendeu a todos que esperavam que ele fosse um dos mais votados.

É como outro trecho da música que abre este texto:

“No presente, a mente, o corpo é diferente

E o passado é uma roupa que não nos serve mais

No presente, a mente, o corpo é diferente

E o passado é uma roupa que não nos serve mais”

Garibaldi e Agripino foram roupa nova nos anos 1970 e 80 vestindo-se de verde e vermelho, dividindo bacuraus e bicudos pelo Rio Grande do Norte. As roupas se misturaram na máquina de lavar da política que lhes deu uma sobrevida na década passada, mas roupa que ficou colorida ao se misturar e envelheceu e não servia mais para os potiguares que exigem novas práticas e mais atenção dos seus representantes.

Como diz Belchior em outra letra célebre “o novo sempre vem” mesmo para quem sempre amou o passado como o eleitor potiguar.

 

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O “feito” histórico de Robinson

Nunca na história do Rio Grande do Norte um governador eleito disputou a reeleição quatro anos depois e saiu derrotado nas urnas.

Nunca antes, um governador disputando a reeleição não foi ao menos o segundo colocado (Iberê Ferreira de Souza e Fernando Freire, vices que se tornaram governadores) polarizaram as disputas de 2002 e 2010.

Robinson amargou um melancólico terceiro lugar, vergonha que a hoje prefeita Rosalba Ciarlini (PP) foi poupada de passar pelos seus algozes (hoje aliados) de 2014.

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Veja os resultados das eleições no RN para Governo e Senado desde a redemocratização

A primeira eleição após o fim da ditadura militar foi realizada em 1986 quando foram eleitos governadores e senadores. A partir da constituição de 1988 passamos a ter a possibilidade de segundo turno nas disputas por cargos executivos.

Como foram os resultados das eleições para Governo do Estado e Senado desde então no Rio Grande do Norte?

As disputas para o Governo foram decididas no segundo turno em quatro oportunidades: 1990, 2002, 2006 e 2014.

Confira os números:

1986

Governo

Candidatos a governador do estado Votação Percentual
Geraldo Melo
PMDB
464.559 50,11%
João Faustino
PDS
450.488 48,60%
Aldo Tinoco
PDT
6.700 0,72%
Sebastião Carneiro
PT
5.293 0,57

 

Senado

José Agripino Maia
PFL
426.869 25,24%
Lavoisier Maia
PDS
408.510 24,16%
Martins Filho
PMDB
395.449 23,38%
Wanderley Mariz
PMDB
393.754 23,28%
Miranda Sá Neto
PDT
23.764 1,41%
Moacir Duarte
PDS
15.742 0,93%
Laércio Bezerra de Melo
PSB
11.046 0,65%
Maria Nazaré Batista
PT
8.968 0,53%
Damião de França Pinheiro
PT
7.123 0,42%

 

1990

Governo

José Agripino Maia
PFL
454.528 48,11%
Lavoisier Maia
PDT
372.301 39,40%
Salomão Gurgel
PT
103.616 10,97%
Ana Catarina Alves
PTR
14.343 1,52%

 

Segundo turno

José Agripino Maia
PFL
525.229 52,09%
Lavoisier Maia
PDT
483.067 47,91%

 

Senado

 

Garibaldi Alves Filho
PMDB
404.206 52,02%
Carlos Alberto de Sousa
PDC
329.793 42,45%
José de Anchieta Ferreira Lopes
PCdoB
42.991 5,53%

 

1994

Governo

Garibaldi Alves Filho
PMDB
489.765 52,67%
Lavoisier Maia
PDT
359.870 38,70%
Fernando Mineiro
PT
44.596 4,80%
Wilma de Faria
PSB
35 591 3,83%

 

Senado

Geraldo Melo
PSDB
441.707 27,75%
José Agripino Maia
PFL
387.935 24,37%
Francisco Urbano
PSDB
310.746 19,52%
Raimundo Fernandes
PL
218.780 13,74%
Salomão Gurgel
PSB
72.835 4,58%
Floriano Bezerra
PT
61.047 3,84%
Jorge de Castro
PT
59.789 3,76%
Hermano Paiva de Oliveira
PPS
38.779 2,44

 

1998

Governo

Garibaldi Alves Filho
PMDB
560.667 50,17%
José Agripino Maia
PFL
462.177 41,36%
Manoel Duarte
PT
75.164 6,73%
Dário Barbosa
PSTU
8.124 0,73%
Roberto Ronconi
PSN
6.538 0,58%
Marconio Cruz
PSC
4.865 0,43%

 

Senado

Fernando Bezerra
PMDB
539.197 52,34%
Carlos Alberto de Sousa
PSDB
353.414 34,31%
Hugo Manso
PT
122.857 11,93%
Sônia Godeiro
PSTU
14.633 1,42%

 

2002

Governo

Wilma de Faria
PSB
492.756 37,59%
Fernando Freire
PPB
404.865 30,89%
Fernando Bezerra
PTB
261.225 19,93%
Ruy Pereira
PT
147.380 11,24%
Sônia Godeiro
PSTU
2.392 0,18%
Marcônio Cruz
PSC
1.498 0,12%
Roberto Ronconi
PSDC
614 0,05%

 

Segundo turno

Wilma de Faria
PSB
820.541 61,05%
Fernando Freire
PPB
523.614 38,95%

 

Senado

Garibaldi Alves Filho
PMDB
714.363 29,48%
José Agripino Maia
PFL
594.912 24,53%
Geraldo Melo
PSDB
479.723 19,79%
Augusto Viveiros
PFL
221.147 9,13%
Hugo Manso
PT
217.911 8,99%
José Marcelo de Souza
PT
113.405 4,68%
Ismael Wanderley Filho
PSB
68.480 2,83%
Maurício Pereira Dantas
PRP
6.697 0,28%
Fernando Antônio dos Santos
PSTU
4.684 0,19%
Ana Célia Ferreira
PSTU
2.341 0,10%

 

2006

Governo

Wilma de Faria
PSB
764.016 49,58%
Garibaldi Alves Filho
PMDB
749.003 48,60%
Sandro Pimentel
PSOL
14.172 0,92%
José Geraldo Fernandes
PSL
5.907 0,38%
Humberto Silva
PTC
5.582 0,36%
Antônio José Bezerra
PCB
2.470 0,16%

 

Segundo turno

Wilma de Faria
PSB
824.101 52,38%
Garibaldi Alves Filho
PMDB
749.172 47,62%

 

Senado

Rosalba Ciarlini
PFL
645.869 44,18%
Fernando Bezerra
PTB
634.738 43,42%
Geraldo Melo
PSDB
155.608 10,65%
Joanilson Rego
PSDC
9.021 0,62%
Simone Dutra
PSTU
6.008 0,41%
Augusto Maranhão
PTC
4.603 0,32%
Antônio Sotero da Silva
PSL
4.013 0,27%
Edgar Nazareno Caldas
PCB
1.912 0,13%

 

 

2010

Governo

Rosalba Ciarlini
DEM
813.813 52,46%
Iberê Ferreira
PSB
562.256 36,25%
Carlos Eduardo Alves
PDT
160.828 10,37%
Sandro Pimentel
PSOL
10.520 0,68%
José Walter Xavier
PCB
2.078 0,13%
Bartô Moreira
PRTB
1.746 0,11%

 

Senado

Garibaldi Alves Filho
PMDB
1.042.272 35,03%
José Agripino Maia
DEM
958.891 32,23%
Wilma de Faria
PSB
651.358 21,89%
Hugo Manso
PT
224.125 7,53%
Joanilson Rego
PSDC
66.408 2,23%
Sávio Ximenes
PCdoB
25.783 0,87%
Ronaldo Garcia
PSOL
6.639 0,22%

 

 

2014

Governo

Henrique Eduardo Alves
PMDB
702.196 47,34%
Robinson Faria
PSD
623.614 42,04%
Robério Paulino
PSOL
129.616 8,74%
Simone Dutra
PSTU
14.549 0,98%
Araken Farias
PSL
13.396 0,90%

 

Segundo turno

 

Robinson Faria
PSD
877.268 54,42%
Henrique Eduardo Alves
PMDB
734.801 45,58%

 

Senado

Fátima Bezerra
PT
808.055 54,84%
Wilma de Faria
PSB
636.896 43,23%
Lailson de Almeida
PSOL
15.164 1,03%
Ana Célia Ferreira
PSTU
13.253 0,90%
Roberto Ronconi*
PSL
zero zero

 *Teve o registro de candidatura cassado.

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Lula quer repetir Perón ao tentar transferência de votos

Haddad no desafio de “ser” Lula (Foto: RICARDO STUCKERT AFP)

FLÁVIO GAITÁN E FABIANO SANTOS*

EL PAÍS

A questão da transferência de votos tem, por justas razões, merecido espaço no Observatório das Eleições. Até o momento, a possibilidade de se ter nas eleições de outubro massiva transferência de votos de eleitores de Lula para a candidatura por ele indicado em sua substituição dada o virtual impedimento de sua própria tem sido examinada a luz da experiência brasileira, tanto recente, quanto mais remota. Não obstante, ao que tudo indica, a inspiração de onde o Lula extraiu a ideia de competir “através de sua ausência”, em nome do seu legado, não reside no Brasil, mas sim em nossos vizinhos, mais especificamente na Argentina, em inícios dos anos 70 do século passado.

Por ocasião das eleições de 1958 pela primeira vez ocorre uma espécie de transferência de votos do líder impedido de participar nas eleições, Juan Perón, para outro candidato, Arturo Frondizi, da Unión Cívica Radical Intransigente, um intelectual nacionalista representante dos setores mais moderados e abertos à possibilidade de acabar com a proscrição até então vigente ao peronismo. Há divergências sobre se houve ou não um pacto formal entre Perón e Frondizi, mas os fatos históricos indicam que os peronistas votaram no candidato da UCRI com a esperança de que, uma vez chegado ao poder, aquele legalizaria os sindicatos e acabaria com o veto à participação dos peronistas no jogo eleitoral. Essa aliança, real ou não, possibilitou a vitória de Frondizi sobre Ricardo Balbin, do setor radical menos propenso ao diálogo. O triunfo de Frondizi surpreendeu aos setores antiperonistas e mostrou que, apesar dos intentos do governo autoritário precedente, o peronismo continuava vivo.

A proscrição do peronismo, não obstante, perdurou até 1973, embora medidas de relaxamento da proibição tenham sido levadas a cabo por Arturo Frondizi (presidente entre 1958 e 1962), mediante a aprovação das leis de anistia e de liberdade sindical e a permissão para o movimento peronista disputar eleições através de nomes alternativos, o mesmo ocorrendo durante a presidência de Arturo Illía (entre 1963 e 1966). Para todos os efeitos práticos, contudo, o Partido Justicialista continuava impedido de participar do jogo eleitoral e Juan Perón, proibido de entrar no país.

Depois de novo período turbulento, eleições foram convocadas para 11 de março de 1973. Novo Estatuto Fundamental, embora temporário, foi aprovado em de 1972, estabelecendo o voto direto, período de governo de quatro anos com possibilidade de reeleição e segundo turno caso nenhum candidato obtivesse 50 por cento mais um dos votos válidos. Em teoria, o processo eleitoral representava o final de um longo ciclo de proscrição peronista. No entanto, o Estatuto, datado de 27 de julho, rezava que em 25 de agosto, menos de um mês depois, todos os candidatos deveriam ter seu domicílio consagrado na cidade de Buenos Aires. Perón, residente na Espanha àquela altura, obviamente ficara impedido de ser candidatar.

Agora sim, o fenômeno da transferência de votos ocorre em sua plenitude. De fato, em torno da figura de Perón se configura enorme coalizão eleitoral ao incluir a Frente de Esquerda Popular, o Movimento de Integração e Desenvolvimento, o Partido Conservador Popular e o Partido Democrata Cristão, coalizão denominada de Frente Justicialista de Libertação (FREJULI), com Hector Cámpora-Vicente Solano Lima como candidatos “nominais”.

Na campanha, utilizando-se do lema “Cámpora no governo, Perón no poder”, o peronismo buscou deixar bem claro que Cámpora no governo era, na verdade, um estratagema para que Perón retornasse ao governo. Mesmo em um contexto de grande hostilidade de vastos setores conservadores, de partidos políticos, do poder judiciário, parte do exército e do ex-ditador Lanusse, o FREJULI ganhou em todo o país, com pouco menos de 50 % dos votos, resultado que levou o segundo colocado, Ricardo Balbin, a abrir mão de participar no segundo turno. Em 25 de maio de 1973 Cámpora tomou posse, mas convoca novas eleições. Em setembro de 1973, 62% dos argentinos puderam, finalmente, votar em quem achavam a melhor opção para conduizir o país. Juan Perón foi eleito presidente pela terceira vez.

O que a experiência argentina nos ensina? Condições muito específicas permitiram que o fenômeno ocorresse. Mesmo assim, os desdobramentos não foram nem um pouco alvissareiros. Claro está que a morte de Perón e a assunção de sua então esposa, Isabel Perón, que havia concorrido em sua chapa como vice, foram ingredientes inesperados e importantes para o desastroso desenlace de 1976. De toda forma, ao se pensar no caso argentino e sua transplantação para a experiência brasileira contemporânea, com o provável deslocamento de votos de Lula para o candidato do PT, Fernando Haddad, não é possível esperar que um triunfo da estratégia cancele os elementos mais permanentes de resistência a um governo de perfil mais popular. Em uma palavra, não modificará o quadro de casuísmo judicial, ameaças autoritárias de setores militares, nem convencerá a grande mídia de seu óbvio viés.

Flávio Gaitán é professor na UNILA e Fabio Santos, do IESP e UERJ.

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Segundo IBOPE, Fátima teria maior vitória já registrada em primeiro turno no RN se a eleição fosse hoje

Fátima venceria no primeiro turno se a eleição fosse hoje

Exclua nulos, brancos e abstenções e leve em consideração apenas os votos válidos conforme estabelece as regras da Justiça Eleitoral que leva em consideração apenas os votos válidos.

Neste cenário, a senadora Fátima lideraria com 57% das intenções de votos para o Governo. Quando ela foi eleita para o Senado recebeu 54% dos votos válidos. O cenário indica uma “gordura” de 7% para vencer no primeiro turno.

Seria a maior vitória de um candidato ao Governo do RN no primeiro turno. Desde 1990, a eleição para o comando do “Sofrido Elefante” foi definida sem necessidade de segundo turno em três oportunidades.

Em 1994 e 1998, Garibaldi Alves Filho (MDB) foi eleito e reeleito no primeiro turno com respectivamente 52,67% e 50,17%. Em 2010, a hoje prefeita de Mossoró Rosalba Ciarlini (PP) foi eleita com 52,46% dos votos válidos.

Cenário do IBOPE apenas com votos válidos

Fátima Bezerra: 57%

Carlos Eduardo: 25%

Robinson: 13%

Carlos Alberto: 3%

Breno Queiroga: 2%

Nota do Blog: é preciso lembrar que pesquisa é o retrato do momento e muitos indecisos devem definir os votos até 7 de outubro alterando esses percentuais de votos válidos.

Outros: 0%

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